12/02/2010

Uma breve história da democracia em Portugal

Mário Soares foi o primeiro. Apoiou-se na fama conquistada após a revolução de Abril, aliou-se depois ao CDS e não durou mais do que três anos, devido a desentendimentos entre os dois partidos que constituíam o governo. Ramalho Eanes nomeia então Nobre da Costa, num período conturbado de constantes Moções de Confiança rejeitadas pela Assembleia da República, que viria a vitimar ainda Mota Pinto, sucedido por Maria de Lourdes Pintasilgo, vítima da dissolução da Assembleia da República. Seguiu-se-lhe Sá-Carneiro, outro coligante, que viria a falecer no contexto que se conhece, sendo substituído interinamente por Freitas do Amaral, e depois por Pinto Balsemão, aquele que seria o primeiro a apresentar a sua demissão ao Presidente-da-República. Segue-se Mário Soares, o omnipresente, num governo a dois com o PSD, que viria a decidir o seu fim antes da chegada do grande e do único a completar, não um mas, os dois mandatos: Cavaco Silva. No entanto, também ele saiu do poder debaixo de críticas relativamente ao controlo da comunicação social, nomeadamente da televisão pública. Louvemos apenas a capacidade de acabar o segundo mandato, pois nunca, até hoje, isso foi conseguido. Guterres, afundado no pântano que ajudou a criar, demitiu-se, abandonando o país mais tarde para um alto cargo nas Nações Unidas. Durão Barroso durou dois anos no país da tanga, fugindo assim que pôde para a Presidência da Comissão Europeia. Santana Lopes nem aqueceu o lugar, apesar de ter deixado no curto espaço de tempo em que esteve à frente do Governo o mesmo rasto de dúvidas e suspeições relativamente à promiscuidade entre a política e os grandes grupos económicos que os outros governantes. Depois veio Sócrates e tudo permaneceu igual, com um primeiro mandato tranquilo, em que as suspeições e o número de casos foram escalando, até ao segundo mandato que agora agoniza e que, de certeza, não vai tardar em capitular.

A história da democracia em Portugal é curta. Seria bom que esse facto explicasse tudo o que de mal se passa no nosso país, nomeadamente na sua componente pública. A verdade é que não se vislumbram melhoras. A promiscuidade entre o poder político e o económico é tal que se alimentam um ao outro – os políticos de amanhã são os altos funcionários das grandes empresas de ontem e os altos funcionários das grandes empresas de amanhã são os políticos de ontem.
Sendo assim, uma democracia que tende a ser uma democracia para toda a gente, apenas o é na base de uma democracia ocidental baseada em demasia na assistência-social, com tudo o que de bom e mau isso acarreta, uma democracia que corre sempre o risco de fomentar a alienação e a não acção, nivelando por baixo, afundando assim um país numa espiral descendente que apenas deixa escapar os bem preparados e os "bem preparados".

Vivemos num país governado pelas informalidades. É a cunha, a mão negra… navegamos na zona da incerteza, numa zona em que o interesse pessoal impera. Assim se explicam os atentados às liberdades pessoais, assim se explicam os abusos de poder e o tráfico de influências, assim se explicam - ao menos isso - todas as suspeições. Não é só quem tem olho que é rei, porque todos vemos o que acontece e todos sabemos o que acontece, mas é sim quem tem olho e poder económico para agir ou para apoiar a acção.
Virá o tempo em que o mercado, depois de regular-se em benefício próprio, devorando tudo à volta, começará a devorar-se a ele próprio, deixando o nada, porque se é verdade que existe uma mão invisível para impedir que a crueldade impere (Adam Smith), também é verdade que essa mão invisível necessita de uma ética de mercado e de um conjunto de valores na sociedade (Adam Smith) que vão escasseando.
Num mundo de globalização total, em que a vida de um país é definida por leis extrínsecas e os números imperam sobre as pessoas, é difícil haver ética, é difícil haver um conjunto de valores que identifique a base do mercado, os clientes, e os seus reguladores. Sem valores, impera a crueldade. Isto é verdade para qualquer país, mas é mais verdade num país com uma curta história democrática.


(João Freire)

Deolinda - Movimento Perpétuo Associativo


Alguns dados, nomeadamente os nomes e ordem cronológica dos Governantes, foram recolhidos da Wikipédia, na página dos Governos Constitucionais de Portugal

18 comentários:

Brown Eyes disse...

johnny posso assinar este teu post? É que depois do que aqui deixaste não há mais nada a dizer. Apenas que continuo a acreditar na ética e nos valores precisamos é de pôr a justiça a funcionar para defender quem tem que defender e acusar que tem que acusar, sem influências. Beijinhos

johnny disse...

