Aproveitando para responder a algumas comentadoras deste post, assim como a todas as outras (centenas, milhares, quem sabe) que possam ter dúvidas sobre a minha intenção, passo a esclarecer.
Sempre conheci mulheres de alta-manutenção. A verdade é essa. Não vejo que isso possa ser interpretado negativamente, pois não era esse - de todo - o objectivo. A única coisa que tal nomenclatura quererá significar será que as mulheres actuais não se conformam com a sorte que lhes calha, seja no que diz respeito a elas próprias ou com aquilo que as rodeia e isso é tão verdade para as coisas superficiais, como para as coisas mais profundas da existência humana… mas será sem dúvida verdade para os homens que essas mulheres escolhem para ter à sua volta. A assumpção de uma mulher de alta-manutenção pretende ser uma manifestação de liberdade da mulher e não - como entenderam quase todas as comentadoras do tal texto - da sua opressão.
Mulheres de alta-manutenção deveriam ser todas as mulheres, não porque precisassem de ser apaparicadas superficialmente (ou não apenas, porque não me parece que haja mal nenhum nisso), mas porque exigem mais a todos os níveis e porque não aceitam nada que as diminua enquanto seres humanos e enquanto mulheres. Quero, por exemplo, que a minha sobrinha, que é o ser feminino mais próximo de mim enquanto criatura em desenvolvimento, seja uma mulher de alta-manutenção. Quero que ela não aceite que os homens a conquistem com duas palavras, que não seja fácil perante o charme superficial dos homens que a quererão levar – infelizmente – para a cama e, quando aceitar alguém, quero que aceite alguém que faça tudo para ver um sorriso na cara dela, alguém que esteja disposto a anular-se para que ela seja feliz, alguém de quem ela possa gostar e não alguém que lhe bata ou que a trate como algo menos do que aquilo que ela é: uma mulher. No fundo, quero para ela alguém que tenha de lhe dar - e esteja disposto a dar-lhe - muita manutenção.
Quando eu disse que todas as mulheres que conheci são mulheres de alta manutenção, quis apenas dizer que todas elas exigiram sempre muito de mim - o que ajudou a tornar-me num homem melhor -, não porque fossem superficiais ou ocas, mas porque queriam o melhor para elas e eu sempre as admirei por isso, ainda que em alguns casos isso me tenha feito sofrer.
Admito que nestas coisas da blogosfera não dê para entender muito bem algumas coisas que se dizem (escrevem), muitas vezes porque faltam sons e imagens para ilustrar essas palavras e neste caso terá sido minha a culpa, porque parti do pressuposto que o que disse seria facilmente entendível, mas acredito também que às vezes deixamos que as nossas experiências pessoais influenciem a forma como vemos e lemos estas coisas e aí a culpa já não é minha. Irrita-me, ainda que não muito, porque não sou muito dessas coisas e tento perceber de onde vem essa energia que me irrita, que pensem erradamente sobre mim e sobre o que digo e irrita-me porque tenho a perfeita consciência de que sou melhor do que a maior parte das pessoas. Sim, sou arrogante. Eu tenho defeitos. Sou melhor do que a maior parte das pessoas mas não sou perfeito.
Começou a manhã com um suspiro. Acordou, deu voltas na cama e olhou o negro do seu quarto escuro completamente fechado, quase selado. Abominava o branco e a claridade excessiva, pelo que gostava de estar assim, resguardada do que os outros pensariam da sua natural estranheza por baixo dos grossos cobertores e lençóis. Era um bem-estar incomum e raro para ela. Não deixava entrar ninguém como não deixava entrar luz naquele quarto preenchido com um silêncio denso, enquanto o seu cérebro despertava no meio de algumas considerações avulsas sobre o tempo e a forma com as tardes se sucediam às manhãs até que a noite a levasse à cama num ciclo que se renovava inexplicavelmente. Fazia-lhe falta um sentido para tudo, fazia-lhe falta sentir.
Sua mãe bateu à porta do quarto, como de costume, e chamou-a.
Na sua cabeça chamava-lhe velha e não gostava dela.
Levantou-se na escuridão, percorrendo às apalpadelas os cinco passos até à casa-de-banho, para depois acender a luz. O seu retrato no espelho era neutro e ela olhava para ele como se procurasse algo… Talvez as caras das vozes com quem discutia na sua cabeça, o barulho enlouquecedor no silêncio.
Pegou na lâmina e fez um corte no antebraço. Funcionava para se acalmar, funcionava para acalmar as vozes. Ao lado da ferida no braço, cicatrizes, umas antigas outras recentes, mostrando as tentativas de lidar com o seu ‘problema’, e as veias azuis que ela contemplava profundamente, sentindo-as latejar, apertando a mão com força para que se vissem melhor.
Diagnosticada, internada, normalizada, passara dois anos fora de casa, entre quartos brancos e salas almofadadas que a impediam de se magoar… e a claridade opressiva. Por isso lhe era difícil encontrar lâminas pela casa, por isso a sua mãe entrava de rompante em certas ocasiões, por isso ela chorava sem emitir nenhum barulho ou líquido, sempre um olhar neutro e muita confusão na sua cabeça, como se a sua mente fosse o burburinho de uma cozinha atarefada de um restaurante popular.
