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27/08/2023

Os químicos da felicidade

Habituámo-nos a estar sozinhos. A ideia de uma relação para a vida toda entre um homem e uma mulher que víamos nos filme e livros já não nos parece atraente e a facilidade de uma relação à medida que podemos pesquisar facilmente nos telemóveis de acordo com parâmetros pré-estabelecidos, é muitas vezes apenas aparente. As vontades muitas vezes não coincidem, a individualidade impera, surgem novas complicações que vão desde o simples iniciar da conversa, passando pela consideração que agora temos de ter com os pronomes, o género, a sexualidade, o tipo de alimentação, a filiação política entre milhares de outras coisas para as quais estamos mal preparados e que causam mais ansiedade do que interesse. É por isso que muitas vezes perdemos mais tempo na escolha do que na conversa e no desenvolvimento das ligações em si e apostamos mais em procurar pessoas para momentos, seja para viajar, para sexo casual, orgias, swinging, para jogar Quiz Planet ou apenas para conversar do que para relações a longo prazo. E mesmo quem acha que procura relações 'tradicionais' muitas vezes pondera se não estará melhor sozinho, porque dormir acompanhado parece uma boa ideia até que nos lembramos que tínhamos uma cama só para nós e porque a ideia de ter roupa ou pêlos espalhados por todo o lado assusta qualquer um, mas também porque, com tanta escolha à nossa disposição, é mais difícil aceitarmos qualquer comportamento por mais pequeno que seja que não compreendemos ou do qual não gostamos. E é por tudo isto que, apesar de contraditória, neste mundo tão ligado, parece haver uma tendência para a solidão. A solidão é cómoda. Não temos de nos preocupar com ninguém, partilhar nada, ajudar ninguém, fazer compromissos, nem sequer arriscar conhecer os familiares e se é verdade que não temos as regalias desse tipo de relações, também é verdade que não temos as complicações e arranjamos alternativas, chamemos-lhes sucedâneos da felicidade, seja a família, amigos, animais de estimação, o trabalho, as idas ao ginásio, as partilhas que fazemos nas redes e aplicações sociais ou o onanismo, claro, e que nos permitem as doses diárias daqueles químicos que nos fazem sentir bem.

(João Freire)

13/05/2010

Essa mala condición de estar rodeada por el mar por todos lados


Estava a olhar para ela, é verdade, mas também não é menos verdade que estava a olhar para outras duas. Será habitual em mim esta dispersão no olhar, ainda que, normalmente, isso redunde em nada. Pessoas que eu mal conhecia diziam para ir ter com ela, diziam aliás que qualquer uma das três valeria a pena, a cerveja ajudaria, mas perante a indecisão foi ela que veio ter comigo. Lembro-me perfeitamente do ritmo na pronúncia, quase como uma canção.
- Por qué me hás estado mirando toda la noche – perguntou ela.
Devo ter respondido, disso não me lembro, mas lembro-me bem (talvez não me lembre bem, mas lembro-me) do que aconteceu depois.
Ela estava com uma irmã, essa irmã teria o nome de um rio russo (?), depois falou-me das sobrinhas, acho que eram duas mas não tenho a certeza, disse que trabalhava num banco e finalmente disse que queria ir para outro lado. Eu disse que sim. Fomos a um bar, bebemos algumas cervejas, dançámos, trocámos carícias e beijos acalorados e no fim, quando decidíamos o que fazer e aonde ir para terminar a noite, explicou que teria todo o gosto, mas que precisava da minha ajuda para um problema no seu local de trabalho. No dia seguinte teria de repor 70 euros (aproximadamente). Disse-lhe que não pagava – a verdade é que também já não tinha esse dinheiro – até porque “se alguém tivesse de pagar" seria ela, uma vez que poderia "desfrutar de um macho latino”. Eu estava bêbado, o humor não daria para mais e a verdade nua e crua é uma: ela sorriu. A irmã apareceu, tentando explicar a situação, que não era nada do que eu estava a pensar, mas ela disse-lhe que não valia a pena e depois, com alguma tristeza no olhar, despediu-se de mim com um beijo enquanto era puxada no braço pela irmã, olhando-me com ternura. Saí com um sorriso nos lábios, percorrendo sozinho e ligeiramente embriagado as ruas desconhecidas de Havana, sentido-me de certa forma aliviado.
Continuo a querer acreditar que não era uma puta.


(João Freire)


Buena Vista Social Club - Chan Chan



Recordado para o tema "Paixão" num desafio da "Fábrica de Letras"

15/10/2008

Queria pedir-te para me tirares uma fotografia enquanto olho para ti, pois de certeza que conseguiria retratar o amor

Já não sei o que sinto.
O amor resvala frequentemente na direcção do ódio, aproximando-se perigosamente da indiferença. A compreensão, o compromisso e aceitação e até o afecto entre duas pessoas ficam pelo caminho e nada volta a ser como era. Fica sempre a mágoa e pior do que isso, fica sempre um sentimento latente de reconquista que nenhum quer concretizar mas para o qual ambos contribuem. Há sempre um lado que se sente bem com a imagem de si no outro e que luta por manter essa luz por perto para o animar e aquecer e depois há o outro lado que tem sempre algo a provar, que sente que falhou e que procura manter a face. Ficam as dúvidas que se instalam umas em cima das outras, duvida-se do que se sente e até daquilo que se sentiu quando se falava em amor. Como acontece esta transformação?

