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19/04/2011

Olhos que não sorriem

A princípio tocou-lhe o corpo jovem com cuidado. Havia muito tempo que as suas mãos gretadas pelo tempo e trabalho sentiam algo parecido. Talvez no tempo da guerra, um tempo em que as cabritas se dispunham a levar aqueles homens pálidos em troca de algum dinheiro.
As cabritas, como chamavam às raparigas que calcorreavam as ruas de Lourenço Marques, Niassa e Nampula, nunca sorriam, mas o seu corpo cor de mel, esse sempre disponível, intoxicaria qualquer um de prazer, fazendo-o esquecer tudo, até a guerra. À noite, no banho, só teria de lavar as partes íntimas com um frasquinho que o exército garantia a todos em remessas mensais para combater qualquer doença e não acontecer algo que o fizesse saltar do barco a caminho de Lisboa, como chegou a testemunhar.
“Sem isto não sou um homem”, ouviu ele uma vez, junto dos seus amigos no convés do “Vera Cruz”, na viagem de regresso, “O que é que eu vou fazer em Portugal?”
Olharam todos e viram um homem no cimo da amurada, num dos pisos mais altos. Dizia muitas coisas, algumas sem sentido e passado algum tempo, quando todos pensavam que não ia saltar, saltou mesmo, sem pénis nem dignidade para o mar que o engoliu rapidamente. O barco não parou.
Apesar disso, desses episódios e de muitos outros de colegas que morreram, ficaram feridos ou malucos, apesar da guerra, apesar de tudo, talvez pelas cabritas, as recordações eram maioritariamente boas. Por isso regressavam amiúde, como se também ele estivesse a regressar àquele momento de uma juventude distante em que podia ter alguém assim a retorcer-se à sua frente e ele sabia exactamente o que fazer. Não que não soubesse, nunca o ouviriam dizer isso, mas o seu corpo já não era o mesmo e ainda que soubesse o que fazer, às vezes não conseguia. Sentia-se velho e envergonhado.
Ela sorria, tocando-lhe no braço com ternura, mas também aquele sorriso lhe parecia falso. Os olhos mortiços não condiziam com os lábios abertos e afáveis, expondo a realidade das suas circunstâncias: uma Puta a foder um velho.
Ele estava de joelhos, entre as pernas abertas dela, que estava deitada de costas, com uma mão a fazer rolos no cabelo e a outra desamparada na cama, esperando-o.
Indiferente à sua prontidão, apertou-lhe a barriga, como se a examinasse, sentido a magreza da sua cintura e a elasticidade da sua pele. Os seus seios pequenos mas cheios descaiam ligeiramente para os lados e ele apertava-os também. “E então, começamos?”, disse ela, num sorriso desafiador, rodando sobre si mesma, voltando-lhe as costas enquanto se apoiava nos cotovelos e joelhos.
Tinha 64 anos, demoraria sempre algum tempo.
Só nunca pensou na sua mulher.
Depois de acabar, com um sorriso que lhe enchia a cara rosada do cansaço, disse num tom cândido que não tinha dinheiro para pagar, mas que agradecia muito aquela experiência que trouxera alguma vida a um homem acabado. “Está a gozar comigo?”, perguntou ela, já sem sorrisos, enquanto se afastava dele, levantava da cama e vestia as cuecas. “Não, querida”, respondeu ternamente, “desculpa, mas não. Sou um pobre agricultor”. A mulher, chateada, acabou de vestir-se rapidamente e saiu, fechando a porta atrás de si à chave com o homem lá dentro, regressando pouco depois, acompanhada de três mulheres e dois homens.
“Não tenho dinheiro!” justificou-se novamente, mostrando a sua carteira vazia.
“Isso é problema seu”, respondeu uma das mulheres, a mais velha, que era conhecida por ser a dona daquele café infame, “e portanto vai ficar aqui até que alguém venha pagar o que deve.”
As outras mulheres, apesar de chocadas, não disfarçaram uma gargalhada cúmplice, olhando a colega que havia sido vítima daquela partida inesperada.
O telefone começou a chamar. Do outro lado, na casa do casal, tocava. O marido não estava e ela raramente recebia chamadas.“Quem seria”, perguntou a si mesma, ao encaminhar-se, tão vagarosamente quanto a sua perna sobrecarregada pelo peso permitia, para a cozinha, onde estava o telefone.“Estou sim?”, atendeu.
Explicaram-lhe tudo. Ela limitou-se a ouvir. Com uma calma exasperante, respondeu que ia a caminho, mas que tinham de esperar um pouco porque ainda tinha de chamar um táxi. Desligou antes de chorar.
“O que é que havia de fazer?” responderia depois, com algum embaraço, perante a incredulidade de toda a vila “Era o meu marido e não o podia deixar lá.”

