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27/08/2023

Os químicos da felicidade

Habituámo-nos a estar sozinhos. A ideia de uma relação para a vida toda entre um homem e uma mulher que víamos nos filme e livros já não nos parece atraente e a facilidade de uma relação à medida que podemos pesquisar facilmente nos telemóveis de acordo com parâmetros pré-estabelecidos, é muitas vezes apenas aparente. As vontades muitas vezes não coincidem, a individualidade impera, surgem novas complicações que vão desde o simples iniciar da conversa, passando pela consideração que agora temos de ter com os pronomes, o género, a sexualidade, o tipo de alimentação, a filiação política entre milhares de outras coisas para as quais estamos mal preparados e que causam mais ansiedade do que interesse. É por isso que muitas vezes perdemos mais tempo na escolha do que na conversa e no desenvolvimento das ligações em si e apostamos mais em procurar pessoas para momentos, seja para viajar, para sexo casual, orgias, swinging, para jogar Quiz Planet ou apenas para conversar do que para relações a longo prazo. E mesmo quem acha que procura relações 'tradicionais' muitas vezes pondera se não estará melhor sozinho, porque dormir acompanhado parece uma boa ideia até que nos lembramos que tínhamos uma cama só para nós e porque a ideia de ter roupa ou pêlos espalhados por todo o lado assusta qualquer um, mas também porque, com tanta escolha à nossa disposição, é mais difícil aceitarmos qualquer comportamento por mais pequeno que seja que não compreendemos ou do qual não gostamos. E é por tudo isto que, apesar de contraditória, neste mundo tão ligado, parece haver uma tendência para a solidão. A solidão é cómoda. Não temos de nos preocupar com ninguém, partilhar nada, ajudar ninguém, fazer compromissos, nem sequer arriscar conhecer os familiares e se é verdade que não temos as regalias desse tipo de relações, também é verdade que não temos as complicações e arranjamos alternativas, chamemos-lhes sucedâneos da felicidade, seja a família, amigos, animais de estimação, o trabalho, as idas ao ginásio, as partilhas que fazemos nas redes e aplicações sociais ou o onanismo, claro, e que nos permitem as doses diárias daqueles químicos que nos fazem sentir bem.

(João Freire)

08/03/2022

 As mulheres são malucas dos cornos

Costumamos dizer que as mulheres são malucas dos cornos quando elas exageram nas suas reações ou pelo menos quando não se comportam da maneira que os outros - normalmente os homens - esperam delas. Mas nunca se diz que os homens sao malucos dos cornos quando fazem algo inesperado. E nós tendemos a justificar esse preconceito com as diferenças biológicas e sobretudo com a visão da mulher como um poço de hormonas que determina todos os seus comportamentos sem qualquer tipo de espírito crítico que possa sobrepor-se. Haverá bases cientificas para se dizer que as mulheres são mais emotivas, sensíveis e irritadiças quando, por exemplo, estão com o período, claro, até pelo simples facto de que tal condição provoca dor, mas também há estudos que dizem que em casais de lésbicas o síndrome da tensão pré-menstrual é menos evidente, nalguns casos até inexistente, o que poderá indicar alguma culpa do que normalmente rodeia uma mulher nesse, perdoe-se a redundância, período. Julgadas pela aparência, consideradas obsoletas a partir dos 40 no cinema, na televisão, na moda e em todos os trabalhos que vendem a juventude, nascem numa sociedade que ainda educa com preconceito, impede o acesso ao trabalho, remunera de maneira diferente, decreta o seu papel na família, no local de trabalho e na sociedade em geral com a pressão acrescida de ter de corresponder a expectativas irrealistas de beleza, até pode parecer fácil de compreender o porquê de se indignaram tanto, mas tal não significa que lhes possamos dizer que compreendemos porque é que são malucas dos cornos. Não funciona. E eu, por uma ou outra razão, meio a brincar ou a sério, sempre fui alinhando neste estereótipo, muito por causa de não perceber alguns comportamentos que me eram dirigidos. Sempre... até começar a notar, nesta minha busca incessante e chata de tentar (ter/compreender/arranjar) mulheres - e apesar de ter aprendido pouco -, que para além das desigualdades inerentes à condição feminina, há comportamentos que, aos olhos dos homens, parecem não fazer qualquer sentido mas com os quais qualquer mulher se identifica. O que nós achamos que é paranóia, obsessão, controlo ou irracionalidade por vezes é uma reacção perfeitamente justificável em determinadas situações que dizem respeito à sua própria segurança, algo que não passa pela cabeça de nenhum ou quase nenhum homem, mas que todas as mulheres já experienciaram no seu dia a dia desde desconhecidos que as seguem, a conhecidos que se acham no direito de lhes tocar sem respeito pelo seu espaço pessoal, passando por mensagens impróprias em que se insinuam e exigem reciprocidade, para não falar de casos mais exagerados de carros a meio da noite a circular devagar, de chips localizadores, agressões, violações e mortes. E nenhum homem sente isto. Nenhum homem pensa que talvez seja melhor cobrir alguma parte do corpo porque alguém pode pensar que o está a provocar. E sentir que pode ser qualquer um, desde o colega de trabalho de quem todos gostam, ao amigo virtual que é muito engraçado nos comentários do Facebook, por muito seguro que possa parecer, pobre ou rico, analfabeto ou ou instruído, gera desconfianças e receios que trespassam todos os relacionamentos. Há coisas concretas que diferenciam os sexos e que parecem estranhas a quem é diferente. Há estudos que comprovam este facto. E eu sei que dizer "há estudos que comprovam" não quer dizer nada, até porque os há para tudo e o seu contrário mas admitamos isso, que somos diferentes não por causa dessa dicotomia limitativa dos dois sexos, mas nas diferenças ilimitadas que nos tornam únicos, tentando compreender o outro sem condescendência e paternalismo - mais difícil para alguns, depois de escreverem textos como estes, do que para outros - mas com empatia (que é o que eu retiro do olhar do Jake Gyllenhaal para a Rihanna) não porque é homem ou mulher, mas, precisamente, porque é o outro. Feliz dia das mulheres e, como eu digo todos os anos na esperança de que se torne o lema oficial do dia das mulheres, que se fodam as mulheres! Mas bem, porque mal já estão elas fartas de o ser há muitos milénios.

21/12/2011

Across the Universe



Acordou com um bem estar inexplicável e algumas considerações avulsas sobre o tempo, esse rolo compressor que nos esmaga docemente. Depois sentiu um odor de antigamente, uma mistura de cheiros das brincadeiras, locais e pessoas da sua infância que se enleava com a memória de alguns acontecimentos perfeitamente casuais, como daquela vez em que caíra da bicicleta. Perseguiu essa mistura odorífica até à rua, sorrindo enquanto se preparava, com a imagem da bicicleta vermelha e a cicatriz que ainda o acompanhava, como se algo familiar o esperasse lá fora, mas nada apareceu. Apenas trapaças do seu cérebro. Por fim olhou o céu. Viu nos traços de condensação deixados pelos aviões as possibilidades que sempre o animavam, inspirou profundamente e sorriu. 

