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03/05/2009

Dia da mãe

"A casa não se apoia sobre a terra, apoia-se sobre uma mulher"

Ditado mexicano

01/05/2009

Falta de ar

Bateram à porta com intervalos demorados e regulares, lamentando por antecipação a dor que (sabiam bem) iriam causar. Do outro lado a resposta demorou. Primeiro uma luz, depois o barulho pesado de alguém a descer as escadas, algumas palavras murmuradas azedamente, e, finalmente, a chave a rodar na fechadura.

- Que faz a polícia aqui – perguntou – o que é que estão aqui a fazer a esta hora?

O seu coração acelerou. Sem dúvida que teria a ver com o bebé dos seus vizinhos.
Queres ver que o mataram - Pensou instantaneamente, lembrando as vezes que esteve prestes a confrontar os progenitores com um sermão sobre a forma correcta de educar um filho - De facto, o bebé chorava tanto que o teriam sacudido até à morte.

Calmamente, o mais calmamente que conseguiu, o agente começou por pedir ao senhor que tivesse calma, que tinha havido um acidente, dizia, mas que mantivesse a calma.

Do lado de dentro, o homem não compreendia. Não seria o bebé, mas o que poderia ser? A sua mulher estava ali, a sua filha estava a dormir, não tinha mais família ali perto e se fosse um familiar distante ou um amigo nunca iriam ter com ele. Seria engano, certamente.

- Mas que acidente?

25 anos de carreira na polícia preparam para muita coisa, mas dificilmente preparam alguém para dizer a um pai que a filha morreu.

- Foi a sua filha – soluçou, olhando o homem nos olhos.

Foi nesse momento que o senhor se acalmou, esboçando até um sorriso, enquanto olhava para a sua mulher no fundo das escadas, que se cobria com um espesso roupão.

- A minha filha está a dormir – disse, entre sorrisos.

- Lamento – continuou o agente, mas não há erro possível.

Já algo chateado, mas compreensivo, o homem explicou porque é que não podia ser a sua filha, convidando os dois agentes a entrar, ao mesmo tempo que procurava a sua mulher para que lhes preparasse alguma coisa.

Já não a viu, restando um vislumbre dos seus pés, que desapareciam entre as escadas e o tecto, num passo apressado.

- Sentem-se aqui que a minha mulher já vem – disse, explicando de seguida que ele mesmo acompanhara a sua filha até ao quarto quando se encaminhava para o quarto-de-banho, antes de se deitar.

Os agentes fizeram um breve silêncio, esperando algo mais do que o olhar que partilhavam.

Entretanto um grito desesperado ecoou na casa, perfurando o olhar do senhor que estava em pé à frente dos agentes, fazendo com que deixasse cair o copo de água que segurava numa das mãos.

Teria fugido a meio da noite, para se encontrar com o seu namorado, um rapaz que morava ali perto dentro da povoação. O acidente ocorrera junto a uma discoteca, deslocada da vila uns poucos quilómetros, na encosta de uma serra. O gelo na estrada e a mistura de álcool e drogas fora mais do que suficiente para desfazer um carro novo contra duas árvores.

Chapa retorcida, papéis e milhares de pedaços de plástico e ferro, ocupavam a estrada e lá ao fundo, postos lado a lado, cinco sacos de plástico cheios de vida, juventude e beleza.

(João Freire)

Retrovertigo - Mr. Bungle

15/04/2009

Parabéns Mãe!



Muitas felicidades, muitos anos de vida!

Beijos e abraços :)

14/04/2008

Imagino o dia

Imagino o dia em que esteja ao teu lado, apertando-te a mão com a força do nosso amor, e um rebento desse mesmo amor surja, na forma de um ruidoso e chorão bebé, que nos espantará com a sua beleza, entorpecendo-nos a alma, a vontade própria e tudo o resto que deixa de fazer sentido para além dele. Imagino também o que sentiremos, aquilo que perdurará para além do choro de felicidade que te ilumina a cara, e como tudo ficará depois disso. A beleza inexcedível do nosso filho, o futuro promissor, a perfeição em potência… Apenas podemos desejar pelo melhor. Há quem diga que a partir na nascença é sempre a descer, que tudo vai descambando lentamente na normalidade da vida, mas não quero acreditar nisso. Por enquanto há esperança e correu tudo bem, saiu perfeitinho e a contagem dos dedos é apenas uma confirmação tonta dessa mesma normalidade. Mas como seria se não fosse assim, se não fosse perfeitinho e tivesse, por exemplo, uma grave doença mental? Ou como seria se tivéssemos descoberto nos três ou quatro meses de gestação que iria ser uma criança com uma deficiência física incapacitante? Que decisões teríamos tomado? Sempre pensei que não conseguiria lidar com esse tipo de situações, que sofreria irremediavelmente se descobrisse que o meu filho necessitaria de acompanhamento especial, mas não posso dizer muito sobre isso... ninguém pode e apenas podemos esperar que tudo corra bem connosco, ao menos connosco.


Segundo um artigo da Newsweek o custo dos tratamentos e cuidados de uma pessoa que sofra de autismo ao longo da sua vida ronda os 2 milhões de euros.

(João Freire)