06/10/2018

Uma reflexão sobre a tolerância, suas bestas.

Há dois tipos de pessoas. Só. Podemos andar aqui a enganar-nos a pensar que somos especiais, restos de alguma centelha divina*, mas não. Todos podemos ser reduzidos à inclusão em duas simples caixas - notei isso já há quase 20 anos quando jogávamos ao "preferias"... e continuo a notar agora... quando... jogo... ao "preferias". Isso acontecerá por vários motivos, desde logo por facilitismo, claro, mas também por motivos histórico-bio-fisico-químico-socio-econo... por motivos humanos, vá, que nos terão permitido não só sobreviver como prosperar. É fácil de imaginar que estar incluído no grupo que acha uma planta venenosa por oposição ao grupo que acha que a planta não é venenosa lhe dê alguma vantagem evolutiva. O mesmo acontecerá com o grupo dos que querem ou não fazer uma festinha ao dente-de-sabre ou cócegas ao mamute. Assim se formaram comunidades, culturas, religiões e civilizações sob o espírito do que o que funciona para nós é o que está correcto. Mas se essa obrigatoriedade evolutiva fazia sentido numa classificação primitiva, seria expectável que ao nos afastarmos de um mundo cheio de plantas venenosas, dentes-de-sabre e mamutes em direcção a um mundo tecnológico e globalizado com acesso imediato a informação total essa obrigatoriedade tendesse a diminuir, pelo menos, no que às nossas reacções perante o 'outro' diz respeito. Mas não é de todo o que acontece, por enquanto. Até viveremos uma altura em que esta auto-segregacão parece mais compulsiva. Democratas e Republicanos, direita/esquerda, adeptos de clubes e os antis, religiosos e ateus, medicina tradicional e alternativa, Trump e Clinton, Bolsonaro e Lula, tremoços e amendoins, mostarda e ketchup, Apple e Samsung, gatos e cães, ciência e religião, toda a gente a barricar-se alimentando a sua convicção com a oposição do outro. "Se não estás comigo, és meu inimigo", é uma citação de Darth Vader que retrata perfeitamente não só a temática de alguns filmes mas também a realidade, daí ser tão fácil encontrar citações quase iguais na política, com o célebre aviso de George W. Bush aos aliados de que "ou estão conosco ou estão com os terroristas", na religião, quando Josué perguntou a um homem à entrada de Jericó "Você é por nós, ou por nossos inimigos?", mas também na literatura, desporto e restantes manifestações do comportamento humano, cristalizadas nesse poço sem fundo da comunicação que são as redes sociais. E é nas redes socias que "deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar (...) enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um laureado do Prémio Nobel", como dizia Umberto Eco, que se nota a maior perversidade e extensão destas novas formas de extremismo, porque se a frase de Eco retrata bem a realidade do que é esta democratização da opinião pública, ela retrata também a desconfiança em relação ao outro, num ciclo vicioso em que partimos do princípio que o outro, como está contra mim ou a minha mensagem, é imbecil; como é imbecil, não o conheço melhor e, como não o conheço melhor, não vou deixar de o ver como imbecil. E será esta inversão social na maneira como nos conhecemos, exacerbada pela distância física e anonimidade na maneira como falamos que impossibilita a criação de empatia e dificulta a comunicação - mesmo entre os outros que não são de facto imbecis -  contaminando depois a 'realidade', desde as relações privadas, ao local de trabalho, à nossa própria cidadania. Foi o que vimos na eleição de Trump (alegadamente com ajuda dos hackers russos), mas também noutros fenómenos mais ou menos públicos como o movimento 'metoo', a mais recente campanha presidencial brasileira, a crise entre a Georgina Rodriguez e a dona Dolores ou a cor daquele vestido há uns anos, fenómenos complexos aos quais aportamos essa dinâmica simplista e emocional da internet. Voltando e concordando com Umberto Eco quando conclui que "o drama da internet é o de promover o idiota da aldeia a portador da verdade”, também é verdade que se esse é o drama, a tragédia da internet será a de promover a verdade a desconfiar dela própria e os humanos a desconfiar da sua própria humanidade. A solução não é o ódio, nem a crítica 'desmissiva' e pretensiosa do outro, porque não são os factos que convencem as pessoas e, tirando um ou outro assunto, há factos para dizer e contradizer tudo, mas começar por reconhecer o outro, criar uma ligação, chegar a compromissos e discutir despreconceituadamente será sempre um bom início. Claro que parece lamechas, moralista e infrutífero e claro que, numa sociedade tão extremada, advogar a importância do meio-termo e da moderação é mal-visto: há décadas que estas opiniões são conotadas com os pãezinhos sem sal, (os 'snowflakes', como se diz agora nos EUA), que não são capazes de se decidir, que são engolidos no cliché do politicamente correcto, mas mesmo esse termo, anteriormente utilizado por comediantes que defendiam o direito a piadas mais subversivas, ganhou ultimamente contornos de defesa de ideais racistas, xenófobos ou misógenos. Mas é aí mesmo, no meio, que a sociedade se deve refundar, não significando que temos aceitar o inaceitável, mas dialogando sem ostracizar, com a contribuição da ciência para nos guiar e empurrar, seja para um lado ou para o outro, na melhor direcção. Serão todos os apoiantes de Trump e Bolsonaro imbecis? Não, de maneira nenhuma. Alguns serão, claro, mas haverá no meio desses apoiantes gente inteligente, com opiniões e preocupações bem formadas e que têm de ser levadas em conta. Considerar o outro não é concordar imediatamente com ele, de facto, geramos tantas opiniões enquanto seres humanos que seria impossível concordarmos totalmente com outra pessoa, mas falar, discutir ideias e pontos de vista ajudados pela perspectiva de histórias passadas, de estudos e experiências (ciência) levar-nos-á sempre numa melhor direcção, ainda que não definitiva, numa resistência contra o extremismo, porque também o homem a quem Josué perguntou "Você é por nós, ou por nossos inimigos?" respondeu "nem uma coisa nem outra" e se Darth Vader, na altura ainda o jovem Anakin Skywalker disse "If you're not with me... then you're my enemy!", também é verdade que Obi-Wan lhe respondeu "Only a Sith deals in absolutes. I will do what I must" e deu-lhe uma coça!