(João Freire)

GNR - Ao soldado desconfiado


Para o tema de Abril de 2011, subordinado ao tema da Ternura, num desafio da "Fábrica de Letras".

05/02/2010

'The Old Game' - Cena final do filme "Confessions of a dangerous mind"



"I came up with a new game-show idea recently. It's called the old game. You got three old guys with loaded guns onstage. They look back at their lives, see who they were, what they accomplished, how close they came to realizing their dreams. The winner is the one who doesn't blow his brains out. He gets a refrigerator." 


Para o tema "Velhice", num desafio da "Fábrica de Letras", acompanhando esta, esta, esta e esta participação.

12/12/2009

Velhos

Parece que alguém decidiu levar um grupo de idosos ao teatro. Parece que a reacção destes foi inesperada. Depois alguém fez um vídeo e, vai daí, o próprio vídeo torna-se numa sensação da internet e até numa forma original de publicitar a peça.
O vídeo é este que se segue.



Não gosto de muita coisa neste vídeo.
Não gosto, nem compreendo que haja alguém responsável pela decisão de levar um grupo de pessoas ao teatro e não tenha a capacidade de perceber ou de se informar com alguém do teatro se esse grupo vai gostar ou não da obra ou sequer se a vai compreender.
Depois, em segundo lugar, não gosto que alguém faça um plano de zoom aos dentes de um senhor como forma de menosprezar os argumentos desse mesmo senhor.
Por fim, não gosto que ainda se fale tanto do Salazar a propósito de tudo e não gosto que alguém justifique os caminhos da droga com uma peça de teatro.

Mas também há muita coisa que gosto.
Em primeiro lugar, gosto do vídeo em si porque me fez rir, mas também gosto do facto dos actores terem continuado a peça pelo meio dos apupos e vaias e – embora não aprecie que eles se riam depois da situação – compreendo que o façam.
Será que eles (os velhos) sabiam que podiam sair a meio da peça?
E, para finalizar, gosto da senhora que aparece no término do vídeo (fora do grupo - o que explica muito das reacções), que diz que gostou da peça, e gosto particularmente do senhor que a acompanha e que apenas diz boa-noite.

Eu quero ser aquele senhor. Eu quero chegar a velho e ter uma senhora que envelheça ao meu lado com uma dentição apresentável e que não me deixe ficar mal visto ao ser entrevistada pelos senhores da televisão.

(João Freire)
O vídeo foi visto aqui

02/12/2009

Bife em molho de pimenta num vestido branco

“Como seria se atirasse este bife ao vestido da Rita – pensou –, como reagiria ela e o seu namorado informático ao ver este molho escuro espalhado naquele vestido branco?”

