Queria estar errada
-
Quando o Trump ganhou as eleições eu temi que fosse o rastilho para a
terceira guerra mundial.
Porquê?
Há pessoas que conseguem analisar a sua saúde men...
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22/08/2014
What we've got here is failure to communicate
E de repente os moderados é que são os maus da fita.
Obrigam-me a escolher um lado num conflito onde não há inocentes, onde não há leituras simplistas a fazer. Escolher lados numa questão que é marcadamente religiosa é aprofundar diferenças e entrar em modo tribal de "nós contra vós", modelo que, como se vai vendo, não consegue mais do que incendiar os ânimos favorecendo o surgimento de actos de violência de ambos os lados.
Parece-me honesto dizer que mais facilmente escolheria Israel. Somos obrigados a escolher um Estado democrático em desfavor de um Estado terrorista, que é o que a faixa de Gaza, com o Hamas ao leme, é. Escolhidos pelo povo ou não - 44,45% dos votos -, os terroristas mandam em Gaza e, mandando, determinam a política anti-israelita (eufemismo para política de destruição do Estado de Israel) acima de todos os outros interesses, incluindo os seus próprios e os da população, ou seja, mais do que um Estado Palestino, o Hamas quer o fim do Estado Israelita e isso nota-se na forma como gere a Coisa Pública. Na realidade, todo ou quase todo o dinheiro que Gaza recebe - até mesmo o que o Ronaldo enviou para a construção de escolas e hospitais - é invariavelmente desviado para a máquina de guerra terrorista, seja na forma dos famosos túneis ou das armas que recebem (via esses mesmos túneis) e pouco ou nenhum dinheiro é utilizado na organização social, política e jurídica do país. Ao contrário, Israel é um país democrático, uma república parlamentar no médio oriente (!?), considerado pelas organizações mundiais como um país desenvolvido. Seria importante que os humanistas de algibeira que tanto criticam Israel retivessem isto. Israel tem o direito de se defender e é isso que tem feito (e bem) ao longo de muito tempo, mostrando uma maior preocupação com os interesses dos seus cidadãos. Há, portanto, uma diferença moral inegável entre os dois lados. E é precisamente aqui que começam a surgir as dúvidas em relação ao comportamento de Israel, pois se há essa diferença moral relevante, Israel não se pode dar ao luxo de fazer aos palestinianos o mesmo que critica no Hamas. É certo que o Hamas usa a população como escudo e arma, que provoca o conflito, deturpa as informações, a comunicação e as imagens e que depois recorre à vitimização, apelando à misericórdia internacional, mas também é verdade que o povo palestino tem legítimas aspirações, aspirações essas consagradas nas mesmas resoluções que originaram a criação do Estado de Israel, aspirações que vão desde o desbloqueio de Gaza e desocupação da Cisjordânia ao acesso a recursos essenciais. E Israel não pode esquecer isto quando bombardeia pouco discriminadamente Gaza porque isso faz com que perca a opinião pública internacional que tende a imortalizar os atentados contra inocentes e não pode também e sobretudo porque não funciona. Sublinhe-se esta última parte. Poderá até funcionar a curto prazo e brevemente, perante o esmagamento quase total do Hamas e de Gaza, mas nunca funcionará a longo prazo e bastará que passem uns meses para os ataques recomeçarem, no mesmo formato ou noutro, num ciclo de vingança pelos mortos do conflito anterior que se repete ad eternum. Exige-se a Israel e aos indefectíveis do seu lado que assumam isso, que assumam que há inocentes genuínos para além das mulheres e crianças com armas, que há palestinianos de Gaza que não apoiam o Hamas nem o terrorismo e que só querem viver em paz e que assumam que acreditam tanto nisso como acreditam que do seu lado há Judeus extremistas que constroem colonatos como estratégia de anexação na Cisjordânia. E assumindo isso é mais fácil ver que a solução passa pela pela negociação quase burocrata das questões que os separam. Claro que não é fácil. Por um lado, os muçulmanos moderados não abundam e a sua doutrina de conquista e expansão não facilita um entendimento, mas basta olhar para a história das religiões para vermos que também o judaísmo evoluiu da ortodoxia para uma vertente mais cultural ou espiritual, se quisermos. Só assim virá a desmilitarização de gaza, o fim do Hamas e a co-habitação, tal como sucedeu com os egípcios e os jordanos, porque, convenhamos, ambos os povos derramaram demasiado sangue para abdicarem daquela terra e, independentemente da racionalização possível sobre quem chegou primeiro ou quem tem mais direitos para lá estar, a terra pertence-lhes.
Por tudo isto e muito mais, talvez não seja preciso escolher um lado. A paz não é uma ponte que se percorre de um lado para o outro mas sim uma ponte que se constrói. De facto, se olharmos para o que está em causa e se formos democratas, não ligarmos às tretas religiosas e se apoiarmos uma solução de dois estados, formos contra o Hamas, contra os colonatos e a ocupação, então, até podemos ser dos dois lados.
Guns N' Roses - Civil War
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31/03/2012
Em tempo de guerra, a primeira vítima é a verdade
Foi por volta do meio-dia de 1 de Fevereiro de 1968 que o General Nguyen Ngoc Loan executou sumariamente um prisioneiro Viet Cong nas ruas de Saigão, durante a Ofensiva de Tet. Quase por acaso, Eddie Adams, um fotógrafo da AP, captou a fotografia que viria a ser uma das mais icónicas da guerra e a perfeita analogia para o desconforto que tal guerra causava entre a opinião pública mundial. (Também há o vídeo, captado por Vo Suu para a NBC).
O que a fotografia e o vídeo mostram à primeira vista é o à vontade do General, um esgar de raiva do soldado que observa no canto esquerdo e o medo patente no rosto do jovem indefeso, com as mãos algemadas, perante uma indiferença generalizada dos que os circundam, num acto de total desumanidade e desrespeito pelos mais básicos valores e direitos humanos. Mas a realidade nunca é bem assim. Não se sabe ao certo o nome da vítima (frequentemente apontada como Nguyem Van Lem), mas, independentemente do seu nome, sabe-se que era um 'oficial' norte-vietnamita, que comandaria uma brigada da morte, que tinha sido apanhado a matar não só oficiais sul-vietnamitas, próximos do general Loan, como as respectivas famílias.
"O general matou o Viet Cong; eu matei o general com a minha câmara. As fotografias são a arma mais poderosa no mundo, as pessoas acreditam nelas, mas as fotografias mentem, mesmo sem manipulação. Elas são apenas meias-verdades... o que a fotografia não disse foi: o que é que você faria se fosse o general naquela altura e lugar, naquele dia quente, e apanhasse o dito mauzão depois dele matar um, dois ou três americanos?"
Eddie Adams
Para o desafio de Março da Fábrica de Letras, subordinado ao tema "Fotografia"
Nine Inch Nails - The Great Below
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13/02/2012
Uma grande anedota
- "I have one joke about God. I'd like to try it on you."
- "Go for it!"
- "OK. So a guy commits suicide. And he goes to heaven, ok? And he gets to heaven. And God greets him there, and the guy said, «I'm so surprised I'm here. First of all, I thought there was no God. Second of all, I thought if you killed yourself, you know, you were damned forever.» God said, «You know, that's a complicated issue. Everybody at least thinks about ending it, you know, killing themselves at some point.» And God says, «Even I've thought of it.» The guy said, «Can I ask, why didn't you do it?» And God said, «What if this is all there is?»
No vídeo (que vale a pena ver na íntegra) a anedota começa ao minuto 5:10.
- "Go for it!"
- "OK. So a guy commits suicide. And he goes to heaven, ok? And he gets to heaven. And God greets him there, and the guy said, «I'm so surprised I'm here. First of all, I thought there was no God. Second of all, I thought if you killed yourself, you know, you were damned forever.» God said, «You know, that's a complicated issue. Everybody at least thinks about ending it, you know, killing themselves at some point.» And God says, «Even I've thought of it.» The guy said, «Can I ask, why didn't you do it?» And God said, «What if this is all there is?»