(João Freire)

Fiona Apple - Across the Universe

05/10/2010

Nunca se fala do cheiro da terra depois de uma trovoada

Não havia muita gente que conhecesse o mundo antes de ele ser de plástico. As árvores, o chão, os edifícios, como brinquedos, tudo de plástico. Talvez ainda existissem pessoas do tempo anterior à ‘cobertura’, antes da intoxicação total. Sabia-se agora que a contaminação dos solos e das águas, aliada ao degelo dos pólos conduzira àquela situação. Primeiro as inundações, de seguida o fim das correntes marítimas e finalmente uma nova Era Glaciar. Restara a fuga para o interior da terra e os 12 anos de recuperação, com fábricas termonucleares a bombear ar quente para a atmosfera e ar puro (numa mistura de 20% de oxigénio e 80% de nitrogénio) para dentro dos túneis, dando vida àqueles milhões de pessoas que tiveram a sorte de estar ao pé da rede de túneis de isolamento e climatização termonuclear de uma corporação que testava uma nova forma de armazenar energia. Por sorte, o restabelecimento das condições atmosféricas favoráveis à vida humana fora mais rápido do que o previsto, mas a contaminação dos solos inevitável. Os detritos radioactivos eram tantos que nenhum pedaço de terra na nova superfície terrestre era cultivável, sendo até tóxico ao contacto. Convém dizer que a área total terrestre diminuíra para um décimo dos valores dos finais do século XXI e que apenas mil milhões de pessoas haviam sobrevivido, povoando agora uma área da antiga Europa Central junto aos Alpes, estendendo-se a Oeste até ao território de Espanha e a Leste até ao território da Turquia e que se chamava - imagine-se - Nova Europa. Apenas o plástico subsistira, encontrando-se por todo o lado, boiando na água, em formas antigas de produtos variados e desnecessários, aparelhos de outros tempos que agora não serviam para nada mais do que a construção civil. Reconfiguradas as fábricas, que agora, restabelecidas as correntes, os pólos e o sistema climatérico em geral, não serviam nenhum propósito, procedeu-se nelas à reciclagem do plástico.
– Antes este prédio construía-se com ferro e não plástico – diziam os operários, como se contassem uma história inacreditável.
E tudo era plástico. Derretia-se o plástico, convertia-se o plástico nas formas desejadas pelos construtores, transformando-se sobretudo em blocos de construção por encaixe e colagem por calor e construía-se por cima da terra e do mar. A água, essa, era dessalinizada através da osmose reversa e a alimentação baseava-se no aproveitamento da carne humana morta, ultra-congelada, e na pesca, embora apenas algumas espécies fossem permitidas, devido à sua resistência à contaminação. A esperança média de vida baixara drasticamente, dai também a dificuldade de encontrar alguém que vivera no período anterior à cobertura, mas reza a lenda que numa dessas casas de plástico, uma homem muito velho que vivia com o seu filho, a nora e uma neta, lhes contava uma história do tempo anterior à cobertura, enumerando coisas tão fantásticas que faziam os olhos da criança brilhar de admiração e incredulidade. De repente começou a chover, nunca chovia naquele mundo de plástico, ficando toda a gente assustada com o barulho dos trovões. Restou ao velho, que sorria imenso, acalmar a sua família, recordando outros dias de chuva, antes da ‘cobertura’, enumerando coisas que o enchiam de saudades e às quais nunca dera o devido valor, coisas tão banais como a chuva a cair na face ou o cheiro da terra molhada. Sorriu uma última vez, caindo no chão, deixando um sorriso na face, perante a aflição do filho e da nora.
Um homem velho, que apesar de tudo tinha tido muita sorte, que fora casado anos sem conta, que tinha um filho extraordinário, uma nora que o estimava e uma neta tão bela como as estrelas, morria lembrando-se apenas, no meio de um suspiro final, do cheiro que a terra tinha quando chovia. A neta, que durante toda a sua vida ouvira dizer que o seu avô morrera ao contar uma história de um dia de trovoada e do cheiro da chuva, nunca se esqueceu dos poderes fatais desse cheiro. Desde aí que se ouve dizer que nunca se fala do cheiro da terra depois de uma trovoada.

(João Freire)

Para o tema "O cheiro da chuva" num desafio da "Fábrica de Letras".
Respondendo às dúvidas que surgiram ao ler outro texto sobre o Cheiro da chuva.

Radiohead - Fake Plastic Trees

Dave Matthews & Tim Reynolds - Gravedigger

16/09/2010

*

Nada. As paredes preenchidas de memórias do quarto branco não me dizem nada. Olho pela janela, insistindo na procura e sempre o nada. Tinha pensado começar com “um perfume barato”, mas nada o segue. Talvez um “vento fresco de fim de verão a entrar pela janela” mas sempre o doce toque do nada...
A culpa será minha.
Desisto de tentar, imaginando histórias que ninguém vai contar: histórias tristes de pessoas normais com sonhos que nunca perseguiram… heróis banais que seguiram perfumes baratos e acabaram com um vento fresco de fim de verão a entrar pela janela acariciando-lhes a pele num sussurro... trazendo o nada.

(João Freire)

Alice Mudgarden - Right Turn
 
The Cure - Lullabye
 
Mazzy Star - Fade Into you


*

15/06/2010

O moralista

Conheço muita gente com princípios.
Princípios morais, princípios políticos, princípios profissionais, princípios religiosos, princípios sociais, até princípios amorosos! Princípios.
Conheço muita gente com princípios, mas pouca gente com fins.

(João Freire)


Ornatos Violeta - Homens de Princípios

16/04/2010

Breathe in

Maybe if you surrender - you think - maybe if you let youself go in the vastness of all this salty blue...
But no, you would never do such thing.
Breathe in… out. breathe in…hold it… dive!
Down there you know that the average time a human can sustain is breath under water is approximately 3 minutes, you also know that you will need that sort of time if you don´t want to be caught – short for “if you want to survive and not being killed in the most groosom way”.
What you don´t know, and they don´t tell in that stupid little fact book that you used to read so often is how they estimate that average.
And one simple question keeps haunting you: "Do them snorkling guys, guys that hold their breath for 10 minutes and then some, count for the average?"
Racionalization is a bitch.
And you can only hold it in.
Maybe if i let myself go...


(João Freire)

Pearl jam - Oceans

01/10/2009

Cada vez mais novo

Cada vez parece mais novo – dizia, quando o descobria na rua, entre conversas e sorrisos que se ouviam ao longe.
Nunca parecendo mais novo, devido à impossibilidade de tal facto ao nível celular, com as suas complicações mitocondriais e citoplásmicas, a verdade é que, apesar do inclemente correr do tempo, aquele velho costumava assemelhar-se àquele mesmo velho dias, meses e anos antes dos seus encontros habituais. E o velhote gostava de ouvir aquilo, ainda que mantivesse, por humildade, alguma reserva sobre a sinceridade do miúdo.
Mas o rapaz não disse nada naquele dia - talvez por isso tudo e todos estivessem algo estranhos.
E tudo se resumia a um simples facto: aquele homem estava velhíssimo e se antes parecia fácil dizer algo inócuo, que parecia mais novo, que estava impecável, coiso e tal, parecer-lhe-ia agora um atentado à honestidade e à inteligência do homem que pretendia elogiar com tais comentários.
Numa luta titânica pela conservação, mantivera-se longe de rugas e pés de galinha para além do que seria de esperar, mas pelo que agora se via, aos 90 anos, a velhice tinha acabado por alcançá-lo, atingindo-o bem e com força.
A cara de choque do rapaz denunciava-o e o velho, como se de uma tartaruga se tratasse, de boca aberta e gestos lentos, pouco podia fazer senão resignar-se à imagem mefítica de si mesmo que via nos olhos do rapaz.
O jovem, por seu lado, indagando-se sobre "aquele homem com um punho de ferro, que nem dois homens conseguiam abrir na sua juventude, aquele homem alto e elegante… sempre de fato de três peças", procurava nele, ao menos, a sabedoria, a experiência e a perseverança.
Nada. Entretanto, o homem confuso, perdido... velho!
E tudo nele era silêncio, quase que um vazio, como se ninguém estivesse atrás daqueles olhos baços de uma cor verde de garrafa.
Que rugas tão profundas são essas que me impedem de ver-te, ó velho?
Tinha seguramente menos vinte centímetros, estava curvado (ou torto), amarelo, com pele de papel e andava como se fosse um pinguim, com passos muito rápidos, mas curtos de tão ineficazes e custosos. Morreu no dia seguinte sem ninguém saber que um jovem, como ele era, que há-de ficar velho, como ele ficou, e morrer, como ele morreu, o havia comparado a dois animais: uma tartaruga e um pinguim.

