02/07/2011

Um segredo

É difícil ser sincero. Penso até que será impossível. Mesmo a pessoa com as melhores intenções não negará a utilidade de uma mentira inocente, de uma verdade que se esconde para não magoar, de um segredo que se mantém apesar da pertinente pergunta o querer revelar. 
Quantas vezes te escondi o que queria dizer com medo que não respondesses da mesma forma? Quantas vezes não te falei à espera que dissesses tu a primeira palavra? 
Queria saber o que nunca soube, chegar a uma conclusão sobre ti e o que sentias. E elaborei jogos na minha cabeça para descobrir tudo. Menti, escondi, fugi, fiz tudo aquilo que não devia em busca daquilo que achava ser certo. Tentei descobrir-me e descobrir o mundo, mas nada vi para além da desconfiança. 
O que alcancei? Claro que ainda não sei nada ou sei pouco. Sei que é difícil mostrar o que vai dentro de nós. Não queremos parecer frágeis, não queremos magoar os outros. E aquilo que vai cá dentro muda tanto. Como é que podemos ser sinceros com os outros se às vezes não conseguimos ser sinceros connosco? Aquilo que eu sinto hoje não é o que eu senti ontem e não é certamente o que eu sentirei amanhã. A verdade é que por muito que queiramos ser sinceros nunca o conseguimos ser na totalidade porque nestas coisas não há verdades absolutas. Os sentimentos mudam, a nossa maneira de ver o mundo também muda e temos demasiadas dúvidas sobre tudo. Não sabemos sequer quem somos, apenas o que fomos. Mas claro que também há um lado útil nisto tudo. A incapacidade de sermos sinceros mantém tudo em aberto. As portas nunca estão verdadeiramente fechadas se não temos chaves para as encerrar (mesmo que às vezes seja o melhor a fazer). Talvez um dia consiga ser sincero, sentir por dentro o que passo para fora. Talvez seja essa a finalidade do Homem, aquilo que dizem de se encontrar, sem jogos, sem máscaras, sem mentiras. Por agora, só sei que é complicado. Não sei porque é assim e nem gosto que seja assim, mas é e, por isso, quem sabe?

(João Freire - 2008)

Reciclado das catacumbas do blogue para o desafio de Julho da Fábrica de Letras, subordinado ao tema "Segredo".

U2 - The sweetest thing

23 comentários:

Anna disse...

Se a sinceridade passa por transpor à letra o que nos vai na alma para o exterior, então de facto não existe. Há sempre qualquer coisa que, por medo, insegurança, bom senso, o que for, fica por dizer ou mostrar. Mesmo assim, poderemos não ser menos sinceros por isso, diria. Perde-se a sinceridade quando se esconde algo 'deliberadamente', quando se mente ou distorce os factos... mas nem tanto quando simplesmente escolhemos não abrir o jogo, guardar coisas só para nós, por uma questão de protecção, cautela ou tantos outros desses motivos que só conseguimos enumerar se/quando o nosso olhar for exterior à situação...

Eva Gonçalves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eva Gonçalves disse...

Eu ia dizer que tinhas sido rápido no gatilho, :) mas afinal reciclaste.. e reciclaste muito bem, porque gostei deste texto e tão verdadeiro(e sincero, rrs) que ele é... pois tens toda a razão. Uma boa reflexão. Beijo

Paula disse...

O texto em si revela um pouco de sinceridade, neste caso de insegurança.
O facto de o que sentimos ontem, não é o mesmo de hoje e não será o mesmo de amanhã, é bom, quer dizer que evoluímos como pessoa e temos consciencia disso, e temos presente o que já fomos/sentimos ontem, o que somos/sentimos hoje, o amanhã logo se vê, logo se sente, não nos preocupemos antecipadamente, viver o presente.
Não mostrar o que somos ou o que sentimos com "medo" da reação dos outros, não é de todo "saudável", somos o que somos, quem quer assim ou gosta assim, tudo bem, quem não quer assim ou não gosta, não "estraga" (como eu costumo dizer). Não temos obrigatóriamente que agradar a toda a gente, temos que principalmente sermos nós, só isso.

Pronúncia disse...

Tu podes não ser sincero, mas o texto pareceu-me de uma sinceridade total... Gostei :)

Briseis disse...

Porra.. parece que andaste a ler uma pagina do diario que escrevi aqui ha meia duzia de anos atras e resumiste aqui o conteudo por palavras tuas...lol
É fantastico como consegues confessar que es pouco sincero e, mesmo assim, pareceres transparente...

Lou Albergaria disse...

os maiores segredos gritam por nós...

Adorei seu texto-confissão! Confessar que somos humanos é às vezes a mais difícil de todas.

Beijos!!!

soninha. disse...

Profundamente filosófico e...belo!abçs e paz.

Sandra disse...

Nossos segredos são muitos. Tem várias formas.
http://sandrarandrade7.blogspot.com/2011/07/coletiva-segredo.html
Interaçãoa de amigos tbém tem os seus.
Um grande abraço
Sandra

Johnny disse...

Anna, concordo em absoluto com essa diferenciação de sinceridades. Acho que temos de ser sinceros nas coisas grandes, que nos ligam, que nos definem... e deixar algumas coisas pequenas (ou grandes, mas que só nos interessem e envolvam a nós) para lá desse reino do que tem de ser 'negociado'.

