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27/08/2023

Os químicos da felicidade

Habituámo-nos a estar sozinhos. A ideia de uma relação para a vida toda entre um homem e uma mulher que víamos nos filme e livros já não nos parece atraente e a facilidade de uma relação à medida que podemos pesquisar facilmente nos telemóveis de acordo com parâmetros pré-estabelecidos, é muitas vezes apenas aparente. As vontades muitas vezes não coincidem, a individualidade impera, surgem novas complicações que vão desde o simples iniciar da conversa, passando pela consideração que agora temos de ter com os pronomes, o género, a sexualidade, o tipo de alimentação, a filiação política entre milhares de outras coisas para as quais estamos mal preparados e que causam mais ansiedade do que interesse. É por isso que muitas vezes perdemos mais tempo na escolha do que na conversa e no desenvolvimento das ligações em si e apostamos mais em procurar pessoas para momentos, seja para viajar, para sexo casual, orgias, swinging, para jogar Quiz Planet ou apenas para conversar do que para relações a longo prazo. E mesmo quem acha que procura relações 'tradicionais' muitas vezes pondera se não estará melhor sozinho, porque dormir acompanhado parece uma boa ideia até que nos lembramos que tínhamos uma cama só para nós e porque a ideia de ter roupa ou pêlos espalhados por todo o lado assusta qualquer um, mas também porque, com tanta escolha à nossa disposição, é mais difícil aceitarmos qualquer comportamento por mais pequeno que seja que não compreendemos ou do qual não gostamos. E é por tudo isto que, apesar de contraditória, neste mundo tão ligado, parece haver uma tendência para a solidão. A solidão é cómoda. Não temos de nos preocupar com ninguém, partilhar nada, ajudar ninguém, fazer compromissos, nem sequer arriscar conhecer os familiares e se é verdade que não temos as regalias desse tipo de relações, também é verdade que não temos as complicações e arranjamos alternativas, chamemos-lhes sucedâneos da felicidade, seja a família, amigos, animais de estimação, o trabalho, as idas ao ginásio, as partilhas que fazemos nas redes e aplicações sociais ou o onanismo, claro, e que nos permitem as doses diárias daqueles químicos que nos fazem sentir bem.

(João Freire)

11/09/2011

I went to brush something off my cheek and it was the floor*

Talvez seja necessário bater no fundo quando se está a chegar ao fundo. O fundo pode ser um catalisador de uma recuperação em grande. Há qualquer coisa de reconfortante na constatação de que nada pode ficar pior do que está e isso alarga os nossos horizontes. Só quando sacudimos o pó e olhamos à volta é que tomamos o assunto nas nossas mãos e fazemos alguma coisa para sair do buraco onde nos metemos, procurando as melhores possibilidades, arranjando soluções, descobrindo caminhos e atalhos que nos levem de novo ao cimo e à luz. Muita gente é ajudada quando está à beira do fundo e nunca chega a esse fundo regenerador, na realidade, cada vez é mais difícil bater no fundo, porque numa sociedade tão bem inter-ligada através de meios de assistência e comunicação omnipresentes, qualquer pessoa que não nos conhece para além do que superficialmente mostramos através de letras e imagens num ecrã está disposta para uma palavra de ânimo, para uma mãozinha que nos segura e apoia antes de cairmos. A pena, a caridade influem negativamente nas pessoas na medida em que as acomodam à vida que levam, habituando-as a uma sobrevivência pacífica na dependência, à estagnação na miséria, a deixarem-se estar. Mas a revolta é precisa, a indignação é precisa e estarmos fartos de algo é o primeiro passo para mudarmos. Muita gente emigrou, acabou relações, despediu-se do emprego, deixou algum vício [ou até entrou em incumprimento, se levarmos a coisa para a escala macro-económica. Avé Islândia], porque não havia outra solução, seja porque foram encostados à parede por familiares ou amigos, por uma condição médica, o que seja! Ou até simplesmente porque interiormente essa situação atingiu níveis de insustentabilidade insuportáveis.
Às vezes o nosso caminho passa por buracos, uns mais fundos outros menos, mas só atravessando esses buracos nós mesmos podemos seguir em frente.

Alice In CHains - Down in a Hole


Reaproveitado para o desafio de Janeiro da Fábrica de Letras, subordinado ao tema "Metamorfose

*A citação foi ouvida e vista no programa No Resevations de Anthony Bourdain. O Google diz-me que o seu autor é Raymond Chandler. Numa tradução livre, quererá dizer algo como "ia para sacudir alguma coisa da minha face e era o chão."

08/09/2011

A necessidade de ocupar o cérebro ou tudo aquilo que fazemos para agradar às mulheres

Procuramos durante toda a vida manter o cérebro ocupado, mesmo que o façamos sem saber. É impossível vivermos sem fazermos nada, é impossível existir alguém que consiga estar meros minutos sem fazer nada e é por isso que existem televisões nos quartos e livros nas cabeceiras das camas… e é por isso que procuramos constantemente alguém com quem compartilhar essas mesmas camas. Dêem-me alguém que esteja uma hora sentado num quarto e eu apresento-lhes um insano. Nada tão perigoso como um homem deixado a sós com os seus pensamentos. Perseguimos, queremos, desejamos milhentas coisas mas só o fazemos para saciar o nosso cérebro, acalmando-o... Amansando-o! Assim surge a música, os livros, as viagens, o desporto, a escola, o trabalho, o amor, a família, os amigos, a religião, assim surge tudo. Senão morríamos devagarinho, numa espiral de depressão impulsionada pelos nossos pensamentos avulsos que nos anularia até à morte. A vida e aquilo que se chama de felicidade faz-se da superação de etapas bem definidas que se foram cristalizando à custa dessa necessidade de ocupação, mas também se faz de experiências novas que vamos acumulando para estimular esse vórtice de sensações e reacções químicas que constituem o cérebro. É essa sede voraz que nos move, conduzindo-nos pela rotina, fazendo-nos evoluir até à superação.



P.S. - Alguns dos excertos apresentados não são reais, como por exemplo aquele em que aparece alguém a correr sobre a água, que era uma campanha de marketing, como se pode ver aqui. É impossível que algo com a massa e estrutura de uma pessoa consiga andar sobre a água... já um gato!

19/06/2009

Cuba



Um dos melhores e, ao mesmo tempo, frustrantes aspectos das viagens que vou fazendo por sítios tão exóticos desse mundo... como Braga, Lisboa, Caldas da Rainha ou Montemor-o-velho, é a descoberta de que onde quer que esteja, independentemente do país, da sua língua ou cultura, tudo é mais ou menos igual naquilo que é a essência dos povos, do bom ao mau, nas pessoas e nos locais, acabando eu por estar lá, nesses sítios, da mesma forma que estou em Portugal, pensando lá nas mesmas coisas que penso quando estou cá, como, por exemplo, na constatação da minha recém-descoberta calvice. Há diferenças certamente e são essas que nos captam a atenção, mas é percebendo essas diferenças ténues entre povos que entendemos a humanidade e a força do que nos une a todos enquanto raça. Há coisas que não mudam e que são iguais em todo o mundo.

Tudo o resto faz parte de uma conta elaborada que fazemos com nós mesmos. Há o positivo e o negativo e é a diferença entre essas parcelas que ditará se a viagem foi boa ou não. Isto é verdade para uma viagem a Cuba como o é para a viagem que é a vida.