Acho que sim, que podes, Mary, aliás, já o fizeste com este teu comentário. Beijinhos de volta.

Pronúncia disse...

johnny, a mediocridade impera, o facilitismo é regra, o lobby é um polvo, a vergonha deixou de existir, a dignidade está morta e enterrada há muito tempo... e o Povo não reclama, porque há pão e circo! E quando acabar o pão?! Como vai ser?!

Ontem li esta crónica e achei-a bem interessante, acho que encaixa neste teu post:
http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Opiniao/Interior.aspx?content_id=159481

pinguim disse...

Das mais lúcidas e completas (apesar de bastante sintética) análise à realidade política portuguesa actual, os seus antecedentes e a sua inserção na conjuntura económica vigente nas democracias ocidentais.
Brilhante, verdadeiramente brilhante!!!

johnny disse...

Pronúncia, comcordo absolutamente com o que dizes e o que é dito na crónica. Pena é que seja o Manuel Monteiro a dizer aquilo que acho tão certo :)

Pinguim, só posso dizer obrigado.

Pronúncia disse...

johnny, só depois de a ler é que reparei no autor (até fui verificar duas vezes para confirmar)... não gosto do personagem, mas gostei da crónica!

E eu sou assim, pah! Quando acho que algo está bem escrito, não me preocupo muito com a minha opinião pessoal sobre quem o escreveu...

Bom fim de semana

johnny disse...

Fazes bem, Pronúncia, eu também admiti que concordei, embora... lá está... a personagem me cause comichão no cérebro.

Bom fim-de-semana.

Juana disse...

É das tais coincidências, ainda hoje falei de politiquice no meu blog! É forçoso falar no assunto, porque é demais evidente, que a democracia neste país está em sofrimento, embora espero que não agonizante! Eu não espero nada da justiça, porque esta em particular e de uma forma geral não funciona, ou mal funciona!

johnny disse...

Mais coincidência, Juana, é eu ter acabado de comentar o teu post! Já aqui disse no meu blogue - e também falei no comentário que fiz no teu post -, que o mal disto tudo é a educação, não só a escolar, mas a educação que damos àqueles que nos rodeiam. Como esperar que os políticos sejam bons, quando tudo o resto é igual? Temos de nos melhorar a nós e aos que nos rodeiam e esperar que isso contagie os outros... na escola e em casa... pelo menos, é a única coisa que podemos fazer.

Moyle disse...

ao menos podemos escrever blogs. valha-nos isso :(

johnny disse...

Moyle, vinha agora responder ao teu comentário, abri a janela e apareceu no quadradinho dos comentários: "Service unavailable. Error 505" A sério.Isto é verdade!
Para além de verdadeiro, é também verídico.

E eu já a pensar que era o Sócrates ou, pior, o Mário Crespo. Afinal, fiz um refresh logo a seguir e já deu. Nada de mais. A liberdade continua, pelo menos, até ver no Blogspot.

Gingerbread Girl disse...

Eu gosto muito das maçãs Granny Smith. Têm um travo algo ácido mas muito agradável.
Não sei porque me fui lembrar disto agora... mhm

johnny disse...

Ginger, -.-'

Noya disse...

E a triste realidade é que cada um vai para o seu lado... (Eu sei, não há nada a fazer)

PS: Não tem nada a ver agora, mas é curioso esta questão da blogosfera... Creio que a gripe aniquiladora de meio mundo só não arrasou precisamente por causa destes sítios comuns, porque a comunicação social - a tal "aventureira da liberdade" - não mexeu uma palha na desmistificação da coisA...

johnny disse...

Noya, era bom que um desses lados fosse "o raio que os parta" a todos :)

Anónimo disse...

Meu amigo.....posso?
Nunca li uma análise tão precisa da nossa jovem democracia(?)
Trabalho na Rádio Clube de Alcoutim e gostaria de utilizar este seu maravilhoso artigo para o meu programa "Palavras"...posso?

Carlos Escobar

johnny disse...

Caro, Carlos Escobar.

Não acredito que haja alguém que seja "vítima" de um elogio que não aceite ser tratada como amigo. Sendo assim, dou-lhe permissão retribuindo o gesto.

Claro que o meu amigo pode usar o texto, com as devidas referências, desculpando desde já algum erro ou gralha de qualquer ordem.

O seu interesse lisonjeia-me.

Sendo assim, gostava apenas de lhe pedir que me informasse das horas da transmissão do programa, assim como da melhor forma de o seguir, para que pudesse partilhar este pequeno momento de orgulho do blogue.

Agradecendo o seu interesse, João Freire.

Anónimo disse...

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