05/03/2011

01/03/2011

Dos parvos e parvas ao risco de dispersão

Haverá parvos que estudaram e são escravos? Claro que sim. Haverá parvos a escrever para o Destak? Claro que sim. O bom da parvoíce é o seu pendor democrático e maleável. Cabe em todo o lado, ataca todo o tipo de gente, e não é raro ver pessoas sãs a tomar atitudes parvas. Não são parvas mas fazem parvoíces. Claro que a linha entre uma deontologia e ontologia da parvoíce é ténue e por vezes indecifrável, mas quero acreditar sinceramente que no caso do editorial da Isabel Stilwell foi apenas um texto parvo. É a generalização que me custa e eu que estudei a ciência da generalização importo-me com esse aspecto, pois quando se diz que “se estudaram e são escravos, são parvos de facto”, está-se a colocar toda a gente que estudou e se encontra em precariedade no mesmo saco, desde logo os parvos, que existirão também, e os outros que, tendo gasto “o dinheiro dos pais e o dos nossos impostos a estudar”, aprenderam muita coisa mas não conseguem entrar no mercado de trabalho, por muito que procurem. Claro que não são escravos no sentido literal da palavra, nem sequer estão queimados do sol, pois trabalham, não andam de tanga, recebem algum dinheiro e até têm alguns luxos, como o direito à manifestação e à Internet, e perdoe-se os jovens e os “Deolinda” que a conduziram ao engano do sentido da palavra escravo. Terão utilizado uma palavra exagerada para designar uma preocupação que não tem nada de exagero. A verdade é que muita gente estudou o caparro durante anos, pensando que essa via podia permitir-lhe uma vida melhor, para no fim descobrir que essa vida não chegaria tão facilmente. E ninguém compreendia esse facto. O aumento exponencial de licenciados contrapunha-se a um tempo não muito longínquo em que todos os Doutores se empregavam ao sair das Universidades. Esse é que era o tempo dos verdadeiros Doutores, que ainda hoje utilizam esse vocábulo como nome próprio. Agora, mesmo procurando, indo a consecutivas entrevistas, chorando, lutando, arranjando outros trabalhos, consegue-se, mas demora mais tempo, custa mais e recebe-se menos, ao abrigo de contratos que não oferecem regalias nenhumas, mantendo os Licenciados à tangente do mercado de trabalho real. Mas não se pense que é só a precariedade ou uma dor de crescimento dos jovens, que são os jovens a lutar por si. Não, a ferida vai mais fundo. É certo que é um movimento propulsionado pelos jovens, um movimento que nasce na comunicação entre os jovens, mas é um movimento de partilha, de partilha de histórias de indignação que afectam a todos, das crianças aos velhos, um movimento que comunga da constatação de que caminhamos para algo pior e de que é preciso fazer algo quanto antes. Assim nasce uma manifestação. Mas o que farão os jovens, perguntar-lhes-ão debaixo dos holofotes, debaixo de sorrisos, enquanto os vêem a gaguejar com os cartazes na mão cheios de reivindicações avulsas. E a resposta terá de ser: nada! Não temos de fazer nada, ninguém, para além dos políticos, tem de fazer nada, para isso os elegemos. Podemos ajudar, podemos discutir soluções e levá-las ao conhecimento de quem de direito, podemos continuar a trabalhar para aumentar a produtividade do país, mesmo naqueles empregos de merda que nos sufocam, mas nós não temos de governar. Há no entanto algo que podemos fazer e esse terá de ser o objectivo da manifestação que se avizinha. Há que mostrar que há muita coisa mal, que ninguém está satisfeito e que eles têm de governar melhor, e é esse o único “basta” que pode ser gritado dia 12, lembrando-lhes que têm de governar para o povo e não apesar do povo. A verdade é que a democracia, nos moldes em que se tem apresentado em Portugal, não tem funcionado (basta ver uma discussão parlamentar para perceber isso). Todos nós estamos habituados a trabalhar com pessoas de quem não gostamos, debaixo de ideias que não defendemos, mas todos fazemos o nosso trabalho, trabalhando para o sucesso da nossa organização e da tarefa que temos em mãos. Mas na política isso não acontece. Não há clareza, não há rumo, não há transparência e não há seguramente um compromisso político pelo bem comum. O poder, mais do que uma ferramenta, é o objectivo – é essa a ideia que passa para os cidadãos – e, quando se alcança, o poder não se usa em favor do bem comum, mas apenas e só em favor… E isso é que tem de acabar, é isso que basta e é esse grito que importará fazer dia 12..