Em Cuba há muita coisa positiva, desde logo o povo, que é sempre prestável e simpático, mas também o clima e as praias, a fruta e as bebidas típicas, os carros antigos que populam as cidades, a arquitectura colonial e do período pós-revolucionário e até a imagem panfletária da liberdade de Marti, nas pinturas que invadem as paredes, com Cienfuegos, Guevara e Castro a despontar, uma imagem que, apesar de anacrónica, acaba por nos tocar. Nisto tudo, Cuba é cor e é ritmo, e essa é a marca cubana caribenha que tem a sua epítome na capital, Havana. Mas há também o lado negativo, desde a decadência de um sistema político que força a pedinchice na forma dos ginetero(a)s, eternos negociantes de tudo, que perseguem os turistas em troco de uma moeda ou duas (sem que haja insegurança - virtudes de um regime militarista -, nem tão pouco antipatia), vivendo em casas degradas que não são completamente suas, comendo o que a restrição de alimentos não proíbe, conduzindo carros que mantêm a todo o custo e que, inevitavelmente, acabam por não ser completamente seus, sendo utilizados como táxis sobre os quais, como em tudo o resto no ainda país de Fidel, acabam por incidir impostos estatais que impossibilitam qualquer prosperidade individual.

Os cubanos não se queixam, adaptam-se, permitindo-se ao luxo de se orgulharem do seu país perante o mundo (contributo da repressão americana, que instila a rivalidade nos dois povos e que é bem visível por toda a ilha, em especial no jogo de crianças que todos os dias se desenrola no ecrã da casa de interesses norte-americana, bem perto do famoso Hotel Nacional, onde surgem mensagens contra o regime, de pronto respondidas, de forma igualmente infantil, pelo astear das dezenas de bandeiras revolucionárias cubanas que a todo o custo tentam tapar as letras escritas a vermelho que vão passando do outro lado do arame farpado). Talvez - sem essa petulância americana e orgulho saloio por parte do governo cubano - não existisse tal antagonismo que impede o diálogo e a harmonia. Mas desenganem-se os que confundem orgulho pela noção de um país e o conformismo. Os cubanos não aceitam tudo e há um sentimento de frustração bem presente, nomeadamente no que diz respeito à castração das liberdades mais básicas, e que invade grande parte da população, mas cabe-lhes a eles, os cubanos - e é isso que os americanos, desde Kissinger, não entendem -, decidir e agir sobre o seu futuro enquanto povo.

Historicamente, os cubanos já provaram que têm capacidade para sonhar e actuar em conformidade com os seus desejos de liberdade
, foi isso que Fidel, Raul, Che, entre outros camaradas fizeram quando partiram do México a bordo do Granma (em exposição no Museu da Revolução ao lado dos destroços de aviões americanos abatidos aquando da tentativa de invasão naquela que ficou conhecida pela invasão da Baía dos Porcos) em direcção a cuba, mas fazer a revolta é substancialmente diferente de governar e essa lição já está bem aprendida pelo povo cubano.

Se a viagem foi boa? Claro que foi bom, mas (o maldito mas), apesar de tudo, há um sentimento que está sempre presente: o sentimento de estarmos a ajudar a perpetuar o estado das coisas.


(João Freire)

01/03/2009

O mundo das ideias

Aqueles gestos e trejeitos, acompanhados de sorrisos de gozo e superioridade, que Sócrates demonstra no XVI Congresso do PS denunciam-no. Como político que é, ele não pertence à realidade, nenhum político pertencerá. A política inscrever-se-á mais no reino de uma meta-realidade, ao jeito do mundo das ideias de Platão, do que na realidade. Nessa meta-realidade há uma ideia das coisas mundanas, uma ideia de um serviço nacional de saúde, uma ideia de Educação, Justiça e de Equidade Social, mas pouco dessa ideia é transportado para a nossa vida, para – continuando a referência a Platão – o mundo dos sentidos. Os políticos discutem de forma abstracta números, medidas, relatórios, sem se aperceberem muito dos efeitos práticos de tudo o que discutem. A consequência é a ineficácia e a subversão. Por isso riem, por isso corrompem e são corrompidos, por isso debatem vitórias e conquistas políticas entre si ao nível dessa realidade inatingível que é a política dos partidos, a política dos debates e discursos, dos sindicatos e grupos de pressão/interesses, uma política sem vítimas, tal é a distância que os separa destas. Em todo o processo político de emanação do poder, há uma descentralização burocrática, mas acima de tudo física, que desresponsabiliza cada um dos patamares, desde a pessoa que nos atende no balcão das finanças àquele que se deita em S. Bento e todos (naturalmente, os políticos ou funcionários públicos, os meios de comunicação e os cidadãos ou privados) participam nesse devir catastrófico.

(João freire)

31/01/2009

Antevisão da história

O objectivo deste post, antes da ESPN retirar o vídeo, era projectar o jogo de Domingo (1 de Fevereiro de 2009) entre Nadal e Federer. Previa eu que se iria fazer história. Por um lado, Roger Federer tentava igualar o recorde de Pete Sampras ao conseguir 14 títulos de Grand Slam; por outro, Nadal, impedindo o recorde de Federer, tentava mostrar ao Mundo que também ele pode vir a ser considerado o melhor de sempre. Já bateu Federer em quase todas as superfícies: Terra batida, onde Nadal é seguramente o melhor de sempre, na relva de Wimbledon, no ano passado, onde Federer era rei há já cinco anos, naquele que foi considerado um dos melhores jogos de sempre e no Plexicushion (que é o terreno do Open Australiano depois de substituir o rebound ace). Falta o DecoTurf do Open Americano. No entanto, fica sempre a dúvida que impediu que no Domingo se fizesse história. Quem é afinal o melhor? Nadal bateu Federer, mas fica a dúvida se há mérito e superioridade de ténis ou apenas um ascendente psicológico inexplicável. Federer fez mais um ponto que Nadal em termos absolutos, fez mais pontos no serviço do adversário e fez mais Winners. Apenas as regras específicas do Ténis impediram que não fosse Federer o vencedor. É fraca desculpa, eu sei, mas temos de esperar por Roland Garros, Wimbledon (que Nadal venceu no ano passado, mas à custa da recuperação de Federer) e pelo Us Open, no qual Nadal ainda não venceu.

Afinal, ainda não se fez história...

Fica este vídeo para mostrar porque é que tanta gente gosta do Federer.

30/01/2009

O problema disto tudo é a má-educação

O problema disto tudo é... em parte, haver pessoas que dizem “o problema disto tudo”, porque normalmente são as mesmas pessoas que dizem “o que faz falta é um Salazar em cada esquina para manter a ordem” - e toda a gente sabe que as pessoas que dizem isso são precisamente as pessoas mais desordenadas que existem e que não fazem a mínima ideia de qual seja o problema - mas dizia eu: o problema disto tudo é a falta de educação. Tudo o que se passa de mau na nossa sociedade, desde os conflitos internacionais às filas do centro de saúde, é um problema de educação, de má educação neste caso, que tem as suas raízes na mais tenra das idades. Os culpados? Todos, porque todos nós em determinada altura somos responsáveis pela transmissão de valores aos outros, seja enquanto amigos, pais, avós e restantes familiares, colegas de trabalho, superiores hierárquicos, qualquer coisa, estamos sempre a imprimir valores nos outros e a receber essa mesma impressão. Por sermos mal-educados, por não nos terem ensinado a dizer obrigado quando recebemos algo ou bom dia quando chegamos ao pé de alguém, é que nos tornamos em bestas irracionais que apenas vivem para si, sem pensar nos outros. Assim se explica, por exemplo, que as pessoas queiram trabalhar o menos possível, mas ao mesmo tempo quererem ser milionárias. Aliás, estas pessoas têm tanta consciência da sua inutilidade que nem milionárias querem ser, contentando-se apenas em ser ricas.
- “Nem precisava do primeiro prémio - nem mereço, pensarão -, bastava-me o segundo”
E basta sempre o segundo prémio, desde que dê para viver e montar um negociozito para não apanhar sustos na velhice.
Uma pessoa que não se importa com os outros não vê mal nenhum em estar à conversa com um colega enquanto as pessoas se vão arrumado em magotes numa sala de espera.
É o cúmulo da desresponsabilização. E ninguém tem nada que ver com os horários. A hora de abrir é a hora de começar a preparar tudo para preparar o início da preparação do trabalho e se alguém quiser ser atendido tem de esperar porque:
- "Ainda agora abri!"
A hora do fecho é normalmente antecipada. Começa quando se faz a caixa, começa quando se pendura a bata e varre o chão ou se apagam as luzes e já não se pode atender nada nem ninguém, já não se faz mais um c@r#lho, como dizem nas Caldas da Rainha. Fecha a loja, fecha o consultório, a repartição de finanças, a sucursal, o que quer que seja, fecha!
A culpa não é do sistema, ou melhor, não é só do sistema, seja esse sistema o bancário o de saúde, o de Segurança Social ou qualquer outro, a culpa é das pessoas mal-educadas que atravessam esses sistemas de cima a baixo. São essas pessoas que olham para os outros como algo inferior, como algo que tem de se sujeitar à vontade do mecanismo deficiente que compõem, que dizem “volte amanhã”, “agora tem de aguardar”, “não posso”, “vou passá-lo ao meu colega” quando não tem de voltar amanhã, quando não tem de aguardar, quando não tem de ser passado ao colega! 