(João Freire)

Participação no tema "Velhice" num desafio da "Fábrica de Letras".

17/08/2009

Loucura

E ao fim do dia já não se recordava de quem era.
(E logo ele que sempre se afligira a pensar nessas coisas enfermiças)
Não tinha sido um acontecimento isolado a provocar aquela transformação, nada de um momento para o outro, aliás, pudesse ele recordar-se - no meio de todas as memórias avulsas, imagens e sons que deambulavam erraticamente pela sua mente - e identificaria perfeitamente vários momentos decisivos na evolução da doença. Um dia em que se esqueceu das chaves de casa, outro dia em que reparou, já no elevador do seu prédio, que se esquecera de vestir uma camisa, até àquele dia em que deu por si num escuro beco da cidade com o lábio a sangrar. Pudesse ele lembrar-se de todos esses dias estranhos, nos quais havia uma réstia de coerência temporal e não sobreviria o medo e a confusão. Pior, só quando a sua imaginação gozava com ele, quando lhe assomavam imagens à cabeça de acontecimentos que lhe pareciam tão reais, mas que nunca lhe permitiam saber se o seriam de facto, se tais imagens se referiam a alguma experiência vivida ou, por outro lado, imaginada ou vista, ouvida ou lida, o que fosse, como quando afirmou que queria voltar para a sua mulher, apesar de nunca ter sido casado, ou quando jurou que tinha estado em Woodstock, apesar de ter apenas 39 anos. Nada era mais triste do que a cara dele ao dizer essas coisas, sabendo quem o ouvia que tudo era imaginado e sabendo ele que todos o olhavam como se ele fosse louco.
Tudo perdera o sentido e a ausência desse sentido era a única coisa que o seu cérebro, limitado pela doença, conseguia sentir de forma inteligente.

(João Freire)


Para o tema de Fevereiro de 2011, Loucura, num desafio da "Fábrica de Letras".

Crazy - Cat Power (Cover)

02/07/2009

O médico electricista

Sérgio sempre se sentira fascinado pela electricidade, que havia qualquer coisa de mágico na electricidade, afirmava ele tantas e tantas vezes com um certo e exagerado brilho nos olhos, imaginando o percurso da energia desde o momento em que era recolhida nas barragens até àquele instante em que se incandescia o filamento da pequena lâmpada do seu pequeno candeeiro na mesinha de cabeceira. Por isso dispensava o abajour, aquele terrível chapéu de abas que tapava a maravilha da ciência que era a luz eléctrica e que ele tanto gostava de observar. Esse fascínio com a electricidade, que tal como disse era congénito e endémico, desenvolveu-se ao ponto de se tornar numa relação de amizade. Ele tratava a electricidade por tu e brincava com ela como se de um colega de escola se tratasse.
(Só assim se explicava a confiança que as pessoas depositavam nele.)
As pessoas da aldeia conheciam-no desde menino, sabiam aliás da sua proximidade com a arte que praticava e por isso mesmo ninguém ficou espantado quando, após a simples associação de uma emergência aparentemente cardíaca à electricidade como solução teórica, os familiares do senhor Martins lhe apareceram a bater à porta.
(É nos casos de emergência, naqueles casos em que o engenho é aguçado, que se descobrem as soluções mais fantásticas.)
Na realidade, não foi bem bater à porta... a Senhora Cândida, que de cândida não tinha nada, habituada a resolver qualquer situação que se pusesse à frente dela com uma prontidão absurda, deslocou-se a casa de Sérgio, batendo à porta como se estivesse a tentar deitá-la ao chão e ordenou a Sérgio que fizesse alguma coisa. Será mais correcto assim.
Diziam que o senhor Martins tinha sentido uma dor no peito, seguida por uma dormência no braço que o fez cair, uma queda não igual a tantos tombos que o mesmo senhor havia dado ao longo dos tempos no café do Ernesto após devorar vinte ovos cozidos seguidos de uma caneca de litro de vinho caseiro - uma actividade habitual, para gáudio de muitos. Sérgio, não tão brusco como a dona Cândida, mas igualmente despachado, aproximou-se do corpo, observando a falta de respiração e do batimento cardíaco e pensou: “Electricidade!” De seguida, após uma breve inspecção às tomadas e a um candeeiro dourado que encimava uma alta copeira, arrancou em corrida até ao canto da sala, baixou o candeeiro, desligou a ficha da tomada, arrancou a ponta do fio que ligava ao candeeiro, ligou a ficha numa tomada mais próxima do corpo tombado e, segurando o fio descarnado, que despontava em dois, encostou levemente, primeiro o fio azul, depois o vermelho, à barriga do senhor Martins, pensando: “dois segundos devem chegar”. E bastaram, pois após uma convulsão, o senhor Martins recuperou os sentidos.
Foi sorte. Ninguém duvide da estupidez do gesto de Sérgio. Foi sorte e tudo poderia ter corrido de forma muito diferente (tudo poderia ter corrido muito mal), mas naquele momento correu bem e isso – até para o seguimento e interesse da narração - é que interessa, tornando-se num momento definidor da vida que se seguiria daí em diante. A palavra espalhou-se e não tardou muito até os seus serviços voltarem a ser requisitados, primeiro só em casos de dita emergência, depois já como alternativa à medicina tradicional de centros de saúde, filas, consultas, taxas, hospitais e atendimento demorado, ainda mais numa aldeia remota, uma aldeia distante de qualquer centro hospitalar ou meio de transporte que possibilitasse uma assistência rápida. Aliás, também por isso e por uma questão de comodidade de todos, a aldeia não era estranha a soluções inventivas de remedeio às deficiências dos serviços, ideias forçadas à institucionalização. O correio funcionava por recreação do senhor Rui da mercearia, que se deslocava todas as manhãs à cidade mais próxima, trazendo as novas de familiares amigos e cobradores da luz, água e bancos, tudo numa caixa no meio da hortaliça e das bananas, como quem diz os vegetais, as frutas, o pão e todos os víveres diários que venderia mais tarde no seu estabelecimento. Pensando bem, o senhor Rui também era a farmácia.
Mas em questões de saúde e de electricidade - motivo desta crónica - nomeadamente as que dizem respeito a intervenções terapêuticas mais arriscadas, não convém brincar e Sérgio, acolhendo a função social que lhe haviam atribuído, teve de pronto a noção clara da responsabilidade da sua tarefa, sentindo-se na obrigação de aprender. Fê-lo indubitavelmente, estudando em profundidade a anatomia a partir de um livro que tinha visto a primeira vez em casa da sua tia Irene (um livro que lhe tinha despertado a atenção pelas imagens de corpos em metades e com riscos azuis e vermelhos que percorriam as figura desde os dedos dos pés e das mãos à cabeça, mas em especial uma imagem - que eram duas - das partes íntimas do homem e da mulher, uma imagem com a sugestiva legendagem de aparelho reprodutor), tendo também aprofundado o seu conhecimento, por si só vasto, da electricidade em vários livros que o senhor Rui trazia da biblioteca da cidade, passando horas com ratos e gatos, aplicando e anotando num lisbonense de capa preta as diferentes cargas e os seus efeitos nos mais variados sistemas. Em pouco tempo, deixou de ser um mero amante da electricidade para ser um profissional da mesma... nunca deixando de amá-la! Curava todo o tipo de maleitas – podia aliás ser este o título do seu anúncio no jornal da cidade –, desde simples constipações com uma voltagem reduzida, mas continuada, a furúnculos e quistos com uma dose eléctrica superior, embora mais rápida e localizada, até àquelas doenças que ninguém usa nomear pelo temor que instauram nas pessoas, e não tardou muito a ter clientes para todos esses problemas médicos, clientes afáveis que o consultavam de forma confessional e que lhe pagavam de acordo com as suas possibilidades, e a verdade é que, para além de tudo, graças a uma simples mistura de agulhas de acupunctura, eléctrodos e panos húmidos, a electricidade lá ia funcionando.

