Habituámo-nos a estar sozinhos. A ideia de uma relação para a vida toda entre um homem e uma mulher que víamos nos filme e livros já não nos parece atraente e a facilidade de uma relação à medida que podemos pesquisar facilmente nos telemóveis de acordo com parâmetros pré-estabelecidos, é muitas vezes apenas aparente. As vontades muitas vezes não coincidem, a individualidade impera, surgem novas complicações que vão desde o simples iniciar da conversa, passando pela consideração que agora temos de ter com os pronomes, o género, a sexualidade, o tipo de alimentação, a filiação política entre milhares de outras coisas para as quais estamos mal preparados e que causam mais ansiedade do que interesse. É por isso que muitas vezes perdemos mais tempo na escolha do que na conversa e no desenvolvimento das ligações em si e apostamos mais em procurar pessoas para momentos, seja para viajar, para sexo casual, orgias, swinging, para jogar Quiz Planet ou apenas para conversar do que para relações a longo prazo. E mesmo quem acha que procura relações 'tradicionais' muitas vezes pondera se não estará melhor sozinho, porque dormir acompanhado parece uma boa ideia até que nos lembramos que tínhamos uma cama só para nós e porque a ideia de ter roupa ou pêlos espalhados por todo o lado assusta qualquer um, mas também porque, com tanta escolha à nossa disposição, é mais difícil aceitarmos qualquer comportamento por mais pequeno que seja que não compreendemos ou do qual não gostamos. E é por tudo isto que, apesar de contraditória, neste mundo tão ligado, parece haver uma tendência para a solidão. A solidão é cómoda. Não temos de nos preocupar com ninguém, partilhar nada, ajudar ninguém, fazer compromissos, nem sequer arriscar conhecer os familiares e se é verdade que não temos as regalias desse tipo de relações, também é verdade que não temos as complicações e arranjamos alternativas, chamemos-lhes sucedâneos da felicidade, seja a família, amigos, animais de estimação, o trabalho, as idas ao ginásio, as partilhas que fazemos nas redes e aplicações sociais ou o onanismo, claro, e que nos permitem as doses diárias daqueles químicos que nos fazem sentir bem.
Costumamos dizer que as mulheres são malucas dos cornos quando elas exageram nas suas reações ou pelo menos quando não se comportam da maneira que os outros - normalmente os homens - esperam delas. Mas nunca se diz que os homens sao malucos dos cornos quando fazem algo inesperado. E nós tendemos a justificar esse preconceito com as diferenças biológicas e sobretudo com a visão da mulher como um poço de hormonas que determina todos os seus comportamentos sem qualquer tipo de espírito crítico que possa sobrepor-se. Haverá bases cientificas para se dizer que as mulheres são mais emotivas, sensíveis e irritadiças quando, por exemplo, estão com o período, claro, até pelo simples facto de que tal condição provoca dor, mas também há estudos que dizem que em casais de lésbicas o síndrome da tensão pré-menstrual é menos evidente, nalguns casos até inexistente, o que poderá indicar alguma culpa do que normalmente rodeia uma mulher nesse, perdoe-se a redundância, período. Julgadas pela aparência, consideradas obsoletas a partir dos 40 no cinema, na televisão, na moda e em todos os trabalhos que vendem a juventude, nascem numa sociedade que ainda educa com preconceito, impede o acesso ao trabalho, remunera de maneira diferente, decreta o seu papel na família, no local de trabalho e na sociedade em geral com a pressão acrescida de ter de corresponder a expectativas irrealistas de beleza, até pode parecer fácil de compreender o porquê de se indignaram tanto, mas tal não significa que lhes possamos dizer que compreendemos porque é que são malucas dos cornos. Não funciona. E eu, por uma ou outra razão, meio a brincar ou a sério, sempre fui alinhando neste estereótipo, muito por causa de não perceber alguns comportamentos que me eram dirigidos. Sempre... até começar a notar, nesta minha busca incessante e chata de tentar (ter/compreender/arranjar) mulheres - e apesar de ter aprendido pouco -, que para além das desigualdades inerentes à condição feminina, há comportamentos que, aos olhos dos homens, parecem não fazer qualquer sentido mas com os quais qualquer mulher se identifica. O que nós achamos que é paranóia, obsessão, controlo ou irracionalidade por vezes é uma reacção perfeitamente