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27/08/2023

Os químicos da felicidade

Habituámo-nos a estar sozinhos. A ideia de uma relação para a vida toda entre um homem e uma mulher que víamos nos filme e livros já não nos parece atraente e a facilidade de uma relação à medida que podemos pesquisar facilmente nos telemóveis de acordo com parâmetros pré-estabelecidos, é muitas vezes apenas aparente. As vontades muitas vezes não coincidem, a individualidade impera, surgem novas complicações que vão desde o simples iniciar da conversa, passando pela consideração que agora temos de ter com os pronomes, o género, a sexualidade, o tipo de alimentação, a filiação política entre milhares de outras coisas para as quais estamos mal preparados e que causam mais ansiedade do que interesse. É por isso que muitas vezes perdemos mais tempo na escolha do que na conversa e no desenvolvimento das ligações em si e apostamos mais em procurar pessoas para momentos, seja para viajar, para sexo casual, orgias, swinging, para jogar Quiz Planet ou apenas para conversar do que para relações a longo prazo. E mesmo quem acha que procura relações 'tradicionais' muitas vezes pondera se não estará melhor sozinho, porque dormir acompanhado parece uma boa ideia até que nos lembramos que tínhamos uma cama só para nós e porque a ideia de ter roupa ou pêlos espalhados por todo o lado assusta qualquer um, mas também porque, com tanta escolha à nossa disposição, é mais difícil aceitarmos qualquer comportamento por mais pequeno que seja que não compreendemos ou do qual não gostamos. E é por tudo isto que, apesar de contraditória, neste mundo tão ligado, parece haver uma tendência para a solidão. A solidão é cómoda. Não temos de nos preocupar com ninguém, partilhar nada, ajudar ninguém, fazer compromissos, nem sequer arriscar conhecer os familiares e se é verdade que não temos as regalias desse tipo de relações, também é verdade que não temos as complicações e arranjamos alternativas, chamemos-lhes sucedâneos da felicidade, seja a família, amigos, animais de estimação, o trabalho, as idas ao ginásio, as partilhas que fazemos nas redes e aplicações sociais ou o onanismo, claro, e que nos permitem as doses diárias daqueles químicos que nos fazem sentir bem.

(João Freire)

13/12/2010

Um homenzinho

- Já és um homenzinho.
A partir de certa idade temos de ter atenção. Há um momento, por volta dos 25 anos, em que deixamos de ser imaturos, sobranceiramente aturados, para sermos apenas irresponsáveis, numa censura generalizada bem maior. É quando os nossos actos se qualificam assim, como irresponsáveis, que somos adultos e a partir daí todas aquelas coisas que sem vergonha fazíamos com prazer ou ignorância têm de ser bem pesadas.
- Já és um homenzinho.
Também já não há tempo para grandes sensibilidades: discutir pela posse de um brinquedo, seja ele pequeno ou grande, é impraticável… mesmo que eu o tenha visto primeiro ou chegado primeiro a ele! Os adultos não se zangam (não podem zangar-se!) com coisas pequenas. Alguém que não pagou um copo, comentários desagradáveis que são ditos e outras injúrias, tudo tem de se suportar. O adulto é blasé. O adulto é, genericamente, um idiota com assomos de importância.
- Já és um homenzinho!
Uma das grandes conquistas de ser-se inteligente e de ter passado não sei quantos anos a estudar até ao ponto de ter um título de doutor é permitir-se olhar para os outros sem achar que se deva importar com formalidades. Respeito sim, aquele mútuo, que é bonito, mas não submissão. Nunca submissão. Gostava de manter a imaturidade na minha vida de adulto sem que isso fosse um constrangimento à minha vida em sociedade. Luto por isso.

(João Freire - 2007)

Leonard Cohen - I'm Your Man

24/11/2010

A ninguém lhes parecem os seus defeitos demasiado graves, especialmente o defeito de não considerarem os seus defeitos demasiado graves.