(João Freire)

11/06/2009

A coragem na cobardia

Acho que começará com o sol a entrar pelos buracos da persiana, o afastar dos lençóis, o sentar na berma da cama e coçar alguma parte do corpo (talvez o peito do pé, mesmo na junção com a perna), o espreguiçar, levantar e caminhar até à casa-de-banho… Acho que será assim! E será aí nesse instante que tudo se decide – Tudo sobre o que é a nossa vida e o que vamos fazer com ela. Depois, grande parte do dia será dedicada à normalidade rotineira do quotidiano: coisas práticas como tomar banho, lavar os dentes, tomar o pequeno-almoço, sair e trabalhar. Mas de certeza que algures nesse dia haverá um sorriso, uma gargalhada até, que ninguém compreenderá, mas que será a epifania da própria existência, um último alívio que confirma a decisão. Pode haver também uma parte de apreensão, nervosismo e até alguma tristeza… admito que alguém possa chorar nestas circunstâncias, mas penso que o sentimento de alívio será mais comum. Tudo o resto será esparso, dependendo da forma escolhida - eu escolheria uma rápida -, nunca dispensando muita preparação e algum trabalho manual, terminando tudo (como quase sempre termina) com um corpo rígido e uma carta de despedida num tom invulgarmente doce.


(João Freire)

01/05/2009

Falta de ar

Bateram à porta com intervalos demorados e regulares, lamentando por antecipação a dor que (sabiam bem) iriam causar. Do outro lado a resposta demorou. Primeiro uma luz, depois o barulho pesado de alguém a descer as escadas, algumas palavras murmuradas azedamente, e, finalmente, a chave a rodar na fechadura.

- Que faz a polícia aqui – perguntou – o que é que estão aqui a fazer a esta hora?

O seu coração acelerou. Sem dúvida que teria a ver com o bebé dos seus vizinhos.
Queres ver que o mataram - Pensou instantaneamente, lembrando as vezes que esteve prestes a confrontar os progenitores com um sermão sobre a forma correcta de educar um filho - De facto, o bebé chorava tanto que o teriam sacudido até à morte.

Calmamente, o mais calmamente que conseguiu, o agente começou por pedir ao senhor que tivesse calma, que tinha havido um acidente, dizia, mas que mantivesse a calma.

Do lado de dentro, o homem não compreendia. Não seria o bebé, mas o que poderia ser? A sua mulher estava ali, a sua filha estava a dormir, não tinha mais família ali perto e se fosse um familiar distante ou um amigo nunca iriam ter com ele. Seria engano, certamente.

- Mas que acidente?

25 anos de carreira na polícia preparam para muita coisa, mas dificilmente preparam alguém para dizer a um pai que a filha morreu.

- Foi a sua filha – soluçou, olhando o homem nos olhos.

Foi nesse momento que o senhor se acalmou, esboçando até um sorriso, enquanto olhava para a sua mulher no fundo das escadas, que se cobria com um espesso roupão.

- A minha filha está a dormir – disse, entre sorrisos.

- Lamento – continuou o agente, mas não há erro possível.

Já algo chateado, mas compreensivo, o homem explicou porque é que não podia ser a sua filha, convidando os dois agentes a entrar, ao mesmo tempo que procurava a sua mulher para que lhes preparasse alguma coisa.

Já não a viu, restando um vislumbre dos seus pés, que desapareciam entre as escadas e o tecto, num passo apressado.

- Sentem-se aqui que a minha mulher já vem – disse, explicando de seguida que ele mesmo acompanhara a sua filha até ao quarto quando se encaminhava para o quarto-de-banho, antes de se deitar.

Os agentes fizeram um breve silêncio, esperando algo mais do que o olhar que partilhavam.

Entretanto um grito desesperado ecoou na casa, perfurando o olhar do senhor que estava em pé à frente dos agentes, fazendo com que deixasse cair o copo de água que segurava numa das mãos.

Teria fugido a meio da noite, para se encontrar com o seu namorado, um rapaz que morava ali perto dentro da povoação. O acidente ocorrera junto a uma discoteca, deslocada da vila uns poucos quilómetros, na encosta de uma serra. O gelo na estrada e a mistura de álcool e drogas fora mais do que suficiente para desfazer um carro novo contra duas árvores.

Chapa retorcida, papéis e milhares de pedaços de plástico e ferro, ocupavam a estrada e lá ao fundo, postos lado a lado, cinco sacos de plástico cheios de vida, juventude e beleza.

(João Freire)

Retrovertigo - Mr. Bungle

25/04/2009

Curtas

Pepe
Esta semana, o Pepe... aquele segundo pontapé... Nem adianta!!!!

Loiras e Chuck
A Telma Monteiro aparece aqui, para além do facto de ser do Benfica e de ter conquistado a medalha de ouro no Campeonato da Europa na categoria de -57kg, por causa daquele rabo de cavalo que anda por todo o lado da sua cabeça. É muita pinta e eu acho-lhe piada por isso.


E esta senhora, que até se chama Yvonne, aparece por ser uma revelação para mim e de se ter tornado numa das personagens femininas que mais razões me deu para ver uma das séries que mais razões me dá para ligar a televisão ou o computador, basta ver a forma como se divertem nas gravações.
E depois, também, porque são as duas... sei lá, devem ser os olhos.


Nuno Álvares Pereira
Amanhã, no Vaticano, mais um Português a subir aos altares. Nuno Álvares Pereira foi uma das mentes por trás da Batalha de Aljubarrota (em português com link respectivo em português) ou Batalla de Aljubarrota, (em Castelhano, com link respectivo em castelhano) na qual enfrentou 30 mil espanhóis de Castela, franceses e italianos, com a companhia de 6 mil portugueses e arqueiros ingleses, numa diferença de cinco para um atenuada pela estratégia e inteligência dele e de outros.
Já a parte do milagre da oftalmologia... Sou espiritualmente desconfiado, com tendências para o agnosticismo e ateísmo, mas até posso conceder que quero acreditar em algo... mas porque é que os milagreiros não evitam simplesmente a tragédia? Será para testar a fé, mas não há melhores maneiras de testar a fé do que com azeite a ferver? E milagres com pessoas amputadas, porque é que não há registo deles? Serão os amputados filhos de um deus menor?

