22/11/2010

14/11/2010

As pessoas más

Gosto de pessoas más, do avô que puxa o cabelo do neto, do tio que dá um pontapé no rabo de um sobrinho, da irmã mais velha que goza com o choro do mano. São gestos envergonhados de amor.

Gosto de pessoas más que entram nas discussões sem ter medo do caminho que podem levar, gosto de pessoas que discutem sem paternalismo com crianças, velhos, doentes ou pessoas pouco inteligentes. Isso é igualdade e respeito.

Gosto de pessoas más que dizem obrigado, bom dia e com licença, mas que se recusam a falar da chuva, da crise ou da vizinha. São pessoas que dão valor às palavras.

Gosto de pessoas más que magoam sem querer e agem como se nada se passasse. Inocência.

Gosto de pessoas más, de pessoas com má-cara que são sempre do contra, pessoas que dizem aos amigos o que eles têm de ouvir e não o que eles querem e esperam ouvir, pessoas que ajudam e apoiam, mas que deixam cair e esperam que os outros se levantem sozinhos sem dizer nunca eu bem te avisei.

Gosto de pessoas más… gosto de tudo nas pessoas más. Acho-lhes piada. Só não gosto quando são más.

(João Freire)

Lovage - Book Of The Month

Dardos ou recebidos



"O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc... que em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, e suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web"

A Lala atribuiu um prémio a este blogue. Eu agradeço. Fico contente e orgulhoso e retribuo a simpatia com um beijo.

10/11/2010

Mulheres de Alta Manutenção VI

PJ Harvey - White Chalk

03/11/2010

Transparências

Jessica Alba


Alice in Chains - Heaven Beside You


Para o tema "Transparência" num desafio da "Fábrica de Letras".

26/10/2010

Hullabaloo booboom horsheshit

"Ainda assim, pergunto eu, para que serviu tudo isto? (...) Reconheço que sou um fanfarrão, mas não é disso que se trata, porque afinal de contas o que é que ganhei com todas estas proezas, pois como diz o pregador: «Vaidade das vaidades... tudo é vaidade.» Uma pessoa mata-se para chegar à sepultura. Sobretudo, matamo-nos para chegar à sepultura antes mesmo de morrermos, e o nome dessa sepultura é «sucesso», o nome dessa sepultura é lufa-lufa bumbum patacoadas."

"Still I say, what means it? (...) I admit I'm a braggart, but I'm not calling it thus because what was the use of it all anyway, for as the Preacher sayeth: "Vanity of vanities . . . all is vanity." You kill yourself to get to the grave. Especially you kill yourself to get to the grave before you even die, and the name of that grave is "success," the name of that grave is hullaballoo boomboom horseshit."

Jack Kerouac, Duluoz, o vaidoso (Vanity of Duluoz)

22/10/2010

No meio da estrada também está bem


- Então - disse abruptamente, levantando os braços em desalento, enquanto a senhora saía do carro vermelho.
- Quer pôr o carro ali?
- Sim, quero.
- Eu chego à frente.

E chegou. Chegou dois metros à frente. Ficou óptimo. O espaço vazio à direita é um lugar de estacionamento, aquele espaço vazio lá à frente entre dois carros também é um lugar de estacionamento, até há uma ilha de estacionamento do lado esquerdo (vê-se o cantinho) com muitos lugares vagos, mas o meio da estrada também é uma boa opção. Ficou óptimo! Óptimo! Quase não estorva nada e eu (esta roda aqui no canto inferior) até consegui estacionar onde queria.

O problema não são os políticos, nem os ricos, pois esses são amostras do país. Há os bons, há os maus e há os assim, assim.
O problema disto tudo é... (link)

(João Freire)

21/10/2010

À espera d'A Revolução



Beatles - Revolution

11/10/2010

Mil palavras que não valem uma imagem

Kevin Carter, New York Times
Numa viagem pelo Sudão, Kevin Carter ouve o ténue choramingar de uma criança. Aproximando-se, descobre uma menina sudanesa muito fragilizada que havia parado para descansar enquanto tentava chegar a um centro de alimentação. Perto dela, um abutre aterrara, quase como se também ele estivesse intrigado com aquele som. Carter, um conhecido e premiado fotógrafo, activista na luta contra o Apartheid, vê a oportunidade para tirar uma foto que retratava perfeitamente a situação da África daquele tempo. A foto tinha tudo para ser um cartaz e um símbolo da guerra e das suas consequências nos países africanos, mas Carter achou que a foto ficaria melhor se o abutre abrisse as assas. Carter esperou - disse depois que esperou vinte minutos -, mas o abutre não abriu as asas e tirou a fotografia assim, enxotando depois o abutre.
Não se sabe o que aconteceu à criança. O jornal a quem Carter vendeu a fotografia garante que a criança demonstrava ter forças para se afastar, mas que desconheciam o que tinha acontecido à criança. Mas sabe-se o que aconteceu a Carter - que ganhou um prémio Pulitzer com esta foto. No final, profundamente deprimido com acontecimentos da sua vida e também pelo que se passava em África, acontecimentos que culminaram no desaparecimento de Ken Oosterbroek, um colega seu que fora alvejado fatalmente quando cobria as primeiras eleições após Apartheid, Carter viria a pôr fim à sua vida em 27 de Julho de 1994. Tudo se terá passado num local onde costumava brincar nos seus tempos de criança, ligando uma mangueira do tubo de escape ao interior da sua carrinha, morrendo de envenenamento por monóxido de Carbono, deixando uma carta de despedida com este excerto:
“Estou deprimido… Sem telefone… Sem dinheiro para a renda... Sem dinheiro para ajudar as crianças… Sem dinheiro para as dívidas… Dinheiro!!!... Sou perseguido pela viva lembrança de assassinatos, cadáveres, raiva e dor… Pelas crianças feridas ou famintas… Pelos homens malucos com o dedo no gatilho, muitas vezes policias, carrascos… Se eu tiver sorte, vou juntar-me ao Ken...”
Claro que nestas coisas há sempre desacordos, incongruências e versões diferentes, há até uma versão de um colega de Carter, um fotógrafo nascido em Lisboa de nome João Silva, que diz que os pais da criança estavam por perto e que Carter não terá esperado tanto tempo como disse, pois quando Carter se aproximou o abutre fugiu, tendo tirado apenas algumas fotos. Porque teria Carter contado uma versão mais dramática, mas que o deixava mal-visto? Mesmo que a criança estivesse em sofrimento, valeria esse sofrimento por todo o reconhecimento que a fotografia trouxe à situação sudanesa em particular e de todo um continente assombrado pela guerra, fome e ódio racial? Carter terá cometido suicídio por não ter ajudado a criança? O que se passou com a criança? Outras mil palavras que as imagens nunca dirão.