No vídeo (que vale a pena ver na íntegra) a anedota começa ao minuto 5:10.
10/11/2011
Toda a gente deveria ter cancro
Toda a gente devia estar perto de morrer. Claro que depois tinham de sobreviver, senão não adiantava de muito, mas estar perto da própria morte sem ser por uma conceptualização longínqua que normalmente acontece aos outros, de certeza que seria recompensador para muita gente. Muitos continuariam a ser as mesmas bestas, mas de certeza que haveria mais pessoas... melhores pessoas. Este senhor que fala aqui em baixo é uma dessas pessoas melhores do que a maioria. Vejam tudo que vale a pena e lembrem-se que ele é uma pessoa normal, como qualquer um de nós, com a sua família, amigos, mas com um cancro incurável, numa corrida contra o tempo e todas as paredes de tijolo,para realizar todos os seus sonhos de infância.
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30/04/2011
Incendiários
Através da arte, da política, da manifestação social, da loucura, do desespero. O mais difícil é acender o rastilho.
(Este vídeo pode ser considerado demasiado gráfico e violento)
(Este vídeo pode ser considerado demasiado gráfico e violento)
19/03/2011
Lições de vida por sociopatas eruditos e taxistas revoltados
Cena do filme "Collateral"
Audioslave- Shadow of the Sun
(Com legendagem, a pedido de várias famílias)
Audioslave- Shadow of the Sun
(Com legendagem, a pedido de várias famílias)
07/02/2011
Ranulph Fiennes - O aventureiro que cortou a ponta dos dedos com uma Black & Decker porque não conseguiu fazê-lo com uma pequena machada
Não, não é uma gralha. Não quero falar de Ralph Fiennes, nem tão pouco do "Paciente Inglês". Quero mesmo falar deste homem: Ranulph Fiennes. Pouca gente o conhecerá, eu também não o conheceria se não fosse o Top Gear, mas Ranulph Fiennes é, sem dúvida, um dos mais extraordinários aventureiros que já viveram neste mundo.
Já tinha visto esta entrevista e este episódio há algum tempo, mas cada vez que revejo admiro mais o homem, a sua história de vida e, sobretudo, as aventuras que viveu. As histórias que conta e a forma como as conta nesta pequena entrevista - que vale mesmo a pena ver - impressionam qualquer um. Sim, a parte de cortar os dedos é verdade, tudo porque tinha os dedos queimados pelo gelo.
Não sei se é boa pessoa, não sei se cede passagem aos peões nas passadeiras ou se diz boa tarde quando entra nalgum lado, mas desconfio que seja boa pessoa, muito pela parte final da entrevista em que fala, num ambiente de silêncio que contrasta com o resto da entrevista, da sua primeira mulher que morreu há pouco tempo e que ele conheceu desde os seus 12 anos.
"- Terribly sad… last year… your wife died. You’ve been together since you were…
- She was nine, i was twelve, so we knew each other for fourty-eight years.
- Do you think your drive to keep going, even now, with the marathons and so on… and future expeditions... as anything to do with the fact that you just want to keep yourself busy?
- I don’t want to think anymore, don’t have time to think, so the more i can do… It’s good, yes… keep busy!"
Já tinha visto esta entrevista e este episódio há algum tempo, mas cada vez que revejo admiro mais o homem, a sua história de vida e, sobretudo, as aventuras que viveu. As histórias que conta e a forma como as conta nesta pequena entrevista - que vale mesmo a pena ver - impressionam qualquer um. Sim, a parte de cortar os dedos é verdade, tudo porque tinha os dedos queimados pelo gelo.
Não sei se é boa pessoa, não sei se cede passagem aos peões nas passadeiras ou se diz boa tarde quando entra nalgum lado, mas desconfio que seja boa pessoa, muito pela parte final da entrevista em que fala, num ambiente de silêncio que contrasta com o resto da entrevista, da sua primeira mulher que morreu há pouco tempo e que ele conheceu desde os seus 12 anos.
"- Terribly sad… last year… your wife died. You’ve been together since you were…
- She was nine, i was twelve, so we knew each other for fourty-eight years.
- Do you think your drive to keep going, even now, with the marathons and so on… and future expeditions... as anything to do with the fact that you just want to keep yourself busy?
- I don’t want to think anymore, don’t have time to think, so the more i can do… It’s good, yes… keep busy!"
Para o tema de Fevereiro de 2011, Loucura, num desafio da "Fábrica de Letras".
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24/12/2010
E agora, nesta quadra festiva, uma mensagem de Ricky Gervais sobre Deus, religião, fé... e voar.
"Why don’t you believe in God?" I get that question all the time. I always try to give a sensitive, reasoned answer. This is usually awkward, time consuming and pointless. People who believe in God don’t need proof of his existence, and they certainly don’t want evidence to the contrary. They are happy with their belief. They even say things like “it’s true to me” and “it’s faith.” I still give my logical answer because I feel that not being honest would be patronizing and impolite. It is ironic therefore that “I don’t believe in God because there is absolutely no scientific evidence for his existence and from what I’ve heard the very definition is a logical impossibility in this known universe,” comes across as both patronizing and impolite.
Arrogance is another accusation. Which seems particularly unfair. Science seeks the truth. And it does not discriminate. For better or worse it finds things out. Science is humble. It knows what it knows and it knows what it doesn’t know. It bases its conclusions and beliefs on hard evidence - evidence that is constantly updated and upgraded. It doesn’t get offended when new facts come along. It embraces the body of knowledge. It doesn’t hold on to medieval practices because they are tradition. If it did, you wouldn’t get a shot of penicillin, you’d pop a leach down your trousers and pray. Whatever you “believe,” this is not as effective as medicine. Again you can say, “It works for me,” but so do placebos. My point being, I’m saying God doesn’t exist. I’m not saying faith doesn’t exist. I know faith exists. I see it all the time. But believing in something doesn’t make it true. Hoping that something is true doesn’t make it true. The existence of God is not subjective. He either exists or he doesn’t. It’s not a matter of opinion. You can have your own opinions. But you can’t have your own facts.
Why don’t I believe in God? No, no no, why do YOU believe in God? Surely the burden of proof is on the believer. You started all this. If I came up to you and said, “Why don’t you believe I can fly?” You’d say, “Why would I?” I’d reply, “Because it’s a matter of faith.” If I then said, “Prove I can’t fly. Prove I can’t fly see, see, you can’t prove it can you?” You’d probably either walk away, call security or throw me out of the window and shout, ‘’F—ing fly then you lunatic.”
This, is of course a spirituality issue, religion is a different matter. As an atheist, I see nothing “wrong” in believing in a god. I don’t think there is a god, but belief in him does no harm. If it helps you in any way, then that’s fine with me. It’s when belief starts infringing on other people’s rights when it worries me. I would never deny your right to believe in a god. I would just rather you didn’t kill people who believe in a different god, say. Or stone someone to death because your rulebook says their sexuality is immoral. It’s strange that anyone who believes that an all-powerful all-knowing, omniscient power responsible for everything that happens, would also want to judge and punish people for what they are. From what I can gather, pretty much the worst type of person you can be is an atheist. The first four commandments hammer this point home. There is a god, I’m him, no one else is, you’re not as good and don’t forget it. (Don’t murder anyone, doesn’t get a mention till number 6.)
When confronted with anyone who holds my lack of religious faith in such contempt, I say, “It’s the way God made me.”
But what are atheists really being accused of?
The dictionary definition of God is “a supernatural creator and overseer of the universe.” Included in this definition are all deities, goddesses and supernatural beings. Since the beginning of recorded history, which is defined by the invention of writing by the Sumerians around 6,000 years ago, historians have cataloged over 3700 supernatural beings, of which 2870 can be considered deities.
So next time someone tells me they believe in God, I’ll say “Oh which one? Zeus? Hades? Jupiter? Mars? Odin? Thor? Krishna? Vishnu? Ra?…” If they say “Just God. I only believe in the one God,” I’ll point out that they are nearly as atheistic as me. I don’t believe in 2,870 gods, and they don’t believe in 2,869.
I used to believe in God. The Christian one that is.