Nada do que se passava àquela mesa se assemelhava ao Natal. O natal não é, ou, como ela conjurava na sua mente, “não pode ser um grupo de recém-amigos, emparelhados em casais à volta de uma mesa, para comemorar uma data que não lhes diz nada!”
Lembrava-se de um outro natal, lembrava-se dos gritos irritantes de crianças andrajosas num jantar em que ninguém está calado, do choro gutural de um bebé privado de um brinquedo, de berros disseminados dos pais a mandar calar os filhos e dos filhos assustados, que num salto apontam culpados que não eles, lembrava-se da comida e bebida, de gargalhadas sonoras, vidro partido de algo caro ou barato entornado de uma mesa, talvez a mesa das crianças ou não, papel de embrulho rasgado pelo chão, quedas e brinquedos partidos.
Esse é que seria o verdadeiro Natal.
Olhava em redor e via caras desconhecidas, pintadas dentro dos contornos perfeitamente delineados a negro, que se contrapunham ao brilho da fileira de dentes branca que usavam como uma figura de estilo no requintado discurso; caras resplandecentes em cima de fatos alinhavados com mestria, pretos e cinzentos, ora camisa branca, ora vestido preto, gola engomada, salto alto, bainha, botões, relógio, decote, cinto, brinco e colar, cabelo, cabelo, gel e cabelo… mais cabelo, equilíbrio e gala. E lembrava-se ao mesmo tempo das suas próprias correrias ruborizadas e ofegantes de menina, do suor na testa que molhava o cabelo, da prima desdentada que se ria em desafio, apresentando ao mundo a ridícula soma de três dentes com a idade de 9 anos, as camisas desfraldadas, mais cabelo suado, uma palma de um adulto na testa com medo da febre e mais correrias, tudo isto enquanto sorria levemente, mexendo com o garfo no seu prato molhado de grãos de pimenta.
“Como seria se atirasse este bife ao vestido da Rita – tornou –, como reagiria ela e o seu namorado informático?”
Sorriu com malícia.
Reminiscência após reminiscência, evocava aqueles dias de Dezembro, podia jurar que sempre iguais, com a mãe a passar ferro, o irmão bebé a brincar com algo novo e insignificante, o outro irmão na rua a desmontar uma bicicleta nova para arranjar uma mais velha que estava pendurada na parede da garagem, o pai sempre a trabalhar, uma panela de pressão no bico maior do fogão, a missa na televisão, o lume na lareira e tudo sempre assim, porque a missa não podia nunca estar na lareira, nem a panela na televisão, da mesma forma que o seu irmão não podia manter algo novo intacto por muito tempo, a natureza das coisas, portanto! E ela a pedir à mãe para ir aos tios, que ainda faltava receber presentes, sem, no entanto dizer que ainda faltava receber presentes, mentindo-lhe que tinha uma coisa para dizer à prima, e depois nem via a prima, entregando um saco com prendas que também não via, aguando os olhos até receber o seu saco (e dos seus irmãos), com as suas prendas, e sempre uma boneca, sempre coisas para pintar e uma agenda, uma agenda que morreria com uma entrada apenas:
“19 de Fevereiro:
Hoje nevou.
Eu e os meus irmãos fomos brincar para a rua.
Foi divertido."
E sempre muitos papéis e o seu barulho.
- Mas só em casa – exclamava a tia de dedo em riste.
E só em casa é que abriam. E brincavam, riscavam, sujavam, esperavam pela neve, brincavam de novo até as rodas do carro se gastarem, o cabelo da boneca se arrancar, as folhas do bloco de desenhar se riscarem, muitas vezes sem a neve aparecer.
- E a neve sem aparecer – dizia alguém.
E continuavam, ao contrário do pai que se sentava ao lume e ria…
- É meu – dizia um.
- É meu – dizia o outro.
…E ralhava.
Eventualmente seria dela – recordava, num assomo de superioridade perante os irmãos –, mas os irmãos nunca se importam com juízos de facto no que diz respeito à posse de brinquedos.
Depois os avós, “mais uma boneca, uma nota, uma pista de carros para os dois idiotas, um par de meias” e sempre as mesmas contas de somar e subtrair, para comparar com o ano anterior.
E tudo igual.
Podia jurar que era sempre igual, que recebia sempre os mesmos presentes embrulhados no mesmo papel e que os dias eram sempre iguais e a mãe a passar a ferro, os miúdos à volta dela já com os brinquedos, o pai a trabalhar e a neve… às vezes neve, outras vezes sem neve, mas sempre igual.
E enquanto se lembrava disto começou a chorar. O seu namorado (também) informático perguntou-lhe, discretamente, o que se passava.
- Opá – disse, emocionada, para que todos a ouvissem – estava aqui a lembrar-me do Natal em minha casa quando era miúda.
E todos, sem excepção se lembraram dos gritos irritantes de crianças andrajosas num jantar em que ninguém está calado, do choro gutural de um bebé privado de um brinquedo, dos berros disseminados de pais a mandar calar os filhos e dos filhos assustados, que num salto apontam culpados que não eles, lembrando-se também da comida e bebida, de gargalhadas sonoras, vidro partido de algo caro ou barato entornado de uma mesa, talvez a mesa das crianças ou não, papel de embrulho rasgado pelo chão, quedas e brinquedos partidos.