São estas pessoas que tocam a buzina aos outros quando estes fazem alguma alarvidade automobilística mas que ignoram as buzinadelas dos outros, reagindo até com incompreensão aos seus motivos
-“O que é que queres? Passa por cima"
São estas pessoas que entre não abrir falência e comprar um Aston Martin escolhem o carro, porque vêem a empresa como uma extensão de si e o lucro como dinheiro de bolso. São estas pessoas que acusam os outros com as mãos manchadas de tudo o que suja.

- “Se fossem mas é ver dos grandes e dos políticos.”
Mas essas pessoas são “os grandes e os políticos”, os doutores e os engenheiros e os banqueiros e os magnatas das petrolíferas e multinacionais, que despedem, que aumentam os preços, que fazem outsorcing e Lay-off, que oferecem tachos, permitem cunhas, recebem luvas e guardam sacos, que cospem no chão e deitam lixo pela janela do carro, que “têm de passar à frente”, que dão pontapés a animais crianças e velhos, que falam da vida dos outros, que atendem primeiro as pessoas ao telefone do que as que se dignaram a deslocar-se ali, que têm sempre razão, que sabem tudo e deixam o carro em segunda fila quando há um lugar vazio a dez metros “só porque demora pouco”... penso até que serão sempre as mesmas pessoas. Se não forem, há, no entanto, um sentimento que as une: o desrespeito pelos outros. São, enfim, estas pessoas que não aprendem e que não se desenvolvem enquanto seres humanos, cidadãos e trabalhadores.
Mal-educadas!
...E que levam as outras ao desespero e a um sentimento de frustração derreante – o sentimento generalizado de que não vale a pena a honestidade.
 

Há uma revolta por fazer, um “Chega!” por gritar e começa a ouvir-se um burburinho lá ao longe, uma multidão que se junta e caminha forte na calçada do desenvolvimento, sem medo, armada com palavras e bombas – a bem ou a mal.

(João Freire)

Nota: Poder-se-ia pensar numa solução, no simples ensinamento ao longo da vida da cidadania. Porque não uma disciplina escolar (não uma disciplina inócua como as que se vão acumulando nos currículos escolares, mas uma verdadeira disciplina preparada por psicólogos, sociólogos, educadores, etc) que leccionasse o conjunto de leis, direitos e deveres importantes ao cidadão, que mostrasse formas e exemplos correctos de actuar na escola, na rua ou no trabalho, desde os aspectos mais corriqueiros como a simples cortesia perante os outros às formas de liderança, trabalho em grupo, e resolução de conflitos? Quão bom seria se se ensinasse as crianças sobre a forma correcta de reclamar a má prestação de um serviço!

11/12/2008

Crónica sei lá sobre o quê

Fico sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. Olha, as flores da jarra estão a murchar na água cinzenta, as folhas soltam-se, uma a uma, dos caules, tudo isto em silêncio, sem pressa, a tombarem na toalha, enroladas, secas. Dizia eu que fico sempre espantado
com a vida das pessoas: até o que lhes dá prazer me surpreende. Meu Deus, o que se agitam, tanta pressa sempre. E olhos ocos, aflitos. Tenho agora mais flores na sala do que num velório. Vêm daqui e dali com cartõezinhos simpáticos, a lembrança dos vivos. Se calhar morri sem dar por isso e continuo a existir na memória dos outros. Tocam à campainha e é um sujeito com flores. Estendem-me um papel

– Assine aqui

garatujo a hora, garatujo o nome, carregam no botão do elevador, somem-se e eu com aquilo nos braços. Vou deixando os ramos não importa onde: não há esquife aqui, não os posso encostar ao defunto. A voz da minha mãe ao telefone, a gritar como sempre. Coitada, tem passado algumas aflições com os filhos. Olho para ela e vem-me à ideia que a velhice depena as pessoas, tira-lhes bocados, às vezes dá-
-me a impressão que à minha mãe falta um pedaço da crista quando a vejo sentar-se à mesa ou que o tempo, como uma borracha, lhe apagou parte das feições, quebrou um bocadinho a voz, poliu os dedos que se tornaram sedosos, frágeis. Ali está ela a olhar para dentro, por vezes numa espécie de sorriso, quer dizer não é a boca que sorri, o sorriso à frente da boca, a flutuar sozinho. Eu na outra ponta da mesa, no lugar do meu pai a pensar

– Como é que o garfo vai atravessar o sorriso?

com medo que o garfo o leve para o prato e não leva, o sorriso continua intacto, perfeito, e é por baixo dele que a minha mãe mastiga. Chama-se Margarida. Em criança julgava que as pessoas, à medida que o tempo ia correndo, mudavam de nome. Por exemplo Rita assenta bem numa rapariga, não assenta tão bem numa senhora de idade e então trocavam o Rita por Clotilde ou Leopoldina, por exemplo Joana não calha numa ruiva e então muda-se para Beatriz e ao começar a fazer madeixas recupera o Rita, por exemplo Hermes desafina num bébé de maneira que fica à espera que o bébé tenha cinquenta anos e entretanto dizemos Pedro, mas a minha mãe foi Margarida sempre e não a concebo Fortunata nem Elisa nem Cátia embora para mim fosse

– Mãe

e estava encerrada a questão. E lá vai o garfo sem amolgar o sorriso. A única pessoa que não usava o

– Mãe

era o meu pai e as empregadas não

– Mãe

nem

– Margarida

as empregadas

– Senhora

o que me parecia um pleonasmo, como pôr ketchup em cima das rodelas de tomate. Os meus colegas de escola davam igualmente

– Mãe

às mães deles, o que eu achava estranho até perceber que

– Mãe

era o nome mais vulgar em Portugal. Curto, rápido, preciso e fácil de gritar durante o horrível suplício do corte das unhas, sobretudo o mindinho que uma tesoura feroz atacava magoando-me sempre, ou então era o medo que me magoasse que me magoava. Horas tremendas

– Que horror essas unhas

ordens horríveis

– Chega-te mais para a luz

conselhos tenebrosos

– Não te mexas agora

e isso, o arrancar dos pontos pretos com o aviso

– Está quase

seguido da exibição de uma coisa microscópica na ponta do indicador, sem mencionar a sopa