Sou uma pessoa detestável.
Não sei se quero ter filhos. Tenho a certeza de que não quero animais de estimação. Chegam, conquistam o nosso carinho, desprezam-nos, morrem… ou morremos nós! Amor desperdiçado.
Tenho alguma inveja de quem tem sorte na vida. Pode ser inveja do carro, do dinheiro… mesmo que seja dos meus amigos… Se calhar, principalmente quando são os meus amigos - é fácil deixar-mo-nos levar pela inveja.
Gosto que o meu trabalho seja reconhecido. Da mesma forma, também o meu altruísmo e carácter filantropo devem ser referenciados abundantemente pelos beneficiários e espectadores. Eu sou daqueles que gosta de deixar passar as pessoas nas passadeiras e se sente bem por isso. Convém que agradeçam com um gesto, um acenar, ou um obrigado gesticulado. Não o fazendo, são umas bestas ingratas.
Sou preconceituoso na medida em que acho que alguns preconceitos têm razão de ser, como por exemplo as capacidades automobilísticas das mulheres.
Sou orgulhoso, como aqueles que apontam os seus defeitos em forma de elogio, mas também sou teimoso, arrogante e vingativo. "Não sou vingativo, mas quem mas faz paga-mas".
Gosto de corrigir as pessoas e quando me engano… Nunca me engano!
Gosto de discutir. Alimento-me de discussões e recorro ao passado para as ganhar. Normalmente ganho-as, não sei se por mérito intelectual ou cansaço do adversário, o que faz com que também seja chato.
Sou parvo nas brincadeiras, roçando não poucas vezes o mau gosto.
Cometo erros atrás de erros e quando finalmente os corrijo (ou tento) não tardo nem hesito em voltar a cometê-los.
E sou do Benfica.

(João Freire)

Radiohead - Creep

Stone Temple Pilots - Creep

Beck - Loser


Para o tema "Transparência" num desafio da "Fábrica de Letras".

*O título do post remete para uma citação de Carlos Marzal, um poeta espanhol

14/11/2010

As pessoas más

Gosto de pessoas más, do avô que puxa o cabelo do neto, do tio que dá um pontapé no rabo de um sobrinho, da irmã mais velha que goza com o choro do mano. São gestos envergonhados de amor.

Gosto de pessoas más que entram nas discussões sem ter medo do caminho que podem levar, gosto de pessoas que discutem sem paternalismo com crianças, velhos, doentes ou pessoas pouco inteligentes. Isso é igualdade e respeito.

Gosto de pessoas más que dizem obrigado, bom dia e com licença, mas que se recusam a falar da chuva, da crise ou da vizinha. São pessoas que dão valor às palavras.

Gosto de pessoas más que magoam sem querer e agem como se nada se passasse. Inocência.

Gosto de pessoas más, de pessoas com má-cara que são sempre do contra, pessoas que dizem aos amigos o que eles têm de ouvir e não o que eles querem e esperam ouvir, pessoas que ajudam e apoiam, mas que deixam cair e esperam que os outros se levantem sozinhos sem dizer nunca eu bem te avisei.

Gosto de pessoas más… gosto de tudo nas pessoas más. Acho-lhes piada. Só não gosto quando são más.

(João Freire)

Lovage - Book Of The Month

22/10/2010

No meio da estrada também está bem


- Então - disse abruptamente, levantando os braços em desalento, enquanto a senhora saía do carro vermelho.
- Quer pôr o carro ali?
- Sim, quero.
- Eu chego à frente.

E chegou. Chegou dois metros à frente. Ficou óptimo. O espaço vazio à direita é um lugar de estacionamento, aquele espaço vazio lá à frente entre dois carros também é um lugar de estacionamento, até há uma ilha de estacionamento do lado esquerdo (vê-se o cantinho) com muitos lugares vagos, mas o meio da estrada também é uma boa opção. Ficou óptimo! Óptimo! Quase não estorva nada e eu (esta roda aqui no canto inferior) até consegui estacionar onde queria.

O problema não são os políticos, nem os ricos, pois esses são amostras do país. Há os bons, há os maus e há os assim, assim.
O problema disto tudo é... (link)

(João Freire)

04/06/2010

Doce avozinha


Para a minha avó Irene, que faz anos hoje, e para todas as avós que acham o melhor dos netos, que sonham os sonhos deles, que sofrem por eles quando não os realizam e que afinal de contas gostam mais deles do que aquilo que eles merecem.