I loved Jesus. He was my hero. More than pop stars. More than footballers. More than God. God was by definition omnipotent and perfect. Jesus was a man. He had to work at it. He had temptation but defeated sin. He had integrity and courage. But He was my hero because He was kind. And He was kind to everyone. He didn’t bow to peer pressure or tyranny or cruelty. He didn’t care who you were. He loved you. What a guy. I wanted to be just like Him.
One day when I was about 8 years old, I was drawing the crucifixion as part of my Bible studies homework. I loved art too. And nature. I loved how God made all the animals. They were also perfect. Unconditionally beautiful. It was an amazing world.
I lived in a very poor, working-class estate in an urban sprawl called Reading, about 40 miles west of London. My father was a laborer and my mother was a housewife. I was never ashamed of poverty. It was almost noble. Also, everyone I knew was in the same situation, and I had everything I needed. School was free. My clothes were cheap and always clean and ironed. And mum was always cooking. She was cooking the day I was drawing on the cross.
I was sitting at the kitchen table when my brother came home. He was 11 years older than me, so he would have been 19. He was as smart as anyone I knew, but he was too cheeky. He would answer back and get into trouble. I was a good boy. I went to church and believed in God -– what a relief for a working-class mother. You see, growing up where I did, mums didn’t hope as high as their kids growing up to be doctors; they just hoped their kids didn’t go to jail. So bring them up believing in God and they’ll be good and law abiding. It’s a perfect system. Well, nearly. 75 percent of Americans are God-fearing Christians; 75 percent of prisoners are God-fearing Christians. 10 percent of Americans are atheists; 0.2 percent of prisoners are atheists.But anyway, there I was happily drawing my hero when my big brother Bob asked, “Why do you believe in God?” Just a simple question. But my mum panicked. “Bob,” she said in a tone that I knew meant, “Shut up.” Why was that a bad thing to ask? If there was a God and my faith was strong it didn’t matter what people said.
Oh…hang on. There is no God. He knows it, and she knows it deep down. It was as simple as that. I started thinking about it and asking more questions, and within an hour, I was an atheist.
Wow. No God. If mum had lied to me about God, had she also lied to me about Santa? Yes, of course, but who cares? The gifts kept coming. And so did the gifts of my new found atheism. The gifts of truth, science, nature. The real beauty of this world. I learned of evolution -– a theory so simple that only England’s greatest genius could have come up with it. Evolution of plants, animals and us –- with imagination, free will, love, humor. I no longer needed a reason for my existence, just a reason to live. And imagination, free will, love, humor, fun, music, sports, beer and pizza are all good enough reasons for living.
But living an honest life – for that you need the truth. That’s the other thing I learned that day, that the truth, however shocking or uncomfortable, in the end leads to liberation and dignity.
So what does the question “Why don’t you believe in God?” really mean. I think when someone asks that they are really questioning their own belief. In a way they are asking “what makes you so special? “How come you weren’t brainwashed with the rest of us?” “How dare you say I’m a fool and I’m not going to heaven, f— you!” Let’s be honest, if one person believed in God he would be considered pretty strange. But because it’s a very popular view it’s accepted. And why is it such a popular view? That’s obvious. It’s an attractive proposition. Believe in me and live forever. Again if it was just a case of spirituality this would be fine.
“Do unto others…” is a good rule of thumb. I live by that. Forgiveness is probably the greatest virtue there is. But that's exactly what it is - a virtue. Not just a a Christian virtue. No one owns being good. I’m good. I just don’t believe I’ll be rewarded for it in heaven. My reward is here and now. It’s knowing that I try to do the right thing. That I lived a good life. And that’s where spirituality really lost its way. When it became a stick to beat people with. “Do this or you’ll burn in hell.”
You won’t burn in hell. But be nice anyway.
(Ricky Gervais)
Retirado daqui, visto aqui.
Arrogance is another accusation. Which seems particularly unfair. Science seeks the truth. And it does not discriminate. For better or worse it finds things out. Science is humble. It knows what it knows and it knows what it doesn’t know. It bases its conclusions and beliefs on hard evidence - evidence that is constantly updated and upgraded. It doesn’t get offended when new facts come along. It embraces the body of knowledge. It doesn’t hold on to medieval practices because they are tradition. If it did, you wouldn’t get a shot of penicillin, you’d pop a leach down your trousers and pray. Whatever you “believe,” this is not as effective as medicine. Again you can say, “It works for me,” but so do placebos. My point being, I’m saying God doesn’t exist. I’m not saying faith doesn’t exist. I know faith exists. I see it all the time. But believing in something doesn’t make it true. Hoping that something is true doesn’t make it true. The existence of God is not subjective. He either exists or he doesn’t. It’s not a matter of opinion. You can have your own opinions. But you can’t have your own facts.
Why don’t I believe in God? No, no no, why do YOU believe in God? Surely the burden of proof is on the believer. You started all this. If I came up to you and said, “Why don’t you believe I can fly?” You’d say, “Why would I?” I’d reply, “Because it’s a matter of faith.” If I then said, “Prove I can’t fly. Prove I can’t fly see, see, you can’t prove it can you?” You’d probably either walk away, call security or throw me out of the window and shout, ‘’F—ing fly then you lunatic.”
This, is of course a spirituality issue, religion is a different matter. As an atheist, I see nothing “wrong” in believing in a god. I don’t think there is a god, but belief in him does no harm. If it helps you in any way, then that’s fine with me. It’s when belief starts infringing on other people’s rights when it worries me. I would never deny your right to believe in a god. I would just rather you didn’t kill people who believe in a different god, say. Or stone someone to death because your rulebook says their sexuality is immoral. It’s strange that anyone who believes that an all-powerful all-knowing, omniscient power responsible for everything that happens, would also want to judge and punish people for what they are. From what I can gather, pretty much the worst type of person you can be is an atheist. The first four commandments hammer this point home. There is a god, I’m him, no one else is, you’re not as good and don’t forget it. (Don’t murder anyone, doesn’t get a mention till number 6.)
When confronted with anyone who holds my lack of religious faith in such contempt, I say, “It’s the way God made me.”
But what are atheists really being accused of?
The dictionary definition of God is “a supernatural creator and overseer of the universe.” Included in this definition are all deities, goddesses and supernatural beings. Since the beginning of recorded history, which is defined by the invention of writing by the Sumerians around 6,000 years ago, historians have cataloged over 3700 supernatural beings, of which 2870 can be considered deities.
So next time someone tells me they believe in God, I’ll say “Oh which one? Zeus? Hades? Jupiter? Mars? Odin? Thor? Krishna? Vishnu? Ra?…” If they say “Just God. I only believe in the one God,” I’ll point out that they are nearly as atheistic as me. I don’t believe in 2,870 gods, and they don’t believe in 2,869.
I used to believe in God. The Christian one that is.
I loved Jesus. He was my hero. More than pop stars. More than footballers. More than God. God was by definition omnipotent and perfect. Jesus was a man. He had to work at it. He had temptation but defeated sin. He had integrity and courage. But He was my hero because He was kind. And He was kind to everyone. He didn’t bow to peer pressure or tyranny or cruelty. He didn’t care who you were. He loved you. What a guy. I wanted to be just like Him.
One day when I was about 8 years old, I was drawing the crucifixion as part of my Bible studies homework. I loved art too. And nature. I loved how God made all the animals. They were also perfect. Unconditionally beautiful. It was an amazing world.
I lived in a very poor, working-class estate in an urban sprawl called Reading, about 40 miles west of London. My father was a laborer and my mother was a housewife. I was never ashamed of poverty. It was almost noble. Also, everyone I knew was in the same situation, and I had everything I needed. School was free. My clothes were cheap and always clean and ironed. And mum was always cooking. She was cooking the day I was drawing on the cross.