(– Quem não tem fome de sopa não tem fome de doce)

e a lavagem dos dentes, constituíram os suplícios cardinais da minha infância. Entretanto acho que me desviei do princípio desta crónica, ou seja de ficar sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. E as folhas das jarras a desprenderem-se dos caules. Se me deitasse no chão da sala acabavam por cobrir-me por inteiro e eu debaixo delas dando pela empregada a abrir a porta, a olhar para aquilo e a varrer-nos na direcção da pá: lá vou eu para o contentor dentro de um saco plástico, cheio de perfumes moribundos como os das tias-avós, rodeadas de essências vagas e tristes. Claro que se eu chamar a dona Olívia não liga: não acredita que as plantas falem e para o caso de se atreverem a falar nada melhor do que empurrá-las com força para o fundo. O que os outros se agitam, tanta pressa sempre, e eu quieto.
Sou um narciso, uma begónia, uma túlipa, ou antes restos de narcisos, de begónias, de túlipas, tão doces, tão pálidas. Mas não terei olhos ocos nem aflitos, apenas um caule tranquilo e por cima sacos plásticos dos vizinhos. Hoje voltei para casa, a seguir ao jantar, atrás de um bêbado.
Ia de um lado ao outro do passeio,
majestoso, lento. A certa altura parou a fazer chichi contra uma parede, um chichi interminável, uma abundância de fonte. Lembrei-me do bêbado de Pedro Páramo

– Ai vida não me mereces

e de caminho dei-lhe uma palmada no ombro que por pouco não o fez desmoronar-se, caindo tijolo a tijolo na rua mal iluminada, com grandes manchas de sombra que afogavam os automóveis estacionados, os prédios. Jantei sozinho num restaurantezito onde uma rapariga de cabelo pintado de loiro jantava sozinha. Ao levantar-me tinha saído.
Para onde? O que fará agora?
Sentada diante da televisão, com uma revista esquecida nos joelhos? A ler? À espera de um telefonema que não chega? Na janela em frente dois homens penduram um quadro na parede, afastam-se a observar o efeito, endireitam-se. Vinte e três horas e vinte e três minutos, vinte e três horas e vinte e quatro minutos. Hoje de manhã a televisão holandesa a entrevistar-me: deve ser uma estucha para os jornalistas porque não falo da minha vida e muito menos dos meus livros, eles que se defendam sozinhos. A certa altura silêncio e a produtora a perguntar-me o que pensava eu. Não respondi. Para quê?
É que se respondesse dizia-lhe que não pensava em nada, pensava no vácuo.


(António Lobo Antunes, Crónica da Visão de 23 de Outubro de 2008)

05/12/2008

Política de bigode

Em Portugal protesta-se pouco, já o tenho dito a quem quer ouvir. E não ironizo. É a mais pura das verdades. É certo que, em pleno clima de contestação no sector do ensino, dizer que se protesta pouco possa parecer ridículo, mas não é. E não é por uma simples razão: porque em Portugal não se protesta com boas ideias, mas sim com muita política* – a eterna discussão entre a quantidade e a qualidade, portanto, ou, nas palavras desse magnânime politólogo que é o senhor Quique Flores, “corre-se muito, mas nem sempre bem”. E ora bem, respeitando a analogia, é esse o sentido da minha crítica à forma de protesto que se faz em Portugal, que é, nalguns casos, abundante, mas raras vezes precisa e eficaz (Também não me desresponsabilizo). Os professores podem ter toda a razão do Mundo, mas apresentarem-se a terreiro, sob a batuta do sindicalista de bigode**, o senhor Mário Nogueira, com números recordes de participantes, parece-me, no mínimo, curto. E sei que haverá várias razões para discordarem com o modelo de avaliação, sei também que todos afirmam e reafirmam que não dispensam uma avaliação coerente, mas não consigo dissociar a partidarização da questão, desde logo, devido à concomitância eterna dos sindicatos com o Partido Comunista Português – e todos vimos o mesmo delegado Sindical de bigode ao lado dos seus camaradas no congresso do PCP, mas sobretudo pela intransigência nas negociações que transparece para a opinião pública e os pedidos de demissão da Ministra Maria de Lurdes Rodrigues, porque, por muita higiene política e ética que se possa ter, é inegável que tais artifícios não sejam mais do que simples armas de arremesso político, catapultas, por exemplo, à custa dos professores, que são arremessados com fins eleitoralistas. Proteste-se, mas com qualidade.


*A política de que se fala no texto não é a grande política, a filosofia política propriamente dita (antes fosse!), mas será a politiquice, numa definição mais pejorativa, logo, mais correcta.
**Recordo-me de alguém me dizer: "nunca confies numa pessoa de bigode", do latim Non confiare bigodum (?). Foi um conselho de alguém ou ouvi em qualquer lado, mas marcou-me e ficou para sempre, daí falar com alguma desconfiança do senhor Mário Nogueira, de quem não tenho a mínima razão de queixa, a não ser, lá está, essa desconfiança. A parte do Latim é treta, mas, no entanto, se querem latim e conjunto capilar facial, fica esta: Barba non facit philosophum***
*** Deve ser o primeiro texto no qual um asterisco tem o seu próprio asterisco, mas urge referir que tal necessidade por línguas mortas se deve à inveja pessoal. João Freire,
Desde 1980 a copiar a mana, que também pôs no seu blogue uma expressão em latim no fim do texto de 29 de Novembro

(João Freire)

28/11/2008

Fala a Loucura:

Depois de ler o Crest© neste texto, cada vez mais acredito que há muita gente louca a ser tomada por sã, ou então, há muita gente que pensa que encontrou a verdade, mesmo sendo "lebre". Em ambos os casos, devem pensar que são garimpeiros com sorte, e por isso, toca de espalhar aos 4 cantos, as pérolas que só aos imberbes chegam, como tablóides sensacionalistas.
"O fim da blogosfera", mas o que é isto?! Nem no meu dicionário online nem no meu corrector ortográfico do blog a palavra "blogosfera" aparece! Sendo assim, como pode acabar algo que nem sequer existe?! (Ah! Valha-nos a Wikipédia) Então existe e não é coisa pequena para vir um iluminado qualquer dizer que está para acabar, pois assim lhe foi dito conforme as escrituras.



Lembro-me do "Elogio da Loucura" do Erasmo de Roterdão, um livrinho pequeno, coberto de sátira, e que aconselho a todos aqueles que ainda se consideram espantados de existir :)
Deixo o final do ensaio, que me parece demasiado actual e propositado:

AVISO PARA QUEM AINDA NÃO LEU: CONTÉM SPOILERS!

"Acontece que voltam os seus sentimentos? Protestam que positivamente não sabem de onde vêm nem se existem somente na alma ou também no corpo, nem se estarão acordados ou dormindo. E de tudo depois que viram, ouviram, disseram, ou não se recordam ou fazem uma ideia tão confusa como se tivessem sonhado. Só sabem de uma coisa: que se acham felicíssimos no seu delírio. Eis porque sofrem a convalescença do cérebro e tudo sacrificariam de bom grado para serem perpetuamente loucos nessas condições. No entanto, toda essa felicidade não passa de uma tenuíssima migalha da mesa celeste: imaginai, agora, o que não será o eterno banquete!
Mas parece que, sem refletir no que sou, vou ultrapassando há bastante tempo todos os limites. Por conseguinte, se tagarelei demais e com demasiada ousadia, lembrai-vos de que sou mulher e sou a Loucura. Ao mesmo tempo, porém, não vos esqueçais deste antigo provérbio dos gregos: Muitas vezes, também o homem louco fala judiciosamente. A não ser que pretendais que, nesse provérbio, não estejam incluídas as mulheres, pois eu disse homem e não mulher.
Esperais um epílogo do que vos disse até agora? Estou lendo isso em vossas fisionomias. Mas, sois verdadeiramente tolos se imaginais que eu tenha podido reter de memória toda essa mistura de palavras que vos impingi. Em lugar de um epílogo quero oferecer-vos duas sentenças. A primeira, antiquíssima, é esta: Eu jamais desejaria beber com um homem que se lembrasse de tudo. E a segunda, nova, é a seguinte: Odeio o ouvinte de boa memória. E, por isso, sede sãos, aplaudi, vivei, bebei, oh celebérrimos iniciados nos mistérios da Loucura."