- Como seria se atirasse este bife ao vestido branco da Rita?

(João Freire)

Texto subordinado ao tema "Natal" num desafio da "Fábrica de Letras".

16/11/2009

O dia da libertação

(baseado em factos verídicos)

O dia da libertação começou como tantos outros. Era Março e o calor sacudia as almas até à exaustão. O meu turno começara há duas horas e fazíamos a nossa primeira pausa do dia para uma ligeira refeição. Claro que ninguém ligava ao rádio, era apenas um ruído suportável que acompanhava o dia dos trabalhadores, e somente quando um dos sindicalistas começou a esbracejar é que percebemos que alguma coisa se passava.
- A guerra começou - exclamou, anunciando o pior em três simples palavras.
A confusão instalou-se. Alguns, aqueles que não tinham pertences na cidade nem familiares, conseguiram resistir à tentação da histeria, mas outros, como eu, circundavam a refinaria, procurando os chefes de turno ou alguém que lhes permitisse uma hora ou duas de folga. Consegui, mas depressa me avisaram do erro que cometia e de como era melhor ficar ali à espera não sei bem do quê. Diziam para lhes telefonar, para encaminhar os meus para o aeroporto ou para a refinaria, diziam para não sair, que era perigoso percorrer a estrada de volta à cidade e diziam-me que os pretos estavam a matar todos os brancos.
(“Todos” sempre me pareceu demasiado)
E lá fui, carregado apenas de amor pela minha família e de medo pela forma como me matariam. “Seria com uma catana”, pensava, ”Seria com um pau rombo?”
Não voltaria.
Telefonei antes, dizendo à minha mulher que pegasse nas crianças e fosse com os nossos vizinhos para o aeroporto comprar passagens para Lisboa, mas não sabia ao certo se ela obedeceria, derivado a que também ela sentia o peso de deixar a nossa casa, as nossas coisas e o nosso país.
Já no caminho, uns minutos depois de abandonar a segurança da refinaria, um homem maciço mandou-me parar e lembro-me agora de pensar se o atropelava ou não e se tentaria superar a barreira que atrapalhava a passagem ou não.
- Quem é você e o que faz aqui?
Pensei que estava morto, que não tinha sítio para fugir e que tinha sido fraco na hora da morte porque nem sequer tentava fugir ou reagir.
(Que cobarde és, Jaime. Não vais voltar a ver a tua mulher, Jaime, e os teus filhos, Jaime, não vais voltar a ver Setúbal, Jaime.)
Mas ainda não seria ali.
- Temos ordens do general Manhomanha Santos para deixar passar os senhores da Petrogal, mas há comandos espalhados por aí que não sabem disso. Está avisado. Prossiga.
E eu fiquei mais calmo. Deixaram-me e segui até à cidade.
Na cidade nada, apenas ruído de algo que não identificava ao longe.
(Como quando estava fora do Estádio do Bonfim e se ouvia aquele burburinho no interior após uma jogada mais incendiária)
Passei a avenida principal, a praça e o mesmo silêncio. Já no bairro onde morava, com vista para o porto, os portões abertos, lixo espalhado e o mesmo silêncio. Entrei na casa e nada, apenas gavetas abertas, roupa revoltada pela casa e coisas a bater. "Talvez os vizinhos", pensei. Nada.
Deduzi que já tivessem partido e fiquei mais aliviado.
Eu também iria para o aeroporto.
(A empresa lá ficou. Depois ainda tentei telefonar mas já não consegui)
Antes de chegar ao aeroporto, mesmo por estradas travessas, a imagem de Angola, a imagem da libertação de um povo há 500 anos submetido ao poder dos brancos: A terra vermelha, as caras negras, os dentes brancos, o calor, a humidade estavam lá, mas estava principalmente a imagem de uns quantos a gritar “UPA, UPA, UPA” e “Angola vai agradecer” enquanto perseguiam um senhor (talvez o senhor Roberto da mercearia, que tinha uma fazenda, e a sua família) e agitavam as catanas.
Parei o carro.
Claro que não devia ter parado, devia ter continuado mais um ou dois minutos até ao aeroporto. Se tivesse continuado nunca teria a certeza que era o senhor Roberto, que era a sua família e que eram catanas aqueles objectos que os pretos tinham na mão. Lá estava a terra vermelha, as caras negras, os dentes brancos, o calor, a humidade, mas também a raiva, os olhos amarelos, e um menino caído no chão a chorar.
Não devia ter mais de três anos aquele menino que eu já entretera muitas vezes na mercearia, e era ele
(foi ele)
que no dia 15 de Março de 1961, o dia da “Acção”, como lhe chamaram, estava a ser agarrado pelas duas pernas e sacudido com toda a força de um soldado contra o capot de um carro.
O Corpo vivo da criança bateu no carro e morreu instantaneamente, os seus berros deixaram lugar ao silêncio e já só se ouvia o “UPA! UPA” e o choro descontrolado da mãe.
Depois, com uma catana, separaram a cabeça do senhor Roberto do resto do seu corpo e por fim, perante uma mulher destruída por dentro, e ajoelhada no meio de uma rua de Angola, um dos soldados de libertação apontou uma pistola à parte de trás da sua cabeça e disparou. O seu corpo caiu de imediato, não para a frente, mas para o lado.
Guerra é guerra, não tem a ver com cor, não tem a ver com política, não tem a ver com nada.
Para mim a guerra é a memória que aquela mulher teve no último minuto da sua vida.