I was sitting at the kitchen table when my brother came home. He was 11 years older than me, so he would have been 19. He was as smart as anyone I knew, but he was too cheeky. He would answer back and get into trouble. I was a good boy. I went to church and believed in God -– what a relief for a working-class mother. You see, growing up where I did, mums didn’t hope as high as their kids growing up to be doctors; they just hoped their kids didn’t go to jail. So bring them up believing in God and they’ll be good and law abiding. It’s a perfect system. Well, nearly. 75 percent of Americans are God-fearing Christians; 75 percent of prisoners are God-fearing Christians. 10 percent of Americans are atheists; 0.2 percent of prisoners are atheists.But anyway, there I was happily drawing my hero when my big brother Bob asked, “Why do you believe in God?” Just a simple question. But my mum panicked. “Bob,” she said in a tone that I knew meant, “Shut up.” Why was that a bad thing to ask? If there was a God and my faith was strong it didn’t matter what people said.
Oh…hang on. There is no God. He knows it, and she knows it deep down. It was as simple as that. I started thinking about it and asking more questions, and within an hour, I was an atheist.
Wow. No God. If mum had lied to me about God, had she also lied to me about Santa? Yes, of course, but who cares? The gifts kept coming. And so did the gifts of my new found atheism. The gifts of truth, science, nature. The real beauty of this world. I learned of evolution -– a theory so simple that only England’s greatest genius could have come up with it. Evolution of plants, animals and us –- with imagination, free will, love, humor. I no longer needed a reason for my existence, just a reason to live. And imagination, free will, love, humor, fun, music, sports, beer and pizza are all good enough reasons for living.
But living an honest life – for that you need the truth. That’s the other thing I learned that day, that the truth, however shocking or uncomfortable, in the end leads to liberation and dignity.
So what does the question “Why don’t you believe in God?” really mean. I think when someone asks that they are really questioning their own belief. In a way they are asking “what makes you so special? “How come you weren’t brainwashed with the rest of us?” “How dare you say I’m a fool and I’m not going to heaven, f— you!” Let’s be honest, if one person believed in God he would be considered pretty strange. But because it’s a very popular view it’s accepted. And why is it such a popular view? That’s obvious. It’s an attractive proposition. Believe in me and live forever. Again if it was just a case of spirituality this would be fine.
“Do unto others…” is a good rule of thumb. I live by that. Forgiveness is probably the greatest virtue there is. But that's exactly what it is - a virtue. Not just a a Christian virtue. No one owns being good. I’m good. I just don’t believe I’ll be rewarded for it in heaven. My reward is here and now. It’s knowing that I try to do the right thing. That I lived a good life. And that’s where spirituality really lost its way. When it became a stick to beat people with. “Do this or you’ll burn in hell.”
You won’t burn in hell. But be nice anyway.
(Ricky Gervais)
Retirado daqui, visto aqui.
21/12/2010
A melhor canção de Natal de sempre ou apenas uma das melhores canções de sempre
Em 2000, após ter participado num programa de rádio para a BBC em Cuba, Kirsty MacColl tirou uns dias de férias em Cozumel, no México, com os seus filhos e o seu companheiro, o músico James Knight. No dia 18 de dezembro ela e seus filhos, juntamente com um veterano de mergulho de seu nome Ivan Diaz, foram fazer mergulho numa área reservada na qual todas as embarcações estavam impedidas de entrar. Num desses mergulhos, quando o grupo regressava à superfície, um barco a motor entrou na área restrita a grande velocidade. MacColl viu o barco antes dos seus filhos e nadou na direcção de um deles, Jamie, que estava no caminho do barco, empurrando-o a tempo de o salvar, sofrendo ferimentos menores na cabeça e lesões das costelas. Kirsty, no entanto, foi atingida pelo barco e morreu instantaneamente.
O barco envolvido no acidente era propriedade do milionário mexicano Guillermo González Nova, dono de uma companhia de hipermercados, que estava a bordo com vários membros de sua família. Um empregado de González Nova, José Cen Yam, alegou ter sido ele o condutor do barco no momento em que ocorreu o acidente, mas vários relatórios publicados incluíram relatos de testemunhas que afirmaram que Cen Yam não estava nos comandos do barco, indicando também que o barco seguia a uma velocidade mais rápida que a velocidade de um nó que Guillermo González Nova havia afirmado. Cen Yam foi considerado culpado de homicídio e foi condenado a 2 anos e 10 meses de prisão. No entanto, ele foi autorizado pela lei mexicana a pagar uma multa de 1.034 pesos (cerca de 63€) em vez de cumprir a pena de prisão. Ele também foi condenado a pagar cerca de 2150 dólares em indemnização à família MacColl, uma quantia baseada em seu salário. Os relatórios publicados incluíram depoimentos de pessoas que falaram com Cen Yam após o acidente e que alegam que Cen Yam terá recebido dinheiro para assumir a culpa pelo incidente.
Ninguém conhecerá kirsty MacCol para além da sua participação naquela que é considerada por muita gente (eu, por exemplo) a melhor música de Natal (e de bebedeiras) de sempre. Também pode ser simplesmente uma das melhores músicas de sempre.
Kirsty MacCol era uma pessoa normal que se viu perante uma situação extraordinária. Correspondeu da melhor forma, foi uma heroína, poucos fariam o que ela fez, mesmo pelos filhos e numa altura em que passam dez anos sobre os acontecimentos trágicos da sua morte não é demais recordar que ainda não foi feita justiça, assim como será importante recordá-la pelo que fez e pelo que perdemos. Boas Festas!
The Pogues and kirsty MacColl - Fairytale of New York
Nota: A informação presente neste texto foi retirada do artigo da Kirsty MacCol, na Wikipédia
O barco envolvido no acidente era propriedade do milionário mexicano Guillermo González Nova, dono de uma companhia de hipermercados, que estava a bordo com vários membros de sua família. Um empregado de González Nova, José Cen Yam, alegou ter sido ele o condutor do barco no momento em que ocorreu o acidente, mas vários relatórios publicados incluíram relatos de testemunhas que afirmaram que Cen Yam não estava nos comandos do barco, indicando também que o barco seguia a uma velocidade mais rápida que a velocidade de um nó que Guillermo González Nova havia afirmado. Cen Yam foi considerado culpado de homicídio e foi condenado a 2 anos e 10 meses de prisão. No entanto, ele foi autorizado pela lei mexicana a pagar uma multa de 1.034 pesos (cerca de 63€) em vez de cumprir a pena de prisão. Ele também foi condenado a pagar cerca de 2150 dólares em indemnização à família MacColl, uma quantia baseada em seu salário. Os relatórios publicados incluíram depoimentos de pessoas que falaram com Cen Yam após o acidente e que alegam que Cen Yam terá recebido dinheiro para assumir a culpa pelo incidente.
Ninguém conhecerá kirsty MacCol para além da sua participação naquela que é considerada por muita gente (eu, por exemplo) a melhor música de Natal (e de bebedeiras) de sempre. Também pode ser simplesmente uma das melhores músicas de sempre.
Kirsty MacCol era uma pessoa normal que se viu perante uma situação extraordinária. Correspondeu da melhor forma, foi uma heroína, poucos fariam o que ela fez, mesmo pelos filhos e numa altura em que passam dez anos sobre os acontecimentos trágicos da sua morte não é demais recordar que ainda não foi feita justiça, assim como será importante recordá-la pelo que fez e pelo que perdemos. Boas Festas!
The Pogues and kirsty MacColl - Fairytale of New York
Nota: A informação presente neste texto foi retirada do artigo da Kirsty MacCol, na Wikipédia
11/10/2010
Mil palavras que não valem uma imagem
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| Kevin Carter, New York Times |
Não se sabe o que aconteceu à criança. O jornal a quem Carter vendeu a fotografia garante que a criança demonstrava ter forças para se afastar, mas que desconheciam o que tinha acontecido à criança. Mas sabe-se o que aconteceu a Carter - que ganhou um prémio Pulitzer com esta foto. No final, profundamente deprimido com acontecimentos da sua vida e também pelo que se passava em África, acontecimentos que culminaram no desaparecimento de Ken Oosterbroek, um colega seu que fora alvejado fatalmente quando cobria as primeiras eleições após Apartheid, Carter viria a pôr fim à sua vida em 27 de Julho de 1994. Tudo se terá passado num local onde costumava brincar nos seus tempos de criança, ligando uma mangueira do tubo de escape ao interior da sua carrinha, morrendo de envenenamento por monóxido de Carbono, deixando uma carta de despedida com este excerto:
“Estou deprimido… Sem telefone… Sem dinheiro para a renda... Sem dinheiro para ajudar as crianças… Sem dinheiro para as dívidas… Dinheiro!!!... Sou perseguido pela viva lembrança de assassinatos, cadáveres, raiva e dor… Pelas crianças feridas ou famintas… Pelos homens malucos com o dedo no gatilho, muitas vezes policias, carrascos… Se eu tiver sorte, vou juntar-me ao Ken...”