Eva, eu também não fui muito sincero neste desafio, porque mudei o nome para se encaixar melhor. Só para que se saiba, isto chamava-se originalmente "Sinceridade", mas também porque escrevi um há pouco tempo com o mesmo título ou a mesma palavra incluída num título, resolvi mudar :)

Insegurança, Paula? Talvez, mas porque e só quando se pensa demasiado começamos a duvidar (os ingleses chamam-lhe second guessing). A questão do não mostrar referia-se a traços de personalidade que às vezes não permitem que sejamos tão expansivos. Não é por medo, é por não conseguirem... e às vezes perde-se muito com isso... tipo os de antigamente que não podiam mostrar sentimentos nem essas coisas...

Pronúncia, cá para mim, estes textos também são um bocado fingidos, que é para dar a entender que sou um gajo fixe e sincero e tal... quando, na realidade, sou uma besta.

Briseis, vou levar essa acusação de arrombamento e assalto como uma ofensa :) Eu nem sai daqui! E sou um bocado transparente, sou...

Lou, obrigado. Beijos de volta.

Soninha, obrigado. Abraços e paz, também.
Sandra...

Moyle disse...

quem afirma só dizer a verdade, acaba por mentir mais do que os outros. quem diz que nunca mente fá-lo sobretudo a si próprio.

Paula disse...

Divergimos sempre numa ou outra forma de ser ou de pensar, mas compreendo quase sempre a tua. Mas agora, peço desculpa, mas não consegui "atingir" o que quizes-te dizer.
Não se consegue mostrar, porquê??? Não entendo!
Ás vezes perde-se muito com isso???
Quem sabe, se não se tentar?!
Pode-se perder sim, ou porque até tentamos e correu mal, ou pior ainda, não tentamos (porque não conseguimos) e depois arrependemo-nos. Esta parte é a pior de todas, mesmo!

Johnny disse...

Moyle, o filósofo!

Paula, este texto refere-se a uma relação (se bem me recordo), em especial ao seu início. Há pessoas que tardam em mostrar-se perante as pessoas que gostam... às vezes tardam tanto que as outras pessoas ficam a pensar que não são grande coisa e partem :) era nesse aspecto. Daí ser a pior parte (como tu também dizes) e daí acabar a dizer que às vezes gostava de ser mais sincero no que sentia... mas isso já foi há dois anos e agora já nem quero saber...

Paula disse...

Entendi-te!
Gostei da parte "...mas isso já foi...já nem quero saber..." É assim mesmo, aprender com o que se fez (nem interessa bem se certo, se errado) mas serve de experiência. Andar prá frente, viver o presente.
Conseguir mostrar o que se é, e se sente (não precisa de ser na totalidade, claro), sem "medo" do que os outros acham ou pensam, é do melhor, pelo menos para mim. Mas cada um é como cada qual, e temos que aceitar as diferentes maneiras de ser.

ipsis verbis disse...

Sinceramente? sinceramente acho que não sou lá muito sincera... tenho dias.

Mz disse...

Concordo. É difícil se sincero.Concordo que a sinceridade por vezes nos prejudica muito, por isso retraímos o que nos vai verdadeiramente na alma.
E os segredos que queremos revelar? Ou guardar?
Nem sempre nos sentimos confiantes em partilhar, porque todos sabemos que é fácil soltar a língua. Ninguém é um túmulo. Por outro lado, um segredo de ontem, pode já não ter aquela importância tão significativa, hoje.

Mas voltando à sinceridade...
A sinceridade é um sentimento nobre que muito apreciamos, mas quando a verdade sobre nós nos magoa, "é o caneco"!

bjinhs

pinguim disse...

A sinceridade tem que ser sempre entendida num sentido lato...
E é bom rebuscar no baú, para dar a conhecer coisas destas.

Johnny disse...

Mz, precisamente.. às vezes é melhor não serem assim tão sinceros... "deixem lá isso!" :)

pinguim, nesse sentido mais alargado, sim, já concordo que devemos todos ser.

Brown Eyes disse...

Adorei, muito bem escrito. Fizeste bem em ir às catacumbas do blog buscar este segredo. Concordo que nós temos senpre algo que é tão nosso que nunca revelamos, não se trata de não ser sincero apenas de não nos revelarmos completamente até porque todos temos a sensação que se o fizermos isso poderá ser aproveitado negativamente contra nós. Aprendemos isso quando somos crianças. Aprendemos que ser muito sincero só acabará por nos trazer problemas. A verdade hoje pode não o ser amanhã porque como somos seres racionais aprendemos a modificar situações para conseguirmos o que todos ansiamos a felicidade. A verdade, a nossa atitude para com a vida e os outros depende das respostas que a sociedade, que quem nos rodeia nos dá.
Beijinhos

Johnny disse...

Adivinhem quem voltou (Hey, hey!)

Mary, bem tornada sejas :)

Obrigado e ebijinhos.

(a ver se passo lá pelo Just a Woman, também)

Catsone disse...

Friend, revi-me no teu texto. Por vezes, por mais sincero que sejamos em tudo, existe sempre um melhor motivo para uma inverdadezinha ;)
Been there, done that...

Utópico disse...

A sinceridade nem sempre é fácil, mas muitas vezes encontrarmos a pessoa certa leva-nos no caminho certo de abrirmos os nossos sentimentos e somos até capazes de descobrir alguns segredos sobre nós, que até aí ainda não nos tínhamos dado conta.

Johnny disse...

Catsone, às vezes, mesmo sem motivos, há apenas a desnecessidade :)

Utópico, e essa pode bem ser a medida do verdadeiro amor.