(João Freire)

Texto subordinado ao tema "Preto & Branco" num desafio da "Fábrica de Letras" .



Publicado anteriormente aqui

01/10/2009

Cada vez mais novo

Cada vez parece mais novo – dizia, quando o descobria na rua, entre conversas e sorrisos que se ouviam ao longe.
Nunca parecendo mais novo, devido à impossibilidade de tal facto ao nível celular, com as suas complicações mitocondriais e citoplásmicas, a verdade é que, apesar do inclemente correr do tempo, aquele velho costumava assemelhar-se àquele mesmo velho dias, meses e anos antes dos seus encontros habituais. E o velhote gostava de ouvir aquilo, ainda que mantivesse, por humildade, alguma reserva sobre a sinceridade do miúdo.
Mas o rapaz não disse nada naquele dia - talvez por isso tudo e todos estivessem algo estranhos.
E tudo se resumia a um simples facto: aquele homem estava velhíssimo e se antes parecia fácil dizer algo inócuo, que parecia mais novo, que estava impecável, coiso e tal, parecer-lhe-ia agora um atentado à honestidade e à inteligência do homem que pretendia elogiar com tais comentários.
Numa luta titânica pela conservação, mantivera-se longe de rugas e pés de galinha para além do que seria de esperar, mas pelo que agora se via, aos 90 anos, a velhice tinha acabado por alcançá-lo, atingindo-o bem e com força.
A cara de choque do rapaz denunciava-o e o velho, como se de uma tartaruga se tratasse, de boca aberta e gestos lentos, pouco podia fazer senão resignar-se à imagem mefítica de si mesmo que via nos olhos do rapaz.
O jovem, por seu lado, indagando-se sobre "aquele homem com um punho de ferro, que nem dois homens conseguiam abrir na sua juventude, aquele homem alto e elegante… sempre de fato de três peças", procurava nele, ao menos, a sabedoria, a experiência e a perseverança.
Nada. Entretanto, o homem confuso, perdido... velho!
E tudo nele era silêncio, quase que um vazio, como se ninguém estivesse atrás daqueles olhos baços de uma cor verde de garrafa.
Que rugas tão profundas são essas que me impedem de ver-te, ó velho?
Tinha seguramente menos vinte centímetros, estava curvado (ou torto), amarelo, com pele de papel e andava como se fosse um pinguim, com passos muito rápidos, mas curtos de tão ineficazes e custosos. Morreu no dia seguinte sem ninguém saber que um jovem, como ele era, que há-de ficar velho, como ele ficou, e morrer, como ele morreu, o havia comparado a dois animais: uma tartaruga e um pinguim.