Claro que nestas coisas há sempre desacordos, incongruências e versões diferentes, há até uma versão de um colega de Carter, um fotógrafo nascido em Lisboa de nome João Silva, que diz que os pais da criança estavam por perto e que Carter não terá esperado tanto tempo como disse, pois quando Carter se aproximou o abutre fugiu, tendo tirado apenas algumas fotos. Porque teria Carter contado uma versão mais dramática, mas que o deixava mal-visto? Mesmo que a criança estivesse em sofrimento, valeria esse sofrimento por todo o reconhecimento que a fotografia trouxe à situação sudanesa em particular e de todo um continente assombrado pela guerra, fome e ódio racial? Carter terá cometido suicídio por não ter ajudado a criança? O que se passou com a criança? Outras mil palavras que as imagens nunca dirão.
(João Freire)
Reaproveitado para o desafio de Março da Fábrica de Letras, subordinado ao tema "Fotografia"
Reaproveitado para o desafio de Março da Fábrica de Letras, subordinado ao tema "Fotografia"
05/10/2010
Nunca se fala do cheiro da terra depois de uma trovoada
Não havia muita gente que conhecesse o mundo antes de ele ser de plástico. As árvores, o chão, os edifícios, como brinquedos, tudo de plástico. Talvez ainda existissem pessoas do tempo anterior à ‘cobertura’, antes da intoxicação total. Sabia-se agora que a contaminação dos solos e das águas, aliada ao degelo dos pólos conduzira àquela situação. Primeiro as inundações, de seguida o fim das correntes marítimas e finalmente uma nova Era Glaciar. Restara a fuga para o interior da terra e os 12 anos de recuperação, com fábricas termonucleares a bombear ar quente para a atmosfera e ar puro (numa mistura de 20% de oxigénio e 80% de nitrogénio) para dentro dos túneis, dando vida àqueles milhões de pessoas que tiveram a sorte de estar ao pé da rede de túneis de isolamento e climatização termonuclear de uma corporação que testava uma nova forma de armazenar energia. Por sorte, o restabelecimento das condições atmosféricas favoráveis à vida humana fora mais rápido do que o previsto, mas a contaminação dos solos inevitável. Os detritos radioactivos eram tantos que nenhum pedaço de terra na nova superfície terrestre era cultivável, sendo até tóxico ao contacto. Convém dizer que a área total terrestre diminuíra para um décimo dos valores dos finais do século XXI e que apenas mil milhões de pessoas haviam sobrevivido, povoando agora uma área da antiga Europa Central junto aos Alpes, estendendo-se a Oeste até ao território de Espanha e a Leste até ao território da Turquia e que se chamava - imagine-se - Nova Europa. Apenas o plástico subsistira, encontrando-se por todo o lado, boiando na água, em formas antigas de produtos variados e desnecessários, aparelhos de outros tempos que agora não serviam para nada mais do que a construção civil. Reconfiguradas as fábricas, que agora, restabelecidas as correntes, os pólos e o sistema climatérico em geral, não serviam nenhum propósito, procedeu-se nelas à reciclagem do plástico.
– Antes este prédio construía-se com ferro e não plástico – diziam os operários, como se contassem uma história inacreditável.
E tudo era plástico. Derretia-se o plástico, convertia-se o plástico nas formas desejadas pelos construtores, transformando-se sobretudo em blocos de construção por encaixe e colagem por calor e construía-se por cima da terra e do mar. A água, essa, era dessalinizada através da osmose reversa e a alimentação baseava-se no aproveitamento da carne humana morta, ultra-congelada, e na pesca, embora apenas algumas espécies fossem permitidas, devido à sua resistência à contaminação. A esperança média de vida baixara drasticamente, dai também a dificuldade de encontrar alguém que vivera no período anterior à cobertura, mas reza a lenda que numa dessas casas de plástico, uma homem muito velho que vivia com o seu filho, a nora e uma neta, lhes contava uma história do tempo anterior à cobertura, enumerando coisas tão fantásticas que faziam os olhos da criança brilhar de admiração e incredulidade. De repente começou a chover, nunca chovia naquele mundo de plástico, ficando toda a gente assustada com o barulho dos trovões. Restou ao velho, que sorria imenso, acalmar a sua família, recordando outros dias de chuva, antes da ‘cobertura’, enumerando coisas que o enchiam de saudades e às quais nunca dera o devido valor, coisas tão banais como a chuva a cair na face ou o cheiro da terra molhada. Sorriu uma última vez, caindo no chão, deixando um sorriso na face, perante a aflição do filho e da nora.
Um homem velho, que apesar de tudo tinha tido muita sorte, que fora casado anos sem conta, que tinha um filho extraordinário, uma nora que o estimava e uma neta tão bela como as estrelas, morria lembrando-se apenas, no meio de um suspiro final, do cheiro que a terra tinha quando chovia. A neta, que durante toda a sua vida ouvira dizer que o seu avô morrera ao contar uma história de um dia de trovoada e do cheiro da chuva, nunca se esqueceu dos poderes fatais desse cheiro. Desde aí que se ouve dizer que nunca se fala do cheiro da terra depois de uma trovoada.
(João Freire)
Para o tema "O cheiro da chuva" num desafio da "Fábrica de Letras".
Respondendo às dúvidas que surgiram ao ler outro texto sobre o Cheiro da chuva.
Radiohead - Fake Plastic Trees
Dave Matthews & Tim Reynolds - Gravedigger
– Antes este prédio construía-se com ferro e não plástico – diziam os operários, como se contassem uma história inacreditável.
E tudo era plástico. Derretia-se o plástico, convertia-se o plástico nas formas desejadas pelos construtores, transformando-se sobretudo em blocos de construção por encaixe e colagem por calor e construía-se por cima da terra e do mar. A água, essa, era dessalinizada através da osmose reversa e a alimentação baseava-se no aproveitamento da carne humana morta, ultra-congelada, e na pesca, embora apenas algumas espécies fossem permitidas, devido à sua resistência à contaminação. A esperança média de vida baixara drasticamente, dai também a dificuldade de encontrar alguém que vivera no período anterior à cobertura, mas reza a lenda que numa dessas casas de plástico, uma homem muito velho que vivia com o seu filho, a nora e uma neta, lhes contava uma história do tempo anterior à cobertura, enumerando coisas tão fantásticas que faziam os olhos da criança brilhar de admiração e incredulidade. De repente começou a chover, nunca chovia naquele mundo de plástico, ficando toda a gente assustada com o barulho dos trovões. Restou ao velho, que sorria imenso, acalmar a sua família, recordando outros dias de chuva, antes da ‘cobertura’, enumerando coisas que o enchiam de saudades e às quais nunca dera o devido valor, coisas tão banais como a chuva a cair na face ou o cheiro da terra molhada. Sorriu uma última vez, caindo no chão, deixando um sorriso na face, perante a aflição do filho e da nora.
Um homem velho, que apesar de tudo tinha tido muita sorte, que fora casado anos sem conta, que tinha um filho extraordinário, uma nora que o estimava e uma neta tão bela como as estrelas, morria lembrando-se apenas, no meio de um suspiro final, do cheiro que a terra tinha quando chovia. A neta, que durante toda a sua vida ouvira dizer que o seu avô morrera ao contar uma história de um dia de trovoada e do cheiro da chuva, nunca se esqueceu dos poderes fatais desse cheiro. Desde aí que se ouve dizer que nunca se fala do cheiro da terra depois de uma trovoada.