Doce avzinha by Agrupamento Musical Lauro Palma

13/05/2010

Essa mala condición de estar rodeada por el mar por todos lados


Estava a olhar para ela, é verdade, mas também não é menos verdade que estava a olhar para outras duas. Será habitual em mim esta dispersão no olhar, ainda que, normalmente, isso redunde em nada. Pessoas que eu mal conhecia diziam para ir ter com ela, diziam aliás que qualquer uma das três valeria a pena, a cerveja ajudaria, mas perante a indecisão foi ela que veio ter comigo. Lembro-me perfeitamente do ritmo na pronúncia, quase como uma canção.
- Por qué me hás estado mirando toda la noche – perguntou ela.
Devo ter respondido, disso não me lembro, mas lembro-me bem (talvez não me lembre bem, mas lembro-me) do que aconteceu depois.
Ela estava com uma irmã, essa irmã teria o nome de um rio russo (?), depois falou-me das sobrinhas, acho que eram duas mas não tenho a certeza, disse que trabalhava num banco e finalmente disse que queria ir para outro lado. Eu disse que sim. Fomos a um bar, bebemos algumas cervejas, dançámos, trocámos carícias e beijos acalorados e no fim, quando decidíamos o que fazer e aonde ir para terminar a noite, explicou que teria todo o gosto, mas que precisava da minha ajuda para um problema no seu local de trabalho. No dia seguinte teria de repor 70 euros (aproximadamente). Disse-lhe que não pagava – a verdade é que também já não tinha esse dinheiro – até porque “se alguém tivesse de pagar" seria ela, uma vez que poderia "desfrutar de um macho latino”. Eu estava bêbado, o humor não daria para mais e a verdade nua e crua é uma: ela sorriu. A irmã apareceu, tentando explicar a situação, que não era nada do que eu estava a pensar, mas ela disse-lhe que não valia a pena e depois, com alguma tristeza no olhar, despediu-se de mim com um beijo enquanto era puxada no braço pela irmã, olhando-me com ternura. Saí com um sorriso nos lábios, percorrendo sozinho e ligeiramente embriagado as ruas desconhecidas de Havana, sentido-me de certa forma aliviado.
Continuo a querer acreditar que não era uma puta.


(João Freire)


Buena Vista Social Club - Chan Chan



Recordado para o tema "Paixão" num desafio da "Fábrica de Letras"

11/01/2010

5 manias

O desafio, proposto pela Mary Brown, é o seguinte:

"Cada bloguista participante tem de enunciar 5 manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher 5 outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do recrutamento. Cada participante deve reproduzir este regulamento no seu blogue."

Não sou uma pessoa com muitas manias, pelo menos não ao ponto de conseguir encontrar cinco rapidamente. Mas, como todas as pessoas, tenho as minhas idiossincrasias e particularidades. Sendo assim...


  • Desde logo, tenho a mania, aquela mais corriqueira e habitual, a mania de ser esperto, a mania de ser engraçado, a mania de que escrevo bem ou de que sou o melhor condutor do mundo... Essa mania.
  • Depois, como a desafiadora disse (apesar de não me conhecer), tenho a mania de ser do contra, habitualmente numa discussão sobre quem não está presente (ocupando o seu lugar); quando os argumentos se esgrimem e é necessário uma refutação dos mesmos para se chegar a uma conclusão mais sólida ou... só porque sim. Chama-se a isso fazer o papel de advogado do diabo e eu faço-o na perfeição (lá está a tal mania de que falava ao princípio).
  • Tenho também a mania de ler na casa-de-banho. Habitualmente, tenho cinco ou seis livros na casa-de-banho e, normalmente, leio até ficar com a perna dormente.
  • E, por último... sei lá... roo as unhas (onicofagia, dizem aqueles que têm a mania)



    18/12/2009

    Established since 18/12/1980

    No ano passado, em jeito de homenagem fraterna, foi assim. Há dois anos, apesar de também ter sido assim, foi, sobretudo, assim.

    Este ano a forma de celebração escolhida é a canção vencedora do Festival RTP da canção e consequente representante de Portugal no Festival da Eurovisão de 1980. Nem é uma coisa boa nem má, é!



    Depois, tal como vi aqui, parece-me uma boa ideia encaminhar todos aqueles presentes que pretendem endereçar-me (todos, não, porque estou à espera de alguns... como este) para qualquer obra de solidariedade.

    Eu, como gosto desta, sugiro-a e deixo aqui a forma de poderem fazer a vossa contribuição.

    Obrigado.

