24/05/2007

Profilaxia

Daniel amava Linda, Linda amava Rui, depois havia Rita.
- Olá Daniel – disse Rita, com um sorriso luminoso, ao entrar pela porta do escritório.
- Olá – respondi.
- Está tudo bem?
- Está.
- Gosto muito de ti.
Hesitei.
Alivio-me em ti com uma periodicidade profiláctica. Não te respeito porque não te quero. Não te quero porque não te respeito. Para além de tudo, é isso. No entanto estás e eu dou valor a isso. Às vezes é melhor só estar. Sinto que só eu lucro, mas, sinceramente, não me importo. Que fazer? Também rendido ao cinismo, importo-me cada vez menos com o honrado e com o que deve ser. A honestidade sempre foi sobrevalorizada. Uma conversa com um desconhecido, uma bebida num bar deserto, uma viagem a uma cidade longínqua… qualquer outra coisa, também serve… às vezes, mas isto é o ideal. E tu, nunca me entendendo – não és mais do que os outros! –, entendes-me e dás-me o que eu preciso ao longo desta caminhada: validação. Respiro sofregamente o ar limpo da excitação. Penso melhor vazio. A cabeça e o coração despem-se de ti com a mesma facilidade de uma puta na jorna. Também ela, a Puta, agradece o vazio. Só assim sobrevive.

(João Freire)

2 comentários:

Anónimo disse...

Ó Joao..só por curiosidade e o rui gosta de quem? Também ele tá rendido ao vazio? Profiláctica?? Como é que se limpa o vazio? Hum...paradoxal...
C.Q.

johny disse...

O Rui não se quer comprometer. Mas há quem pense que isso se justifica pelo facto de ser homossexual. Ele não limpa o vazio, antes o cria com a prossecução de uma relação sem significado. O Vazio é bom, mas é vazio. è óbvio que esse vazio o satisfaz temporariamente, mas é igualmente óbvio que ele quer passar á frente dessa situação, ocupando o vazio com outra coisa melhor. Mas cada um lê como quiser.