01/10/2010

A caça às bruxas

Custa-me aceitar que a crítica generalizada se centre em questões superficiais para tentar resolver a crise económica em que Portugal se encontra. É fácil ver por todo o lado panfletos de contestação aos salários milionários de administradores de empresas e serviços públicos, aos custos assombrosos das viaturas de alta cilindrada que o Estado compra, passando pelos desperdícios de algumas prestações sociais com "quem não quer trabalhar", normalmente referem-se aos ciganos. Haverá algum sentido nessas críticas? Sim... tirando a parte racista./xenófoba da equação, claro que sim, mas eu pergunto qual a importância estrutural dessas questões?

Tudo o que é social implica uma história. O ser-humano funciona com histórias porque é a melhor forma de compreender, interpretar e, se quiser, agir sobre a realidade que o envolve. Para o fazer, o actor social tem de encontrar personagens, heróis, vilões, e depois uma trama na qual os possa inserir. Os heróis são sempre fáceis de encontrar num mundo do faz-de-conta, porque heróis das nossas histórias somos todos, mas os vilões vão variando conforme a trama se desenrola e as informações que nos rodeiam (normalmente filtradas por comentadores políticos ou desportivos) ecoam na nossa cabeça. Um vilão de ontem (os Bancos, os especuladores financeiros e imobiliários e os agentes da bolsa) pode facilmente ser substituído pelo vilão de hoje (Sócrates e o seu Governo). Simplificando, junta-se tudo no mesmo e identifica-se o problema nos ricos. Normalmente as generalizações simplistas acabam sempre com identificações de problemas simplistas e soluções que seguem inevitavelmente pelo mesmo caminho. Foi assim com as bruxas, foi assim com os judeus, terá sido assim com muitas outras coisas. Agora, corremos o risco de fazer o mesmo com os ricos e eu não tenho razão nenhuma para defender os ricos, mas parece-me acima de tudo que não tenho razão para os criticar só pelo facto de o serem. Ser rico não é crime. Crime é roubar, corromper, abusar de um qualquer estatuto para obtenção de lucro e é crime quando é perpetrado por um rico ou um pobre. 

Fig.1
Hoje vi isto (Fig.1). Interessa-me pouquíssimo. Alguns salários estarão inflacionados, outros estarão justos mas as pessoas que lá estão podem não ser competentes e outros salários podem ser justíssimos para a função em causa e as pessoas que lá estão podem ser competentíssimas. Mas isso acontece em todos os trabalhos e em todas as funções. Fazer um pano de amostra com uns nomes e uns números, como se de um cartaz "procura-se" do longínquo oeste americano se tratasse, ´insinuando que aqueles ordenados dariam para pagar o salário de 58 mil pessoas, parece-me demagógico e ineficaz. Ninguém se importa se essas o mereceriam, ninguém se importa sequer que o salário médio de um desses funcionários públicos (900 euros) pudesse pagar a alimentação de 900 crianças na Somália. Servirá este quadro para espicaçar as pessoas? Talvez, mas ainda é preciso espicaçar alguém?


Há nestas coisas um risco de dispersão. Se criticarmos a compra de um carro de 134 mil euros, deixamos de criticar a compra de dois submarinos por uma soma total de mil milhões de euros. Focamos o acessório, como se o acessório fosse determinante.

O sistema político, social e económico de Portugal é grande e precisa de se alimentar. Para se alimentar tem de aumentar. Quanto mais aumenta, mais precisa de se alimentar. É só isto.
O chamado Estado Social português é dos mais generosos da Europa, poder-se-ia dizer até que é dos mais avançados, mas é desajustado à realidade portuguesa. Não é o dinheiro dos administradores que paga o sistema, não é seguramente o dinheiro de carros de alta cilindrada topo de gama (Citroën diesel, etc.) que paga o sistema.  O que paga o sistema é a produtividade do país. Quando essa produtividade é baixa ou quase inexistente, das duas uma, ou reduz-se o sistema, baixando/congelando salários, reduzindo benefícios ou aumenta-se o sistema, criando novos impostos, injectando capital e investindo. Quem está preparado para perder as regalias que tanto lhe custaram a ganhar? Ninguém! ninguém quer deixar de receber aquilo a que tem direito. Da mesma forma, ninguém quer pagar mais impostos, ninguém quer pagar as auto-estradas ou gasóleo a 1 euro e 50, e por isso todos abusamos do sistema. De certa forma, acabamos também por ser culpados.