justificável em determinadas situações que dizem respeito à sua própria segurança, algo que não passa pela cabeça de nenhum ou quase nenhum homem, mas que todas as mulheres já experienciaram no seu dia a dia desde desconhecidos que as seguem, a conhecidos que se acham no direito de lhes tocar sem respeito pelo seu espaço pessoal, passando por mensagens impróprias em que se insinuam e exigem reciprocidade, para não falar de casos mais exagerados de carros a meio da noite a circular devagar, de chips localizadores, agressões, violações e mortes. E nenhum homem sente isto. Nenhum homem pensa que talvez seja melhor cobrir alguma parte do corpo porque alguém pode pensar que o está a provocar. E sentir que pode ser qualquer um, desde o colega de trabalho de quem todos gostam, ao amigo virtual que é muito engraçado nos comentários do Facebook, por muito seguro que possa parecer, pobre ou rico, analfabeto ou ou instruído, gera desconfianças e receios que trespassam todos os relacionamentos. Há coisas concretas que diferenciam os sexos e que parecem estranhas a quem é diferente. Há estudos que comprovam este facto. E eu sei que dizer "há estudos que comprovam" não quer dizer nada, até porque os há para tudo e o seu contrário mas admitamos isso, que somos diferentes não por causa dessa dicotomia limitativa dos dois sexos, mas nas diferenças ilimitadas que nos tornam únicos, tentando compreender o outro sem condescendência e paternalismo - mais difícil para alguns, depois de escreverem textos como estes, do que para outros - mas com empatia (que é o que eu retiro do olhar do Jake Gyllenhaal para a Rihanna) não porque é homem ou mulher, mas, precisamente, porque é o outro. Feliz dia das mulheres e, como eu digo todos os anos na esperança de que se torne o lema oficial do dia das mulheres, que se fodam as mulheres! Mas bem, porque mal já estão elas fartas de o ser há muitos milénios.
É difícil ser sincero. Penso até que será impossível. Mesmo a pessoa com as melhores intenções não negará a utilidade de uma mentira inocente, de uma verdade que se esconde para não magoar, de um segredo que se mantém apesar da pertinente pergunta o querer revelar.
Quantas vezes te escondi o que queria dizer com medo que não respondesses da mesma forma? Quantas vezes não te falei à espera que dissesses tu a primeira palavra?
Queria saber o que nunca soube, chegar a uma conclusão sobre ti e o que sentias. E elaborei jogos na minha cabeça para descobrir tudo. Menti, escondi, fugi, fiz tudo aquilo que não devia em busca daquilo que achava ser certo. Tentei descobrir-me e descobrir o mundo, mas nada vi para além da desconfiança.
O que alcancei? Claro que ainda não sei nada ou sei pouco. Sei que é difícil mostrar o que vai dentro de nós. Não queremos parecer frágeis, não queremos magoar os outros. E aquilo que vai cá dentro muda tanto. Como é que podemos ser sinceros com os outros se às vezes não conseguimos ser sinceros connosco? Aquilo que eu sinto hoje não é o que eu senti ontem e não é certamente o que eu sentirei amanhã. A verdade é que por muito que queiramos ser sinceros nunca o conseguimos ser na totalidade porque nestas coisas não há verdades absolutas. Os sentimentos mudam, a nossa maneira de ver o mundo também muda e temos demasiadas dúvidas sobre tudo. Não sabemos sequer quem somos, apenas o que fomos. Mas claro que também há um lado útil nisto tudo. A incapacidade de sermos sinceros mantém tudo em aberto. As portas nunca estão verdadeiramente fechadas se não temos chaves para as encerrar (mesmo que às vezes seja o melhor a fazer). Talvez um dia consiga ser sincero, sentir por dentro o que passo para fora. Talvez seja essa a finalidade do Homem, aquilo que dizem de se encontrar, sem jogos, sem máscaras, sem mentiras. Por agora, só sei que é complicado. Não sei porque é assim e nem gosto que seja assim, mas é e, por isso, quem sabe?
"A tua está muito boa, mas a da minha mãe é melhor?"
"Não gosto muito desse corte de cabelo, gostava mais quando o tinhas comprido."
"Cabiam lá dois!"
"Por acaso, não concordo contigo, acho que ela (outra) até tinha razão."
"Como se chama aquela tua amiga... aquela muito gira?"
"Eu consigo. Queres que eu faça?"
"Como hoje estás num "daqueles dias", eu não te chateio mais."
"Estou a chegar."
"Neste Natal, engordaste alguns quilitos."
"Como é que não consegues? Isso é tão fácil!"
"Não, não noto nada de diferente."