*referência aos Transformers

(João Freire)

11/11/2017

Ainda sobre os casos de assédio.

Estes crimes e e a sua generalização por todas as áreas, desde o espetáculo ao desporto, passando pela política, afetam transversalmente as comunidades em que se inserem, obviamente, mas, devido à mediatização dos agressores e vítimas, possuem um efeito contaminador que alastra por todo o mundo e na forma como nos relacionamos com o sexo oposto. Claro que existem as vítimas directas destes crimes ou condutas impróprias, cuja vida é marcada para sempre, homens e mulheres, mas há tambem as vítimas colaterais destes actos desprezíveis: as mulheres que deixam de confiar, as pessoas que lidam com a descoberta da sua sexualidade que não se assumem na sua plenitude, as pessoas que têm problemas e que podem pensar duas vezes antes de pedirem ajuda e os homens, aqueles que não praticam nem se revêem naqueles comportamentos e que agora são incluídos no mesmo saco. E é para essas pessoas que importa falar. Isto é para os introvertidos, os totós e os românticos, os bons rapazes, os amigos que estão lá, os simpáticos e respeitadores, aqueles que sempre tiveram dificuldade em falar com as mulheres, os que sofrem de ansiedade e medo de rejeição, de acharem que não são suficientemente bons, os que não saem de casa, os que não gostam de festas, os bichos do mato, os envergonhados e os tímidos, os que instalam o Tinder mas passado meia-hora voltam a desinstalar, aqueles que inevitavelmente agora ainda vão ter mais dificuldades. Continuem estranhos, a estranheza é colorida, interessante e especial. Continuem como são.

(João Freire)

 