25 de Abril
E claro... hoje é 25 de Abril, dia de celebração de um acontecimento apesar de tudo bastante positivo. Para contrariar, porque gosto de ser do contra, escolho a primeira senha da revolução, a que deu o sinal de preparação a todos os intervenientes, uma canção de Paulo Carvalho emitida por volta das 23:00 de 24 de Abril de 1974 e que sempre ficou na sombra da Grândola Vila Morena, a segunda senha da revolução (aqui na versão da Amália, que, por sua vez, sempre foi considerada intíma do Regime - com o que quer que isso queira dizer)

Paulo de Carvalho - E depois do Adeus

09/04/2009

Curtas

O zunir nos ouvidos antes do ferroar no pescoço

Admiro a generosidade sacrificial com que as abelhas honram a sua mestra, o seu grupo. Há uma maldade naquele insecto, na forma como ataca sem descrição tudo o que se aproxima da colmeia, mas é uma maldade doce: um pequeno ferrão e uma pequena picadela - que até faz bem a quem a recebe, e que se torna no último gesto em vida da abelha. O seu último gesto é pelos outros, os que ficam.


In Bruges

In Bruges é um dos melhores filmes que vi. E como podia não o ser? Assassinos contratados de férias, Irlandeses palavrosos, um anão viciado em tranquilizante de cavalos, prostitutas holandesas, um casal de ladrões, uma grávida dona de um hotel e uma cidade medieval perdida na Bélgica são todos os ingredientes que qualquer filme deve ter. Colin Farrel, Brendan Gleeson e Ralph Fiennes estão brilhantes no filme. Para além do mais, embora seja uma forma diferente de ver um filme, acabei de descobrir que está no Youtube. Vale mesmo a pena!

01/04/2009

Os amantes, por Pedro Paixão na 1ª edição da Playboy portuguesa

"Não se pode dizer que vivam juntos. Muitas vezes duas pessoas gostam uma da outra e não conseguem viver juntas. É o caso deles. Casaram-se e depois separaram-se. Como toda a gente. Mas, passados meses de dor e recíprocas violências, encontraram uma saída que a ambos pareceu inteligente. A ideia foi ela que a teve. Passarem os dias de trabalho cada um em sua casa e os dias feriados juntos na casa de um, ou de outro. Há coisas animais, emoções incontroláveis e, sobretudo, o constante desgaste dos dias que destroem a alegria – o puro prazer de se estar com alguém, o verdadeiro interesse pela vida do outro – enquanto o sexo se transforma numa rotina mais ou menos enfadonha. Ele chama-se João, ela Maria.
Jantam à sexta-feira num restaurante chinês e decidem a casa para onde vão. Um pequeno almoço juntos e depois despedem-se , cada um partindo para seu lado, com o coração levemente aflito. Durante os dias em que não estão juntos, estão proibidos de se falarem ao telefone ou comunicarem de qualquer outra forma. Salvo uma emergência imprevisível – um incêndio na cozinha, a morte de um familiar, uma súbita fragilidade da alma.
Conheceram-se no liceu. Casaram-se tinham ambos 24 anos. Agora vaõ fazer trinta e um. É muito forte o amor que os une. Um amor só deles, que as pessoas não compreendem e por isso criticam. O amor precisa de ser protegido, abrigado, alimentado com todo o cuidado. O quotidiano é o pior inimigo. Corrói o imprescindível respeito pelo outro, por quem o outro é. Consome a distancia que é preciso manter para que o outro possa ser quem é. Começa a asfixia.
É um engano grande julgar que não se pode viver com esta pessoa mas que se poderá viver com outra, porque na maioria dos casos é a própria vida que nos abandona e afasta. No caso deles há um facto relevante. Nenhum deles quer ter filhos, fundar, como se diz, uma família. Trazer ao mundo uma vida não só é uma responsabilidade de que se conhecem os limites, como uma inconsciência para a qual nunca se está suficientemente preparado. Pelo menos por agora.
Ele tem uma casa junto ao mar, ela um apartamento no centro da cidade. Ele é um economista, ela editora de um jornal diário. Quando se encontram riem dos acidentes da semana, do ridículo comportamento dos humanos, dos problemas insolúveis. O trágico também pode ser visto de modo a merecer uma gargalhada.
Falam dos livros de lêem, e um programa passado na televisão ou na rádio, do concerto para o qual é preciso comprar bilhetes pela internet, de pequenas coisas sem verdadeira importância. Não se criam aqueles deprimentes silêncios quando já não se tem nada para dizer um ao outro e, dentro de um carro, cada um olha em frente com receito de olhar para o lado e deparar com um desconhecido.
Os pais não percebem, os amigos não percebem, ninguém percebe. Toda a gente conspira para que aquela frágil e preciosa relação termine. Quase todos têm pavor de ficar sozinhos, de morrer sozinhos. O que os agarra é o medo.
Por isso condenam-se aos piores compromissos . Eles, pelo contrario, sabem não só que há em qualquer humano uma solidão que nunca pode ser superada, como que só ela abre um espaço onde o coração pode viver livre. Os corações também precisam de respirar.
Todos os anos, em meses variáveis, fazem uma viagem juntos. No ano passado foram a Viena, esta ano pensam ir à Finlândia. Juntos decidem todos os pormenores, embora cada viagem deva ser uma aventura da qual não se conhece o desfecho. Juntos vêem-se coisas que de outro modo não se veriam, porque cada um aponta ao outro o que, a sós, lhe poderia passar despercebido. Aprende-se mais porque ao falar as palavras chamam pelas coisas tornando-as mais nítidas, mais presentes. Num casamento comum há sempre um que em determinado momento precisa de se calar. Ali não. Antes de adormecer, adoram relembrar o que viram, sentiram, descobriram. E o sexo vem e chega, sempre poderoso, transportando-os para íngremes paisagens, súbitos abismos. Como dois desconhecidos que se desejam loucamente dentro de um comboio e não se recusam ao mais premente prazer.
Em Viena, o que mais a impressionou foi uma exposição das obras do último ano de vida de Picasso, uma gigantesca e heróica luta contra a morte. Ele, o que mais apreciou foi visitar a casa de Freud, um lugar onde se conspirou contra a sufocante normalidade dos costumes. Nenhum deles sabe até quando aquela relação poderá durar. Pode não se conseguir continuar. Pode acontecer uma paixão imprevisível. O amor é um trabalho pelo qual se tem e lutar e o que já se conseguiu dissipa-se no passado. Eles estão preparados para o fim. O que importa é acreditar no que ainda há-de vir, no indomável Se assim não fosse não valeria a pena. Faz parte o amor não saber quando pode acabar. Sempre aquela pequena dor que acompanha o verdadeiro amor."


Pedro Paixão in Playboy

I - Não comprei nem vou comprar a Playboy. Apesar de achar piada à Mónica Sofia e a raparigas nuas as much as the next guy, acho que há coisas mais interessantes a fazer com o dinheiro e com o tempo - até porque tudo o que aparece nessas revistas acaba por aparecer na Internet, tal como este texto - o qual nem sei se é verdadeiro. Descobri o texto na secção de comentários do blogue do Júlio Machado Vaz num post sobre o tenista Frederico Gil (?)

