02/07/2009

O médico electricista

Sérgio sempre se sentira fascinado pela electricidade, que havia qualquer coisa de mágico na electricidade, afirmava ele tantas e tantas vezes com um certo e exagerado brilho nos olhos, imaginando o percurso da energia desde o momento em que era recolhida nas barragens até àquele instante em que se incandescia o filamento da pequena lâmpada do seu pequeno candeeiro na mesinha de cabeceira. Por isso dispensava o abajour, aquele terrível chapéu de abas que tapava a maravilha da ciência que era a luz eléctrica e que ele tanto gostava de observar. Esse fascínio com a electricidade, que tal como disse era congénito e endémico, desenvolveu-se ao ponto de se tornar numa relação de amizade. Ele tratava a electricidade por tu e brincava com ela como se de um colega de escola se tratasse.
(Só assim se explicava a confiança que as pessoas depositavam nele.)
As pessoas da aldeia conheciam-no desde menino, sabiam aliás da sua proximidade com a arte que praticava e por isso mesmo ninguém ficou espantado quando, após a simples associação de uma emergência aparentemente cardíaca à electricidade como solução teórica, os familiares do senhor Martins lhe apareceram a bater à porta.
(É nos casos de emergência, naqueles casos em que o engenho é aguçado, que se descobrem as soluções mais fantásticas.)
Na realidade, não foi bem bater à porta... a Senhora Cândida, que de cândida não tinha nada, habituada a resolver qualquer situação que se pusesse à frente dela com uma prontidão absurda, deslocou-se a casa de Sérgio, batendo à porta como se estivesse a tentar deitá-la ao chão e ordenou a Sérgio que fizesse alguma coisa. Será mais correcto assim.
Diziam que o senhor Martins tinha sentido uma dor no peito, seguida por uma dormência no braço que o fez cair, uma queda não igual a tantos tombos que o mesmo senhor havia dado ao longo dos tempos no café do Ernesto após devorar vinte ovos cozidos seguidos de uma caneca de litro de vinho caseiro - uma actividade habitual, para gáudio de muitos. Sérgio, não tão brusco como a dona Cândida, mas igualmente despachado, aproximou-se do corpo, observando a falta de respiração e do batimento cardíaco e pensou: “Electricidade!” De seguida, após uma breve inspecção às tomadas e a um candeeiro dourado que encimava uma alta copeira, arrancou em corrida até ao canto da sala, baixou o candeeiro, desligou a ficha da tomada, arrancou a ponta do fio que ligava ao candeeiro, ligou a ficha numa tomada mais próxima do corpo tombado e, segurando o fio descarnado, que despontava em dois, encostou levemente, primeiro o fio azul, depois o vermelho, à barriga do senhor Martins, pensando: “dois segundos devem chegar”. E bastaram, pois após uma convulsão, o senhor Martins recuperou os sentidos.
Foi sorte. Ninguém duvide da estupidez do gesto de Sérgio. Foi sorte e tudo poderia ter corrido de forma muito diferente (tudo poderia ter corrido muito mal), mas naquele momento correu bem e isso – até para o seguimento e interesse da narração - é que interessa, tornando-se num momento definidor da vida que se seguiria daí em diante. A palavra espalhou-se e não tardou muito até os seus serviços voltarem a ser requisitados, primeiro só em casos de dita emergência, depois já como alternativa à medicina tradicional de centros de saúde, filas, consultas, taxas, hospitais e atendimento demorado, ainda mais numa aldeia remota, uma aldeia distante de qualquer centro hospitalar ou meio de transporte que possibilitasse uma assistência rápida. Aliás, também por isso e por uma questão de comodidade de todos, a aldeia não era estranha a soluções inventivas de remedeio às deficiências dos serviços, ideias forçadas à institucionalização. O correio funcionava por recreação do senhor Rui da mercearia, que se deslocava todas as manhãs à cidade mais próxima, trazendo as novas de familiares amigos e cobradores da luz, água e bancos, tudo numa caixa no meio da hortaliça e das bananas, como quem diz os vegetais, as frutas, o pão e todos os víveres diários que venderia mais tarde no seu estabelecimento. Pensando bem, o senhor Rui também era a farmácia.
Mas em questões de saúde e de electricidade - motivo desta crónica - nomeadamente as que dizem respeito a intervenções terapêuticas mais arriscadas, não convém brincar e Sérgio, acolhendo a função social que lhe haviam atribuído, teve de pronto a noção clara da responsabilidade da sua tarefa, sentindo-se na obrigação de aprender. Fê-lo indubitavelmente, estudando em profundidade a anatomia a partir de um livro que tinha visto a primeira vez em casa da sua tia Irene (um livro que lhe tinha despertado a atenção pelas imagens de corpos em metades e com riscos azuis e vermelhos que percorriam as figura desde os dedos dos pés e das mãos à cabeça, mas em especial uma imagem - que eram duas - das partes íntimas do homem e da mulher, uma imagem com a sugestiva legendagem de aparelho reprodutor), tendo também aprofundado o seu conhecimento, por si só vasto, da electricidade em vários livros que o senhor Rui trazia da biblioteca da cidade, passando horas com ratos e gatos, aplicando e anotando num lisbonense de capa preta as diferentes cargas e os seus efeitos nos mais variados sistemas. Em pouco tempo, deixou de ser um mero amante da electricidade para ser um profissional da mesma... nunca deixando de amá-la! Curava todo o tipo de maleitas – podia aliás ser este o título do seu anúncio no jornal da cidade –, desde simples constipações com uma voltagem reduzida, mas continuada, a furúnculos e quistos com uma dose eléctrica superior, embora mais rápida e localizada, até àquelas doenças que ninguém usa nomear pelo temor que instauram nas pessoas, e não tardou muito a ter clientes para todos esses problemas médicos, clientes afáveis que o consultavam de forma confessional e que lhe pagavam de acordo com as suas possibilidades, e a verdade é que, para além de tudo, graças a uma simples mistura de agulhas de acupunctura, eléctrodos e panos húmidos, a electricidade lá ia funcionando.