22/08/2014

What we've got here is failure to communicate


E de repente os moderados é que são os maus da fita.
Obrigam-me a escolher um lado num conflito onde não há inocentes, onde não há leituras simplistas a fazer. Escolher lados numa questão que é marcadamente religiosa é aprofundar diferenças e entrar em modo tribal de "nós contra vós", modelo que, como se vai vendo, não consegue mais do que incendiar os ânimos favorecendo o surgimento de actos de violência de ambos os lados.
Parece-me honesto dizer que mais facilmente escolheria Israel. Somos obrigados a escolher um Estado democrático em desfavor de um Estado terrorista, que é o que a faixa de Gaza, com o Hamas ao leme, é. Escolhidos pelo povo ou não - 44,45% dos votos -, os terroristas mandam em Gaza e, mandando, determinam a política anti-israelita (eufemismo para política de destruição do Estado de Israel) acima de todos os outros interesses, incluindo os seus próprios e os da população, ou seja, mais do que um Estado Palestino, o Hamas quer o fim do Estado Israelita e isso nota-se na forma como gere a Coisa Pública. Na realidade, todo ou quase todo o dinheiro que Gaza recebe - até mesmo o que o Ronaldo enviou para a construção de escolas e hospitais - é invariavelmente desviado para a máquina de guerra terrorista, seja na forma dos famosos túneis ou das armas que recebem (via esses mesmos túneis) e pouco ou nenhum dinheiro é utilizado na organização social, política e jurídica do país. Ao contrário, Israel é um país democrático, uma república parlamentar no médio oriente (!?), considerado pelas organizações mundiais como um país desenvolvido. Seria importante que os humanistas de algibeira  que tanto criticam Israel retivessem isto. Israel tem o direito de se defender e é isso que tem feito (e bem) ao longo de muito tempo, mostrando uma maior preocupação com os interesses dos seus cidadãos. Há, portanto, uma diferença moral inegável entre os dois lados. E é precisamente aqui que começam a surgir as dúvidas em relação ao comportamento de Israel, pois se há essa diferença moral relevante, Israel não se pode dar ao luxo de fazer aos palestinianos o mesmo que critica no Hamas. É certo que o Hamas usa a população como escudo e arma, que provoca o conflito, deturpa as informações, a comunicação e as imagens e que depois recorre à vitimização, apelando à misericórdia internacional, mas também é verdade que o povo palestino tem legítimas aspirações, aspirações essas consagradas nas mesmas resoluções que originaram a criação do Estado de Israel, aspirações que vão desde o desbloqueio de Gaza e desocupação da Cisjordânia ao acesso a recursos essenciais. E Israel não pode esquecer isto quando bombardeia  pouco discriminadamente Gaza porque isso faz com que perca a opinião pública internacional que tende a imortalizar os atentados contra inocentes e não pode também e sobretudo porque não funciona. Sublinhe-se esta última parte. Poderá até funcionar a curto prazo e brevemente, perante o esmagamento quase total do Hamas e de Gaza, mas nunca funcionará a longo prazo e bastará que passem uns meses para os ataques recomeçarem, no mesmo formato ou noutro, num ciclo de vingança pelos mortos do conflito anterior que se repete ad eternum. Exige-se a Israel e aos indefectíveis do seu lado que assumam isso, que assumam que há inocentes genuínos para além das mulheres e crianças com armas, que há palestinianos de Gaza que não apoiam o Hamas nem o terrorismo e que só querem viver em paz e que assumam que acreditam tanto nisso como acreditam que do seu lado há Judeus extremistas que constroem colonatos como estratégia de anexação na Cisjordânia. E assumindo isso é mais fácil ver que a solução passa pela pela negociação quase burocrata das questões que os separam. Claro que não é fácil. Por um lado, os muçulmanos moderados não abundam e a sua doutrina de conquista e expansão não facilita um entendimento, mas basta olhar para a história das religiões para vermos que também o judaísmo evoluiu da ortodoxia para uma vertente mais cultural ou espiritual, se quisermos. Só assim virá a desmilitarização de gaza, o fim do Hamas e a co-habitação, tal como sucedeu com os egípcios e os jordanos, porque, convenhamos, ambos os povos derramaram demasiado sangue para abdicarem daquela terra e, independentemente da racionalização possível sobre quem chegou primeiro ou quem tem mais direitos para lá estar, a terra pertence-lhes.
Por tudo isto e muito mais, talvez não seja preciso escolher um lado. A paz não é uma ponte que se percorre de um lado para o outro mas sim uma ponte que se constrói. De facto, se olharmos para o que está em causa e se formos democratas, não ligarmos às tretas religiosas e se apoiarmos uma solução de dois estados, formos contra o Hamas, contra os colonatos e a ocupação, então, até podemos ser dos dois lados.

Guns N' Roses - Civil War

03/09/2012

Talvez o cavalo não quisesse pisar os manifestantes mas sim sacudir o cavaleiro...