II - Pedro Paixão é um autor relativamente desconhecido - ouvi falar dele pela primeira vez através dos programas do Fernando Alvim - e a verdade é: apesar de falar de Pedro Paixão a todos os meus amigos, aconselhando-os vivamente a ler qualquer coisa dele, nunca li um livro completo dele, tendo-me remetido apenas a alguns textos e excertos.
Sim, sou uma besta.

30/01/2009

O problema disto tudo é a má-educação

O problema disto tudo é... em parte, haver pessoas que dizem “o problema disto tudo”, porque normalmente são as mesmas pessoas que dizem “o que faz falta é um Salazar em cada esquina para manter a ordem” - e toda a gente sabe que as pessoas que dizem isso são precisamente as pessoas mais desordenadas que existem e que não fazem a mínima ideia de qual seja o problema - mas dizia eu: o problema disto tudo é a falta de educação. Tudo o que se passa de mau na nossa sociedade, desde os conflitos internacionais às filas do centro de saúde, é um problema de educação, de má educação neste caso, que tem as suas raízes na mais tenra das idades. Os culpados? Todos, porque todos nós em determinada altura somos responsáveis pela transmissão de valores aos outros, seja enquanto amigos, pais, avós e restantes familiares, colegas de trabalho, superiores hierárquicos, qualquer coisa, estamos sempre a imprimir valores nos outros e a receber essa mesma impressão. Por sermos mal-educados, por não nos terem ensinado a dizer obrigado quando recebemos algo ou bom dia quando chegamos ao pé de alguém, é que nos tornamos em bestas irracionais que apenas vivem para si, sem pensar nos outros. Assim se explica, por exemplo, que as pessoas queiram trabalhar o menos possível, mas ao mesmo tempo quererem ser milionárias. Aliás, estas pessoas têm tanta consciência da sua inutilidade que nem milionárias querem ser, contentando-se apenas em ser ricas.
- “Nem precisava do primeiro prémio - nem mereço, pensarão -, bastava-me o segundo”
E basta sempre o segundo prémio, desde que dê para viver e montar um negociozito para não apanhar sustos na velhice.
Uma pessoa que não se importa com os outros não vê mal nenhum em estar à conversa com um colega enquanto as pessoas se vão arrumado em magotes numa sala de espera.
É o cúmulo da desresponsabilização. E ninguém tem nada que ver com os horários. A hora de abrir é a hora de começar a preparar tudo para preparar o início da preparação do trabalho e se alguém quiser ser atendido tem de esperar porque:
- "Ainda agora abri!"
A hora do fecho é normalmente antecipada. Começa quando se faz a caixa, começa quando se pendura a bata e varre o chão ou se apagam as luzes e já não se pode atender nada nem ninguém, já não se faz mais um c@r#lho, como dizem nas Caldas da Rainha. Fecha a loja, fecha o consultório, a repartição de finanças, a sucursal, o que quer que seja, fecha!
A culpa não é do sistema, ou melhor, não é só do sistema, seja esse sistema o bancário o de saúde, o de Segurança Social ou qualquer outro, a culpa é das pessoas mal-educadas que atravessam esses sistemas de cima a baixo. São essas pessoas que olham para os outros como algo inferior, como algo que tem de se sujeitar à vontade do mecanismo deficiente que compõem, que dizem “volte amanhã”, “agora tem de aguardar”, “não posso”, “vou passá-lo ao meu colega” quando não tem de voltar amanhã, quando não tem de aguardar, quando não tem de ser passado ao colega! 

São estas pessoas que tocam a buzina aos outros quando estes fazem alguma alarvidade automobilística mas que ignoram as buzinadelas dos outros, reagindo até com incompreensão aos seus motivos
-“O que é que queres? Passa por cima"
São estas pessoas que entre não abrir falência e comprar um Aston Martin escolhem o carro, porque vêem a empresa como uma extensão de si e o lucro como dinheiro de bolso. São estas pessoas que acusam os outros com as mãos manchadas de tudo o que suja.

- “Se fossem mas é ver dos grandes e dos políticos.”
Mas essas pessoas são “os grandes e os políticos”, os doutores e os engenheiros e os banqueiros e os magnatas das petrolíferas e multinacionais, que despedem, que aumentam os preços, que fazem outsorcing e Lay-off, que oferecem tachos, permitem cunhas, recebem luvas e guardam sacos, que cospem no chão e deitam lixo pela janela do carro, que “têm de passar à frente”, que dão pontapés a animais crianças e velhos, que falam da vida dos outros, que atendem primeiro as pessoas ao telefone do que as que se dignaram a deslocar-se ali, que têm sempre razão, que sabem tudo e deixam o carro em segunda fila quando há um lugar vazio a dez metros “só porque demora pouco”... penso até que serão sempre as mesmas pessoas. Se não forem, há, no entanto, um sentimento que as une: o desrespeito pelos outros. São, enfim, estas pessoas que não aprendem e que não se desenvolvem enquanto seres humanos, cidadãos e trabalhadores.
Mal-educadas!
...E que levam as outras ao desespero e a um sentimento de frustração derreante – o sentimento generalizado de que não vale a pena a honestidade.
 

Há uma revolta por fazer, um “Chega!” por gritar e começa a ouvir-se um burburinho lá ao longe, uma multidão que se junta e caminha forte na calçada do desenvolvimento, sem medo, armada com palavras e bombas – a bem ou a mal.

(João Freire)

Nota: Poder-se-ia pensar numa solução, no simples ensinamento ao longo da vida da cidadania. Porque não uma disciplina escolar (não uma disciplina inócua como as que se vão acumulando nos currículos escolares, mas uma verdadeira disciplina preparada por psicólogos, sociólogos, educadores, etc) que leccionasse o conjunto de leis, direitos e deveres importantes ao cidadão, que mostrasse formas e exemplos correctos de actuar na escola, na rua ou no trabalho, desde os aspectos mais corriqueiros como a simples cortesia perante os outros às formas de liderança, trabalho em grupo, e resolução de conflitos? Quão bom seria se se ensinasse as crianças sobre a forma correcta de reclamar a má prestação de um serviço!

21/12/2008

Será por amor

Foi em Guimarães.
Estava sentado com dois amigos numa mesa de um café e apenas duas pessoas partilhavam o mesmo espaço. Uma dessas pessoas estava atrás do balcão, o que a torna dispensável para a história - habituados a tudo, não ligam a nada, espera-se até que assim seja -, a outra era uma rapariga, provavelmente da mesma idade que nós.
Uma garrafa de água das pedras, um café e um cigarro. Nada mais. Tão normal que pouca atenção lhe dispensámos. Foi apenas quando as lágrimas começaram a verter que algo em nós mudou. Aquela rapariga deixara de ser uma rapariga normal para passar a ser uma rapariga com história. Sorrateiramente, olhámos para ela com atenção, um à vez para que não se notasse muito. Nenhum de nós entendia como uma rapariga tão bonita podia estar a chorar.
É o amor!
Pensamos (penso) sempre que quando alguém chora o faz por amor.
Problemas familiares resolvem-se em casa, com o resto da família (principalmente quando alguém morre), e doenças é com os amigos, do género "tenho cancro, vamos curtir ao máximo a vida". Toda a gente sabe disto.
Apenas o amor chama a solidão e isso acontece porque ninguém consegue perceber aquilo que sentimos - é isso que também pensamos sempre.
Pensamos muito, nós.
Seria, então, amor.
E uma necessidade cresceu dentro de mim, que me fazia pedir-lhe para se juntar a nós, no mínimo perguntar-lhe se estava tudo bem ou se precisava de alguma coisa. Foi essa vontade que partilhei com os outros dois, foi isso que eles, prontamente, me aconselharam a fazer, mas não foi isso que eu fiz. Porquê?
Porque tive medo.
Do quê?
Não sei. E já na altura não sabia.
Mas é um medo que nos acompanha a todos e com o qual não conseguimos lidar, porque apesar de todos procurarmos companhia, achamos sempre que os outros não vão querer a nossa. Não há razão, já o escrevera whitman*.
Sei que eu estava feliz. Já passou um ano e sei que estava feliz. E sei-o porque ela chorava. É sempre mais fácil vivermos a nossa felicidade perante a infelicidade dos outros.