(João Freire)

15/02/2011

A loucura dos loucos



A loucura de que os loucos falam não é a mesma de que outros falam habitualmente. A loucura de que eles falam nem se fala, propriamente… sente-se. Nós, os que não somos loucos, falamos de uma loucura saudável, que nos influencia, mas não nos controla, mas a loucura não é nada disso. A loucura é um peso que esmaga e atemoriza através de um ruído, uma imagem ou um toque, é uma confusão constante impregnada de medo, um ímpeto descontrolado que nos leva ao nosso pior, é o não saber, não querer e não se importar... é o não sentir, sentindo tudo. É a dor. Só anseia pela loucura quem nunca a experimentou e essa é a nossa loucura.


Right Where It Belongs - Nine Inch Nails


Para o tema de Fevereiro de 2011, Loucura, num desafio da "Fábrica de Letras".

12/02/2011

Mind The (generation) Gap - Uma revolução diferente

Houve um tempo em que o sistema educativo de Portugal funcionava, um tempo em que as crianças aprendiam na escola a identificar os rios todos de Portugal de Norte ao sul, da nascente à foz - contando com os afluentes, claro -, assim como os nomes das províncias de aquém e de além-mar e sabiam a tabuada de trás para a frente e de frente para trás, de cor e salteado.
Uma quarta classe bem tirada nesse tempo equivaleria hoje a uma licenciatura.
Era um país melhor, num tempo melhor, com gente melhor lá dentro, com trabalho, saúde e dinheiro.
Tretas!
Foi nessa altura que nascemos.
Esse mundo era o nosso país, orgulhosamente fechado, onde tudo era produzido e tudo era consumido, onde todos os que arranjavam trabalho, de aprendizes a mestres, garantiam um emprego para a vida, com direitos e regalias, uma família, um carro e uma casa.
Com a liberdade, um estado social ao nível dos melhores, e Portugal na bolina rumo ao desenvolvimento.
Tínhamos tudo à mão de semear, uma mão beijada, sem trabalho nem esforço e tudo graças a essas gerações que tinham combatido lá fora e cá dentro por nós, seus filhos e netos, e pela liberdade e prosperidade de Portugal. E nós, esses mesmos filhos e netos, não lhes dávamos o devido valor. Não sabíamos nada, diziam. Crescemos em Portugal com esse estigma, mas apenas estávamos desinteressados. Estudámos até tarde sem nos preocuparmos em ter um trabalho aos 20 e uma família constituída aos 30, ouvíamos música e saíamos à noite com os amigos, a geração dos doutores e engenheiros que não sabia o que era a vida real.
Entretanto o mundo real transformava-se e Portugal acompanhava essa transformação. A adesão à CEE, os fundos europeus, a moeda única, o mercado global, um castelo de cartas apoiado em nada que viria a desmoronar-se.
A geração que conquistara tanta coisa perdera tudo. A escola que os ensinara tão bem não os preparara para este novo mundo para lá de Vilar-Formoso, cheio de tecnologia e informação, o trabalho que tanto cultivaram era deslocado para um país longínquo e a vida que planearam desde a infância fugia-lhes debaixo dos pés para nunca mais voltar.
Os jovens por outro lado habituavam-se facilmente a este novo mundo de telemóveis, Internet e recibos verdes (a precariedade sempre fizera parte da vida profissional deles). Os novos trabalhos pareciam feitos à medida deles.
Uma geração de Doutores e Engenheiros a trabalhar no atendimento ao cliente, a servir mesas, a distribuir panfletos nas caixas de correio, a vender de porta-a-porta, até a trabalhar na agricultura! E sempre a precariedade.
Os mais velhos, incapazes de lutar neste novo mundo que lhes fugiu ao controlo, demasiado velhos para trabalhar e ainda longe da idade da reforma, olham agora para os seus direitos adquiridos com alívio, reformando-se mais cedo, afundando ainda mais o sistema que conduziram desde o seu apogeu à falência, à custa de uma geração cheia de deveres mas que nunca terá os mesmos direitos.
Mas há uma revolução que se avizinha. Não será a revolução de golpe-de-estado que vemos anunciada a cada dia quando sobe a gasolina ou se instalam os pórticos nas SCUT, mas uma mais importante, uma revolução moral, apolítica, assente em valores filosóficos e não económicos.
Nunca perceberam que o nosso desinteresse era condescendente.
E será esta geração, a geração que vos serve às mesas, atende os telefones e lhes vende o pacote de TV, telefone e Internet a protagonizar essa revolução, fazendo o seu trabalho, o melhor que sabe, mostrando-se preparada para fazer qualquer coisa, em qualquer lugar, em qualquer condição, ocupando passo-a-passo os lugares de poder de um mundo que já não é o país, um mundo tecnológico, interligado, que exige os mais variados conhecimentos, um mundo no qual a tabuada terá pouca importância e a nascente do rio Mondego não terá nenhuma… e fá-lo-emos muito melhor, a recibos verdes, se for preciso, para lhes pagarmos as reformas.