(João Freire)
Para o tema "O cheiro da chuva" num desafio da "Fábrica de Letras".
Respondendo às dúvidas que surgiram ao ler outro texto sobre o Cheiro da chuva.
Radiohead - Fake Plastic Trees
Dave Matthews & Tim Reynolds - Gravedigger
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08/08/2010
Have you got it yet
Um dia, Syd Barret, excêntrico vocalista dos Pink Floyd com um historial de consumo de drogas e problemas mentais, juntou os seus amigos e colegas de banda num estúdio onde gravavam um álbum para lhes mostrar uma canção na qual andava a trabalhar. David Gilmour, que entrara recentemente na banda, e Roger Waters, tentariam acompanhá-lo. Barret começou por tocar algo aparentemente normal, começando depois a variar a melodia à medida que os outros a tentavam apreender. Ao mesmo tempo que ia tocando de improviso, numa longa sequência de acordes incoerentes, perguntava aos outros: “Have you got it, yet?" (algo como “já perceberam?”), ao que os outros, incapazes de seguir a melodia, respondiam: “no, no”, o que constituiria o refrão. A cena prolongou-se até que Roger Waters, apercebendo-se que aquilo não iria dar em nada, pôs o baixo no chão e saiu da sala de ensaios nunca mais tendo tocado com Syd barret, o qual, após a deterioração do seu estado mental, acabaria mesmo por deixar a banda.
Também a vida é como esta canção de Syd Barrett: toda a gente à procura de um sentido, toda a gente a tentar seguir os acordes, mas a vida a gozar connosco e a mudar as regras à medida que vamos andando, não porque queira, mas porque não tem sentido.
(João Freire)
Pink Floyd - Time
Também a vida é como esta canção de Syd Barrett: toda a gente à procura de um sentido, toda a gente a tentar seguir os acordes, mas a vida a gozar connosco e a mudar as regras à medida que vamos andando, não porque queira, mas porque não tem sentido.
(João Freire)
Pink Floyd - Time
27/07/2010
E os domingos nunca mais voltaram a ser os mesmos
Sempre houve uma discussão para saber quem seria melhor, se Senna ou Prost, se Senna ou Mansell, se Senna ou Schumacher. Senna angariou ao longo da sua curta carreira três títulos do campeonato de fórmula 1 e alguns recordes que Shumacher viria a bater. Pouco para mostrar, ainda mais se compararmos esses títulos aos sete do alemão. Senna seria mais parecido com Gilles Villeneuve... Mas na verdade as comparações são impossíveis. Gostamos de comparações, precisamos delas para simplificar a realidade, mas com Senna não existem comparações, porque na cabeça de quem sabe não há dúvidas nenhuma. Shumacher sabia-o, Prost sabia-o. Todos o sabiam. Quando Senna corria era sempre o melhor. Correu em tempos diferentes dos que vivemos, tempos em que a segurança era por vezes negligenciada (os carros estavam no limite da velocidade e da segurança). Correr naquela altura, com aqueles carros era tarefa de loucos e Senna, entre os loucos, seria talvez o maior. Para além de tudo isto, era também um ídolo fora das pistas: ajudava muitas pessoas, era amigo de muitas mais, mesmo pilotos e rivais, era respeitado por toda a gente e por isso o mundo gostava dele, por isso o mundo chorou a sua morte e por isso o recordamos ainda hoje. Lembro-me dos Domingos de Fórmula 1 como das melhores coisas da minha infância e lembro-me de Senna, aquele capacete amarelo debaixo daquele barulho ensurdecedor, como o ídolo da minha geração... um ídolo de sempre.
Um vídeo sobre a melhor volta de uma corrida de fórmula 1
O vídeo da melhor volta de uma corrida de fórmula 1
Inspirado numa homenagem feita no Top gear e que vale a pena ver (link para episódio completo)
20/06/2010
Assim é. Assim seja.
«A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: “Não há mais que ver”, sabia que não era assim. O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.»
Retirado do blogue Os outros cadernos de Saramago
José Saramago em Viagem a Portugal
Retirado do blogue Os outros cadernos de Saramago
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12/03/2010
Um barulho enlouquecedor no silêncio
Começou a manhã com um suspiro. Acordou, deu voltas na cama e olhou o negro do seu quarto escuro completamente fechado, quase selado. Abominava o branco e a claridade excessiva, pelo que gostava de estar assim, resguardada do que os outros pensariam da sua natural estranheza por baixo dos grossos cobertores e lençóis. Era um bem-estar incomum e raro para ela. Não deixava entrar ninguém como não deixava entrar luz naquele quarto preenchido com um silêncio denso, enquanto o seu cérebro despertava no meio de algumas considerações avulsas sobre o tempo e a forma com as tardes se sucediam às manhãs até que a noite a levasse à cama num ciclo que se renovava inexplicavelmente. Fazia-lhe falta um sentido para tudo, fazia-lhe falta sentir.
Sua mãe bateu à porta do quarto, como de costume, e chamou-a.
Na sua cabeça chamava-lhe velha e não gostava dela.
Levantou-se na escuridão, percorrendo às apalpadelas os cinco passos até à casa-de-banho, para depois acender a luz. O seu retrato no espelho era neutro e ela olhava para ele como se procurasse algo… Talvez as caras das vozes com quem discutia na sua cabeça, o barulho enlouquecedor no silêncio.
Pegou na lâmina e fez um corte no antebraço. Funcionava para se acalmar, funcionava para acalmar as vozes. Ao lado da ferida no braço, cicatrizes, umas antigas outras recentes, mostrando as tentativas de lidar com o seu ‘problema’, e as veias azuis que ela contemplava profundamente, sentindo-as latejar, apertando a mão com força para que se vissem melhor.
Diagnosticada, internada, normalizada, passara dois anos fora de casa, entre quartos brancos e salas almofadadas que a impediam de se magoar… e a claridade opressiva. Por isso lhe era difícil encontrar lâminas pela casa, por isso a sua mãe entrava de rompante em certas ocasiões, por isso ela chorava sem emitir nenhum barulho ou líquido, sempre um olhar neutro e muita confusão na sua cabeça, como se a sua mente fosse o burburinho de uma cozinha atarefada de um restaurante popular.
O arrastar de móveis e o bater de portas na outra divisão indicava-lhe que tinha mais algum tempo de solidão. Apenas quando o barulho cessava é que sua mãe chegava, mas fazia tempo que não lhe investigava os braços, fazia tempo que ela se preocupara, afinal, bastava um sorriso para que a desculpasse das provas dos medicamentos tomados que antes lhe exigia severamente.
Como sua mãe, que regozijava com os progressos, ninguém na família alargada ou conhecidos em geral diriam que se passava algo com aquela rapariga, fingindo desconhecer que os problemas mais difíceis de todos nós são aqueles que nos atormentam por dentro. Para toda a gente basta uma aparência de felicidade nos outros, para toda a gente serve uma inócua pergunta, “tudo bem?”, seguida de uma resposta ainda mais inócua, “sim”. Não fossem as caixas de lítio compradas por sua mãe numa farmácia do outro lado da cidade de três em três meses e nenhum problema existiria. Daí a estranheza da população quando, após a hospitalização da mãe, aquela rapariga saiu à rua nua como uma criança inocente no seu corpo de 26 anos.
Claro que sua mãe morreu. As pessoas morrem sempre nestas histórias tristes que se contam de ouvir dizer. E naquele dia, antes mesmo de virem os senhores da segurança social e do hospital, apenas restou o silêncio na casa. Todas as janelas estavam fechadas. No quarto, sentada na beira da cama, olhando um espelho grande na parede, uma rapariga e uma lágrima apanhada com um dedo inquisidor para o qual olhou, vendo-o molhado, a prova de que apesar de tudo sentia.
(João Freire)
Tindersticks - Tiny Tears
Para o tema"insanidade" "Silêncio", num desafio da "Fábrica de Letras", acompanhando esta, esta e esta participação.
Sua mãe bateu à porta do quarto, como de costume, e chamou-a.