O amor é uma inequação, uma desigualdade que só é verdadeira com certos valores das variáveis, mas que ninguém conhece. O amor conterá paixão, amizade, individualidade, compreensão, confiança, luta, vontade, sexualidade e tudo o resto que alguém possa lembrar, mas nunca constituirá uma fórmula fixa com um desenvolvimento objectivo e linear. Eu sempre pensei que nunca me apaixonaria, que sempre iria conhecer primeiro a pessoa e depois enamorar-me por esse conhecimento, mas também já saltei de cabeça para o desconhecido e ninguém poderá dizer-me que uma forma será mais correcta do que a outra. À sua maneira, ambas tiveram sucesso e ambas fracassaram. O amor pode começar de uma forma e acabar logo de seguida ou começar da mesma forma e funcionar pela eternidade. Isto é verdade para o princípio do amor como para o fim. Importa o que fica, o que aprendemos e um recém-descoberto amor por nós próprios, mas perde-se um pouco da magia. De facto, quanto mais falo com pessoas de idade avançada, mais me convenço de que o amor enfabulado, aquele de que são feitas as histórias de princesas e príncipes, se transforma em vários amores pequeninos que se distribuem pelos filhos, pelos netos, pela vida e, claro que também, pelo conjuge, e vai desvanecendo até ficar uma memória daquilo que se fazia quando se amava e não do que se sentia. É um amor, mas um amor diferente. Ninguém duvidará que o amor na velhice não assenta na paixão e na sexualidade como acontece aos 17 anos. Claro que todos queremos a magia e o querer, essa vontade partilhada terá até muito a ver com o sucesso da manutenção de um amor pela vida, mas a desmistificação do amor também fará bem às pessoas, obrigando-as a reflectir nas suas escolhas e a tomar um papel activo na construção do amor. Numa vida de facilidades, alguma luta e trabalho fazem bem. E melhor do que acreditar na magia é tornar todos os momentos mágicos. Acreditar que as coisas podem acontecer sem fazermos por isso é simplista, denegrindo a própria ideia de amor.

O amor é um sentimento superlativo de afecto relacional. Tudo isto e só isto.


(João Freire)

Cat power - Love and communication


Recordado para o tema "Paixão" num desafio da "Fábrica de Letras"

06/04/2008

Sem título

- Queres?
- Não sei, parece-me estranho. E como começamos?
- Podemos começar assim, como tu gostavas, eu a fazer-te massagens aqui no pescoço, tu a rodares a cabeça com os olhos fechados, o cabelo para trás, para o outro lado e depois um beijo onde acaba o pescoço e começa o ombro, mesmo aqui, e tu a engolires em seco. Sempre gostaste disto, não é? Mas tu calas-te, não dizes nada e continuas a saborear, experimentando um ligeiro arrepio..
Pensa no bom que tudo isto pode ser.
Deixa a tua mente deambular.
Sussuro-te ao ouvido que andava a pensar nisto há algum tempo, que andava a pensar nisto desde que estivemos juntos e tu trazias aquela saia curta, que deixava ver a costura das meias quando te sentavas.
Pensa nisso, tenta lembrar-te. Deixa a tua mente deambular.
Agarro os teus braços e empurro-te para o canto, posso até pegar em ti e pôr-te em cima daquela mesa ali, assim, ao mesmo tempo que te digo novamente para te libertares e deixares ir, depois dispo-te com violência, tentando não rasgar a camisola que seguras, sentido o teu coração a palpitar, o coração que eu sinto a palpitar, desviando-te a mão que tapa um dos teus seios e a camisola, o mesmo coração que me diz que desejas o que está a acontecer, mas que tens dúvidas.
Liberta-te de ti!
E tu deixas-te ir. Afinal queres, o desejo fala mais alto. Os teus mamilos endurecem e finalmente abres os olhos, pensas que estás pronta para te entregares e puxas-me para ti, eu afasto-te, desta vez não deixo que controles. Afasto as tuas pernas e aproximo o teu corpo para mim, depois despimo-nos, mas apenas o suficiente para nos sentirmos melhor, mais próximos, e ambos saboreamos o momento em que finalmente conseguimos estar juntos sem o constrangimento daquilo que nos entorpece, sem a dificuldade de pensarmos em nós. Neste momento somos apenas e só amantes. Sinto que estás pronta e abraço-te como se quisesse sentir-te por dentro, conhecer-te ao máximo através do sexo. Aperto a tua barriga, o teu rabo, quero sentir-me bem mais fundo, bem mais dentro de ti. O teu corpo diz-me que me aceitas, que estás pronta para sentir o que querias sentir aqui e agora, sem pensar no que há-de vir, sem consequências, constrangimentos ou compromissos. E o melhor de tudo isto, o tu ouvires o que te digo enquanto está a acontecer, o tu gostares de ouvir, é o desfrutar e sentir ao máximo este momento que é agora e que aconteceu.


(João Freire)

Marvin Gaye - Let's get it on



Recordado para o tema "Paixão" num desafio da "Fábrica de Letras"

15/02/2008

Escrever à tarde

Palavras, sons e imagens… sentidos! Tudo o que é preciso. Uma pletora de sensações. Músculos, veias, a pele a latejar, o toque, que tanta falta faz, o contacto forçado, a trepidação e a velocidade. Uma raiva crescente que desagua na paixão como um grito animalesco que se harmoniza em música. Sinto o cheiro de um perfume de infância e o gosto de algo do passado que ainda consigo saborear. Há folhas em branco onde nem escrevo o que não digo e apenas um nome na parede, há o castanho nos olhos, não meus, que reflectem a imagem de uma pessoa que não sou eu e nada mais. O que é isto de sentir, esta consciência que temos de nós e do que nos rodeia? Sentir é viver, receber sem questionar, apenas e só… sem preocupações, volume no máximo, a vida como deve ser.


(João Freire)




Incubus - The warmth



Recordado para o tema "Paixão" num desafio da "Fábrica de Letras"