"Podiam ser um bocado maiores."
"Vá lá! Não precisas de te mexer. Eu faço tudo."
E às vezes nem é o que se diz, mas como se diz... basta um tom.
E às vezes nem é o que se diz, basta existirmos.
E às vezes... poucas vezes, somos mesmo umas bestas!
Em 2000, após ter participado num programa de rádio para a BBC em Cuba, Kirsty MacColl tirou uns dias de férias em Cozumel, no México, com os seus filhos e o seu companheiro, o músico James Knight. No dia 18 de dezembro ela e seus filhos, juntamente com um veterano de mergulho de seu nome Ivan Diaz, foram fazer mergulho numa área reservada na qual todas as embarcações estavam impedidas de entrar. Num desses mergulhos, quando o grupo regressava à superfície, um barco a motor entrou na área restrita a grande velocidade. MacColl viu o barco antes dos seus filhos e nadou na direcção de um deles, Jamie, que estava no caminho do barco, empurrando-o a tempo de o salvar, sofrendo ferimentos menores na cabeça e lesões das costelas. Kirsty, no entanto, foi atingida pelo barco e morreu instantaneamente.
O barco envolvido no acidente era propriedade do milionário mexicano Guillermo González Nova, dono de uma companhia de hipermercados, que estava a bordo com vários membros de sua família. Um empregado de González Nova, José Cen Yam, alegou ter sido ele o condutor do barco no momento em que ocorreu o acidente, mas vários relatórios publicados incluíram relatos de testemunhas que afirmaram que Cen Yam não estava nos comandos do barco, indicando também que o barco seguia a uma velocidade mais rápida que a velocidade de um nó que Guillermo González Nova havia afirmado. Cen Yam foi considerado culpado de homicídio e foi condenado a 2 anos e 10 meses de prisão. No entanto, ele foi autorizado pela lei mexicana a pagar uma multa de 1.034 pesos (cerca de 63€) em vez de cumprir a pena de prisão. Ele também foi condenado a pagar cerca de 2150 dólares em indemnização à família MacColl, uma quantia baseada em seu salário. Os relatórios publicados incluíram depoimentos de pessoas que falaram com Cen Yam após o acidente e que alegam que Cen Yam terá recebido dinheiro para assumir a culpa pelo incidente.
Ninguém conhecerá kirsty MacCol para além da sua participação naquela que é considerada por muita gente (eu, por exemplo) a melhor música de Natal (e de bebedeiras) de sempre. Também pode ser simplesmente uma das melhores músicas de sempre.
Kirsty MacCol era uma pessoa normal que se viu perante uma situação extraordinária. Correspondeu da melhor forma, foi uma heroína, poucos fariam o que ela fez, mesmo pelos filhos e numa altura em que passam dez anos sobre os acontecimentos trágicos da sua morte não é demais recordar que ainda não foi feita justiça, assim como será importante recordá-la pelo que fez e pelo que perdemos. Boas Festas!
The Pogues and kirsty MacColl - Fairytale of New York
Não gosto de jogos. Não quero dizer que não os faça – às vezes é impossível – mas não gosto da forma como me sinto quando entro neles. Talvez por isso, por efectivar esse meu desdém em relação às matérias de jogo onde ele não deva existir, deixei de correr atrás de algumas coisas. O amor não é um jogo, a amizade não é um jogo, a confiança nunca pode ser um jogo. Numa corrida há sempre alguém que não quer ser alcançado e só aí é legítimo tentarmos contrariar essa vontade de fuga perseguindo esse alguém até à exaustão*. Todas as outras corridas são insensatas, todos os outros jogos são desnecessários. Para quê jogar quando algo vale a pena. Às vezes um não é apenas um não e ninguém deve desprezar a bondade por trás de uma palavra que aparenta tanto negativismo. A sinceridade, por vezes também sobrevalorizada, magoa, mas é bem melhor do que o engano. Não há nada de positivo no engano. O engano retarda o sofrimento, abrindo lugar a expectativas e ilusões que mais tarde ou mais cedo se desvanecem, deixando um vazio denso que nos corrói de dentro para fora. A bola não anda de um lado para o outro quando um lado permanece quieto. E apesar de todo o sofrimento, a verdade é que mesmo quem desdenha o jogo sente falta do arremesso, seja porque o espera ou porque está habituado a ele, mas todos os jogos têm um fim e, apesar das atribulações e peripécias que lhe são características, há sempre um alívio regenerador no fim.
