- Às vezes farto-me das palavras, de tudo isto que é esta escrita inócua... Porque é que alguém escreve?
- Porque gostam.
- Não, não é isso…
- Vem-me à memória aquele adágio que diz que “quem não sabe fazer, ensina”!
- E é isso que eu sinto. Tenho noção que sou melhor no meio das palavras do que no meio das pessoas…
- E talvez sejas fraco por isso. Somos idiotas por não ter coragem de fazer aquilo que queremos e pensamos… todos somos idiotas por causa disso.
- Ninguém faz tudo o que quer, ninguém é assim tão livre. Se fôssemos livres agarrávamos o que queríamos com as duas mãos sem nunca largar independentemente das consequências e eu não vejo muita gente a fazer isso, aliás, acho que haveria muitos crimes se assim fosse.
- Talvez...
- E não me venham dizer que não tenho coragem quando estão sentados numa secretária a receber ordens durante oito horas miseráveis.
- Tu é que disseste que a escrita é inócua.
- Eu ainda tenho noção que sou fraco e aí me redimo. Ficam as palavras, a memória da pessoa que sou no que não fiz.
- Não queria chatear-te.
- Não me chateias. Distrais-me! Mas não me chateias.
- Pareces chateado.
- A verdade é que nada disto vai de encontro àquilo que eu dizia. Isto será a finalidade da escrita.
- Então qual é a confusão?
- Eu gosto de escrever para exteriorizar sentimentos e essa treta psicológica e também gosto de escrever pelo que transmito naquilo que escrevo, mas acho que muito do gosto que tenho advém do jogo que é a escrita, pois há muitos jogos naquilo que tentamos transmitir a quem o tentamos transmitir e a forma como o transmitimos...
- Sim, a escrita é uma brincadeira da imaginação em que os blocos de construção são as palavras...
- E os sons!
- Sim.
- Gosto, por exemplo, da palavra cinismo e não sei porque é que gosto dela, nem do que gosto nela ao certo, mas gosto e uso-a muito. E é este aspecto mais mecânico e orgânico da escrita que me interessa!
- Ah.
- Por isso não me venhas dizer que é uma forma elaborada de comunicação e essas tretas, porque não é isso.
- Que estranho!
- Eu sei que a escrita, por si só, é muito importante e entendo-a, entendo até quem lê, porque se aprende muito, mas o processo de escrita, o processo de autor… isso é que eu não entendo. Aliás, estes factos apenas adensam o enigma: O que é a escrita no grande esquema das coisas que é o universo? Aquele conjunto de letras, de palavras, espaços e pontuação que criam narradores, personagens e universos imaginários? Que sentido tem tudo isto?
- Já estás a chegar ao ponto de pensares demasiado...
- E escrevemos para nós ou para os outros?
- Talvez escrevamos para nós e para os outros.
- A ideia imbecil de que podemos estar a ajudar alguém, nem que seja pela parte do simples e efémero prazer da leitura, e o gosto de sermos lidos e apreciados não podem ser a explicação.
- Procuras explicações, mas recusas as tuas próprias hipóteses...
- E o que os outros pensam terá importância?
- Já nem me ouves...
- Será que gostam, será que não gostam… e que ideia tem de nós aquele que nos lê?
- Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!! Cala-te!
- O que foi?
- E o que é que isso tudo interessa?
- Agora sim, tens razão. Já me calei!
(João Freire)
Nine Inch Nails - The Mark Has Been Made
Para o "tema livre" num desafio da "Fábrica de Letras".
Haja Alguém Que Apoie a Minha Ideia!
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Quando se começou a pagar pelos sacos plásticos, porque poluíam o planeta,
eu achei que esta era, apenas, mais uma maneira de ir buscar dinheiro aos
bolsos...