Haverá soluções. Eu, por exemplo, imagino que a criação de mais alguns escalões de IRS poderia ajudar no equilíbrio das contas públicas - servindo também para ir buscar algum dinheiro aos mais ricos, para agrado do Robin dos Bosques que há em todos nós -, assim como acho necessária  a reformulação da função pública, nomeadamente no que concerne aos seus recursos humanos e à rede autárquica, exigindo-se muito mais rigor na criação e gestão das empresas municipais, por exemplo, acho até que em alguns casos poderia proceder-se à diminuição da duração de algumas prestações sociais, como o subsídio de desemprego, e à revisão ou mesmo abolição de outras, como o "subsídio de natalidade" e o "rendimento de inserção", e veria com bons olhos que se cancelassem algumas das grandes obras. Serviriam? Não sei, mas são hipóteses válidas e mais prementes que assentam na estrutura de um estado mais realista. depois viria a revisão institucional, depois viria a redução dos 230 deputados para os 180, depois viria a reformulação do sistema eleitoral... depois viria o controlo dos salários dos gestores e das viaturas oficiais, depois viria...

Quanto às críticas que se fazem ao Governo, partilho a grande maioria. Sócrates é um incompetente, rodeado por incompetentes, que hão-de ser substituídos por outros incompetentes, mas admitindo até que haverá certamente alguma competência (eu até concordo com algumas das novas medidas anunciadas) e até acredito que esses incompetentes às vezes tenham acessos de competência e queiram fazer o melhor pelo país, mas partilho a revolta social, partilho por exemplo todas as críticas relativas à prossecução do plano da alta velocidade e até me disporia a uma manifestação com o mote "Ok, nós pagamos mais impostos, mas vocês não vão para a frente com essa merda do TGV" (a minha ideia de contrato social), mas não alinho nisso dos carros de alta cilindrada e dos salários dos administradores.

Na realidade não há histórias com heróis e vilões bem definidos, nem tão pouco uma história com início, meio e um fim inevitavelmente feliz para sempre. Na realidade, vai-se andando, tentando melhorar sempre, participando, ajudando, sugerindo, reclamando quando há razão para tal e exigindo o que de direito, porque esse é também o nosso direito... e dever.

Quando era novo... quando era mais novo, costumava dizer em jeito de brincadeira pré-eleitoralista que não gostava do Comunismo porque o Comunismo não gostava de ricos e eu contava vir a sê-lo. Substituindo a referência mais antiga por uma mais recente: Francisco Louça, ainda conto vir a ser rico, mas conto também vir a ser uma pessoa melhor, independentemente daquilo que tenha ou não no banco.

(João Freire)

Serviço público

Uma amiga minha, super contente porque descobriu a galinha dos ovos de ouro, chega-se ao pé de mim de sorriso aberto porque como já disse, descobriu a galinha dos ovos de ouro:

ela: ehhh, já comprei o fifa 2011 para oferecer ao C. ele vai-se passar.
eu: fixe. então também já deve ter saído o PES 2011!
ela: (tirando o jogo do saco, tirando o sorriso da cara e olhando para a capa com ar de perdida) ai... agora não tenho a certeza se era este o jogo. Mas ele disse que saía hoje, e na fnac só se via fifa por todo o lado.
eu: epá, se não é para fazeres surpresa, manda-lhe um sms a perguntar qual dos dois prefere.

e assim fez.
passados alguns minutos recebe a mensagem de resposta.

ela: (novamente com o sorriso da galinha e já mais descansada) eh eh, é o fifa. vê (mostra-me a mensagem)

"ue ue ue! sou eu. obrigado amor. beijinho"

eu: hã? que resposta é esta?! (olhando para ela com cara de parva) o que é que lhe perguntaste?
ela: perguntei quem é que ia ter o fifa 2011 para jogar mais logo.
eu: lol... "oh tadinha, não percebe nada destas coisas e em vez de pro evolution soccer escreveu fifa". acho que era isto que ele queria responder... devias ter perguntado "fifa ou PES?"
ela: opá...

