24/11/2010

A ninguém lhes parecem os seus defeitos demasiado graves, especialmente o defeito de não considerarem os seus defeitos demasiado graves.

Sou uma pessoa detestável.
Não sei se quero ter filhos. Tenho a certeza de que não quero animais de estimação. Chegam, conquistam o nosso carinho, desprezam-nos, morrem… ou morremos nós! Amor desperdiçado.
Tenho alguma inveja de quem tem sorte na vida. Pode ser inveja do carro, do dinheiro… mesmo que seja dos meus amigos… Se calhar, principalmente quando são os meus amigos - é fácil deixar-mo-nos levar pela inveja.
Gosto que o meu trabalho seja reconhecido. Da mesma forma, também o meu altruísmo e carácter filantropo devem ser referenciados abundantemente pelos beneficiários e espectadores. Eu sou daqueles que gosta de deixar passar as pessoas nas passadeiras e se sente bem por isso. Convém que agradeçam com um gesto, um acenar, ou um obrigado gesticulado. Não o fazendo, são umas bestas ingratas.
Sou preconceituoso na medida em que acho que alguns preconceitos têm razão de ser, como por exemplo as capacidades automobilísticas das mulheres.
Sou orgulhoso, como aqueles que apontam os seus defeitos em forma de elogio, mas também sou teimoso, arrogante e vingativo. "Não sou vingativo, mas quem mas faz paga-mas".
Gosto de corrigir as pessoas e quando me engano… Nunca me engano!
Gosto de discutir. Alimento-me de discussões e recorro ao passado para as ganhar. Normalmente ganho-as, não sei se por mérito intelectual ou cansaço do adversário, o que faz com que também seja chato.
Sou parvo nas brincadeiras, roçando não poucas vezes o mau gosto.
Cometo erros atrás de erros e quando finalmente os corrijo (ou tento) não tardo nem hesito em voltar a cometê-los.
E sou do Benfica.

(João Freire)

Radiohead - Creep

Stone Temple Pilots - Creep

Beck - Loser


Para o tema "Transparência" num desafio da "Fábrica de Letras".

*O título do post remete para uma citação de Carlos Marzal, um poeta espanhol

22/11/2010

14/11/2010

As pessoas más

Gosto de pessoas más, do avô que puxa o cabelo do neto, do tio que dá um pontapé no rabo de um sobrinho, da irmã mais velha que goza com o choro do mano. São gestos envergonhados de amor.

Gosto de pessoas más que entram nas discussões sem ter medo do caminho que podem levar, gosto de pessoas que discutem sem paternalismo com crianças, velhos, doentes ou pessoas pouco inteligentes. Isso é igualdade e respeito.

Gosto de pessoas más que dizem obrigado, bom dia e com licença, mas que se recusam a falar da chuva, da crise ou da vizinha. São pessoas que dão valor às palavras.

Gosto de pessoas más que magoam sem querer e agem como se nada se passasse. Inocência.

Gosto de pessoas más, de pessoas com má-cara que são sempre do contra, pessoas que dizem aos amigos o que eles têm de ouvir e não o que eles querem e esperam ouvir, pessoas que ajudam e apoiam, mas que deixam cair e esperam que os outros se levantem sozinhos sem dizer nunca eu bem te avisei.

Gosto de pessoas más… gosto de tudo nas pessoas más. Acho-lhes piada. Só não gosto quando são más.

(João Freire)

Lovage - Book Of The Month

Dardos ou recebidos



"O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc... que em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, e suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web"

A Lala atribuiu um prémio a este blogue. Eu agradeço. Fico contente e orgulhoso e retribuo a simpatia com um beijo.

10/11/2010

Mulheres de Alta Manutenção VI

PJ Harvey - White Chalk

03/11/2010

Transparências

Jessica Alba


Alice in Chains - Heaven Beside You


Para o tema "Transparência" num desafio da "Fábrica de Letras".

26/10/2010

Hullabaloo booboom horsheshit

"Ainda assim, pergunto eu, para que serviu tudo isto? (...) Reconheço que sou um fanfarrão, mas não é disso que se trata, porque afinal de contas o que é que ganhei com todas estas proezas, pois como diz o pregador: «Vaidade das vaidades... tudo é vaidade.» Uma pessoa mata-se para chegar à sepultura. Sobretudo, matamo-nos para chegar à sepultura antes mesmo de morrermos, e o nome dessa sepultura é «sucesso», o nome dessa sepultura é lufa-lufa bumbum patacoadas."