(João Freire)

Participação no tema "Velhice" num desafio da "Fábrica de Letras".

04/01/2009

Desafio dos desejos

Até fica bem, por ser início de ano, responder finalmente ao desafio dos desejos mostrando-os na forma de uma lista, que tanto servirá para o ano que chegou como para o resto da minha vida.

1º - Experimentar
 
Voar num caça (avião), saltar de pára-quedas ou conduzir a mais de trezentos quilómetros por hora num super carro. Pode ser um qualquer destes três ou até outro desde que o nível de radicalidade seja abundantemente satisfatório.


2º - Sentir

Andar à porrada, de preferência com um gajo maior, e - aspecto muito importante do desejo - ganhar.


3º - Conhecer

Viajar pelo maior número de países possível, conhecendo as pessoas mais interessantes do mundo. Acho que mais de 50 países estaria muito bem, mas não me queixaria se visitasse 200. Quanto às pessoas, qualquer uma desde que as considerasse mesmo interessantes.



4º - Receber

Felicidade. Desejo a minha e a dos outros. A minha envolverá sempre a saúde, a família os amigos por perto e algum dinheiro. A dos outros que seja conforme a sua vontade.



5º - Dar


Ser ou fazer regularmente qualquer coisa de útil para a sociedade, desde ajudar uma idosa a atravessar a rua a resolver o conflito israelo-palestiniano.



6º - Fazer
 
Escrever.


7º - Viver e Amar


Ser melhor todos os dias do que nos dias anteriores e morrer aos 128 anos, na forma de um homem de 50 anos em boa forma, seis minutos depois de adormecer, após ter feito sexo com a minha mulher de sempre, com uma idade próxima à minha, mas na forma de uma trintona sensual (em espectacular forma física), que morreria calmamente como eu, acompanhando-me assim na viagem até ao céu, onde o paraíso seria uma realidade, Deus existiria mesmo e tudo o que de bom se pudesse imaginar aconteceria pela eternidade fora.


P.S. - Sim, o desafio consistia na divulgação de 8 desejos, mas como tentei ser o mais abrangente possível, não precisei sequer de usar os 8 (Se virmos bem as coisas, terei utilizado mais de 20 desejos, mas quem está a contar?) Dou o último desejo a quem mais precisar.

09/10/2008

Algo de muito belo, talvez uma das coisas mais belas que vi

Para ver é favor carregar na imagem



Vi isto pela primeira vez (e é um sítio onde encontro muita coisa boa) nos Dias Úteis, de Pedro Ribeiro


Participação no tema "Velhice" da "Fábrica de Letras"

04/10/2008

Idade

"As Oscar Wilde once put it, after twenty-five everyone is the same age..."

(Paul Auster)

06/05/2008

Procrastinação

Sinto-me como o resultado de um molde que serviu para todos. Ao longo dos anos, aquela sensação familiar de sermos únicos, imortais e brilhantes vai dando lugar a outra completamente diferente: à sensação de sermos apenas um entre iguais. Encontro-me num bom livro, encontro-me num bom filme, encontro-me no reflexo psicológico de um grande general ou filantropo do século passado e revolto-me. Quem mandou ao James L. Brooks fazer um filme sobre mim? Eu sou o Melvin Udall (Jack Nicholson) no “Melhor é impossível” (As good as it gets, 1997). Sem o comportamento compulsivo obssessivo, é certo, mas sou ele. Eu sei que é exagerado dizer isto e até algo pretensioso, mas nunca ouvi ninguém dizer tanta coisa que eu penso. Não vou elaborar mais sobre isto, mas eu sou ele. E quando comento com uma amiga que tudo o que se possa dizer já foi dito pelo Fernado Pessoa ou quando converso com alguém sobre a infância e descubro que toda a gente fazia aqueles joguinhos na rua, sejam eles a contagem das pedras da calçada, o andar só nas pedras pretas ou qualquer outra coisa do género, confronto-me com uma realidade cíclica que me faz sentir pequeno, indiferenciado… muito pequeno. Admito que esta redundância humana tenha um lado bom: aprendi com ela a compreender mais as pessoas, a pensar que por trás do comportamento que a mim parece terrivelmente desajustado estará uma lógica irrefutável e assim desculpo mais, concedo mais. E isso é bom. Ninguém pode negar. Mas há algo em mim que luta contra esta inevitabiliade e não aceita que seja apenas e só mais um mero grão num mar imenso de areia. Eu sei que sou melhor do que a maior parte das pessoas que conheço. Eu sei-o e só tenho pena que ninguém se aperceba disso. Bem… quase ninguém. Talvez a minha mãe se aperceba disso. A minha avó, essa, sabe-o de certeza, aliás, é por essas e por outras que fica triste quando descobre que ainda não arranjei um emprego à altura (penso que para ela esse emprego será o de Presidente da República). Mas ainda vão a tempo. Eu ainda vou a tempo! Mas talvez todos pensemos isto.