    23/09/2009

    Uma noite no Insólito Bar, em Braga

    Braga, mais do que uma cidade onde fui muito feliz ou muito triste… ou muito bêbado, é a cidade que me ensinou mais sobre a vida.
    - Ver Braga por um canudo - diziam-me.
    Mas mais do que ver Braga por um canudo de licenciado, foi lá que, para o bem e para o mal, me transformei no homem que sou.
    Por isso, sempre que lá volto e olho os sítios por onde passei e vejo algumas das pessoas que por lá me acompanharam, mesmo os que não conhecia, não consigo deixar de lembrar o rapazinho que era (ao ponto dos meus colegas de casa não acreditarem que eu iria ficar com eles no dia em que cheguei), assim como não consigo deixar de sentir uma certa nostalgia pelo tempo que vivi lá como estudante. Nunca mais vai ser o mesmo!
    Ficam, no entanto, as pessoas, a cidade e tudo o que aprendi… para sempre.



    (No fim da parte sobre Braga, que é relativamente curta, há uma surpresa musical)


    (João Freire)

    21/08/2009

    Compromissos comerciais para quem...

    Para quem gosta de música


    Para quem gosta de dança e cantar à chuva



    Para quem gosta de poesia


    Para quem gosta de cinema


    Para quem gosta de sonhar

    05/08/2009

    Braga


    Sou um homem de rotinas, poder-se-ia dizer que sofro de uma desordem obsessiva-compulsiva, mas dizê-lo pode parecer pretensioso e por isso não o digo. Digo apenas que tenho formas diferentes de fazer as coisas, algumas que me irritam, outras que me acalmam.
    Acordo todos os dias Às 6:38. Se mudo o horário do despertador, faço-o sempre para uma hora que acabe em 8 ou 4, de resto, nunca termino as coisas sem chegar ao ponto que previamente estabeleci, seja a página de um livro ou o número de flexões que faço antes de tomar banho. Faço isto, ainda que demore mais um quarto de hora no trabalho para terminar algo ou meia hora na casa-de-banho para acabar um capítulo do António Lobo Antunes. Depois, sempre que viajo, tenho de comprar coisas específicas para os meus irmãos (um instrumento musical para ele e pins para ela - penso que ela já nem os suportará) e tenho de tirar sempre duas fotografias (estas não vou explicar, mas são sempre duas fotografias em situações específicas). Depois, por último, há algo que eu faço sempre e que é a coisa mais saborosa que posso fazer, que é a rotina da francesinha sempre que vou a Braga. Nunca falho e, apesar de me dizerem que "na Regaleira é que é" ou que "as da Foz são as melhores", eu não dispenso as do 053*, ao lado da Gulbenkian, em Braga, claro.

    (João Freire)

    * 053 deve-se à referência do indicativo do telefone de Braga. Antes era o 053, agora é o 253. As francesinhas continuam a ser no 053

    Reaproveitado para o tema de Dezembro de 2010 sobre Objectos, pessoas, sítios e acontecimentos, num desafio da "Fábrica de Letras".

    28/06/2009

    Curtas - Vende-se

    Sobre Futebol
    Num dia em que descobri, via afectado, isto. importa dizer que nem tudo no futebol português vai mal. O meu Benfica contratou um excelente jogador (Saviola). Não obstante, parece-me que aquele gajo - Matías Fernández - que o Sporting contratou é capaz de ainda ser melhor!

    Sobre ténis
    Wimbledon. Depois de Michael Llodra se ter lesionado de forma insólita, Tommy Haas não quis deixar que os espectadores fossem para casa sem que vissem um pouco mais de ténis e desafiou um apanha-bolas para jogar com ele mais um pouco. É por estas e por outras que dizem que o ténis é o desporto dos cavalheiros.

    Sobre automobilismo e outros cavalheiros
    A forma como o Hirvonen, logo no fim de uma especial do segundo dia, comenta a prova, que se revelou uma das mais rápidas de sempre, dizendo que foi fantástica ("We were absolutely flat out the whole day... whoa! It was fantastic... fan-tastic!"), sorrindo como um miúdo e a resiliência de Loeb que ainda consegui pontuar após ter falhado 4 especiais que lhe valeram 20 minutos de penalização por um acidente com uma raiz de uma árvore, mostram a alegria e competitividade salutar que pode e deve existir no desporto.