Aproveitando para responder a algumas comentadoras deste post, assim como a todas as outras (centenas, milhares, quem sabe) que possam ter dúvidas sobre a minha intenção, passo a esclarecer.
Sempre conheci mulheres de alta-manutenção. A verdade é essa. Não vejo que isso possa ser interpretado negativamente, pois não era esse - de todo - o objectivo. A única coisa que tal nomenclatura quererá significar será que as mulheres actuais não se conformam com a sorte que lhes calha, seja no que diz respeito a elas próprias ou com aquilo que as rodeia e isso é tão verdade para as coisas superficiais, como para as coisas mais profundas da existência humana… mas será sem dúvida verdade para os homens que essas mulheres escolhem para ter à sua volta. A assumpção de uma mulher de alta-manutenção pretende ser uma manifestação de liberdade da mulher e não - como entenderam quase todas as comentadoras do tal texto - da sua opressão.
Mulheres de alta-manutenção deveriam ser todas as mulheres, não porque precisassem de ser apaparicadas superficialmente (ou não apenas, porque não me parece que haja mal nenhum nisso), mas porque exigem mais a todos os níveis e porque não aceitam nada que as diminua enquanto seres humanos e enquanto mulheres. Quero, por exemplo, que a minha sobrinha, que é o ser feminino mais próximo de mim enquanto criatura em desenvolvimento, seja uma mulher de alta-manutenção. Quero que ela não aceite que os homens a conquistem com duas palavras, que não seja fácil perante o charme superficial dos homens que a quererão levar – infelizmente – para a cama e, quando aceitar alguém, quero que aceite alguém que faça tudo para ver um sorriso na cara dela, alguém que esteja disposto a anular-se para que ela seja feliz, alguém de quem ela possa gostar e não alguém que lhe bata ou que a trate como algo menos do que aquilo que ela é: uma mulher. No fundo, quero para ela alguém que tenha de lhe dar - e esteja disposto a dar-lhe - muita manutenção.
Quando eu disse que todas as mulheres que conheci são mulheres de alta manutenção, quis apenas dizer que todas elas exigiram sempre muito de mim - o que ajudou a tornar-me num homem melhor -, não porque fossem superficiais ou ocas, mas porque queriam o melhor para elas e eu sempre as admirei por isso, ainda que em alguns casos isso me tenha feito sofrer.
Admito que nestas coisas da blogosfera não dê para entender muito bem algumas coisas que se dizem (escrevem), muitas vezes porque faltam sons e imagens para ilustrar essas palavras e neste caso terá sido minha a culpa, porque parti do pressuposto que o que disse seria facilmente entendível, mas acredito também que às vezes deixamos que as nossas experiências pessoais influenciem a forma como vemos e lemos estas coisas e aí a culpa já não é minha. Irrita-me, ainda que não muito, porque não sou muito dessas coisas e tento perceber de onde vem essa energia que me irrita, que pensem erradamente sobre mim e sobre o que digo e irrita-me porque tenho a perfeita consciência de que sou melhor do que a maior parte das pessoas. Sim, sou arrogante. Eu tenho defeitos. Sou melhor do que a maior parte das pessoas mas não sou perfeito.
Sempre conheci mulheres de alta manutenção. Pensava eu que era sorte minha... ou azar. A verdade é que todas as mulheres se aborrecem facilmente, como este anúncio do desodorizante Axe (em inglês Linx) Twist tão bem ilustra, e se é difícil mantê-las interessadas, a verdade é só uma: só nos interessa manter interessadas aquelas de que gostamos e se gostamos delas é porque merecem todo o nosso esforço.
Pensar demasiado impele as pessoas sensíveis à rejeição, a sabotarem-se a si próprias.
As tempestades emocionais tendem a afastar as pessoas que queremos conquistar. Um colega de trabalho pode responder exageradamente a um deslize mínimo. Essa resposta exagerada, (rudeza, silêncio, sarcasmo) leva depois os colegas de escritório a evitá-lo, o que provoca uma reacção ainda mais defensiva.
O género influencia. Os homens são mais ciumentos, as mulheres tornam-se mais hostis e menos solidárias.
