29/07/2008

Alguns centímetros ao lado da vida

Sentou-se ao meu lado como se me conhecesse. A princípio não lhe liguei, mas o facto de ele estar a sorrir e a olhar para mim não me deu grande margem de manobra e lá tive de lhe perguntar: “Então?” Ele sorriu, disse que me conhecia, e que sabia que eu era um gajo fixe. Sou. Depois disse que me faltava alguma coisa para ser como ele. E porque é que eu havia de querer ser como ele? Obviamente, tal como ele disse, porque ele era feliz. Insisti no cepticismo, dizendo-lhe que tal definição carecia de objectividade, mas, num lampejo de grandiosidade, encostando a sua cara à minha, quase como se estivesse a preparar-se para me beijar, disse-me apenas que “ser feliz é ser aquilo que se quer ser” e que não acreditava que eu não quisesse isso mesmo – ser feliz. Rendi-me. A sua confiança transpirava para mim e fazia com que prestasse toda a atenção. Lembro-me que apreciei de forma quase erótica a forma como ele passava a língua nos lábios, molhando-os. Disse-me logo depois, enquanto eu virava a cara de vergonha por o mirar tão atentamente, que a diferença entre os dois se resumia a uma atitude perante a vida e que eu não deveria procurar a felicidade em tudo, mas encontrá-la em tudo, “apenas tens de te mudar de forma a veres isso”, advertiu. E de repente, tudo à minha volta assumiu uma forma diferente, mais luminosa. Sempre me sentira ao lado das oportunidades e agora, num momento, tudo parecia melhorar. Podia jurar que ouvia o 2º movimento da 7ª Sinfonia de Bethoven e que estava prestes a levitar.
Passamos uma vida a tentar mudar o mundo, pô-lo ao nosso gosto, puxá-lo para nós, mas o Mundo é pesado e às vezes é mais fácil desviarmo-nos nós, de forma a fugirmos do que nos faz mal, aproximando-nos do que está certo. Num último gesto, afastei-me ligeiramente para um lado, o meu recém-descoberto amigo desaparecera, afinal, o meu amigo, era eu.

(João Freire)

14 comentários:

Por entre o luar disse...

O mal de todos nós é procurarmos demasiado a felicidade, esquecendo que ela está nas coisas mais simples da vida!

ahhh e vou começar a desviar-me do que me faz mal:) loool...*

Se seguires o que transmites no texto, acredita que vais ser feliz, tal como a consciencia te diz=)

johny disse...

Não acho que haja mal em procurar a felicidade, acho até que é uma forma corajosa de viver, pelo risco que acarreta - pode ser difícil de encontrar, pode até não funcionar... podemos nem dar valor ao que nos rodeia à procura dela, mas podemos encontrar aquela felicidade arrebatadora...

Por entre o luar disse...

Eu não disse que era mau... disse que é mau quando a procuramos em demasia.

E falo nisso no sentido de essa procura se tornar cega, impedindo-nos de viver plenamente e de aproveitar a vida com mais intensidade.

ipsis verbis disse...

achei o final do texto abrupto demais. só isso.

ipsis verbis disse...

não é abrupto, é explicado demais. tipo, papinha feita à frente, ou preto no branco.
eu deixava o texto acabar assim:

"Num último gesto, afastei-me ligeiramente para um lado, o meu recém-descoberto amigo desaparecera"

e mudava o "desaparecera" para outra palavra q deixasse os leitores esclarecidos (ou não, pq até é giro não se perceber tudo) qto ao facto de ambos serem, apenas um.

johny disse...

Ok, "por entre o luar".

Também pensei nisso, "Ipsis Verbis", a sério que pensei - e costumo pensar isso várias vezes - mas depois, a minha veia condescendente chega e diz: "talvez não percebam..." talvez não percebam que é a mesma pessoa, etc.

... basicamente, sou uma besta!

(Acho que podia acabar todos os textos e todos os comentários assim: "sou uma besta". Ajudava muito a esclarecer as pessoas e deixava toda a gente contente. Também podia acabar com um ponto final, mas isso já é eleborado demais para mim)

ipsis verbis disse...

ahahahah

"e o mundo é uma merda"
"e eu não valho nada"

ahahahah


"por entre o luar" o quê?

"desaparecera por entre o luar"?

não acho. isso é demasiado vago. pode ser outra pessoa..

sei lá...

Num último gesto, afastei-me ligeiramente para um lado, e quando dei por mim, continuava sozinho?

ipsis verbis disse...

ahahahhaha... e agora rio-me de mim e comigo.


por entre o luar comentou antes. fiz confusão. não percebi. mania de pensar q só há eu no mundo.

ahahah

johny disse...

A condecendência, arrogância, "mania de pensar que há só eu no mundo" deve ser um mal de família.

ipsis verbis disse...

deve ser.

Por entre o luar disse...

lol..=)

gosto quando te agrides a ti própio..

mas acho que não precisas ser tão radical..:S

johny disse...

Obviamente que faltava ali um s em condescendência. Claro que não foi um erro - até porque já tinha escrito noutro comentário da forma acertada - mas fica o reparo, não vá alguém... reparar.

A auto agressão é uma forma condescendente de armarmos em vítimas. Na realidade, só faz isto quem tem uma visão insuflada de si mesmo... pelo menos nalguns sectores.

(esta última parte já mostra alguma insegurança... mas também só nalguns sectores)

Por entre o luar disse...

Pois estou a ver que sim... mas não precisas de te armar em vitima:) pois não sensibilizas ninguém:) loool..

Beijo** e mete mais textos destes fixes:)

Gosto de ler, mas não te estou a elogiar atenção*

martagarcia disse...

olá amigo! ;)