Na sua cabeça chamava-lhe velha e não gostava dela.
Levantou-se na escuridão, percorrendo às apalpadelas os cinco passos até à casa-de-banho, para depois acender a luz. O seu retrato no espelho era neutro e ela olhava para ele como se procurasse algo… Talvez as caras das vozes com quem discutia na sua cabeça, o barulho enlouquecedor no silêncio.
Pegou na lâmina e fez um corte no antebraço. Funcionava para se acalmar, funcionava para acalmar as vozes. Ao lado da ferida no braço, cicatrizes, umas antigas outras recentes, mostrando as tentativas de lidar com o seu ‘problema’, e as veias azuis que ela contemplava profundamente, sentindo-as latejar, apertando a mão com força para que se vissem melhor.
Diagnosticada, internada, normalizada, passara dois anos fora de casa, entre quartos brancos e salas almofadadas que a impediam de se magoar… e a claridade opressiva. Por isso lhe era difícil encontrar lâminas pela casa, por isso a sua mãe entrava de rompante em certas ocasiões, por isso ela chorava sem emitir nenhum barulho ou líquido, sempre um olhar neutro e muita confusão na sua cabeça, como se a sua mente fosse o burburinho de uma cozinha atarefada de um restaurante popular.
O arrastar de móveis e o bater de portas na outra divisão indicava-lhe que tinha mais algum tempo de solidão. Apenas quando o barulho cessava é que sua mãe chegava, mas fazia tempo que não lhe investigava os braços, fazia tempo que ela se preocupara, afinal, bastava um sorriso para que a desculpasse das provas dos medicamentos tomados que antes lhe exigia severamente.
Como sua mãe, que regozijava com os progressos, ninguém na família alargada ou conhecidos em geral diriam que se passava algo com aquela rapariga, fingindo desconhecer que os problemas mais difíceis de todos nós são aqueles que nos atormentam por dentro. Para toda a gente basta uma aparência de felicidade nos outros, para toda a gente serve uma inócua pergunta, “tudo bem?”, seguida de uma resposta ainda mais inócua, “sim”. Não fossem as caixas de lítio compradas por sua mãe numa farmácia do outro lado da cidade de três em três meses e nenhum problema existiria. Daí a estranheza da população quando, após a hospitalização da mãe, aquela rapariga saiu à rua nua como uma criança inocente no seu corpo de 26 anos.
Claro que sua mãe morreu. As pessoas morrem sempre nestas histórias tristes que se contam de ouvir dizer. E naquele dia, antes mesmo de virem os senhores da segurança social e do hospital, apenas restou o silêncio na casa. Todas as janelas estavam fechadas. No quarto, sentada na beira da cama, olhando um espelho grande na parede, uma rapariga e uma lágrima apanhada com um dedo inquisidor para o qual olhou, vendo-o molhado, a prova de que apesar de tudo sentia.
(João Freire)
Tindersticks - Tiny Tears
Para o tema
05/02/2010
'The Old Game' - Cena final do filme "Confessions of a dangerous mind"
"I came up with a new game-show idea recently. It's called the old game. You got three old guys with loaded guns onstage. They look back at their lives, see who they were, what they accomplished, how close they came to realizing their dreams. The winner is the one who doesn't blow his brains out. He gets a refrigerator."
Para o tema "Velhice", num desafio da "Fábrica de Letras", acompanhando esta, esta, esta e esta participação.
04/01/2010
Lhasa de Sela (1972 - 2010)
Lhasa de Sela - Los Peces
Tindersticks/Lhasa de Sela - Sometimes it Hurts
Stuart Staples/Lhasa de Sela - That Leaving Feeling
Lhasa de Sela - De cara a la pared
12/12/2009
Velhos
Parece que alguém decidiu levar um grupo de idosos ao teatro. Parece que a reacção destes foi inesperada. Depois alguém fez um vídeo e, vai daí, o próprio vídeo torna-se numa sensação da internet e até numa forma original de publicitar a peça.
O vídeo é este que se segue.Não gosto de muita coisa neste vídeo.
Não gosto, nem compreendo que haja alguém responsável pela decisão de levar um grupo de pessoas ao teatro e não tenha a capacidade de perceber ou de se informar com alguém do teatro se esse grupo vai gostar ou não da obra ou sequer se a vai compreender.
Depois, em segundo lugar, não gosto que alguém faça um plano de zoom aos dentes de um senhor como forma de menosprezar os argumentos desse mesmo senhor.
Por fim, não gosto que ainda se fale tanto do Salazar a propósito de tudo e não gosto que alguém justifique os caminhos da droga com uma peça de teatro.
Mas também há muita coisa que gosto.
Em primeiro lugar, gosto do vídeo em si porque me fez rir, mas também gosto do facto dos actores terem continuado a peça pelo meio dos apupos e vaias e – embora não aprecie que eles se riam depois da situação – compreendo que o façam.
Será que eles (os velhos) sabiam que podiam sair a meio da peça?
E, para finalizar, gosto da senhora que aparece no término do vídeo (fora do grupo - o que explica muito das reacções), que diz que gostou da peça, e gosto particularmente do senhor que a acompanha e que apenas diz boa-noite.
Eu quero ser aquele senhor. Eu quero chegar a velho e ter uma senhora que envelheça ao meu lado com uma dentição apresentável e que não me deixe ficar mal visto ao ser entrevistada pelos senhores da televisão.
26/11/2009
Olhar de dentro, um grito silencioso no escuro
Rom Houben in Diário de Notícias
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16/11/2009
O dia da libertação
(baseado em factos verídicos)
O dia da libertação começou como tantos outros. Era Março e o calor sacudia as almas até à exaustão. O meu turno começara há duas horas e fazíamos a nossa primeira pausa do dia para uma ligeira refeição. Claro que ninguém ligava ao rádio, era apenas um ruído suportável que acompanhava o dia dos trabalhadores, e somente quando um dos sindicalistas começou a esbracejar é que percebemos que alguma coisa se passava.
- A guerra começou - exclamou, anunciando o pior em três simples palavras.
A confusão instalou-se. Alguns, aqueles que não tinham pertences na cidade nem familiares, conseguiram resistir à tentação da histeria, mas outros, como eu, circundavam a refinaria, procurando os chefes de turno ou alguém que lhes permitisse uma hora ou duas de folga. Consegui, mas depressa me avisaram do erro que cometia e de como era melhor ficar ali à espera não sei bem do quê. Diziam para lhes telefonar, para encaminhar os meus para o aeroporto ou para a refinaria, diziam para não sair, que era perigoso percorrer a estrada de volta à cidade e diziam-me que os pretos estavam a matar todos os brancos.
(“Todos” sempre me pareceu demasiado)
E lá fui, carregado apenas de amor pela minha família e de medo pela forma como me matariam. “Seria com uma catana”, pensava, ”Seria com um pau rombo?”
Não voltaria.
Telefonei antes, dizendo à minha mulher que pegasse nas crianças e fosse com os nossos vizinhos para o aeroporto comprar passagens para Lisboa, mas não sabia ao certo se ela obedeceria, derivado a que também ela sentia o peso de deixar a nossa casa, as nossas coisas e o nosso país.
Já no caminho, uns minutos depois de abandonar a segurança da refinaria, um homem maciço mandou-me parar e lembro-me agora de pensar se o atropelava ou não e se tentaria superar a barreira que atrapalhava a passagem ou não.
- Quem é você e o que faz aqui?
Pensei que estava morto, que não tinha sítio para fugir e que tinha sido fraco na hora da morte porque nem sequer tentava fugir ou reagir.
(Que cobarde és, Jaime. Não vais voltar a ver a tua mulher, Jaime, e os teus filhos, Jaime, não vais voltar a ver Setúbal, Jaime.)
Mas ainda não seria ali.
- Temos ordens do general Manhomanha Santos para deixar passar os senhores da Petrogal, mas há comandos espalhados por aí que não sabem disso. Está avisado. Prossiga.
E eu fiquei mais calmo. Deixaram-me e segui até à cidade.
Na cidade nada, apenas ruído de algo que não identificava ao longe.