18/11/2008

A vergonha de não ter vergonha na cara

Há quatro anos, o administrador do Banco de Portugal Manuel Sebastião foi procurador do administrador do Banco Espírito Santo Manuel Pinho na compra de um prédio em Lisboa. Esse prédio era propriedade do Banco Espírito Santo, tendo Manuel Sebastião servido de intermediário numa compra entre o BES e um administrador do BES. Manda a boa prática que um administrador de um banco não se envolva em negócios pessoais com o próprio banco que administra. E manda a lei que o Banco de Portugal supervisione o funcionamento do Banco Espírito Santo.
Manuel Sebastião viria mais tarde a adquirir um apartamento nesse prédio, entretanto remodelado.

Em Março deste ano, o ministro da Economia Manuel Pinho nomeou Manuel Sebastião presidente da Autoridade da Concorrência. A lei exige que a Autoridade da Concorrência seja um "regulador independente". A possibilidade de ela entrar em conflito com o Governo é elevada, sendo no mínimo discutível que um ministro nomeie um amigo pessoal - e seu inquilino - para desempenhar tal cargo. Certamente por achar que não havia nada para esclarecer neste caso, o Partido Socialista chumbou, na sexta-feira, a audição a Manuel Pinho e Manuel Sebastião no Parlamento, pedida pelo CDS-PP.
Estes são os factos. Confrontado com eles, o que é que o primeiro-ministro de Portugal decidiu comunicar ao País? Que não encontra no que foi publicado "nada que seja contra a lei". O que até é bem capaz de ser mentira, mas admitamos que possa ser verdade. Só que José Sócrates não ficou por aí. E acrescentou também não ter encontrado "nada que seja criticável do ponto de vista ético". Ora, isto são declarações absolutamente vergonhosas, e só mesmo por vivermos num país onde a mentira na política é aceite com uma espantosa tolerância é que um primeiro-ministro pode dizer uma barbaridade destas e sair de mansinho.

Se José Sócrates encontrasse um dos seus ministros a tentar arrombar um cofre com um berbequim diria aos jornais que ele estava só a apertar um parafuso. Afinal, também no caso da sua licenciatura o primeiro-ministro não viu nada de eticamente duvidoso nem de moralmente reprovável. Ora, o que me faz impressão não é que esta gente que manda em nós atraia a trafulhice como o pólen atrai as abelhas - isso faz parte da natureza humana e é potenciado por quem frequenta os corredores do poder. O que me faz impressão é o desplante com que se é apanhado com a boca na botija e se finge que se andava só à procura das hermesetas. É a escola Fátima Felgueiras, que mesmo condenada a três anos e meio de prisão dava pulinhos de alegria como se tivesse sido absolvida. Nesta triste terra, parece não haver limites para a falta de vergonha.

João Miguel Tavares in Diário de Notícias Online

02/11/2008

Sobre os filmes de Domingo

Há dias em que não apetece dizer nada, outros em que apetece dizer tudo, mas fica sempre a sensação de que muito do que dizemos não tem grande importância, porque descobrimos que não somos exemplo para nada, que não somos melhores do que ninguém, que somos, quanto muito, razoáveis e que o potencial que demonstrávamos redunda normalmente em nada, que o tempo passa por nós como passa por toda a gente e que no fim, vai tudo dar ao mesmo… que é nada.

Sendo assim, num dia em que muitas tretas passaram pela minha cabeça, fica aqui mais uma remessa delas, no embrulho pseudo-intelectual do costume, sobre os filmes de domingo.

Pensava o João:
Na vida real é mais difícil. Na vida real não só somos magoados como magoamos e não há final feliz que mitigue o sofrimento causado ao longo dos tempos. Experimentamos a nossa felicidade nos outros e apesar do nosso altruísmo, pensamos sempre e em primeiro lugar em nós. Admiro quem esquece, admiro quem ultrapassa os obstáculos que se vão colocando à frente sem olhar para trás – alguns nem sequer olham para o lado –, admiro também quem se conforma ou acerta à primeira e não precisa de tentar de novo, de destruir para construir, e admiro quem não chora. Cada vez estou mais convencido da nossa igualdade enquanto seres humanos e na nossa incapacidade em lidarmos com alguém para além da imagem deturpada que vemos no espelho. A comunicação, nomeadamente a que envolve formas de linguagem mais elaboradas como a fala e a escrita, é a maior conquista da espécie humana e poucos tendem a dar-lhe essa importância, embarcando por vezes em gritos mudos, amuos, zangas incompreensíveis por falhas que só nós vemos nos outros e depois, quando nos perguntam o que foi, o que se passou para estarmos assim, apenas respondemos um “nada”, como se fosse obrigatório compreender a evolução da nossa disposição. O que se segue é o ataque, uma resposta real a factos fictícios e é assim em todo o lado com toda a gente. É assim que nascem as discussões de namorados e as guerras entre estados.
Temos de apostar na sinceridade, na capacidade de pedirmos desculpa e aceitarmos os outros, enfim, num ecumenismo social trazido às relações humanas assente na aceitação e compreensão.

(João Freire)

27/10/2008

Quase

"Na minha próxima vida quero vivê-la de trás para a frente. Começar morto para despachar logo esse assunto. Depois acordar num lar de idosos e sentir-me melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a pensão e começar a trabalhar, receber logo um relógio de ouro no primeiro dia. Trabalhar 40 anos até ser novo o suficiente para gozar a reforma. Divertir-me, embebedar-me e ser de uma forma geral promíscuo, e depois estar pronto para o liceu. Em seguida a primária, fica-se criança e brinca-se. Não temos responsabilidades e ficamos um bébé até nascermos. Por fim, passamos 9 meses a flutuar num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quartos à descrição e um quarto maior de dia para dia e depois Voila! Acaba como um orgasmo! I rest my case."

Woody Allen

Acho que foi a coisa mais interessante que este gajo disse um dia. Mas, não está perfeita. E neste caso, neste caso Woddy, não me devias ter feito a desfeita, de me voltares a tentar enganar com as tuas merdas a atirar para o filosófico que à primeira vista até parecem verdades inquestionáveis. Então quando dizes, "Por fim, passamos 9 meses a flutuar num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quartos à descrição e um quarto maior de dia para dia e depois Voila!", certamente SÓ pensaste no tamanho do bebé, depois feto e a seguir embrião e células, mas o que também deverias ter questionado e que acaba por igualmente ficar mais pequeno é o útero da mamã, ao qual tu chamas de "quarto/spa". Logo, o quarto não fica maior porque o espaço é "ajustado" proporcionalmente ao tamanho do feto. O quarto, é assim do mesmo tamanho para ele, desde bebé a óvulo, e toda esta frase, e infelizmente, todo este texto perde um pouco porque tu és, invariavelmente demasiado sexista.

24/10/2008

Auto da Humidade

À Farsa seguinte chamam Auto da Humidade. Foi fundada sobre várias mulheres, que trabalhando no mesmo local, tudo as incomoda, principalmente o contacto entre elas. Foi feita em Lisboa e não será representada. Era de 2008 anos.

