«A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: “Não há mais que ver”, sabia que não era assim. O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.»
Conheço muita gente com princípios. Princípios morais, princípios políticos, princípios profissionais, princípios religiosos, princípios sociais, até princípios amorosos! Princípios. Conheço muita gente com princípios, mas pouca gente com fins.
Não gosto de jogos. Não quero dizer que não os faça – às vezes é impossível – mas não gosto da forma como me sinto quando entro neles. Talvez por isso, por efectivar esse meu desdém em relação às matérias de jogo onde ele não deva existir, deixei de correr atrás de algumas coisas. O amor não é um jogo, a amizade não é um jogo, a confiança nunca pode ser um jogo. Numa corrida há sempre alguém que não quer ser alcançado e só aí é legítimo tentarmos contrariar essa vontade de fuga perseguindo esse alguém até à exaustão*. Todas as outras corridas são insensatas, todos os outros jogos são desnecessários. Para quê jogar quando algo vale a pena. Às vezes um não é apenas um não e ninguém deve desprezar a bondade por trás de uma palavra que aparenta tanto negativismo. A sinceridade, por vezes também sobrevalorizada, magoa, mas é bem melhor do que o engano. Não há nada de positivo no engano. O engano retarda o sofrimento, abrindo lugar a expectativas e ilusões que mais tarde ou mais cedo se desvanecem, deixando um vazio denso que nos corrói de dentro para fora. A bola não anda de um lado para o outro quando um lado permanece quieto. E apesar de todo o sofrimento, a verdade é que mesmo quem desdenha o jogo sente falta do arremesso, seja porque o espera ou porque está habituado a ele, mas todos os jogos têm um fim e, apesar das atribulações e peripécias que lhe são características, há sempre um alívio regenerador no fim.
Para a minha avó Irene, que faz anos hoje, e para todas as avós que acham o melhor dos netos, que sonham os sonhos deles, que sofrem por eles quando não os realizam e que afinal de contas gostam mais deles do que aquilo que eles merecem.
I built it up now i take it apart climbed up real high now fall down real far.
No need for me to stay the last thing left i just threw it away
I put my faith in god and my trust in you
Now there's nothing more fucked up i could do
Wish there was something real wish there was something true
Wish there was something real in this world full of you
I'm the one without a soul i'm the one with this big fucking hole
No new tale to tell twenty-six years on my way to hell
Gotta listen to your big time hard line bad luck fist fuck
Don't think you're having all the fun
You know me i hate everyone
Wish there was something real wish there was something true
Wish there was something real in this world full of you
Em cima está a versão original, mas também é bem ver a versão de Woodstock (onde estava tudo fºd§d@ com a lama) e a cover dos LP, para a geração que chama "Esquadrão Classe A" aos "Soldados da Fortuna".
A religião não me conforta. Penso que o único objectivo da religião será esse, o de confortar as pessoas, de fazê-las pensar que há um sentido, algo maior que justifique tudo, principalmente o sofrimento da vida e o fim da mesma. O ser-humano é o único animal com consciência da própria morte e esta realidade pode ser avassaladora. Terá sido assim nos primórdios da humanidade, continua a sê-lo. Não se pode dizer que a religião tenha sido criada a partir dessa constatação fatalista, mas emanou certamente daí, florescendo juntamente com outras armas - o ser-humano também é o único animal com a capacidade de rir. Mas a religião não me conforta. E isso (não) acontece essencialmente porque tenho dificuldades em aceitar a maior parte das premissas em que se baseia. Nada na religião é racional e esse facto é-nos apresentado, paradoxalmente, como o seu maior fundamento, isto é, a noção de que tudo o que não se explica pela ciência é maior do que nós, é metafísico e da ordem do religioso. Tem sido assim ao longo dos tempos. Porém, o espaço que antes pertencia à religião tem vindo a diminuir na forma proporcionalmente inversa ao espaço que a ciência tem vindo a conquistar. O que era da ordem da religião há cem anos passou rapidamente para a ordem da ciência. Haverá sempre algo por explicar, mesmo admitindo que muito se descubra e se avance no domínio da ciência e é esse pouco que possibilitará para sempre a religião. Não vejo inconveniente nenhum nisso. Como disse e repeti, a religião não me conforta, mas admito que conforte e sirva de base para a felicidade de muita gente. E esse mérito ninguém lho pode negar. Admito-o e verifico-o nas várias religiões ou modalidades espirituais que populam o mundo, uma forma de utilitarismo social que é importantíssimo na estruturação psicológica dos indivíduos e das sociedades que eles formam. Sem esperança reinaria o caos. A religião será assim um dos vários faróis que as pessoas podem (precisam!) seguir. Provavelmente não existirá Deus (em qualquer uma das suas formas), nem vida depois da morte, nem reencarnação, o mais certo é que a vida seja só isto, até porque qualquer construção que se possa fazer do que virá redundará em incongruências e em impossibilidades teóricas e práticas que transformariam qualquer noção de paraíso, por exemplo, num verdadeiro inferno. Basta conjecturarem um pouco na seguinte pergunta: Porquê? E depois formularem hipóteses, tomando em consideração para cada uma delas as respectivas consequências.
Por exemplo: Deus existe? Mas como é que ele apareceu? Existe desde sempre? Mas porque é que nós só aparecemos há tão pouco tempo na terra? E o nosso Deus é o mesmo Deus que existia naqueles milhões de anos em que os Dinossauros governaram a terra? Há um Deus para os dinossauros? É o mesmo Deus que o nosso? Há Dinossauros no Céu? Há um céu? Está lá toda a gente de que eu gosto? E se algumas pessoas de quem eu gosto não gostam de mim, essas também estarão lá? E isso será um céu para elas? E depois vamos estar lá para sempre, a fazer o quê? Será que é para isso que servem as virgens do Islamismo? Mas porque é que o ideal de céu terá de ter virgens? E para quem não gosta de virgens? Ou será que vou reencarnar? Mas reencarno e não me lembro de nada? Para quê? Porquê?
Não adianta pensar muito...
A verdade é que o ateísmo crescente também não tem feito muito para mim. Digo ateísmo crescente, porque – para além de não gostar nem acreditar em fundamentalismos –, tal como na questão da ciência, não acredito que possa ter todas as respostas. É crescente, mas nunca será total. Aprecio a inteligência na capacidade de ter dúvidas. Dizia-me uma amiga que a avó dela, quando ela lhe perguntou o que pensava sobre a morte e o que viria depois, respondeu que não adiantava pensar muito nisso porque “o céu será algo tão soberbo e assombroso que a nossa consciência limitada não conseguirá nunca abranger a sua definição”. E de certa forma esta ideia conforta-me, deixando algum espaço para a dúvida florescer. Sabemos então apenas uma coisa: que vamos morrer e mesmo que exista um Deus e um céu e a reencarnação ou mesmo que apenas restem, como um amigo me dizia, algumas reacções químicas que provoquem a estimulação de certas ligações neurais que possam dar-nos uma sensação de eternidade, baseada em memórias da nossa vida, e até mesmo que não aconteça nada e desapareçamos juntamente com a consciência da nossa existência para todo o sempre, não há nada a fazer para além de viver.
Birdwatching, (7) Outono
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*I *
António era pastor. Rapaz alto e seco como o sol de Agosto, mas robusto
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