(João Freire)

22/04/2008

Sei o que quero, mas não sei se o diga

Diz-se por aí que devemos visualizar os nossos sonhos, que devemos saber o que queremos e dizê-lo ao nosso cérebro através de um texto que relemos ou de um quadro para o qual olhamos todos os dias. Será necessário fazer um projecto da nossa vida, centrado nos objectivos e sonhos, para que o cérebro o estruture nos processos a desencadear para nos guiar até ele. Pois bem, eu sou tão aberto às tretas new age como qualquer um e o raciocínio até me parece lúcido o suficiente para o fazer. Tanto que o fiz. Comecei a fazer isso no ambiente de trabalho do meu computador, colocando todas as coisas que quero emular ou conseguir ao longo da minha vida, mas reparei de imediato que ao fazer isso já estava com medo de ficar aquém daquilo a que me propunha e em vez de ambicionar ter, por exemplo, um super carro (um Porsche 911 Turbo, um Audi R8, um Mercedes C63 AMG ou um BMW M3), comecei a decrescer nas minhas exigências. "Para quê um Mercedes de 6 litros se um de 2 já é mais que suficiente!"
Ora… Há aqui um processo de readaptação que, por si só, já quererá dizer alguma coisa. Este plano só funcionará se formos conseguindo o que nos propomos ao longo do tempo, pois se as coisas começarem a ficar inevitavelmente para trás, pode dar-se o efeito contrário de depressão e insucesso constante. E se, por acaso, daqui a cinquenta anos olhar para o quadro que fiz e vir que não consegui nada daquilo a que me propunha? Será pior não ter expectativas ou ficar aquém delas?
A propósito desta discussão, lembro-me de um filme e, mais uma vez com muito trabalho para traduzir e legendar, desta cena:



E depois disto já não sei se deva fazer o tal quadro dos sonhos.
Será bom termos sonhos e objectivos, mas não sei até que ponto será útil concretizá-los como metas, que, quer se queira quer não, definirão o nosso sucesso enquanto indivíduos.

(João Freire)

Reaproveitado para o desafio de Novembro da Fábrica de Letras, subordinado ao tema "Sonhos".


P.S. - A cena é do filme Confessions of a Dangerous Mind, de George Clooney

29/03/2008

Desperdício da vida

"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida... Está no amor que não damos, nas forças que não usamos, Na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-se do sofrimento, também perde a felicidade."

(Mary Cholmondeley)

20/12/2007

Waste

"Youth is wasted on the young, wealth is wasted on the old."

(Jools Holland)

18/12/2007

Envelhecer

"De que vale um beijo se a pele enruga, envelhece e morre?Um beijo vale porque a pele enruga, envelhece e morre. E vale muito."

(João Freire)

13/12/2007

Idade

"You know you're getting old when you stop to tie your shoelaces and wonder what else you could do while you're down there."