A herança familiar influencia. Rejeição parental. Com uma ansiedade latente e uma raiva adquirida à flor da pele, esperam ser rejeitados por aqueles que aprenderam a valorizar. Interpretam acções neutrais e negligentes (um atraso num telefonema, por exemplo) como desprezo intencional. São especialistas em encontrar firmes provas de quaisquer sentimentos ameaçadores para eles. Cognitivamente predispostos a interpretar as situações negativamente, estes homens e mulheres temporariamente sós ficam enleados numa teia de respostas e comportamentos esperados que não surgem e que os próprios tecem, acabando por os devorar psicologicamente, uma vez que não dão a ninguém o benefício da dúvida. O resultado é o mesmo: resposta exagerada, reacção de fuga, incapacidade comunicativa, silêncio destruidor, comportamento defensivo, isolamento, num ciclo sem fim de escalamento exponencial.
O silêncio gera silêncio.
Tinha isto no telemóvel o que quer dizer que foi retirado, ou melhor, adaptado livremente por mim, de uma daquelas revistas de Sábado ou Domingo que vêm com os jornais diários.
(João Freire)
GNR - Homens temporariamente sós The Cure - Lullaby (acoustic) versão original, aqui.
O seu cabelo vermelho destoava no meio da cinzenta rotina citadina, tornando-a visível aos sorrisos de alguns e aos olhares abertos de suspeição de outros. Ela seguia em frente, sorrindo sem o mostrar, reparando nos outros, nos que olhavam para si e nos que olhavam o chão, notando que poucos levantavam a cabeça, procurando algo... sempre à procura.
(Que procuras?).
Não sabia o que procurava. Tinha um sonho que a envergonhava.
- Desiste.
E dúvidas
- Desiste!
Muitas dúvidas, que, por sua vez, a enraiveciam.
Decidiu tirar uns dias. Pediu ao marido que a ajudasse. Ao menos ele nunca lhe tinha dito...
- Desiste.
Ainda que não dissesse nada de todo.
Ele ficaria com as crianças, sem perguntar nada - até porque era só um fim de semana - e ela voltaria Domingo à noite.
Pegou nos sacos, despediu-se dele enquanto as crianças dormiam e saiu.
Não passou da porta. Não havia nada para decidir. Tudo estava decidido há muito tempo.
- Está decidido.
Há dias em que nada acontece e nada do que possamos fazer consegue contrariar essa vontade superior. Dias que se transformam em semanas, meses e anos… uma vida de possibilidades, uma vida com mais perguntas do que respostas, mas uma vida apesar de tudo, uma vida com tudo lá dentro, de bom e mau, na esquizofrenia tão característica da natureza humana. Só o que falta conta. O fim é a marca do que fomos e pouco há para além do que é esperado de nós pela nossa condição. Ficam as certezas.
- Se não for uma escritora viajante, serei uma viajante que escreve, se não for uma apaixonada em viagem, serei uma viajante apaixonada, mas sempre a escrita, sempre a paixão e sempre a viagem.
E havia nela uma tristeza terna e outonal. Sorria como se lutasse para não chorar, chorava sempre que ninguém a via. Não tinha uma razão. Se pensasse muito nisso, talvez encontrasse uma, mas todo o raciocínio se perdia no primeiro sal de uma lágrima. Quando estava só, quando se deitava, quando acordava e ouvia a chuva a escorrer, quando tinha frio, quando visitava a sua aldeia de infância, quando ouvia um velho falar… sempre os olhos vermelhos, cavados fundo na cara e pesados. Lera nalgum lado que “o problema da felicidade é que toda a gente a merece” e guardava essa frase na sua cabeça como uma máxima que fazia todo o sentido em si. Todos merecemos, mas nem todos a conseguimos, pensava, o sofrimento advém da dúvida de não sabermos se vamos ser uns ou outros. Somos tristes, pobres… falta-nos sempre algo, nem que tenhamos de procurar à força esse algo para nos sentirmos infelizes, pois também não há bem que sempre dure e sorrir sempre deve ser difícil, imaginava ainda no preâmbulo de uma nova lágrima.
E toda ela era olhos vermelhos, olhos vermelhos que se aproximavam das pessoas como se procurassem algo e tivessem em si a tristeza da perda. E procurava: procurava nas outras pessoas a compreensão… enfim, que chorassem como ela. Procurava então os olhos vermelhos, pois para ela só quem chora poderá sentir.