Entram nela estas figuras:

Luísa - A bipolar
Mónica - A querida
Té - A vizinha
Sónia - A miúda
Dina - A filha
Deolinda - A inchada
Helena - A bimba
Magda - A síndroma de tourette
Carmen - A sensata
Cátia - A adolescente
Antónia - A anã muda
Elisa - A desonesta
Lurdes - A justa

Parque de estacionamento da Empresa Humidade. Manhã.

Todas com excepção da Antónia - Bom dia!
Antónia acena com a sua mãozinha.
Sónia - Opá... os meus pais descobriram que fumo e querem levar-me à igreja para ser benzida!
Luísa - A sério? Mas porquê?
Sónia - Porque enquanto viver com eles, tenho que seguir as suas regras. Senão põem-me fora de casa. E eu tenho 18 anos. Não posso ir viver com o meu namorado.
Cátia - A minha mãe não me diz nada a esse respeito. É claro que se importa com isso, mas se sou eu que compro o meu tabaco e se sou eu que o fumo, desde que não fume ao pé dela e em casa, é na boa.
Sónia - Pois. Mas os meus pais são uma seca. Têm uma mente que parou de se desenvolver há 1500 anos.
Todas com excepção da Antónia - Ahahaha
Antónia sorri.
Luísa - Meninas, então! Trabalhar, trabalhar!

Elisa está na Sala dos Favos de Mel com Lurdes.

Elisa - Estou tão cansada. Estou de directa. Ontem fui a um concerto de hard-rock e cheguei a casa por volta das 6h. E dói-me a cabeça...
Lurdes - Ena! (mantém-se ocupada com o favo de mel, que desloca de um lado para o outro para ver a consistência do pólen)
Elisa - Não gosto nada como a Helena deixou a sala dos Favos.
Lurdes - Nem eu. (etiquetando com o seu nome a colecção de favos manuseados por ela)
Elisa - Está tudo sujo de mel, as ventoinhas estavam desligadas, as luvas usadas foram deixadas em cima das bancadas e as persianas que comprou não deixam entrar luz nenhuma. Deveria ter aberto as janelas quando saiu... estou tão cansada...
Lurdes - A Helena é uma bimba que não sabe mais. Estas bancadas que comprou no Ikea são tudo menos práticas. Sempre que cá vem, deixa isto feito em merda.

Toca o telefone. E Elisa que tinha ainda as mãos desocupadas, atende-o, soltando um "Ai" antes de levantar o auscultador.

Na secção de compotas e outros doces, Cátia e Té ajudam-se mutuamente.

Té - Esta compota com cerejas da Cova da Beira, está a vender bem. Hoje já telefonaram 1500 vezes para encomendar mais.
Cátia - Ya! Também eu falei com 1200 compradores novos. Passas-me o tabuleiro?
Té - Toma.
Cátia - Obrigada.

Mónica - Bom dia meninas!
Té e Cátia - Bom dia.
Mónica - Já atenderam muitos telefonemas?
Cátia - Telefonemas e visitas. Muitas vendas vamos fazer hoje.
Mónica - Que bom! Assim é que é!

Na recepção.

Carmen, Antónia, Dina e Magda, arrumam o escritório e o balcão de atendimento ao público.

Dina - Hoje a minha mãe vai passar por cá para levar uns doces.
Carmen - Ai sim? Que bom... amanhã vais tomar um pequeno-almoço de luxo.
Dina - Sim.
Carmen - São uma delícia.

Magda entretida com os mails de clientes, solta um "Porra"

Carmen - Então rapariga?!
Magda - Foda-se! Esta merda está lenta! Porra.
Luísa, que entretanto entrou - Ó menina Magda, tens que ter mais tento na língua. Nunca se sabe quando algum cliente pode entrar. Controla-te. Eheheh..
Magda - Sim. Desculpa.
Antónia sorri.

Mónica e Luisa encontram-se no escritório. Falam de Deolinda.
Luísa - Mas ó Mónica, a Deolinda está de baixa porque foi picada por 250 abelhas. Ainda por cima é alérgica à penicilina. Temos que esperar que ela recupere. Bem sei que ela aqui é a nossa Faz-tudo...
Mónica - Precisamos de contratar mais pessoal qualificado. E comprar mais fatos.
Luísa - Também acho. Mas os chefes preferem que aguardemos mais uma ou duas semanas.
Mónica - Mas eu tenho as miúdas todas ocupadas. Não lhes posso pedir mais horas e está a chegar o Natal. Tu sabes que nesta altura toda a gente se lembra dos doces.
Luísa - Ordens superiores minha cara. Não podemos fazer nada. Mas os fatos e máscaras para a sala dos favos de mel têm que ser comprados. E luvas também.
Mónica - Sim.
Luisa - Pois... não sei...
Mónica - Hum?
Luísa - Que foi?

Entretanto numa das casas-de-banho da Empresa.

Sónia - Fofinho? Olha vou sair um pouco mais tarde porque chegaram imensas paletes do Fundão e só hoje temos que conseguir 1500 compotas de framboesas.
Não me posso demorar porque as chefes podem descobrir que estou a telefonar-te daqui. Beijinhus.

Sala dos favos de mel.

Elisa - Fiz agora um comprador de mel na Holanda. O gajo diz que tem uma empresa de catering e que precisa de mel todos os meses.
Lurdes - Que bom...
Elisa - Enquanto estás aí a virar os favos, vou contar à Mónica e à Luísa. Elas vão-se passar.
Lurdes - Eheh... erm... Olha, traz-me umas luvas novas do laboratório se faz favor. Já não há nenhumas aqui.
Elisa - Está bem.

Epílogo:

Dina, Té e Cátia são excelentes vendedoras e são premiadas com o dobro do salário. Continuam na empresa durante as férias de verão.
Luísa e Mónica mantêm Deolinda na empresa apesar desta estar de baixa há quase 1 ano.
Magda tenta uma cura ao síndroma de Tourette nas Caldas da Rainha, durante duas semanas, mas depois de tantas piadas sobre os caralhos de loiça, tanto ela como o marido Rolando, pensam em emigrar para a Suíça e fazer muitos filhos loiros de olhos azuis.
Carmen sobe de posto e agora é encarregada do Laboratório. Nenhum doce, compota ou frasco de mel, sai da empresa sem antes levar o carimbo de qualidade, carimbado por ela.
Sónia sai de casa dos pais porque não quer ser benzida. Mora em Carcavelos com o namorado surfista num loft virado para a praia. Faz 19 anos em Agosto e pensa escrever um livro sobre as suas memórias.
Dina é contratada a full-time e consegue descobrir uma abelha num frasco de mel, só pelo cheiro.
Helena deixa de poder utilizar a sala dos favos de mel sem os Controladores. Um para utensílios Kitsch de fraco poder prático, outro para Higiene e Segurança no Trabalho.
Antónia solta um "Doem-me os braços do peso das paletes" e deixa de ser muda.
Elisa nunca chegou a trazer as luvas para Lurdes e é apanhada por esta a colar por cima dos seus favos etiquetados, o seu nome. Trabalha agora na sala dos favos sozinha e imagina como teria sido tudo melhor se não tivesse enganado a colega.
Lurdes obtém o título de empregada do mês. Recebe das chefes o pin "Melhor Manipuladora
de Favos" e já reúne com os seus clientes no escritório. Tem livre trânsito no Laboratório.
Deolinda fica de baixa por mais 5 anos. Mesmo depois de todos os inchaços passarem, continua a achar-se um enorme Ferrero Rocher. Mantém a mesma medicação por mais um ano e pensa fazer uma viagem espiritual ao Tibete. Vomita sempre que lhe falam em mel.