    E por falar em carros... vale a pena tentar
    Quero trocar de carro - e já me ofereceram uma quantia por este carrinho aqui em baixo - mas vendendo-o por mim fico com mais espaço de manobra nas negociações. Não é uma situação de desespero, mas se houver alguém interessado...

    Características:

    Marca: Renault Clio 1.5 Dci (65 Cv, 5p)
    Ano: 2002
    Quilómetros: 140 mil
    Extras (?): Caixa de 6 cd
    Avarias desde a compra, entretanto resolvidas:
    - Injectores, por deficiência de origem da série de 2002 anterior a Junho (Substituídos à razão de um por ano)
    - Bloqueador de ignição, por desgaste da chave - ainda bem que há duas!
    - Luz do Air-bag do passageiro (comprei outro - posso oferecer o antigo também)
    - Rotura de um dos tubo do gasóleo (substituído)
    - Rotura do tubo de recuperação de gases para o Turbo (substituído)
    Gasta pouco e anda bem.

    De resto... música...
    ... E uma das melhores músicas de sempre por um dos melhores intérpretes de sempre

    Starman - David Bowie

    ...Let the children boogie


    (João Freire)

    19/06/2009

    Cuba



    Um dos melhores e, ao mesmo tempo, frustrantes aspectos das viagens que vou fazendo por sítios tão exóticos desse mundo... como Braga, Lisboa, Caldas da Rainha ou Montemor-o-velho, é a descoberta de que onde quer que esteja, independentemente do país, da sua língua ou cultura, tudo é mais ou menos igual naquilo que é a essência dos povos, do bom ao mau, nas pessoas e nos locais, acabando eu por estar lá, nesses sítios, da mesma forma que estou em Portugal, pensando lá nas mesmas coisas que penso quando estou cá, como, por exemplo, na constatação da minha recém-descoberta calvice. Há diferenças certamente e são essas que nos captam a atenção, mas é percebendo essas diferenças ténues entre povos que entendemos a humanidade e a força do que nos une a todos enquanto raça. Há coisas que não mudam e que são iguais em todo o mundo.

    Tudo o resto faz parte de uma conta elaborada que fazemos com nós mesmos. Há o positivo e o negativo e é a diferença entre essas parcelas que ditará se a viagem foi boa ou não. Isto é verdade para uma viagem a Cuba como o é para a viagem que é a vida.

    Em Cuba há muita coisa positiva, desde logo o povo, que é sempre prestável e simpático, mas também o clima e as praias, a fruta e as bebidas típicas, os carros antigos que populam as cidades, a arquitectura colonial e do período pós-revolucionário e até a imagem panfletária da liberdade de Marti, nas pinturas que invadem as paredes, com Cienfuegos, Guevara e Castro a despontar, uma imagem que, apesar de anacrónica, acaba por nos tocar. Nisto tudo, Cuba é cor e é ritmo, e essa é a marca cubana caribenha que tem a sua epítome na capital, Havana. Mas há também o lado negativo, desde a decadência de um sistema político que força a pedinchice na forma dos ginetero(a)s, eternos negociantes de tudo, que perseguem os turistas em troco de uma moeda ou duas (sem que haja insegurança - virtudes de um regime militarista -, nem tão pouco antipatia), vivendo em casas degradas que não são completamente suas, comendo o que a restrição de alimentos não proíbe, conduzindo carros que mantêm a todo o custo e que, inevitavelmente, acabam por não ser completamente seus, sendo utilizados como táxis sobre os quais, como em tudo o resto no ainda país de Fidel, acabam por incidir impostos estatais que impossibilitam qualquer prosperidade individual.

    Os cubanos não se queixam, adaptam-se, permitindo-se ao luxo de se orgulharem do seu país perante o mundo (contributo da repressão americana, que instila a rivalidade nos dois povos e que é bem visível por toda a ilha, em especial no jogo de crianças que todos os dias se desenrola no ecrã da casa de interesses norte-americana, bem perto do famoso Hotel Nacional, onde surgem mensagens contra o regime, de pronto respondidas, de forma igualmente infantil, pelo astear das dezenas de bandeiras revolucionárias cubanas que a todo o custo tentam tapar as letras escritas a vermelho que vão passando do outro lado do arame farpado). Talvez - sem essa petulância americana e orgulho saloio por parte do governo cubano - não existisse tal antagonismo que impede o diálogo e a harmonia. Mas desenganem-se os que confundem orgulho pela noção de um país e o conformismo. Os cubanos não aceitam tudo e há um sentimento de frustração bem presente, nomeadamente no que diz respeito à castração das liberdades mais básicas, e que invade grande parte da população, mas cabe-lhes a eles, os cubanos - e é isso que os americanos, desde Kissinger, não entendem -, decidir e agir sobre o seu futuro enquanto povo.