Não morreu. Diria ela que não teve essa sorte. Salva pelo rapaz que a amava, pagou-lhe com o seu corpo, entregando-se a ele sem esperança nenhuma de felicidade. Culpá-lo-ia por isso mais tarde, ainda que soubesse que só o culpava porque ele a amava incondicionalmente e que nunca a iria deixar só. Na realidade só podia culpar-se a ela própria. Ninguém pode fingir uma sede que não sente, dizem os poetas, ninguém pode fingir o amor. E quanto mais ela tentava apaixonar-se por ele, afirmando a si mesma que a beleza se esvaía, que ele era bom moço, honesto, trabalhador e inteligente, que até tinha algumas posses e uma família de bem… racionalizando até que ele a amava pelos dois e que mais à frente “quem sabe?”, mais sentia que nunca iria ser feliz, que nunca iria ter a vida que a pequena aldeia imaginava – com muita inveja – para si, a vida que também ela queria e achava que merecia, uma vida feliz (o que quer que isso seja), a vida que não tinha. Passava então os dias enlameada na culpa, na sua própria e na dos outros, na do seu marido e na da “outra”, a “outra” que passava sempre à sua frente tão bela e, sobretudo, tão jovem, quando ia à mercearia, à missa... por toda a aldeia, a rapariga que regressara à aldeia para tratar do pai moribundo, a rapariga de quem todos falavam bem, principalmente dos seus dotes físicos, que utilizaria sem dúvida – assim diziam as velhas – para retirar benefícios próprios. E depois riam-se. Foi quando deu por si a rir-se no meio de duas outras senhoras que decidiu. Não podia ser uma das velhas. Como é que chegou a isto, pensou. Ela tinha de ser a rapariga de quem todos falavam. - Como é que cheguei a isto? Foi por isso que num dia de Novembro, quando os primeiros nevões começaram a chegar à aldeia, que ela decidiu visitar a rapariga. No caminho, devido aos efeitos que o gás provocara naquele dia que toda a gente ainda recordava como o dia da sua morte, parou para vomitar junto ao muro que ladeava o caminho desde o centro da aldeia até ao conjunto de casas que se distanciava da aldeia uns quinhentos passos e onde se encontrava a casa do pai da rapariga, depois abriu o pequeno portão da pequena propriedade e bateu à porta. Respondeu-lhe a rapariga com um sorriso encantador e resplandecente que a deixou cheia de raiva, provocando-lhe alguma atrapalhação. Que bonita é, pensou de imediato, estranhando também a sua altura. Parecia-lhe mais alta do que se lembrava. - Podemos conversar – perguntou – queria pedir-lhe um favor. - Claro – respondeu simpaticamente a rapariga. - Mas aqui não. A rapariga vestiu um xaile que tinha sobre uma cadeira que se encontrava perto da porta, fechou a mesma e encaminhou a senhora – que achava belíssima – para uma pequena casa ao lado do pequeno portão de entrada onde servia o forno e a arrecadação das mais variadas alfaias. O segredo residiria numa conversa de mulheres sobre homens e suas crónicas insuficiências. Entre sorrisos conspirativos nada mais foi preciso dizer. A rapariga assentiu e lá foram entrando, a rapariga à frente. - Esteja à vontade – disse a rapariga, ao virar-se, quando viu a faca encaminhar-se na sua direcção. Uma vez na barriga, outra nas costas quando o seu corpo tombou no chão e vários cortes na cara que deixaram a rapariga desfigurada para além do reconhecimento. Tudo o resto foi silêncio. A mulher saiu pelo pequeno portão, voltou-se para o fechar, olhou a casa e partiu, tentando pisar – sem nenhuma razão – os mesmos passos na neve que desenhara ao chegar até ali. Continuou junto ao muro e parou no mesmo sítio onde vomitara antes. Desta vez, para além de um esgar de dor e má disposição, conseguiu evitar o vómito. Continuou para casa. Já em casa, onde entrara a correr em direcção ao quarto, pegou numa pequena mala de viagem e numa outra de ombro e desceu. O seu marido esperava-a no fundo das escadas. Despediu-se dele rapidamente com um beijo, um pedido de desculpas e uma lágrima. Rafael ainda tentou agarrá-la, perguntando-lhe o que se passava, dizendo-lhe que a amava, mas todas aquelas palavras foram proferidas em vão. Tudo já estava decidido há muito tempo na mente daquela mulher. Já na rua, olhando para trás enquanto caminhava pesadamente pela neve, respondeu apenas ao seu marido que ia viajar, que já tinha comprado os bilhetes e que não adiantava segui-la. - Desculpa Rafael – repetiu ela docemente. Nessa tarde, perto da paragem dos autocarros, observando-a a entrar com duas malas no autocarro com destino à cidade, várias pessoas juravam que aquela mulher parecia mais nova… e mais bonita.
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