FIM

(Lúcia Freire)

20/06/2008

P R E V I S Í V E L




como seria de esperar, hoje toda a gente fala de futebol, mesmo aqueles que não sabem o nome dos jogadores, opinam e alvitram sobre o jogo de ontem entre Portugal e Alemanha, em Basileia na Suíça. eu não gosto de futebol. acompanho alguns jogos da selecção por puro desporto, o que até é irónico, porque o que gosto realmente é de estar acompanhada com os amigos, ver-lhes as reacções durante o encontro e saborear com eles o prazer da vitória. ahahah, e saboreamos a derrota também, porque é nossa e isso ninguém nos tira. e assim, qualquer um dos desfechos é motivo suficiente para festejar.
Portugal perdeu, e apesar de também achar que fomos roubados pelo árbitro, que ignorou faltas atrás de faltas a favor dos alemães, não se esquecendo de apontar todas e mais algumas contra nós, a verdade é que a equipa só jogou bem nos últimos 5 minutos... é o chamado carácter "lusco-fusco" dos nossos jogadores.
há ali uns segundos em que os gajos, sentindo a pressão do final do tempo de compensação, até jogam bem e conseguem marcar o golo que era esperado logo ao início da partida, mas enfim, o que interessa é o amor.
e eu que não ia falar de futebol. eu que não quero falar de futebol quando toda a gente o está a fazer. eu que nem sequer gosto de futebol, deu-me para isto!
bah!
este texto ia ser imprevisível, descontraído e diferente. Não ia falar de Portugal, de futebol ou de bandeiras nacionais.
podia falar das 3 vernissages a que compareci depois do jogo. podia falar da falta de bebida em duas delas e da grande qualidade dos gin tónicos da segunda. que por acaso, e só por acaso era de um artista alemão.
podia falar disto tudo e ainda comentar a arte. mas como o título do post já diz tudo, fico-me pela minha previsibilidade e saio de fininho com o rabinho entre as pernas para não me armar em fingida a atirar para o melindrado.

e ps: o torneio de wimbledon está à porta e ao contrário do que aconteceu no futebol, desta vez quero que a Suíça ganhe, pelas mãos do Federer.

12/06/2008

É tempo de apaparicar-me



Não sou gaja de muita manutenção. Mas é claro que gosto de sair de casa fresca, limpa e cuidada.
É raro usar maquilhagem, grandes penteados ou saltos altos.
Roupas caras com brilhantes ou colares de pérolas, anéis ou brincos é para esquecer.
Sou "low profile" mas tenho bom gosto.
Sou de "trato fácil" e gosto de coisas simples, como ficar em casa a ver filmes ao serão ou a jogar ou por outro lado, sair à noite e ser convidada para ver a Orquestra Filarmónica de Berlim na Staatsoper alemã, depois de ter comido na Mcdonald's de Potsdamer Platz.
Acredito nos cremes hidratantes, super-hidratantes e gordos, apesar de ter a sorte de ter nascido com uma pele fantástica que só no verão pede uma hidratação mais prolongada e duradoura.
Uso champô para cabelos normais, mas escolho sempre um amaciador bom, que uso moderadamente.
Não sou nenhuma fashion victim, e até detesto ir às compras, mas quando o faço tenho o vício de comprar casacos e malas nos saldos e lojas baratas, que me vão enchendo o roupeiro.
Gosto de duches rápidos mas também de banhos demorados, e uso esfoliantes, máscaras de beleza e sais de banho de vez em quando.
Gosto da minha Silk.Épil - SoftPerfection da Braun que me deixa a pele macia e bonita mas uso também cremes Veet e Gilletes.

Nem sempre perco muito tempo comigo, mas quando o faço como hoje, imagino-me num verdadeiro spa e isso relaxa-me e sabe-me bem.

E viva o verão!


ps: só o desenho da cara e do cabelo é que é da minha autoria.

09/06/2008

sensível ou extremamente sensível?



estou lixada, e isto para não dizer um sinónimo bem mais forte.

há pessoas que por serem bichos do mato, enormes aves de rapina... ex-predadores diurnos que agora se escondem da luz e vivem numa outra selva, ou ex-pessoas que perderam o tacto e com ele o senso crítico, mas que mantêm a mania de o fazer, deitando abaixo muros sentimentais e intelectuais para continuarem a sua arrogância em tom de sarcasmo e com a qual sobrevivem quando nada mais lhes enche o bucho, não conhecem o significado da expressão "
reforço positivo".

confesso que desde pequena sei o que isso é, apesar de só há relativamente pouco tempo ter conhecimento da expressão. acredito que a maior parte das pessoas com quem me dou, também saiba o que isso é. e tal como eu, o usa para estimulação comportamental, quer própria, quer de outrem.
mas, consigo também perceber que haja pessoas que, mesmo sabendo o que isso significa, não lhe dão uso porque não o sabem fazer. porque talvez, por outro lado, foram ensinadas a construir a sua personalidade com base no adverso.

acredito que o reforço positivo faz parte integrante da minha educação. completa-me, evidentemente, positivamente. mas ou mesmo tempo, acho que me retira a faculdade de perceber que nem sempre existe uma recompensa ou estímulo por detrás de uma crítica, e por mais que tente perceber se é por isso que me sinto apática ou pouco substancial numa discussão, não consigo chegar a uma conclusão satisfatória.

(fdx! quando era mais nova desenhava a lápis de cor nas paredes de casa e o que os meus pais faziam era aplaudir o meu trabalho e mostrá-lo depois, aos familiares e amigos!) - e isto é lindo!

estou lixada sim, e isto porque apesar de o perceber, não aceito, porque não lido bem com qualquer reforço negativo, que não é mais do que uma condenação desprovida de emoção. qualquer coisa que, de tão demasiadamente autoritária e correctiva, me coloca numa situação de tremenda fragilidade e susceptibilidade.


falamos em inglês porque ele é irlandês. e ontem apontou que eu não aceito bem a crítica.
ao que eu lhe disse: "there's criticism and criticism, and then there's also sarcasm". e eu sei que ele não me estava nem a criticar, nem a criticar!
disse-me ainda que não é a barreira da língua que se interpõe no meu caminho para uma boa argumentação/explicação, logo, também deveria ser capaz de distinguir uma crítica de uma gozação. devendo, por isso, aceitar a sua que, como ele explicou, não foi mais que directa, exacta e sincera.


mas ok, se realmente não é a língua que barra o caminho à fluidez de um discurso sincero, correcto e primeiro que tudo, directo e sentido, (e apesar de não perceber português) o resto da minha altercação foi escrita na língua de camões, e ele que se lixe!