    Historicamente, os cubanos já provaram que têm capacidade para sonhar e actuar em conformidade com os seus desejos de liberdade
    , foi isso que Fidel, Raul, Che, entre outros camaradas fizeram quando partiram do México a bordo do Granma (em exposição no Museu da Revolução ao lado dos destroços de aviões americanos abatidos aquando da tentativa de invasão naquela que ficou conhecida pela invasão da Baía dos Porcos) em direcção a cuba, mas fazer a revolta é substancialmente diferente de governar e essa lição já está bem aprendida pelo povo cubano.

    Se a viagem foi boa? Claro que foi bom, mas (o maldito mas), apesar de tudo, há um sentimento que está sempre presente: o sentimento de estarmos a ajudar a perpetuar o estado das coisas.


    (João Freire)

    03/05/2009

    Dia da mãe

    "A casa não se apoia sobre a terra, apoia-se sobre uma mulher"

    Ditado mexicano

    25/03/2009

    Opacidade

    Com uma calma desconcertante, porque pouco habitual, ouviu Dave Matthews e saiu.
    - É engraçado como o que é transparente pode ser tão opaco.

    (João Freire)

    Dave Matthews - Baby


    Para o tema "Transparência" num desafio da "Fábrica de Letras".

    10/03/2009

    Mind the gap*



    Estamos vivos
    E continuamos à espera, à procura...
    De costas voltadas, lá e cá
    Podia ter sido bem diferente...
    Um minuto roubado ali, nas despedidas, outro mais à frente, na mudança do metro…
    Três horas intermináveis.
    Sem nenhum lugar para ir
    Tudo fechado, tudo escuro, tudo desconhecido…
    uma calma cintilante e uma brisa demoníaca.
    ...E o frio!
    Ao menos temos companhia.
    Estamos vivos!
    Lá e cá...
    Caminhos diferentes,
    O mesmo destino.
    Estamos vivos
    E continuamos.

    * - Londres, 9 de Março de 2009, é madrugada e a Lúcia faz anos. Procuramos um código no escuro: A51 Stansteed. Ao meu lado, uma rapariga esconde-se do frio por baixo do meu saco de cama. Nota para mim próprio: Nunca mais escolhas a viagem de regresso para as 6 da manhã!

    (João Freire)

    15/02/2009

    Todos iguais

    A simples ideia de que não sou especial angustia-me. Este pensamento contra natura que nos retira do centro do Universo é causado por um simples acontecimento, a vida. Tudo à nossa volta no mostra – desde que estejamos dispostos a observar – que somos pouco mais do que nada e que, nesse resíduo de nada, somos iguais a toda a gente. Haverá diferenças certamente, mas as expectativas da vida, a consciência inflamada que temos da nossa moral, a forma como nos distinguimos dos outros, são traços comuns a todos, daí a regularidade e a forma com que fazemos tudo na nossa vida. A nossa vida é ditada por etapas, com regras de conduta bem estabelecidas que não nos deixam fugir. Daí os dejá vu, daí as citações que usamos para transpor os nossos pensamentos em palavras doutros que as identificaram melhor.
    Neste círculo em forma de linha recta que é a vida, caminhamos com poucas certezas, mas caminhamos.

    (João Freire)

    08/02/2009

    "Do Ernesto ao Che"



    Sem julgamentos de valor sobre a personagem ou sobre próprio livro - que não li - ressalvo apenas a frase da capa, "a viagem que transformou o jovem Ernesto no mítico comandante Che Guevara", pois foi essa frase que chamou a minha atenção*.

    Acho que essa viagem faz falta a muita gente e também eu preciso de uma viagem assim.


    * Na volta de rotina pseudo-intelectual pela FNAC do BragaParque, em Braga



    Para o tema "Uma longa viagem...", num desafio da "Fábrica de Letras".