pela cara dela, imagino que no momento do seu "opá", o pensamento dela foi ver-me numa panela gigante a cozer eternamente em banho-maria.

eu: eu lembro-me de há uns tempos atrás me teres falado de um jogo de futebol que ele gosta. e na altura querias dizer-me o nome e não te lembravas porque como tu disseste tinha um nome diferente do que aparecia na capa do cd. e aí eu disse "ahhh, então deve ser o pes". na altura disseste que era...
ela: estou cheia de dúvidas. (cara vazia. olhar no infinito)
eu: manda-lhe outra mensagem. mas desta vez escreve o que te vou dizer: "eh, sou tão tronga. estava aqui a ler os meus sms enviados só porque sim e reli o que te enviei ainda há pouco. eu queria dizer PES e escrevi FIFA... tss. beijo grande e tudo e tudo"

ela: não. vou telefonar-lhe.

eu: ok. :)




era mesmo o PES.


22/09/2010

I had a parrot. The parrot talked, but it did not say "I'm hungry," so it died*

"Chegou o fim, adeus, gostei muito, a vida é mesmo assim, até à próxima... Adeus!”
Assim.
Muitos fins anunciados se têm visto por aí.
Ainda que num mundo em crise, nunca houve um tempo em que a fartura e facilidade desempenhassem um papel tão presente e importante na nossa vida. A facilidade com que conhecemos e contactamos pessoas, algumas a milhares de quilómetros de distância, e lhes mostramos o que fazemos e gostamos é apenas comparável à forma como tudo isso pode desaparecer.
Decidir o fim de algo não é fácil. O fim exige muita coragem, mas exige acima de tudo certezas. Aprecio quem tem a coragem de anunciar o fim, mas questiono as suas certezas.
Não gosto de fins. Os fins afastam-nos.
Uma amiga, a Ana, sempre que nos despedíamos e lhe dizia adeus, pedia-me que não lhe dissesse essa palavra, que era “muito definitiva”, dizia ela.
Compreendo-a bem.
Ninguém sabe o que o futuro reserva, talvez até nos reserve o fim, mas não precisamos de estar a anunciá-lo.
Tudo morre da mesma forma: de velhice, de exaustão, de doença, de fome, de acidente... no esquecimento, numa ligeira brisa, deixando os seus restos mortais para quem melhor os aproveitar. Isto é verdade para a vida como é verdade para um blogue.

(João Freire)

Archive - Waste

Archive - Again


 *Citação de Mitch Hedberg

16/09/2010

*

Nada. As paredes preenchidas de memórias do quarto branco não me dizem nada. Olho pela janela, insistindo na procura e sempre o nada. Tinha pensado começar com “um perfume barato”, mas nada o segue. Talvez um “vento fresco de fim de verão a entrar pela janela” mas sempre o doce toque do nada...
A culpa será minha.
Desisto de tentar, imaginando histórias que ninguém vai contar: histórias tristes de pessoas normais com sonhos que nunca perseguiram… heróis banais que seguiram perfumes baratos e acabaram com um vento fresco de fim de verão a entrar pela janela acariciando-lhes a pele num sussurro... trazendo o nada.

(João Freire)

Alice Mudgarden - Right Turn
 
The Cure - Lullabye
 
Mazzy Star - Fade Into you


*

10/09/2010

As iludências aparudem

Às vezes as coisas são mas não parecem, mas por serem algo não têm necessariamente de ser o que parecem ou deixam de parecer, podendo ser algo completamente diferente.
É como este vídeo:



E assim é a vida. Resta dar algum tempo, resta ver até onde vai a ilusão e começa a realidade.