* To you, de walt Whitman, lido aqui

(João Freire)

22/11/2008

A voz que ouço

Espera lá. Ainda não.
Não sentes que ainda tens de corrigir alguma coisa?
Mais legumes, menos carne, mais desporto… menos um café por dia! É certo que já aprendeste muito, acredito mesmo que estejas quase lá, mas a verdade é que ainda cometes muitos erros, alguns dos quais nem hesitas em repetir, provando que não aprendeste a lição.
Sabes perfeitamente do que falo, até tens uma lista e tudo!
O presente não se vive no passado e o medo do passado é o mais irracional de todos. De que adianta pensar que vai ser igual, que alguém – ou mesmo tu – vai falhar? É preciso um percurso, uma síntese do que foi feito, mas analisar, esquecer, perdoar, pedir desculpa, amar, compreender… são os verbos mais importantes que tens de estudar exaustivamente. Sim, uma alimentação correcta também é imprescindível. Ah! E estimar os joelhos e as costas, porque são os primeiros a ir à vida.
Vá! Diz comigo: “eu compreendo, tu compreendes, ele compreende”! Isso mesmo.
O meu paternalismo é brincadeira de amigo, daquela que não é para levar a mal, mas é mesmo assim. Só assim podes crescer. Só assim chegas lá.
De resto, tem calma, não te precipites e…
É melhor não dizer tudo, sinto que não devo revelar mais. Estragaria a emoção da viagem. E a viagem é tudo!

...É esta voz que ouço frequentemente que me engana. E engana-me porque eu sei que ela não me é fiel e que diz isto a toda a gente, mesmo àqueles que nunca chegaram lá!


(João Freire)

16/11/2008

Opções

Um dia destes, logo de manhãzinha… ou madrugadazinha, dei por mim a ser vítima de um furto. Eu estava a ser vítima de um furto! E o cenário era este: Um homem de canadianas, ao lado do meu carro a mexer num prato das jantes, aqueles discos prateados que tapam as jantes, e eu olhava para ele da janela. Ora, eu não tenho um carro por aí além - como foi visto e lido neste blogue, é um simples Renault Clio - e, como tal, os pratos das rodas também não são grande espingarda (se é para embarcarmos em expressões populares, embarquemos), até porque a própria ideia desses objectos já não é em si uma ideia luxuosa. Luxo é ter umas jantes especiais. Isso é luxo - Aliás, isso até pode nem ser luxo e ser parolo - digamos que luxo é ter um carro luxuoso. Pratos de jantes são um remedeio ou uma inevitabilidade. No entanto, furto é furto e mais que não fosse por uma questão de orgulho tinha de dizer alguma coisa. Como estava ensonado, apenas disse, da janela até ao outro lado da rua: “o que é que está a fazer?” O homem não disse nada ou murmurou qualquer coisa (estava praticamente a dormir em pé e não me recordo. Não sei se já disse que isto se passou de madrugada?), mas lembro-me que pontapeava o prato, como se estivesse a encaixá-lo de novo por ter percebido que tinha sido apanhado em flagrante. Vesti-me rapidamente e fui confrontá-lo. Ele respondeu ao confronto com cobardia, dizendo que apenas estava a ver o carro, que tinha um igual e tal e que gostava de andar por ali até para ver o pessoal que vinha da discoteca e que roubava antenas dos carros, cadeiras das esplanadas dos cafés e essas coisas. Mas ele? Roubar? Nada! Ele não roubava, até porque era doente (por ter usado esta desculpa é que foi cobarde), tinha sido operado ao coração e mal podia falar. Eu disse que sim, que o percebia e até brinquei com ele, dizendo que o meu carro era melhor e mais bonito do que o dele (são iguais aparte do dele ser a gasolina) e que não adiantava andar a roubar – se andasse a roubar – coisas do meu. Disse estas coisas para ele perceber que eu não era nenhum sonso, mas, obviamente, não sei se funcionou. Deixei-o e fui trabalhar. A meio da manhã o meu pai e chefe diz-me que a minha mãe, que se deslocara ao local do crime, lhe telefonou reportando-lhe que faltavam dois dos ditos tampões (?) ao carro. De imediato comecei a pensar no que faria quando chegasse a casa para reaver o que era meu ou no mínimo castigar o autor do furto dos pratos das jantes. Passaram pela minha cabeça as seguintes ideias:

1ª - Chegar ao pé do carro do outro senhor e simplesmente retirar os pratos do carro dele, dirigir-me ao meu e colocar os pratos no meu carro.
(Nesta primeira ideia, imaginava gente ao meu lado, até mesmo o dito senhor, berrando ou gesticulando perante a minha despreocupação)

2ª - Cagar à porta de casa dele.
(É uma ideia habitual em quesílias, no entanto é também habitualmente infrutífera, é uma ideia que apenas faz sentir bem, estimulando o ego… e o esfíncter)

3ª - Deixar passar… ou quase! E mandar cartas insultuosas durante o tempo que ele levasse a devolver os pratos ou a morrer. Esta ideia era acompanhada de telefonemas às 3 e 4 da manhã, desligando antes que alguém atendesse ou deixando apenas que se ouvisse um intenso e assustador bafo de respiração; assim como o inevitável toque da campainha de casa às mesmas horas.

4ª - Por último, pensei em ir comprar um coelho pronto a cozinhar – quanto mais ensanguentado melhor – e deixá-lo pendurado na porta do senhor com uma faca de mato e um papel no qual se poderia ler: “Isto é o que lhe pode acontecer a si, à sua mulher ou aos seus filhos se não devolver os pratos!”

Claro que quando cheguei a casa e me dirigi ao carro vi que já estava tudo no seu devido lugar. Ao que parece, entre a hora que a minha mãe viu o carro e as horas a que eu cheguei perto dele, o homem terá pensado duas vezes – até porque sabia que eu o tinha visto – e devolveu o que roubara. As ideias ficaram apenas na minha cabeça. E depois não consegui deixar de pensar qual teria adoptado?

(João Freire)

24/10/2008

Auto da Humidade

À Farsa seguinte chamam Auto da Humidade. Foi fundada sobre várias mulheres, que trabalhando no mesmo local, tudo as incomoda, principalmente o contacto entre elas. Foi feita em Lisboa e não será representada. Era de 2008 anos.

Entram nela estas figuras:

Luísa - A bipolar
Mónica - A querida
Té - A vizinha
Sónia - A miúda
Dina - A filha
Deolinda - A inchada
Helena - A bimba
Magda - A síndroma de tourette
Carmen - A sensata
Cátia - A adolescente
Antónia - A anã muda
Elisa - A desonesta
Lurdes - A justa

Parque de estacionamento da Empresa Humidade. Manhã.

