01/04/2009

Os amantes, por Pedro Paixão na 1ª edição da Playboy portuguesa

"Não se pode dizer que vivam juntos. Muitas vezes duas pessoas gostam uma da outra e não conseguem viver juntas. É o caso deles. Casaram-se e depois separaram-se. Como toda a gente. Mas, passados meses de dor e recíprocas violências, encontraram uma saída que a ambos pareceu inteligente. A ideia foi ela que a teve. Passarem os dias de trabalho cada um em sua casa e os dias feriados juntos na casa de um, ou de outro. Há coisas animais, emoções incontroláveis e, sobretudo, o constante desgaste dos dias que destroem a alegria – o puro prazer de se estar com alguém, o verdadeiro interesse pela vida do outro – enquanto o sexo se transforma numa rotina mais ou menos enfadonha. Ele chama-se João, ela Maria.
Jantam à sexta-feira num restaurante chinês e decidem a casa para onde vão. Um pequeno almoço juntos e depois despedem-se , cada um partindo para seu lado, com o coração levemente aflito. Durante os dias em que não estão juntos, estão proibidos de se falarem ao telefone ou comunicarem de qualquer outra forma. Salvo uma emergência imprevisível – um incêndio na cozinha, a morte de um familiar, uma súbita fragilidade da alma.
Conheceram-se no liceu. Casaram-se tinham ambos 24 anos. Agora vaõ fazer trinta e um. É muito forte o amor que os une. Um amor só deles, que as pessoas não compreendem e por isso criticam. O amor precisa de ser protegido, abrigado, alimentado com todo o cuidado. O quotidiano é o pior inimigo. Corrói o imprescindível respeito pelo outro, por quem o outro é. Consome a distancia que é preciso manter para que o outro possa ser quem é. Começa a asfixia.
É um engano grande julgar que não se pode viver com esta pessoa mas que se poderá viver com outra, porque na maioria dos casos é a própria vida que nos abandona e afasta. No caso deles há um facto relevante. Nenhum deles quer ter filhos, fundar, como se diz, uma família. Trazer ao mundo uma vida não só é uma responsabilidade de que se conhecem os limites, como uma inconsciência para a qual nunca se está suficientemente preparado. Pelo menos por agora.
Ele tem uma casa junto ao mar, ela um apartamento no centro da cidade. Ele é um economista, ela editora de um jornal diário. Quando se encontram riem dos acidentes da semana, do ridículo comportamento dos humanos, dos problemas insolúveis. O trágico também pode ser visto de modo a merecer uma gargalhada.
Falam dos livros de lêem, e um programa passado na televisão ou na rádio, do concerto para o qual é preciso comprar bilhetes pela internet, de pequenas coisas sem verdadeira importância. Não se criam aqueles deprimentes silêncios quando já não se tem nada para dizer um ao outro e, dentro de um carro, cada um olha em frente com receito de olhar para o lado e deparar com um desconhecido.
Os pais não percebem, os amigos não percebem, ninguém percebe. Toda a gente conspira para que aquela frágil e preciosa relação termine. Quase todos têm pavor de ficar sozinhos, de morrer sozinhos. O que os agarra é o medo.
Por isso condenam-se aos piores compromissos . Eles, pelo contrario, sabem não só que há em qualquer humano uma solidão que nunca pode ser superada, como que só ela abre um espaço onde o coração pode viver livre. Os corações também precisam de respirar.
Todos os anos, em meses variáveis, fazem uma viagem juntos. No ano passado foram a Viena, esta ano pensam ir à Finlândia. Juntos decidem todos os pormenores, embora cada viagem deva ser uma aventura da qual não se conhece o desfecho. Juntos vêem-se coisas que de outro modo não se veriam, porque cada um aponta ao outro o que, a sós, lhe poderia passar despercebido. Aprende-se mais porque ao falar as palavras chamam pelas coisas tornando-as mais nítidas, mais presentes. Num casamento comum há sempre um que em determinado momento precisa de se calar. Ali não. Antes de adormecer, adoram relembrar o que viram, sentiram, descobriram. E o sexo vem e chega, sempre poderoso, transportando-os para íngremes paisagens, súbitos abismos. Como dois desconhecidos que se desejam loucamente dentro de um comboio e não se recusam ao mais premente prazer.
Em Viena, o que mais a impressionou foi uma exposição das obras do último ano de vida de Picasso, uma gigantesca e heróica luta contra a morte. Ele, o que mais apreciou foi visitar a casa de Freud, um lugar onde se conspirou contra a sufocante normalidade dos costumes. Nenhum deles sabe até quando aquela relação poderá durar. Pode não se conseguir continuar. Pode acontecer uma paixão imprevisível. O amor é um trabalho pelo qual se tem e lutar e o que já se conseguiu dissipa-se no passado. Eles estão preparados para o fim. O que importa é acreditar no que ainda há-de vir, no indomável Se assim não fosse não valeria a pena. Faz parte o amor não saber quando pode acabar. Sempre aquela pequena dor que acompanha o verdadeiro amor."