"Still I say, what means it? (...) I admit I'm a braggart, but I'm not calling it thus because what was the use of it all anyway, for as the Preacher sayeth: "Vanity of vanities . . . all is vanity." You kill yourself to get to the grave. Especially you kill yourself to get to the grave before you even die, and the name of that grave is "success," the name of that grave is hullaballoo boomboom horseshit."

Jack Kerouac, Duluoz, o vaidoso (Vanity of Duluoz)

22/10/2010

No meio da estrada também está bem


- Então - disse abruptamente, levantando os braços em desalento, enquanto a senhora saía do carro vermelho.
- Quer pôr o carro ali?
- Sim, quero.
- Eu chego à frente.

E chegou. Chegou dois metros à frente. Ficou óptimo. O espaço vazio à direita é um lugar de estacionamento, aquele espaço vazio lá à frente entre dois carros também é um lugar de estacionamento, até há uma ilha de estacionamento do lado esquerdo (vê-se o cantinho) com muitos lugares vagos, mas o meio da estrada também é uma boa opção. Ficou óptimo! Óptimo! Quase não estorva nada e eu (esta roda aqui no canto inferior) até consegui estacionar onde queria.

O problema não são os políticos, nem os ricos, pois esses são amostras do país. Há os bons, há os maus e há os assim, assim.
O problema disto tudo é... (link)

(João Freire)

21/10/2010

À espera d'A Revolução



Beatles - Revolution

11/10/2010

Mil palavras que não valem uma imagem

Kevin Carter, New York Times
Numa viagem pelo Sudão, Kevin Carter ouve o ténue choramingar de uma criança. Aproximando-se, descobre uma menina sudanesa muito fragilizada que havia parado para descansar enquanto tentava chegar a um centro de alimentação. Perto dela, um abutre aterrara, quase como se também ele estivesse intrigado com aquele som. Carter, um conhecido e premiado fotógrafo, activista na luta contra o Apartheid, vê a oportunidade para tirar uma foto que retratava perfeitamente a situação da África daquele tempo. A foto tinha tudo para ser um cartaz e um símbolo da guerra e das suas consequências nos países africanos, mas Carter achou que a foto ficaria melhor se o abutre abrisse as assas. Carter esperou - disse depois que esperou vinte minutos -, mas o abutre não abriu as asas e tirou a fotografia assim, enxotando depois o abutre.
Não se sabe o que aconteceu à criança. O jornal a quem Carter vendeu a fotografia garante que a criança demonstrava ter forças para se afastar, mas que desconheciam o que tinha acontecido à criança. Mas sabe-se o que aconteceu a Carter - que ganhou um prémio Pulitzer com esta foto. No final, profundamente deprimido com acontecimentos da sua vida e também pelo que se passava em África, acontecimentos que culminaram no desaparecimento de Ken Oosterbroek, um colega seu que fora alvejado fatalmente quando cobria as primeiras eleições após Apartheid, Carter viria a pôr fim à sua vida em 27 de Julho de 1994. Tudo se terá passado num local onde costumava brincar nos seus tempos de criança, ligando uma mangueira do tubo de escape ao interior da sua carrinha, morrendo de envenenamento por monóxido de Carbono, deixando uma carta de despedida com este excerto:
“Estou deprimido… Sem telefone… Sem dinheiro para a renda... Sem dinheiro para ajudar as crianças… Sem dinheiro para as dívidas… Dinheiro!!!... Sou perseguido pela viva lembrança de assassinatos, cadáveres, raiva e dor… Pelas crianças feridas ou famintas… Pelos homens malucos com o dedo no gatilho, muitas vezes policias, carrascos… Se eu tiver sorte, vou juntar-me ao Ken...”
Claro que nestas coisas há sempre desacordos, incongruências e versões diferentes, há até uma versão de um colega de Carter, um fotógrafo nascido em Lisboa de nome João Silva, que diz que os pais da criança estavam por perto e que Carter não terá esperado tanto tempo como disse, pois quando Carter se aproximou o abutre fugiu, tendo tirado apenas algumas fotos. Porque teria Carter contado uma versão mais dramática, mas que o deixava mal-visto? Mesmo que a criança estivesse em sofrimento, valeria esse sofrimento por todo o reconhecimento que a fotografia trouxe à situação sudanesa em particular e de todo um continente assombrado pela guerra, fome e ódio racial? Carter terá cometido suicídio por não ter ajudado a criança? O que se passou com a criança? Outras mil palavras que as imagens nunca dirão.


(João Freire)

Reaproveitado para o desafio de Março da Fábrica de Letras, subordinado ao tema "Fotografia"