(João Freire)

11 comentários:

Por entre o luar disse...

Tenho que ler outra vez...
Penso que me está a escapar qualquer coisa ou não?!

*

johnny disse...

Lamento desiludir-te. É apenas um texto sobre um médico electricista.

Por entre o luar disse...

Sim...
Um texto de amor* lol

Beijo* (até tem a sua piada)

johnny disse...

Lamento desiludir-te a ti ou a mais alguém. É apenas um texto sobre um médico electricista.

ipsis verbis disse...

É a história de um médico electricista sortudo... e depois talvez, vendido?

johnny disse...

Vendido porquê? Não. Cada um podia pagar o que queria e ele só fazia o que fazia por amor à electricidade. Tive a oportunidade de conhecer o senhor e não me parecia um vendido... acho que até tinha doado uma batelada de dinheiro à AMI... acho!

Queres dizer que quem é pago pelo seu trabalho é um vendido?

ipsis verbis disse...

Acho que foi por aqui, que ele se vendeu:

"não convém brincar e Sérgio, acolhendo a função social que lhe haviam atribuído,"

acolhendo é apenas um eufemismo, toda a gente vê isso. A palavra correcta, para continuar a levedar a minha afirmação, será obedecendo.

"teve de pronto a noção clara da responsabilidade da sua tarefa, sentindo-se na obrigação de aprender"

aqui está; "sentindo-se na obrigação". Onde está esse tal "amor à electricidade" se o que ele faz é por imposição de outros?

ipsis verbis disse...

"Queres dizer que quem é pago pelo seu trabalho é um vendido?"

- that depends :)

johnny disse...

O sentido da responsabilidade, levou-o a aprender mais, porque o conhecimento que ele tinha era superficial e, afinal de contas, tratava-se da vida das pessoas... que ele não procurava, mas que continuavam a aparecer. As pessoas atribuíam-lhe de forma indirecta uma função que ele cumpria por gosto (relativamente à electricidade), mas com responsabilidade, porque não era um mentecapto e não queria matar ninguém.

Por uma pessoa gostar de algo, não deve abdicar de aprender mais sobre ela, seja na escrita, na pintura ou escultura... ou até na mecânica, medicina, agricultura, etc.

Gostar de algo não equivale a saber de algo.

Para mim, a venda, que é sempre uma venda interior daquilo que nós somos em troca de dinheiro ou outra coisa, só se verifica quando fazemos algo de que não gostamos ou algo de que gostamos, mas contrariados. Ele fazia o que gostava... embora com responsabilidade.

ipsis verbis disse...

Compreendo o que queres dizer. E concordo.

"Por uma pessoa gostar de algo, não deve abdicar de aprender mais sobre ela, seja na escrita, na pintura ou escultura... ou até na mecânica, medicina, agricultura, etc."

Nem eu nunca disse o contrário disto.


Mas,(e agora também terás que me perceber e dar razão) há-de haver um dia (e isto acontece com quase toda a gente que começa por fazer algo de que gosta) em que o fastio (hoje deu-me para as águas e parêntesis)aparece, e o tal "fazer as coisas que gostamos, mas contrariados" passa a ser a moeda de troca.

Ahh, mas estou a ser pessimista e tremendamente fatalista. Isto é apenas uma história e acabou antes da cruel realidade. :)

johnny disse...

Ah! Estavas a falar de outra história! Sim, talvez, mas é outra história.