26/08/2010

Dave Matthews Band - Funny The Way It Is

 

"Funny the way it is, if you think about it
One kid walks 10 miles to school, another's dropping out
Funny the way it is, not right or wrong
On a soldier's last breath his baby's being born
Funny the way it is, nor right or wrong
Somebody's broken heart becomes your favorite song
Funny the way it is, if you think about it"

17/08/2010

Life's a rollercoaster

Talvez a vida seja uma montanha-russa*... ou talvez seja um parque de diversões. Se for, que seja o Port Aventura, que é o único que eu conheço, cheio de montanhas russas para escolher ou nos calhar em sorte, trazendo-nos de volta aquele sorriso de criança. Não é esse, é o outro. Há perigos, há subidas íngremes e descidas vertiginosas... ou nem por isso, porque já somos adultos, e tudo acaba muito rápido, mas há diversão certamente... como na vida!

Dragon Khan
"...el día de su inauguración batió el récord de inversiones con ocho, y el vertical loop más alto del mundo con 38 metros"

Furius Baco
De 0 a 135 Km/h em 3 segundos
"Fue la montaña rusa más rápida de Europa desde su inauguración hasta agosto del 2009, y una de las de mayor aceleración del mundo."

Hurakan Condor
"Es una de las más altas del mundo y rápidas, e incorpora un sistema único de carros inclinables."

*Pearl Jam - Everyday (cover)

08/08/2010

Have you got it yet

Um dia, Syd Barret, excêntrico vocalista dos Pink Floyd com um historial de consumo de drogas e problemas mentais, juntou os seus amigos e colegas de banda num estúdio onde gravavam um álbum para lhes mostrar uma canção na qual andava a trabalhar. David Gilmour, que entrara recentemente na banda, e Roger Waters, tentariam acompanhá-lo. Barret começou por tocar algo aparentemente normal, começando depois a variar a melodia à medida que os outros a tentavam apreender. Ao mesmo tempo que ia tocando de improviso, numa longa sequência de acordes incoerentes, perguntava aos outros: “Have you got it, yet?" (algo como “já perceberam?”), ao que os outros, incapazes de seguir a melodia, respondiam: “no, no”, o que constituiria o refrão. A cena prolongou-se até que Roger Waters, apercebendo-se que aquilo não iria dar em nada, pôs o baixo no chão e saiu da sala de ensaios nunca mais tendo tocado com Syd barret, o qual, após a deterioração do seu estado mental, acabaria mesmo por deixar a banda.

Também a vida é como esta canção de Syd Barrett: toda a gente à procura de um sentido, toda a gente a tentar seguir os acordes, mas a vida a gozar connosco e a mudar as regras à medida que vamos andando, não porque queira, mas porque não tem sentido.

(João Freire)

Pink Floyd - Time

27/07/2010

E os domingos nunca mais voltaram a ser os mesmos

Sempre houve uma discussão para saber quem seria melhor, se Senna ou Prost, se Senna ou Mansell, se Senna ou Schumacher. Senna angariou ao longo da sua curta carreira três títulos do campeonato de fórmula 1 e alguns recordes que Shumacher viria a bater. Pouco para mostrar, ainda mais se compararmos esses títulos aos sete do alemão. Senna seria mais parecido com Gilles Villeneuve... Mas na verdade as comparações são impossíveis. Gostamos de comparações, precisamos delas para simplificar a realidade, mas com Senna não existem comparações, porque na cabeça de quem sabe não há dúvidas nenhuma. Shumacher sabia-o, Prost sabia-o. Todos o sabiam. Quando Senna corria era sempre o melhor. Correu em tempos diferentes dos que vivemos, tempos em que a segurança era por vezes negligenciada (os carros estavam no limite da velocidade e da segurança). Correr naquela altura, com aqueles carros era tarefa de loucos e Senna, entre os loucos, seria talvez o maior. Para além de tudo isto, era também um ídolo fora das pistas: ajudava muitas pessoas, era amigo de muitas mais, mesmo pilotos e rivais, era respeitado por toda a gente e por isso o mundo gostava dele, por isso o mundo chorou a sua morte e por isso o recordamos ainda hoje. Lembro-me dos Domingos de Fórmula 1 como das melhores coisas da minha infância e lembro-me de Senna, aquele capacete amarelo debaixo daquele barulho ensurdecedor, como o ídolo da minha geração... um ídolo de sempre.


Um vídeo sobre a melhor volta de uma corrida de fórmula 1



O vídeo da melhor volta de uma corrida de fórmula 1




Inspirado numa homenagem  feita no Top gear e que vale a pena ver (link para episódio completo)