24/10/2008

Auto da Humidade

À Farsa seguinte chamam Auto da Humidade. Foi fundada sobre várias mulheres, que trabalhando no mesmo local, tudo as incomoda, principalmente o contacto entre elas. Foi feita em Lisboa e não será representada. Era de 2008 anos.

Entram nela estas figuras:

Luísa - A bipolar
Mónica - A querida
Té - A vizinha
Sónia - A miúda
Dina - A filha
Deolinda - A inchada
Helena - A bimba
Magda - A síndroma de tourette
Carmen - A sensata
Cátia - A adolescente
Antónia - A anã muda
Elisa - A desonesta
Lurdes - A justa

Parque de estacionamento da Empresa Humidade. Manhã.

Todas com excepção da Antónia - Bom dia!
Antónia acena com a sua mãozinha.
Sónia - Opá... os meus pais descobriram que fumo e querem levar-me à igreja para ser benzida!
Luísa - A sério? Mas porquê?
Sónia - Porque enquanto viver com eles, tenho que seguir as suas regras. Senão põem-me fora de casa. E eu tenho 18 anos. Não posso ir viver com o meu namorado.
Cátia - A minha mãe não me diz nada a esse respeito. É claro que se importa com isso, mas se sou eu que compro o meu tabaco e se sou eu que o fumo, desde que não fume ao pé dela e em casa, é na boa.
Sónia - Pois. Mas os meus pais são uma seca. Têm uma mente que parou de se desenvolver há 1500 anos.
Todas com excepção da Antónia - Ahahaha
Antónia sorri.
Luísa - Meninas, então! Trabalhar, trabalhar!

Elisa está na Sala dos Favos de Mel com Lurdes.

Elisa - Estou tão cansada. Estou de directa. Ontem fui a um concerto de hard-rock e cheguei a casa por volta das 6h. E dói-me a cabeça...
Lurdes - Ena! (mantém-se ocupada com o favo de mel, que desloca de um lado para o outro para ver a consistência do pólen)
Elisa - Não gosto nada como a Helena deixou a sala dos Favos.
Lurdes - Nem eu. (etiquetando com o seu nome a colecção de favos manuseados por ela)
Elisa - Está tudo sujo de mel, as ventoinhas estavam desligadas, as luvas usadas foram deixadas em cima das bancadas e as persianas que comprou não deixam entrar luz nenhuma. Deveria ter aberto as janelas quando saiu... estou tão cansada...
Lurdes - A Helena é uma bimba que não sabe mais. Estas bancadas que comprou no Ikea são tudo menos práticas. Sempre que cá vem, deixa isto feito em merda.

Toca o telefone. E Elisa que tinha ainda as mãos desocupadas, atende-o, soltando um "Ai" antes de levantar o auscultador.

Na secção de compotas e outros doces, Cátia e Té ajudam-se mutuamente.

Té - Esta compota com cerejas da Cova da Beira, está a vender bem. Hoje já telefonaram 1500 vezes para encomendar mais.
Cátia - Ya! Também eu falei com 1200 compradores novos. Passas-me o tabuleiro?
Té - Toma.
Cátia - Obrigada.

Mónica - Bom dia meninas!
Té e Cátia - Bom dia.
Mónica - Já atenderam muitos telefonemas?
Cátia - Telefonemas e visitas. Muitas vendas vamos fazer hoje.
Mónica - Que bom! Assim é que é!

Na recepção.

Carmen, Antónia, Dina e Magda, arrumam o escritório e o balcão de atendimento ao público.

Dina - Hoje a minha mãe vai passar por cá para levar uns doces.
Carmen - Ai sim? Que bom... amanhã vais tomar um pequeno-almoço de luxo.
Dina - Sim.
Carmen - São uma delícia.

Magda entretida com os mails de clientes, solta um "Porra"

Carmen - Então rapariga?!
Magda - Foda-se! Esta merda está lenta! Porra.
Luísa, que entretanto entrou - Ó menina Magda, tens que ter mais tento na língua. Nunca se sabe quando algum cliente pode entrar. Controla-te. Eheheh..
Magda - Sim. Desculpa.
Antónia sorri.