O arrastar de móveis e o bater de portas na outra divisão indicava-lhe que tinha mais algum tempo de solidão. Apenas quando o barulho cessava é que sua mãe chegava, mas fazia tempo que não lhe investigava os braços, fazia tempo que ela se preocupara, afinal, bastava um sorriso para que a desculpasse das provas dos medicamentos tomados que antes lhe exigia severamente.
Como sua mãe, que regozijava com os progressos, ninguém na família alargada ou conhecidos em geral diriam que se passava algo com aquela rapariga, fingindo desconhecer que os problemas mais difíceis de todos nós são aqueles que nos atormentam por dentro. Para toda a gente basta uma aparência de felicidade nos outros, para toda a gente serve uma inócua pergunta, “tudo bem?”, seguida de uma resposta ainda mais inócua, “sim”. Não fossem as caixas de lítio compradas por sua mãe numa farmácia do outro lado da cidade de três em três meses e nenhum problema existiria. Daí a estranheza da população quando, após a hospitalização da mãe, aquela rapariga saiu à rua nua como uma criança inocente no seu corpo de 26 anos.
Claro que sua mãe morreu. As pessoas morrem sempre nestas histórias tristes que se contam de ouvir dizer. E naquele dia, antes mesmo de virem os senhores da segurança social e do hospital, apenas restou o silêncio na casa. Todas as janelas estavam fechadas. No quarto, sentada na beira da cama, olhando um espelho grande na parede, uma rapariga e uma lágrima apanhada com um dedo inquisidor para o qual olhou, vendo-o molhado, a prova de que apesar de tudo sentia.
Sempre conheci mulheres de alta manutenção. Pensava eu que era sorte minha... ou azar. A verdade é que todas as mulheres se aborrecem facilmente, como este anúncio do desodorizante Axe (em inglês Linx) Twist tão bem ilustra, e se é difícil mantê-las interessadas, a verdade é só uma: só nos interessa manter interessadas aquelas de que gostamos e se gostamos delas é porque merecem todo o nosso esforço.
Pensar demasiado impele as pessoas sensíveis à rejeição, a sabotarem-se a si próprias.
As tempestades emocionais tendem a afastar as pessoas que queremos conquistar. Um colega de trabalho pode responder exageradamente a um deslize mínimo. Essa resposta exagerada, (rudeza, silêncio, sarcasmo) leva depois os colegas de escritório a evitá-lo, o que provoca uma reacção ainda mais defensiva.
O género influencia. Os homens são mais ciumentos, as mulheres tornam-se mais hostis e menos solidárias.
A herança familiar influencia. Rejeição parental. Com uma ansiedade latente e uma raiva adquirida à flor da pele, esperam ser rejeitados por aqueles que aprenderam a valorizar. Interpretam acções neutrais e negligentes (um atraso num telefonema, por exemplo) como desprezo intencional. São especialistas em encontrar firmes provas de quaisquer sentimentos ameaçadores para eles. Cognitivamente predispostos a interpretar as situações negativamente, estes homens e mulheres temporariamente sós ficam enleados numa teia de respostas e comportamentos esperados que não surgem e que os próprios tecem, acabando por os devorar psicologicamente, uma vez que não dão a ninguém o benefício da dúvida. O resultado é o mesmo: resposta exagerada, reacção de fuga, incapacidade comunicativa, silêncio destruidor, comportamento defensivo, isolamento, num ciclo sem fim de escalamento exponencial.
O silêncio gera silêncio.
Tinha isto no telemóvel o que quer dizer que foi retirado, ou melhor, adaptado livremente por mim, de uma daquelas revistas de Sábado ou Domingo que vêm com os jornais diários.
(João Freire)
GNR - Homens temporariamente sós The Cure - Lullaby (acoustic) versão original, aqui.
Este selo é embaraçoso, Mary, mas aceito-o como prova de algum apreço que sentes por mim e que muito me alegra, mas avisando-te que só aceito uma coisa tão embaraçosa porque foste tu, o que responde ao teu apreço demonstrando o meu apreço por ti. Que feitio! Até no apreço tenho de responder!
Dizer uma coisa que gosto em mim? É difícil dizer só uma, porque há tanta coisa em que sou excepcional, algumas dessas coisas, como a beleza, pelas quais nem tenho grande responsabilidade, mas tendo em conta as limitações a que me sujeitaram e só podendo escolher uma... terei de escolher a humildade.
Dizer uma coisa que gosto do blogue que me ofereceu o selo? Este selo, que não é tão embaraçoso como o outro, mas que para lá caminha, foi-me oferecido pela Mary e pelo Pete, pelo que terei de dizer algo para cada um.
Sendo assim, gosto do blogue da Mary, porque ela parece ser boa pessoa, escreve bem e gosta de discutir comigo. Sobre o blogue do Pete, que não conheço, dá para ver que tem o mesmo interesse por videojogos que a minha irmã (ver barra lateral no blogue dela) e que é seguramente boa pessoa, porque justificou a escolha do meu blogue para o selo com a seguinte frase: "Porque é um blog com assuntos reais que nos despertam interesse."
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