(João Freire)

Reaproveitado para o desafio de Março da Fábrica de Letras, subordinado ao tema "Fotografia" 

05/10/2010

Nunca se fala do cheiro da terra depois de uma trovoada

Não havia muita gente que conhecesse o mundo antes de ele ser de plástico. As árvores, o chão, os edifícios, como brinquedos, tudo de plástico. Talvez ainda existissem pessoas do tempo anterior à ‘cobertura’, antes da intoxicação total. Sabia-se agora que a contaminação dos solos e das águas, aliada ao degelo dos pólos conduzira àquela situação. Primeiro as inundações, de seguida o fim das correntes marítimas e finalmente uma nova Era Glaciar. Restara a fuga para o interior da terra e os 12 anos de recuperação, com fábricas termonucleares a bombear ar quente para a atmosfera e ar puro (numa mistura de 20% de oxigénio e 80% de nitrogénio) para dentro dos túneis, dando vida àqueles milhões de pessoas que tiveram a sorte de estar ao pé da rede de túneis de isolamento e climatização termonuclear de uma corporação que testava uma nova forma de armazenar energia. Por sorte, o restabelecimento das condições atmosféricas favoráveis à vida humana fora mais rápido do que o previsto, mas a contaminação dos solos inevitável. Os detritos radioactivos eram tantos que nenhum pedaço de terra na nova superfície terrestre era cultivável, sendo até tóxico ao contacto. Convém dizer que a área total terrestre diminuíra para um décimo dos valores dos finais do século XXI e que apenas mil milhões de pessoas haviam sobrevivido, povoando agora uma área da antiga Europa Central junto aos Alpes, estendendo-se a Oeste até ao território de Espanha e a Leste até ao território da Turquia e que se chamava - imagine-se - Nova Europa. Apenas o plástico subsistira, encontrando-se por todo o lado, boiando na água, em formas antigas de produtos variados e desnecessários, aparelhos de outros tempos que agora não serviam para nada mais do que a construção civil. Reconfiguradas as fábricas, que agora, restabelecidas as correntes, os pólos e o sistema climatérico em geral, não serviam nenhum propósito, procedeu-se nelas à reciclagem do plástico.
– Antes este prédio construía-se com ferro e não plástico – diziam os operários, como se contassem uma história inacreditável.
E tudo era plástico. Derretia-se o plástico, convertia-se o plástico nas formas desejadas pelos construtores, transformando-se sobretudo em blocos de construção por encaixe e colagem por calor e construía-se por cima da terra e do mar. A água, essa, era dessalinizada através da osmose reversa e a alimentação baseava-se no aproveitamento da carne humana morta, ultra-congelada, e na pesca, embora apenas algumas espécies fossem permitidas, devido à sua resistência à contaminação. A esperança média de vida baixara drasticamente, dai também a dificuldade de encontrar alguém que vivera no período anterior à cobertura, mas reza a lenda que numa dessas casas de plástico, uma homem muito velho que vivia com o seu filho, a nora e uma neta, lhes contava uma história do tempo anterior à cobertura, enumerando coisas tão fantásticas que faziam os olhos da criança brilhar de admiração e incredulidade. De repente começou a chover, nunca chovia naquele mundo de plástico, ficando toda a gente assustada com o barulho dos trovões. Restou ao velho, que sorria imenso, acalmar a sua família, recordando outros dias de chuva, antes da ‘cobertura’, enumerando coisas que o enchiam de saudades e às quais nunca dera o devido valor, coisas tão banais como a chuva a cair na face ou o cheiro da terra molhada. Sorriu uma última vez, caindo no chão, deixando um sorriso na face, perante a aflição do filho e da nora.
Um homem velho, que apesar de tudo tinha tido muita sorte, que fora casado anos sem conta, que tinha um filho extraordinário, uma nora que o estimava e uma neta tão bela como as estrelas, morria lembrando-se apenas, no meio de um suspiro final, do cheiro que a terra tinha quando chovia. A neta, que durante toda a sua vida ouvira dizer que o seu avô morrera ao contar uma história de um dia de trovoada e do cheiro da chuva, nunca se esqueceu dos poderes fatais desse cheiro. Desde aí que se ouve dizer que nunca se fala do cheiro da terra depois de uma trovoada.

(João Freire)

Para o tema "O cheiro da chuva" num desafio da "Fábrica de Letras".
Respondendo às dúvidas que surgiram ao ler outro texto sobre o Cheiro da chuva.

Radiohead - Fake Plastic Trees

Dave Matthews & Tim Reynolds - Gravedigger