A tourada vai deixar de existir daqui a alguns anos. Esse facto é tão certo como o aborto ter sido legalizado, o casamento entre casais do mesmo sexo ser permitido e a adopção por casais do mesmo sexo ser encorajada. São inevitabilidades que têm a ver com a evolução da humanidade. Por enquanto ainda não chegámos lá. Não chegámos lá como não chegámos à responsabilização política pelo estado do país, à criminalização dos bancos pelas suas acções ou ao fim do hábito de cuspir e deitar o lixo ao chão. Faz tudo parte dum grande processo relativamente ao qual nos encontramos um pouco atrasados. Não somos os mais atrasados, claro, há certamente mais gente atrás de nós... mas isso não deveria servir para justificar nada. Nesta questão das touradas, como na questão do conflito israelo-palestiniano, não pretendo convencer nem doutrinar ninguém, mas há dois argumentos, um de cada lado, que são usados e com os quais discordo plenamente. Em primeiro lugar, não coloco no mesmo patamar um animal dito irracional a uma pessoa. Às vezes a distância pode ser ínfima, pode até haver casos em que, por comparação, eu prefira um animal dito irracional a uma pessoa, animal dito racional, talvez seja mesmo por isso que existe sempre a tendência de falarmos em animais irracionais e racionais... porque às vezes será difícil distinguir os animais. Mas, pensando numa regra geral, não são iguais. Tal como não considero que todos os animais são iguais, porque haverá alguns pelos quais nutro uma maior simpatia. Gosto de cães e gatos, mas não sou particular fã de sapos... nem abelhas, mas os insectos ainda estariam bem pior nesta hierarquia. Em segundo lugar, não é a mesma coisa matar para comer (ou comer carne de matadouro, para ser mais exacto) ou matar por entretenimento, apesar de aqui também poder haver excepções por existirem matadouros que funcionem tão mal ou pior no processo de morte que uma tourada, mas, como disse antes, tratamos de generalizações. É por isso que eu não compreendo os argumentos que se têm debatido entre apoiantes e manifestantes da tourada. Claro que há bestas nos dois lados, imagino até que haverá mais bestas no lado dos apoiantes, mas isso é apenas uma opinião, tal como a que toda a gente tem direito a ter sem, no entanto exagerar. Fundamentalismos são a morte de qualquer discussão civilizada. Claro que não fiquei feliz com o estado em que o forcado ficou, nem nunca desejaria que alguém ficasse paralítico ou paraplégico ou que sofresse algum mal terrível por maltratar um animal. No máximo, o que poderia fazer, era causar esse estado em alguém que tentasse usar um cavalo como arma mortal (penso que será assim que se enquadrará juridicamente) contra mim. Todos nós temos uma parte maligna e até sádica dentro de nós, aquela vertigem que nos leva a abrandar perante um grave acidente ou a vontade de colocarmos metades de nozes nas patas de um gato para o vermos estatelar-se no chão uma e outra vez. Admito que fiz isso quando era criança e até coisas piores, mas a diferença que tem de imperar nestas coisas é a consciência das nossas acções e do exemplo que damos aos outros, principalmente aos mais novos, porque, esses, ao contrário dos outros são os únicos que poderão ver a razão sem estarem toldados pelo fundamentalismo.

22/05/2012

SOULSAVERS - Longest Day

I was walking home lonely the other night
I couldn't see a single star in the sky
Oh, they must be too high
Shadows dance around me in the dark
Oh, don't stop.

This could be the longest day
And the night has yet to come
This must be the door to take
There's nowhere left to run
This could be the longest day
And the night has yet to come
This must be the door to take
I've nowhere left to run.

Was eleven years to change what have been lost
One single shot was fired and what a cost
Oh, and what a cost.

This could be the longest day
And the night has yet to come
This must be the door to take
There's nowhere left to run
This could be the longest day
And the night has yet to come
This must be the door to take
I've nowhere left to run.

I wanna run
I better run now
Run
As far as I can.
 SOULSAVERS feat. DAVE GAHAN - Longest Day

16/05/2012

Façam o que fizerem, façam-no bem.

Muita gente se aborrece com a vida, com o trabalho e as rotinas diárias, ignorando que a maior parte da nossa vida é preenchida com essa mesma vida corriqueira e, sobretudo, com as pessoas que a preenchem. Se queremos ser felizes temos de tornar esse grande bocado da nossa vida no melhor possível, dispensando talvez as fantasias que nos acenam de longe. O que estes jovens fizeram, para além do momento youtube, foi tornar o dia daquelas pessoas que estavam a ouvir um dia um bocadinho (muito) melhor. Palmas para eles.

04/05/2012

Can i stand the shame and self-loathing? Yes! Yes, i think i can.