Todas com excepção da Antónia - Bom dia!
Antónia acena com a sua mãozinha.
Sónia - Opá... os meus pais descobriram que fumo e querem levar-me à igreja para ser benzida!
Luísa - A sério? Mas porquê?
Sónia - Porque enquanto viver com eles, tenho que seguir as suas regras. Senão põem-me fora de casa. E eu tenho 18 anos. Não posso ir viver com o meu namorado.
Cátia - A minha mãe não me diz nada a esse respeito. É claro que se importa com isso, mas se sou eu que compro o meu tabaco e se sou eu que o fumo, desde que não fume ao pé dela e em casa, é na boa.
Sónia - Pois. Mas os meus pais são uma seca. Têm uma mente que parou de se desenvolver há 1500 anos.
Todas com excepção da Antónia - Ahahaha
Antónia sorri.
Luísa - Meninas, então! Trabalhar, trabalhar!

Elisa está na Sala dos Favos de Mel com Lurdes.

Elisa - Estou tão cansada. Estou de directa. Ontem fui a um concerto de hard-rock e cheguei a casa por volta das 6h. E dói-me a cabeça...
Lurdes - Ena! (mantém-se ocupada com o favo de mel, que desloca de um lado para o outro para ver a consistência do pólen)
Elisa - Não gosto nada como a Helena deixou a sala dos Favos.
Lurdes - Nem eu. (etiquetando com o seu nome a colecção de favos manuseados por ela)
Elisa - Está tudo sujo de mel, as ventoinhas estavam desligadas, as luvas usadas foram deixadas em cima das bancadas e as persianas que comprou não deixam entrar luz nenhuma. Deveria ter aberto as janelas quando saiu... estou tão cansada...
Lurdes - A Helena é uma bimba que não sabe mais. Estas bancadas que comprou no Ikea são tudo menos práticas. Sempre que cá vem, deixa isto feito em merda.

Toca o telefone. E Elisa que tinha ainda as mãos desocupadas, atende-o, soltando um "Ai" antes de levantar o auscultador.

Na secção de compotas e outros doces, Cátia e Té ajudam-se mutuamente.

Té - Esta compota com cerejas da Cova da Beira, está a vender bem. Hoje já telefonaram 1500 vezes para encomendar mais.
Cátia - Ya! Também eu falei com 1200 compradores novos. Passas-me o tabuleiro?
Té - Toma.
Cátia - Obrigada.

Mónica - Bom dia meninas!
Té e Cátia - Bom dia.
Mónica - Já atenderam muitos telefonemas?
Cátia - Telefonemas e visitas. Muitas vendas vamos fazer hoje.
Mónica - Que bom! Assim é que é!

Na recepção.

Carmen, Antónia, Dina e Magda, arrumam o escritório e o balcão de atendimento ao público.

Dina - Hoje a minha mãe vai passar por cá para levar uns doces.
Carmen - Ai sim? Que bom... amanhã vais tomar um pequeno-almoço de luxo.
Dina - Sim.
Carmen - São uma delícia.

Magda entretida com os mails de clientes, solta um "Porra"

Carmen - Então rapariga?!
Magda - Foda-se! Esta merda está lenta! Porra.
Luísa, que entretanto entrou - Ó menina Magda, tens que ter mais tento na língua. Nunca se sabe quando algum cliente pode entrar. Controla-te. Eheheh..
Magda - Sim. Desculpa.
Antónia sorri.

Mónica e Luisa encontram-se no escritório. Falam de Deolinda.
Luísa - Mas ó Mónica, a Deolinda está de baixa porque foi picada por 250 abelhas. Ainda por cima é alérgica à penicilina. Temos que esperar que ela recupere. Bem sei que ela aqui é a nossa Faz-tudo...
Mónica - Precisamos de contratar mais pessoal qualificado. E comprar mais fatos.
Luísa - Também acho. Mas os chefes preferem que aguardemos mais uma ou duas semanas.
Mónica - Mas eu tenho as miúdas todas ocupadas. Não lhes posso pedir mais horas e está a chegar o Natal. Tu sabes que nesta altura toda a gente se lembra dos doces.
Luísa - Ordens superiores minha cara. Não podemos fazer nada. Mas os fatos e máscaras para a sala dos favos de mel têm que ser comprados. E luvas também.
Mónica - Sim.
Luisa - Pois... não sei...
Mónica - Hum?
Luísa - Que foi?

Entretanto numa das casas-de-banho da Empresa.

Sónia - Fofinho? Olha vou sair um pouco mais tarde porque chegaram imensas paletes do Fundão e só hoje temos que conseguir 1500 compotas de framboesas.
Não me posso demorar porque as chefes podem descobrir que estou a telefonar-te daqui. Beijinhus.

Sala dos favos de mel.

Elisa - Fiz agora um comprador de mel na Holanda. O gajo diz que tem uma empresa de catering e que precisa de mel todos os meses.
Lurdes - Que bom...
Elisa - Enquanto estás aí a virar os favos, vou contar à Mónica e à Luísa. Elas vão-se passar.
Lurdes - Eheh... erm... Olha, traz-me umas luvas novas do laboratório se faz favor. Já não há nenhumas aqui.
Elisa - Está bem.

Epílogo:

Dina, Té e Cátia são excelentes vendedoras e são premiadas com o dobro do salário. Continuam na empresa durante as férias de verão.
Luísa e Mónica mantêm Deolinda na empresa apesar desta estar de baixa há quase 1 ano.
Magda tenta uma cura ao síndroma de Tourette nas Caldas da Rainha, durante duas semanas, mas depois de tantas piadas sobre os caralhos de loiça, tanto ela como o marido Rolando, pensam em emigrar para a Suíça e fazer muitos filhos loiros de olhos azuis.
Carmen sobe de posto e agora é encarregada do Laboratório. Nenhum doce, compota ou frasco de mel, sai da empresa sem antes levar o carimbo de qualidade, carimbado por ela.
Sónia sai de casa dos pais porque não quer ser benzida. Mora em Carcavelos com o namorado surfista num loft virado para a praia. Faz 19 anos em Agosto e pensa escrever um livro sobre as suas memórias.
Dina é contratada a full-time e consegue descobrir uma abelha num frasco de mel, só pelo cheiro.
Helena deixa de poder utilizar a sala dos favos de mel sem os Controladores. Um para utensílios Kitsch de fraco poder prático, outro para Higiene e Segurança no Trabalho.
Antónia solta um "Doem-me os braços do peso das paletes" e deixa de ser muda.
Elisa nunca chegou a trazer as luvas para Lurdes e é apanhada por esta a colar por cima dos seus favos etiquetados, o seu nome. Trabalha agora na sala dos favos sozinha e imagina como teria sido tudo melhor se não tivesse enganado a colega.
Lurdes obtém o título de empregada do mês. Recebe das chefes o pin "Melhor Manipuladora
de Favos" e já reúne com os seus clientes no escritório. Tem livre trânsito no Laboratório.
Deolinda fica de baixa por mais 5 anos. Mesmo depois de todos os inchaços passarem, continua a achar-se um enorme Ferrero Rocher. Mantém a mesma medicação por mais um ano e pensa fazer uma viagem espiritual ao Tibete. Vomita sempre que lhe falam em mel.

FIM

(Lúcia Freire)