13/07/2009

Chris Cornell e o concerto de Dave Matthews

O amor e a adoração contagiam facilmente. Alguém que teve sucesso (em qualquer área, desde a pessoal à profissional) dificilmente convive sem ele. Ninguém lida bem com a rejeição depois da aceitação generalizada. Alguns adaptam-se, conformando-se com a nova situação, racionalizando as suas virtudes, outros simplesmente matam-se na ânsia de que apenas fique a memória de um período áureo e outros tentam mudar, adaptar-se ao mundo que os rodeia, mantendo a todo o custo essa adoração, renunciando em última análise ao que são. A necessidade de nos sentirmos amados faz com que tentemos agradar ao maior número de pessoas, muitas vezes sem prestarmos atenção àquilo que nos agrada a nós.


Olhar para Chris Cornell e, sobretudo, ouvir a música que ele tem feito nos últimos tempos, é constatar a decadência de um homem que muitos consideravam um ídolo. Não será pelo aspecto de arrumador de carros que ele demonstra quando chega ao palco, não será certamente pela voz (em melhor estado do que quando veio com os Audioslave ao semi-demolido Alvalade), nem será muito pela banda assexuada de estilo emo que o acompanha, mas será muito pela música, encomendada ao mercenário dos easymade hits Timbaland, e pelas letras que a todo o custo tentam encaixar-se nelas em refrões orelhudos e simplistas que não lembrariam a bandas de garagem portuguesas - em caso de diferença, talvez o inglês destas pudesse ser mais cuidado. O produto talvez seja aliciante para muita gente, ao meu lado muita gente repetia ad nauseum "That bitch ain´t a part of me. I Said no, that bitch ain´t a part of me", mas a que custo? Conheço homens de 30 anos que se tivessem ouvido o que eu ouvi naquele concerto teriam vertido algumas das primeiras lágrimas da sua vida, homens (e mulheres) que aprenderam a conhecer a música, a língua inglesa e a literatura, o cinema, etc., moldando a sua identidade à volta de alguns valores supremos que, por exemplo, a banda de Chris Cornell, Soundgarden, divulgou amplamente.
O concerto não foi tão mau como seria de esperar, muito por culpa de incursões na música de Soundgarden (em vão esperei por Blow up the outside world), dos Temple of the Dog e até de Audioslave (que parece brilhante quando comparado com o último álbum de Chris, Scream), mas ainda assim, foi um sinal óbvio de um homem, que, só espero, esteja em luta com ele próprio, porque enquanto há luta há esperança.

Sobre Dave Matthews Band, com menção especial para Carter Beauford: Faltou Some Devil, Gravedigger, Angel e Save me* para ser genial! Assim, foi só brilhante.

... E a versão de All along the watchtower, com a inclusão da parte final de Stairway to Heaven? Perfeita!

*Gravedigger, Save me e Some devil são canções do álbum a solo de Dave Matthews, intitulado Some Devil, facto que tornava quase impossível a sua reprodução no concerto, mas, ainda assim, a esperança manteve-se.

Fotografias retiradas do Blitz
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(João Freire)

2 comentários:

afectado disse...

do chris cornell mais recente gosto por exemplo da versão que ele fez de "billie jean". mas é um facto que não está ao nível que já esteve.

eu não desgostei da fase audioslave. é certo que não eram os soundgarden, mas ainda assim conseguiram algumas coisas interessantes.

johnny disse...

Eu também não desgosto, até tenho os álbuns de Audioslave, mas desafio-te a ouvires o Scream e gostares de alguma coisa.