(João Freire)

Revolution - Jim Sturgess

07/02/2011

Ranulph Fiennes - O aventureiro que cortou a ponta dos dedos com uma Black & Decker porque não conseguiu fazê-lo com uma pequena machada

Não, não é uma gralha. Não quero falar de Ralph Fiennes, nem tão pouco do "Paciente Inglês". Quero mesmo falar deste homem: Ranulph Fiennes. Pouca gente o conhecerá, eu também não o conheceria se não fosse o Top Gear, mas Ranulph Fiennes é, sem dúvida, um dos mais extraordinários aventureiros que já viveram neste mundo.
Já tinha visto esta entrevista e este episódio há algum tempo, mas cada vez que revejo admiro mais o homem, a sua história de vida e, sobretudo, as aventuras que viveu. As histórias que conta e a forma como as conta nesta pequena entrevista - que vale mesmo a pena ver - impressionam qualquer um. Sim, a parte de cortar os dedos é verdade, tudo porque tinha os dedos queimados pelo gelo.
Não sei se é boa pessoa, não sei se cede passagem aos peões nas passadeiras ou se diz boa tarde quando entra nalgum lado, mas desconfio que seja boa pessoa, muito pela parte final da entrevista em que fala, num ambiente de silêncio que contrasta com o resto da entrevista, da sua primeira mulher que morreu há pouco tempo e que ele conheceu desde os seus 12 anos.

"- Terribly sad… last year… your wife died. You’ve been together since you were…
- She was nine, i was twelve, so we knew each other for fourty-eight years.
- Do you think your drive to keep going, even now, with the marathons and so on… and future expeditions... as anything to do with the fact that you just want to keep yourself busy?
- I don’t want to think anymore, don’t have time to think, so the more i can do… It’s good, yes… keep busy!"






Para o tema de Fevereiro de 2011, Loucura, num desafio da "Fábrica de Letras".

04/02/2011

Kathleen Madigan



03/02/2011

Coisas que vou aprendendo nestes dias

Sobre a Justiça
Os julgamentos resolvem-se sempre com uma refeição e um acordo entre a defesa e a acusação A diferença entre o sistema português e, por exemplo, o americano, é que neste último a refeição acontece antes da papelada, do tempo perdido e do dinheiro gasto.

Sobre festivais
Super Bock Super Rock (SBSR) ou Optimus Alive? Até agora, o SBSR está à frente.

Sobre o acordo ortográfico
Alguma comunicação social diz que há problemas no Egipto, outra parte diz que há problemas no Egito e há outra parte ainda que, mais precavida nestas discussões, diz que há problemas no Cairo.