Pedro Paixão in Playboy

I - Não comprei nem vou comprar a Playboy. Apesar de achar piada à Mónica Sofia e a raparigas nuas as much as the next guy, acho que há coisas mais interessantes a fazer com o dinheiro e com o tempo - até porque tudo o que aparece nessas revistas acaba por aparecer na Internet, tal como este texto - o qual nem sei se é verdadeiro. Descobri o texto na secção de comentários do blogue do Júlio Machado Vaz num post sobre o tenista Frederico Gil (?)

II - Pedro Paixão é um autor relativamente desconhecido - ouvi falar dele pela primeira vez através dos programas do Fernando Alvim - e a verdade é: apesar de falar de Pedro Paixão a todos os meus amigos, aconselhando-os vivamente a ler qualquer coisa dele, nunca li um livro completo dele, tendo-me remetido apenas a alguns textos e excertos.
Sim, sou uma besta.

12 comentários:

Moyle disse...

«Sim, sou uma besta.»

smooth, very smooth :)

johnny disse...

O que é preciso é que ninguém se sinta ofendido e que, independentemente do que já se tenha lido - ou não - do homem, se leia mais.

Moyle disse...

tens razão mas acho que esse aspecto é bastante sobrevalorizado. é preciso ter um cuidado do caraças para não ofender ninguém nestes dias de ditadura do politicamente correcto. não te cabeça aparecer que a tua opinião é cada vez menos livre?

johnny disse...

Não, não me cabeça (?). Por enquanto, nunca senti que não pudesse dizer alguma coisa, mas é claro que a dimensão do que digo não afecta muita gente. Censura há-de sempre haver porque há meios cobertos para o fazer, mas, da mesma forma, mesmo com censura, também conseguimos dizer e 'redizer' aquilo que queremos... é preciso é vontade.

Moyle disse...

nem eu percebi o que queria dizer. a frase começaria "não te começa a parecer". enfim...

o problema não é a censura vinda de fora. o problema mais grave é a auto censura. mas concordo no aspecto em que também não digo nada que exceda um grupo bastante diminuto de pessoas, o que alivia bastante o peso da responsabilidade.

johnny disse...

A minha censura é o respeito pela minha privacidade, assim como o embaraço que poderia resultar de mais exposição. Não fosse este um blogue assinado e pessoal - frequentado por conhecidos e familiares - e aprofundaria muito mais coisas, mostraria mais, diria mais... não sabendo se ganharia ou perdia com isso (a nível legal, por exemplo, não sei se ganharia muito com a designação das pessoas que pretenderia assassinar se pudesse). O que digo ou mostro aqui é, acima de tudo, uma forma de conversar comigo mesmo ou com as pessoas a quem quero dizer algo (mesmo que não lhes diga directamente) e só esse facto é libertador), para além disso, é uma forma de psicanálise barata e de montra de mim mesmo, para quando me quero mostrar. De resto, fora disso, a censura é algo com que não me preocupo.

Mas também, eu não faço muitas piadas sobre o Sócrates, como tu ou outros.
E que interesse é que isto tem? Pouco. Mas olha, a conversa encaminhou-se por aqui.

Por entre o luar disse...

Já li um livro dele... até ao fim! Gostei daquele que li, mas não é autor que me puxe muito para ler, leio excertos também.. e deste gostei=) do excerto conhecia apenas o final.

Beijo*

johnny disse...

Atenção - reparei agora e é extremamente importante rectificar ou esclarecer - que, quando eu disse (escrevi) que não tinha lido um livro dele até ao fim, me referia ao facto de apenas ter começado a ler alguns livros dele nas estantes das livrarias para ver se valia a pena ou não. Valem e só ainda não comprei nenhum dele, porque: A - esperava que me oferecessem no natal (ofereceram outros) B - comprei outros ou não voltei a ir a Braga onde tinha visto um que me interessava comprar quanto antes.

Moyle disse...

ficou adiada a questão da auto-censura. Não é grave. o limes destas coisas é demasiado flutuante para podermos reificar uma posição. as piadas que faço são isso mesmo, piadas. gostaria deme alcandorar a um "ridendo mores catigat", como Plauto, mas não tenho audiência para isso. mas não posso deixar de apoiar a tua posição de psicanálise à borla. ainda não interiorizei completamente o papel dos psicos - sejam eles quais forem - e acho que é daí que provém a minha posição.

johnny disse...

Em matéria de alcandoramento, acho que até te tens alcandorado. Sem dúvida que há espaço para te alcandorares mais, mas é um processo natural que tomos temos de seguir.

Treze disse...

Passem no estaminé, sff. Têm lá uma surpresa (que já devem ter recebido de outros...) :)

johnny disse...

Obrigado.