Mónica e Luisa encontram-se no escritório. Falam de Deolinda.
Luísa - Mas ó Mónica, a Deolinda está de baixa porque foi picada por 250 abelhas. Ainda por cima é alérgica à penicilina. Temos que esperar que ela recupere. Bem sei que ela aqui é a nossa Faz-tudo...
Mónica - Precisamos de contratar mais pessoal qualificado. E comprar mais fatos.
Luísa - Também acho. Mas os chefes preferem que aguardemos mais uma ou duas semanas.
Mónica - Mas eu tenho as miúdas todas ocupadas. Não lhes posso pedir mais horas e está a chegar o Natal. Tu sabes que nesta altura toda a gente se lembra dos doces.
Luísa - Ordens superiores minha cara. Não podemos fazer nada. Mas os fatos e máscaras para a sala dos favos de mel têm que ser comprados. E luvas também.
Mónica - Sim.
Luisa - Pois... não sei...
Mónica - Hum?
Luísa - Que foi?

Entretanto numa das casas-de-banho da Empresa.

Sónia - Fofinho? Olha vou sair um pouco mais tarde porque chegaram imensas paletes do Fundão e só hoje temos que conseguir 1500 compotas de framboesas.
Não me posso demorar porque as chefes podem descobrir que estou a telefonar-te daqui. Beijinhus.

Sala dos favos de mel.

Elisa - Fiz agora um comprador de mel na Holanda. O gajo diz que tem uma empresa de catering e que precisa de mel todos os meses.
Lurdes - Que bom...
Elisa - Enquanto estás aí a virar os favos, vou contar à Mónica e à Luísa. Elas vão-se passar.
Lurdes - Eheh... erm... Olha, traz-me umas luvas novas do laboratório se faz favor. Já não há nenhumas aqui.
Elisa - Está bem.

Epílogo:

Dina, Té e Cátia são excelentes vendedoras e são premiadas com o dobro do salário. Continuam na empresa durante as férias de verão.
Luísa e Mónica mantêm Deolinda na empresa apesar desta estar de baixa há quase 1 ano.
Magda tenta uma cura ao síndroma de Tourette nas Caldas da Rainha, durante duas semanas, mas depois de tantas piadas sobre os caralhos de loiça, tanto ela como o marido Rolando, pensam em emigrar para a Suíça e fazer muitos filhos loiros de olhos azuis.
Carmen sobe de posto e agora é encarregada do Laboratório. Nenhum doce, compota ou frasco de mel, sai da empresa sem antes levar o carimbo de qualidade, carimbado por ela.
Sónia sai de casa dos pais porque não quer ser benzida. Mora em Carcavelos com o namorado surfista num loft virado para a praia. Faz 19 anos em Agosto e pensa escrever um livro sobre as suas memórias.
Dina é contratada a full-time e consegue descobrir uma abelha num frasco de mel, só pelo cheiro.
Helena deixa de poder utilizar a sala dos favos de mel sem os Controladores. Um para utensílios Kitsch de fraco poder prático, outro para Higiene e Segurança no Trabalho.
Antónia solta um "Doem-me os braços do peso das paletes" e deixa de ser muda.
Elisa nunca chegou a trazer as luvas para Lurdes e é apanhada por esta a colar por cima dos seus favos etiquetados, o seu nome. Trabalha agora na sala dos favos sozinha e imagina como teria sido tudo melhor se não tivesse enganado a colega.
Lurdes obtém o título de empregada do mês. Recebe das chefes o pin "Melhor Manipuladora
de Favos" e já reúne com os seus clientes no escritório. Tem livre trânsito no Laboratório.
Deolinda fica de baixa por mais 5 anos. Mesmo depois de todos os inchaços passarem, continua a achar-se um enorme Ferrero Rocher. Mantém a mesma medicação por mais um ano e pensa fazer uma viagem espiritual ao Tibete. Vomita sempre que lhe falam em mel.

FIM

(Lúcia Freire)

1 comentário:

johny disse...

Trabalho em equipa que não é trabalho de equipa, mas sim um trabalho em que cada membro da dita tenta desenrascar-se da melhor (às vezes pior) maneira que consegue.