Sobre o Facebook
 Tenho recebido avisos de que fui inscrito em grupos de várias pessoas, na sua maior parte grupos elogiosos, como "top" "amigos", etc. Não sabia que a constituição desses grupos era pública. Felizmente que não pus em prática a constituição dos meus grupos "amigos" e "pessoas que não interessam nem ao menino Jesus".

Sobre passeios
Já passeei com cães, já passeei com sobrinhos, mesmo bebés... mas o sorriso delas é sempre mais aberto quando nos vêem de braço dado com a avó.


No Hay Problema - Pink Martini Orchestra

23/01/2011

Fernando Nobre

No programa "Grandes Portugueses" ficou em 25º lugar. Dos vivos, não sei se inclua Mário Soares, só Mourinho, Pinto da Costa e Eusébio ficaram à frente. Nenhum destes se candidatou. Todos reconhecemos o seu trabalho à frente da AMI (Assistência Médica Internacional), a sua coragem, o seu carácter e a sua frontalidade. Sendo assim, uma vez que tivemos a oportunidade de eleger um grande cidadão para Presidente da República, porque é que não o fizemos?
Há uma onda de vozes que se ouve a gritar por políticos novos, por pessoas novas fora das esferas partidárias e dos interesses económicos, mas quando surge a oportunidade de fazer alguma coisa por isso ninguém faz nada. Grita-se por revolução, mas é um grito inócuo, um grito vazio que tem por objectivo o nada. É a revolução pela revolução. Sem ideias nem ideais não há revolução que aguente. Para mim faz sentido uma revolução se for para meter lá pessoas como o Fernando Nobre.
Fernando nobre andava perdido na campanha, Fernando Nobre não sabia falar... Fernando Nobre era mais um. Não era assim.
Fernando Nobre cometeu erros nesta campanha, acho até que nem se fez acompanhar das melhores pessoas, não sabendo capitalizar a enorme vontade de mudança nos discursos, debates e nas suas aparições políticas. Fosse eu a escrever-lhe os discursos e ganhava... mais uma décima ou outra percentual pelo menos. Poder-se-á dizer que cometeu erros de táctica política, tentando combater no meio do lodo em que os outros se embrenhavam quando toda a gente o queria ver distanciado dessa luta, mas uma coisa são erros de formas de fazer política, outra completamente diferente são as pessoas. Numa eleição pessoal o que deve contar, ainda mais do que as ideias porque essas têm de ser conjunturais, é a pessoa e das 6 que havia para escolher a melhor era Fernando Nobre. Não concordo com muita coisa no sistema político português, até já explorei muitas dessas coisas com as quais não concordo por aqui, mas tenho a certeza absoluta que Portugal ficaria melhor com Fernando nobre num cargo político, fosse ele o cargo de Presidente ou de Primeiro-Ministro. Foi uma oportunidade perdida.  

(João Freire)

António Pinho Vargas - Dança dos Pássaros

13/01/2011

Tanto melhor

"Sou um homem doente… sou um homem mau. Um homem repulsivo, é isso que eu sou. Acho que tenho alguma coisa no fígado. De qualquer modo, não entendo que raio de doença é a minha, não sei ao certo o que me faz sofrer. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite a medicina e os doutores. Além do mais, é intolerável como sou supersticioso; enfim, o suficiente para respeitar a medicina. (Sou bastante instruído para não ser supersticioso, mas sou supersticioso.) sim, é por maldade que eu não me trato. Aposto, meus senhores, que isso é uma coisa que não compreendeis. Mas eu, sim! Evidentemente, não serei capaz de explicar-vos a quem ando eu a tramar seguindo deste modo a minha maldade; sei perfeitamente que não ando a tramar os médicos quando recuso tratar-me; sou a pessoa mais bem colocada para saber que isso só a mim prejudica e a mais ninguém. Mesmo assim, se não me trato é por maldade. Dói-me o fígado. Tanto melhor, pois que me doa ainda mais!"

in Notas do Subterrâneo, de Fiódor Dostoiévsky

*Obra integral, em inglês, aqui.

Blur - Out of time