(George Burns)

11/12/2007

Diluição

A falta de sentido anula a existência mais bela do ser, sem sentido não há nada que permaneça, reformulando-se a existência na uniformidade do nada. Caminhamos para o deserto, para o inóspito, o mundo está a diluir-se nele próprio, de um planeta azul a um castanho claro, e com ele as pessoas. Os nossos problemas são os de toda a gente, nem mais nem menos importantes: os mesmos. E são também os do Mundo, mas nós não nos apercebemos disso. Em nós mesmos vivemos, em nós, para nós, só nós, num solilóquio divino, quase risível. Somos o centro de tudo, nós e o Mundo, mas seremos? Pensamos, trabalhamos, procuramos, ganhamos e perdemos, enfim vivemos, mas pouco mais. Dançamos pelo universo, numa coreografia de rotação e translação, que não nos aproxima nem nos afasta dos outros corpos, quentes ou frios. Mas então qual o sentido? De que vale a vida, a felicidade, o amor, de que vale um beijo se a pele enruga, envelhece e morre? A medida da vida está na memória que temos dela, dos bons momentos, das coisas boas que nos fizeram sorrir e das pessoas com quem partilhámos tudo. Claro que a vida é melhor quando partilhada, tudo é melhor quando nos afasta de nós mesmos e da diluição. O sentido é para fora, é dar e receber, é sentir. De que vale um beijo quando a pele enruga, envelhece e morre? Um beijo vale porque a pele enruga, envelhece e morre. E vale muito.

(João Freire)

Participação no tema "Velhice" da "Fábrica de Letras"

14/10/2007

Os degraus do cabeço da avó Irene

E sem pensar muito nisso, vem-me à memória a lembrança de uns degraus que existiam no cabeço. O cabeço era um pequeno terreno da minha avó em Valverde, um pedaço de terra muito estreito e esticado ao longo de várias dezenas de metros divididas em socalcos. No de cima, para além do pequeno barracão das arrecadações, dos coelhos e das galinhas, encontravam-se as oliveiras, as videiras e uma ginjeira; no de baixo a horta, abastecida por um poço que mais não era, e ainda é, do que um buraco quadrado afundado no chão e forrado a pedra.
(Mas falava eu sobre os degraus.)
Eram eles, os degraus, que separavam os dois níveis da propriedade e que da última vez que lá estive, me pareceram pequeníssimos. É engraçado como a ideia que temos de uma coisa muda com a idade, com o crescimento. Quando somos pequenos tudo nos parece maior, maior e mais lento, pois também me lembro do tempo interminável que demorava a percorrer esse pequeno terreno.
Mas que medo eu tinha do poço e de cair lá dentro, enleado no verdete e nos ramos caídos e como eram grandes os degraus.
- Eram enormes, vó!
Lembro-me de os descer e de ter de me apoiar nas paredes que o próprio terreno e a casa do motor a gasóleo constituíam. Sempre que torno a visitar o cabeço vejo a minha avó a vir na minha direcção, cada vez mais devagar.
(Todas as avós caminham mais devagar com a idade, com o crescimento.)
O balde vermelho, o lenço preto, o sorriso algo cansado, os últimos afazeres e a boleia que lhe dou até casa.
- Vamos embora, vó?

(João Freire)

14/09/2007

Regina

Queria dizer
Regina
Queria ouvir
Regina
A casa está vazia
Nenhum homem devia sair da cama sem beijar a testa da mulher que nela repousa
Deixaste-me só e eu fiquei amargo
Sou um homem velho e amargo
Choro por já não me lembrar de ti
És a imagem distante e desfocada de um tempo melhor
Um tempo em que a raiva não procurava um escape
Também sou rancoroso
Culpo tudo e todos por não já não te ter
E restam-me as pequenas coisas:
O jeito como compunhas a gola do meu casaco antes de eu sair
A sopa de legumes que só eu comia
E o teu nome, Regina
Vejo-o em todo o lado
Vejo-o quando acordo e vejo-o quando durmo
Vejo-o no rosto da nossa filha
E sonho com ele, dizendo:
Regina
Temos uma dança marcada no céu
Regina

(João Freire)

Para o tema "Velhice" num desafio da "Fábrica de Letras".

09/07/2007

Sobre a idade

"As crianças acham tudo em nada, os homens não acham nada em tudo."

(Giacomo Leopardi)

24/05/2007

Licença de isqueiro

No tempo de salazar era necessário deter uma licença de isqueiro para o poder utilizar e transportar.

(in algum velho qualquer)