10/11/2009

A teoria dos dois atiradores (parte 2)

Continuação do texto A teoria dos dois atiradores (parte 1)

Não morreu. Diria ela que não teve essa sorte. Salva pelo rapaz que a amava, pagou-lhe com o seu corpo, entregando-se a ele sem esperança nenhuma de felicidade. Culpá-lo-ia por isso mais tarde, ainda que soubesse que só o culpava porque ele a amava incondicionalmente e que nunca a iria deixar só. Na realidade só podia culpar-se a ela própria. Ninguém pode fingir uma sede que não sente, dizem os poetas, ninguém pode fingir o amor.
E quanto mais ela tentava apaixonar-se por ele, afirmando a si mesma que a beleza se esvaía, que ele era bom moço, honesto, trabalhador e inteligente, que até tinha algumas posses e uma família de bem… racionalizando até que ele a amava pelos dois e que mais à frente “quem sabe?”, mais sentia que nunca iria ser feliz, que nunca iria ter a vida que a pequena aldeia imaginava – com muita inveja – para si, a vida que também ela queria e achava que merecia, uma vida feliz (o que quer que isso seja), a vida que não tinha.
Passava então os dias enlameada na culpa, na sua própria e na dos outros, na do seu marido e na da “outra”, a “outra” que passava sempre à sua frente tão bela e, sobretudo, tão jovem, quando ia à mercearia, à missa... por toda a aldeia, a rapariga que regressara à aldeia para tratar do pai moribundo, a rapariga de quem todos falavam bem, principalmente dos seus dotes físicos, que utilizaria sem dúvida – assim diziam as velhas – para retirar benefícios próprios. E depois riam-se.
Foi quando deu por si a rir-se no meio de duas outras senhoras que decidiu.
Não podia ser uma das velhas. Como é que chegou a isto, pensou. Ela tinha de ser a rapariga de quem todos falavam.
- Como é que cheguei a isto?
Foi por isso que num dia de Novembro, quando os primeiros nevões começaram a chegar à aldeia, que ela decidiu visitar a rapariga. No caminho, devido aos efeitos que o gás provocara naquele dia que toda a gente ainda recordava como o dia da sua morte, parou para vomitar junto ao muro que ladeava o caminho desde o centro da aldeia até ao conjunto de casas que se distanciava da aldeia uns quinhentos passos e onde se encontrava a casa do pai da rapariga, depois abriu o pequeno portão da pequena propriedade e bateu à porta. Respondeu-lhe a rapariga com um sorriso encantador e resplandecente que a deixou cheia de raiva, provocando-lhe alguma atrapalhação. Que bonita é, pensou de imediato, estranhando também a sua altura. Parecia-lhe mais alta do que se lembrava.
- Podemos conversar – perguntou – queria pedir-lhe um favor.
- Claro – respondeu simpaticamente a rapariga.
- Mas aqui não.
A rapariga vestiu um xaile que tinha sobre uma cadeira que se encontrava perto da porta, fechou a mesma e encaminhou a senhora – que achava belíssima – para uma pequena casa ao lado do pequeno portão de entrada onde servia o forno e a arrecadação das mais variadas alfaias.
O segredo residiria numa conversa de mulheres sobre homens e suas crónicas insuficiências. Entre sorrisos conspirativos nada mais foi preciso dizer. A rapariga assentiu e lá foram entrando, a rapariga à frente.
- Esteja à vontade – disse a rapariga, ao virar-se, quando viu a faca encaminhar-se na sua direcção.
Uma vez na barriga, outra nas costas quando o seu corpo tombou no chão e vários cortes na cara que deixaram a rapariga desfigurada para além do reconhecimento.
Tudo o resto foi silêncio.
A mulher saiu pelo pequeno portão, voltou-se para o fechar, olhou a casa e partiu, tentando pisar – sem nenhuma razão – os mesmos passos na neve que desenhara ao chegar até ali. Continuou junto ao muro e parou no mesmo sítio onde vomitara antes. Desta vez, para além de um esgar de dor e má disposição, conseguiu evitar o vómito. Continuou para casa.
Já em casa, onde entrara a correr em direcção ao quarto, pegou numa pequena mala de viagem e numa outra de ombro e desceu.
O seu marido esperava-a no fundo das escadas.
Despediu-se dele rapidamente com um beijo, um pedido de desculpas e uma lágrima. Rafael ainda tentou agarrá-la, perguntando-lhe o que se passava, dizendo-lhe que a amava, mas todas aquelas palavras foram proferidas em vão. Tudo já estava decidido há muito tempo na mente daquela mulher. Já na rua, olhando para trás enquanto caminhava pesadamente pela neve, respondeu apenas ao seu marido que ia viajar, que já tinha comprado os bilhetes e que não adiantava segui-la.
- Desculpa Rafael – repetiu ela docemente.
Nessa tarde, perto da paragem dos autocarros, observando-a a entrar com duas malas no autocarro com destino à cidade, várias pessoas juravam que aquela mulher parecia mais nova… e mais bonita.