Para o desafio de Maio da Fábrica de Letras, subordinado ao tema "Destino"

30/04/2012

MEC

"Às vezes encontramo-nos com a cabeça nas mãos. Tudo o que poderia ter corrido bem correu mal. O mundo, que era igual à vida, afasta-se de repente. Distancia-se e continua a existir, como se nada tivesse a ver ou a haver connosco, como se fizesse questão de mostrar a independência dele, mundo, que não existe só porque nos damos conta dele. A má notícia é má, mas a pior, para quem cá está, é a pessoal. A minha pessoa é a Maria João e a Maria João passa mal. Nem o amor nem a sabedoria médica a podem salvar. Só uma conjunção das duas coisas, mais um acrescento de milagre. O cabrão do cancro alastra-se. Exterminado no pulmão ou na mama, foge para o cérebro, onde se refugia e cresce. Forma uma força da morte, aproveitando as barreiras antigas entre o sangue e o cérebro, que infiltra conforme lhe apetece. Hoje, domingo, é o último dia em que estaremos juntos, dois amores, felizes há quase vinte anos. Amanhã, logo às nove da manhã, estaremos na consulta dos excelentes neurocirurgiões do Hospital de Santa Maria, onde nos avisarão das complicações possíveis. Obama deveria inspirar-se na perfeição clínica e humana do serviço de saúde português e francês. Mas a dor não diminui. Nem a tristeza abranda. Vai morrer o meu amor. Não vai. Como o meu amor por ela, nunca há-de morrer. As coisas acontecem sem acontecer o pensamento nelas. A alma, o coração e a cabeça são coisas diferentes. Que se dão bem. E são amigas. E deixam de ser quando morrem."

Miguel Esteves Cardoso, in Público.

(Por esta altura, já muita gente partilhou isto, mas se há coisas que merecem ser repetidas, esta é seguramente uma delas)

19/04/2012

Rastos

A morte deixa um rasto pequeno e um funeral, apesar da longa caminhada e do choro de algumas pessoas é a prova disso, restando no fim, depois de se baixar o caixão, um estranho sem qualquer ligação ou emoção perante o que ali sucede a encher um buraco com terra enquanto as pessoas se afastam, comentando que era boa pessoa e que foi tudo muito rápido. A morte deixa um rasto muito pequeno e muito do sofrimento de quem ali estava já passou, e talvez isso seja uma coisa boa. 

Quando eu morrer by GNR on Grooveshark


31/03/2012

Em tempo de guerra, a primeira vítima é a verdade


Foi por volta do meio-dia de 1 de Fevereiro de 1968 que o General Nguyen Ngoc Loan executou sumariamente um prisioneiro Viet Cong nas ruas de Saigão, durante a Ofensiva de Tet. Quase por acaso, Eddie Adams, um fotógrafo da AP, captou a fotografia que viria a ser uma das mais icónicas da guerra e a perfeita analogia para o desconforto que tal guerra causava entre a opinião pública mundial. (Também há o vídeo, captado por Vo Suu para a NBC).
O que a fotografia e o vídeo mostram à primeira vista é o à vontade do General, um esgar de raiva do soldado que observa no canto esquerdo e o medo patente no rosto do jovem indefeso, com as mãos algemadas, perante uma indiferença generalizada dos que os circundam, num acto de total desumanidade e desrespeito pelos mais básicos valores e direitos humanos. Mas a realidade nunca é bem assim. Não se sabe ao certo o nome da vítima (frequentemente apontada como Nguyem Van Lem), mas, independentemente do seu nome, sabe-se que era um 'oficial' norte-vietnamita, que comandaria uma brigada da morte, que tinha sido apanhado a matar não só oficiais sul-vietnamitas, próximos do general Loan, como as respectivas famílias.
"O general matou o Viet Cong; eu matei o general com a minha câmara. As fotografias são a arma mais poderosa no mundo, as pessoas acreditam nelas, mas as fotografias mentem, mesmo sem manipulação. Elas são apenas meias-verdades... o que a fotografia não disse foi: o que é que você faria se fosse o general naquela altura e lugar, naquele dia quente, e apanhasse o dito mauzão depois dele matar um, dois ou três americanos?"
Eddie Adams
Para o desafio de Março da Fábrica de Letras, subordinado ao tema "Fotografia"


*Citação de Boake Carter


Nine Inch Nails - The Great Below