(Como quando estava fora do Estádio do Bonfim e se ouvia aquele burburinho no interior após uma jogada mais incendiária)
Passei a avenida principal, a praça e o mesmo silêncio. Já no bairro onde morava, com vista para o porto, os portões abertos, lixo espalhado e o mesmo silêncio. Entrei na casa e nada, apenas gavetas abertas, roupa revoltada pela casa e coisas a bater. "Talvez os vizinhos", pensei. Nada.
Deduzi que já tivessem partido e fiquei mais aliviado.
Eu também iria para o aeroporto.
(A empresa lá ficou. Depois ainda tentei telefonar mas já não consegui)
Antes de chegar ao aeroporto, mesmo por estradas travessas, a imagem de Angola, a imagem da libertação de um povo há 500 anos submetido ao poder dos brancos: A terra vermelha, as caras negras, os dentes brancos, o calor, a humidade estavam lá, mas estava principalmente a imagem de uns quantos a gritar “UPA, UPA, UPA” e “Angola vai agradecer” enquanto perseguiam um senhor (talvez o senhor Roberto da mercearia, que tinha uma fazenda, e a sua família) e agitavam as catanas.
Parei o carro.
Claro que não devia ter parado, devia ter continuado mais um ou dois minutos até ao aeroporto. Se tivesse continuado nunca teria a certeza que era o senhor Roberto, que era a sua família e que eram catanas aqueles objectos que os pretos tinham na mão. Lá estava a terra vermelha, as caras negras, os dentes brancos, o calor, a humidade, mas também a raiva, os olhos amarelos, e um menino caído no chão a chorar.
Não devia ter mais de três anos aquele menino que eu já entretera muitas vezes na mercearia, e era ele
(foi ele)
que no dia 15 de Março de 1961, o dia da “Acção”, como lhe chamaram, estava a ser agarrado pelas duas pernas e sacudido com toda a força de um soldado contra o capot de um carro.
O Corpo vivo da criança bateu no carro e morreu instantaneamente, os seus berros deixaram lugar ao silêncio e já só se ouvia o “UPA! UPA” e o choro descontrolado da mãe.
Depois, com uma catana, separaram a cabeça do senhor Roberto do resto do seu corpo e por fim, perante uma mulher destruída por dentro, e ajoelhada no meio de uma rua de Angola, um dos soldados de libertação apontou uma pistola à parte de trás da sua cabeça e disparou. O seu corpo caiu de imediato, não para a frente, mas para o lado.
Guerra é guerra, não tem a ver com cor, não tem a ver com política, não tem a ver com nada.
Para mim a guerra é a memória que aquela mulher teve no último minuto da sua vida.
(João Freire)
Texto subordinado ao tema "Preto & Branco" num desafio da "Fábrica de Letras" .
Publicado anteriormente aqui
O dia da libertação começou como tantos outros. Era Março e o calor sacudia as almas até à exaustão. O meu turno começara há duas horas e fazíamos a nossa primeira pausa do dia para uma ligeira refeição. Claro que ninguém ligava ao rádio, era apenas um ruído suportável que acompanhava o dia dos trabalhadores, e somente quando um dos sindicalistas começou a esbracejar é que percebemos que alguma coisa se passava.
- A guerra começou - exclamou, anunciando o pior em três simples palavras.
A confusão instalou-se. Alguns, aqueles que não tinham pertences na cidade nem familiares, conseguiram resistir à tentação da histeria, mas outros, como eu, circundavam a refinaria, procurando os chefes de turno ou alguém que lhes permitisse uma hora ou duas de folga. Consegui, mas depressa me avisaram do erro que cometia e de como era melhor ficar ali à espera não sei bem do quê. Diziam para lhes telefonar, para encaminhar os meus para o aeroporto ou para a refinaria, diziam para não sair, que era perigoso percorrer a estrada de volta à cidade e diziam-me que os pretos estavam a matar todos os brancos.
(“Todos” sempre me pareceu demasiado)
E lá fui, carregado apenas de amor pela minha família e de medo pela forma como me matariam. “Seria com uma catana”, pensava, ”Seria com um pau rombo?”
Não voltaria.
Telefonei antes, dizendo à minha mulher que pegasse nas crianças e fosse com os nossos vizinhos para o aeroporto comprar passagens para Lisboa, mas não sabia ao certo se ela obedeceria, derivado a que também ela sentia o peso de deixar a nossa casa, as nossas coisas e o nosso país.
Já no caminho, uns minutos depois de abandonar a segurança da refinaria, um homem maciço mandou-me parar e lembro-me agora de pensar se o atropelava ou não e se tentaria superar a barreira que atrapalhava a passagem ou não.
- Quem é você e o que faz aqui?
Pensei que estava morto, que não tinha sítio para fugir e que tinha sido fraco na hora da morte porque nem sequer tentava fugir ou reagir.
(Que cobarde és, Jaime. Não vais voltar a ver a tua mulher, Jaime, e os teus filhos, Jaime, não vais voltar a ver Setúbal, Jaime.)
Mas ainda não seria ali.
- Temos ordens do general Manhomanha Santos para deixar passar os senhores da Petrogal, mas há comandos espalhados por aí que não sabem disso. Está avisado. Prossiga.
E eu fiquei mais calmo. Deixaram-me e segui até à cidade.
Na cidade nada, apenas ruído de algo que não identificava ao longe.
(Como quando estava fora do Estádio do Bonfim e se ouvia aquele burburinho no interior após uma jogada mais incendiária)
Passei a avenida principal, a praça e o mesmo silêncio. Já no bairro onde morava, com vista para o porto, os portões abertos, lixo espalhado e o mesmo silêncio. Entrei na casa e nada, apenas gavetas abertas, roupa revoltada pela casa e coisas a bater. "Talvez os vizinhos", pensei. Nada.
Deduzi que já tivessem partido e fiquei mais aliviado.
Eu também iria para o aeroporto.
(A empresa lá ficou. Depois ainda tentei telefonar mas já não consegui)
Antes de chegar ao aeroporto, mesmo por estradas travessas, a imagem de Angola, a imagem da libertação de um povo há 500 anos submetido ao poder dos brancos: A terra vermelha, as caras negras, os dentes brancos, o calor, a humidade estavam lá, mas estava principalmente a imagem de uns quantos a gritar “UPA, UPA, UPA” e “Angola vai agradecer” enquanto perseguiam um senhor (talvez o senhor Roberto da mercearia, que tinha uma fazenda, e a sua família) e agitavam as catanas.
Parei o carro.
Claro que não devia ter parado, devia ter continuado mais um ou dois minutos até ao aeroporto. Se tivesse continuado nunca teria a certeza que era o senhor Roberto, que era a sua família e que eram catanas aqueles objectos que os pretos tinham na mão. Lá estava a terra vermelha, as caras negras, os dentes brancos, o calor, a humidade, mas também a raiva, os olhos amarelos, e um menino caído no chão a chorar.
Não devia ter mais de três anos aquele menino que eu já entretera muitas vezes na mercearia, e era ele
(foi ele)
que no dia 15 de Março de 1961, o dia da “Acção”, como lhe chamaram, estava a ser agarrado pelas duas pernas e sacudido com toda a força de um soldado contra o capot de um carro.
O Corpo vivo da criança bateu no carro e morreu instantaneamente, os seus berros deixaram lugar ao silêncio e já só se ouvia o “UPA! UPA” e o choro descontrolado da mãe.
Depois, com uma catana, separaram a cabeça do senhor Roberto do resto do seu corpo e por fim, perante uma mulher destruída por dentro, e ajoelhada no meio de uma rua de Angola, um dos soldados de libertação apontou uma pistola à parte de trás da sua cabeça e disparou. O seu corpo caiu de imediato, não para a frente, mas para o lado.
Guerra é guerra, não tem a ver com cor, não tem a ver com política, não tem a ver com nada.
Para mim a guerra é a memória que aquela mulher teve no último minuto da sua vida.
(João Freire)
Texto subordinado ao tema "Preto & Branco" num desafio da "Fábrica de Letras" .
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