Para ouvir em Fundo: Beth Orton - I Wish i never saw the sunshine



(João freire)

19 comentários:

Moyle disse...

a sombra só odeia uma coisa, que lhe façam sombra.

meldevespas disse...

Mais uma vez muito pouco a dizer Joni! Tá um mimo ropaz, um mimo! Nós as gajas, somos exactamente assim, mesmo que n cheguemos ao extremo dessa tua musa, muitas vezes não é nada que não nos passe pela cabeça....ahhh poizé
Beijinho

johnny disse...

É bem verdade Moyle até porque a sombra da sombra é capaz de ser colorida e, logo, melhor... diferente, vá.

É verdade Meldevespas.

Por isso é que normalmente as raparigas andam em binómios bonita/feia?

Gingerbread Girl disse...

Lindo johnny, mesmo lindo.

Ao ponto é que a inveja pode desfigurar assim a alma de uma pessoa?... Esperemos nunca saber.


kiss*

johnny disse...

Obrigado, Ginger, por achares que sou lindo (ainda que não me conheças).

E o texto?

Brown Eyes disse...

johnny esta é a realidade, há quem pense que outro ser lhe faz frente, há quem pense que a vingança deixa alguém ser feliz, há quem seja tão invejoso ao ponto de matar. Mal de quem passa na frente deste tipo de gente. Eu tenho TERROR de pessoas invejosas e de BRUXAS MALDOSAS. Gosto tanto de as ver LONGE. MALDITAS

Gingerbread Girl disse...

-.-'

Brown Eyes disse...

Ah e que está lindo está, apesar de ter bem retratados os defeitos mais feios.

johnny disse...

Experimenta fazer figas. Já ouvi dizer que funciona contra as bruxas.

Por entre o luar disse...

"É tão natural destruir o que não se pode possuir,negar o que não se compreender,insultar o que se inveja"
Honoré de Balzac

Ser-se invejoso é destruir-se a si e em muitos casos e como neste caso aos outros*

BeijOoo

johnny disse...

É um tema recorrente nas minhas conversas com o HO-HO (é assim que eu trato o Honoré), daí escrevermos os dois sobre o assunto.

É difícil ir contra a natureza que há em nós e a natureza que há em nós e mesmo a natureza animal de instinto de sobrevivência e consequente aniquilação da concorrência.

Por entre o luar disse...

Pois infelizmente!*

BEIJOo

Ciba disse...

Cada texto teu desperta uma emoção nova... um dia ainda me apaixono por ti. Porque é que nunca nos conhecemos?

ipsis verbis disse...

E aquela música linda a fazer de companhia à assassina. O texto está muito bom.

johnny disse...

Ciba, obrigado pelo comentário. Respondendo à pergunta que fazes, não sei. Mas nunca se sabe...

Ipsis, a música está muito boa, está... estava a ver que ninguém falava nela. P.S. - Ouvi esta música pela primeira vez no documentário Crazy Love, do qual falei (escrevi) aqui: Uma história de amor incrível

Ciba disse...

Quem sabe, um dia encontro-te na rua e digo-te "Olá!"

johnny disse...

Em princípio não devo fugir nem ser mal-educado e por isso devo responder com um "olá", mas só em princípio!

nightingale disse...

eu diria que a sombra só odeia a luz.

johnny disse...

Qualquer interpretação fará sentido, porque embora ambas fossem duas fontes de luz brilhante, perderam-na. Uma por ter morrido, outra pelos seus actos sombrios.

E esta seria a interpretação do Moyle, mas também é verdade que tudo se desenvolveu porque uma delas se sentiu sombra de uma luz mais brilhante do que ela...

Não há respostas certas, só interpretações que podem ou não ajudar-nos na introspecção sobre a beleza.