27/05/2008

Adam Smith

Agora o mercado já não é às segundas-feiras no Fundão. O mercado está centralizado nas bolsas, está descentralizado das pessoas e da realidade física. Nos mercados bolsistas olham para os números e eles não têm consequência nenhuma: São números.
Adam smith identificava duas leis essenciais do mercado: o interesse pessoal, na medida em que, por exemplo, o homem do talho não dá nada por bondade, e a concorrência, que impediria a crueldade na estipulação do preço. Sem indivíduos numa transacção económica não há crueldade. O liberalismo económico criou um monstro e esse monstro é a ausência de controlo na concorrência, isto é, a ausência de concorrência, pois todos os produtos funcionam num mercado próprio que age em cartel. Sem concorrência, ficamos com a tirania. Contudo, se até há pouco tempo, o mercado especulativo assentava num tipo de capital mais volátil, de serviços ou de produtos diferenciados, mais propícios ao investimento e ao lucro, como os bancos, as grandes empresas de comunicações ou de construção, com a propalada crise que se instalou no mundo os gestores viraram-se para o mercado das commodities, um mercado de produtos básicos e indiferenciados, como os cereais, o petróleo e todas essas coisas, no qual, devido à vasta divulgação e consumo de que os produtos que o constituem são alvo, qualquer alteração mínima do preço tem enormes implicações, pois se, por exemplo, houver um aumento dos cereais, isso resultará no aumento do preço das rações, que levará ao aumento da carne, que levará ao aumento… de tudo, basicamente! E depois dá a volta.
É claro que este mercado não dá para sempre, é claro que a especulação nestes produtos pode originar uma explosão no mundo económico com consequências exponencialmente superiores às da Grande Depressão ou da Crise do Petróleo, é claro que, por exemplo, pode originar uma crise humanitária de dimensões catastróficas e eles – refiro-me a “eles” como aqueles que lucram ou aqueles que só vêem números à frente sem se preocuparem com as consequências dos seus actos – sabem disso devendo saber também que quem sofre são os mais fracos, não os mais fracos dos países industrializados e desenvolvidos, mas aqueles que morrem no espaço de dias por causa de um aumento insignificativo no preço do petróleo. São centenas de milhões de pessoas que estão à beira da fome e da morte por causa destas práticas.
Não podemos estar à espera que sejam os interesses económicos a responsabilizar-se, mas podemos exigir ou recomendar às grandes organizações internacionais que façam alguma coisa.
- Li num lado qualquer que o correio electrónico foi criado para isso mesmo. -
Na verdade, o aumento do petróleo não se deve a uma menor produção, havendo até mais petróleo agora do que quando o preço do barril andava pelos vinte cêntimos. A escalada do preço do petróleo deve-se a dois meros factos: a desvalorização do dólar e a especulação. Da mesma forma, não podemos admitir que os cereais se tornem na nova galinha dos ovos de ouro de alguns, pois não constituem grande alternativa aos combustíveis actuais (não é alternativa em termos de performance como não é em termos ecológicos) e são a base da alimentação do Mundo, principalmente dos seus ocupantes mais necessitados, o que implica que essa seja a prioridade, e é possível fazê-lo estudando os transgénicos e estudando formas de distribuição mais eficazes. O problema da fome é um problema de distribuição e não de abundância.
Os governos da Europa, as Nações Unidas, como a Organização Mundial do Comércio ou outras organizações internacionais, têm culpa por omissão, mas é importante destacar na tomada de culpas da situação económica do Mundo o papel do Fundo Monetário Internacional, cuja infâmia na atribuição de apoios ou imposição de coimas tem sido causa de muitas manifestações e vozes de desagrado e, para variar, da Administração Bush e dos falcões que a povoam alimentando-se das guerras e do sofrimento do Mundo. É claro que há outras organizações (ecológicas, de assistência médica, humanitárias, etc.) que também se enredam nestas disputas, cabendo-lhes a elas uma parte da culpa, mas, de forma geral, são essas organizações que traduzem o sentimento de revolta que se generaliza e cabe-nos a nós partilhar, nem que seja através de uma mensagem para o correio electrónico de uma ou outra organização, a revolta. Podemos também diminuir substancialmente o uso de combustíveis fósseis ou no mínimo, deixar de abastecer nos principais fornecedores (parece que é já no princípio do mês de Junho que vai haver um boicote generalizado às grandes petrolíferas). Quanto a mim, que já boicoto o gasóleo há duas semanas, acho apenas que fazem falta mais protestos. Fica o meu.

(João Freire)

30/04/2008

Empresas de portugal, tretas e... cenas

E não é que depois de quase dois meses de tentativa de cancelamento de um serviço, a empresa, que tão mal falada tem sido, aparece, numa tentativa que louvo, a tentar convencer-me a não mudar de serviço. Dizem eles que estão a "contactar para informar de uma promoção". Dizem eles que estão a contactar-me porque para eles "todos os clientes são importantes", dizem eles que o serviço é mais evoluído (com uma tecnologia que só chegará às outras empresas daqui a 7 anos), mais barato (oferecendo até o fim de uma ou outra mensalidade entre múltiplas outras recompensas pela minha importânica na empresa, visto que, para eles "são os clientes que fazem a empresa). Dizem eles muita coisa. Falei com o operador, que era muito resiliente, durante 22 minutos e 15 segundos. Qual namorada atenciosa (ou chata!), tentou utilizar todos os argumentos para me convencer a não adoptar o serviço novo e manter-me com o velho. Voltando à analogia da namorada, tentou mostrar-me que as amigas dela ou as minhas múltiplas (?) conquistas pelas quais eu me interessara depois dela não passariam de umas cabras comparadas com ela e que ela agora até se disporia a fazer coisas que nunca antes fizera a um preço que nunca antes exigira. Poderia ter sido antipático e explanar no pobre operador todo o meu vernáculo recentemente adquirido em visitas ao glorioso norte de Portugal. Mas não. pousei o telemóvel, liguei o modo de altavoz para não ter de estar com o aparelho encostado ao ouvido e falei calmamente com ele. Eu queria dizer tudo aquilo que não pude dizer nos telefonemas efectuados aquando das queixas ou das dúvidas perante o serviço que eles prestavam, mas queria essencialmente fazê-los perder tempo comigo e angariar escudos na conta do meu Pako. Fi-lo e senti-me bem com isso. No fim ainda perguntaram se tinha a certeza que queria cancelar o serviço (após os vários telefonemas, cartas e faxes, não sei qual seria a dúvida). Disse que sim, pediram-me que esperasse, esperei, confirmaram e avisaram depois que seria o último contacto. Não sei se senti alguma nostalgia ou se foi um gás estomacal que deambulou nas minhas entranhas. Sei sim que hoje, no que concerne às comunicações, foi um dia de só boas notícias.

P.S. - Onde se lê escudos deve ler-se cêntimos

(João Freire)

24/04/2008

A 1ª reunião ou as pessoas que vamos conhecendo...



Ok.
Começou a explicar-me qualquer coisa. Estou atenta. Recebo toda a informação que desconheço e o meu cérebro comporta-se como um cérebro normal; guardando a informação necessária, e deixando de lado a que não interessa.
Até agora, parece-me bem.
O problema é quando a explicação se alonga em ítems, pontos e parágrafos e Powerpoint floridos com músicas de elevador para justificar e exemplificar uma coisa que eu já percebi.
É aqui, que no meu cérebro se desenrola uma nova acção. Não mais a de arquivação de informação, mas sim a de arrumação da arquivação. Ou seja. Deixei de estar atenta à explicação, para me concentrar em arrumar as pequenas caixas ou módulos, no meu cérebro. E isto tem tanto de obsessivo compulsivo como de estranho e neurótico.
Sim, o resto do monólogo, barra, explicação, prossegue e eu continuo a ouvir, mas muito vagamente, apesar de estarmos só os dois na sala, de ele estar sentado na mesma mesa, a 5 palmos de mim e à minha frente.
Aceno com a cabeça, solto onomatopeias mas, jogo tetris com a informação que tinha recebido há 5 minutos atrás, na minha mente. E para parar de arrumar as tais caixas umas em cima das outras, desviar as anteriores e colocá-las outra vez no mesmo sítio... basta apenas uma palavra ou uma acção. E ele conseguiu essa palavra.
E estou novamente atenta até à próxima explicação pormenorizadamente especificada que me leva ao bocejo mental.

A parte de o imaginar nu e de morder os lábios para não me rir às gargalhadas só acontece muito raramente. É preciso preencher certos requisitos... Hoje foi uma dessas raras ocasiões. E o facto dele ser do norte e ter um sotaque engraçado também não ajudou muito.