20/11/2009

E agora, para algo completamente diferente

Peguem num vídeo algo banal, juntem-lhe câmaras de alta-velocidade, filtros de câmara catitas e profissionais competentes e obtêm uma obra cinematográfica digna de estudo.



Retirado de um dos melhores programas de televisão do mundo

16/11/2009

O dia da libertação

(baseado em factos verídicos)

O dia da libertação começou como tantos outros. Era Março e o calor sacudia as almas até à exaustão. O meu turno começara há duas horas e fazíamos a nossa primeira pausa do dia para uma ligeira refeição. Claro que ninguém ligava ao rádio, era apenas um ruído suportável que acompanhava o dia dos trabalhadores, e somente quando um dos sindicalistas começou a esbracejar é que percebemos que alguma coisa se passava.
- A guerra começou - exclamou, anunciando o pior em três simples palavras.
A confusão instalou-se. Alguns, aqueles que não tinham pertences na cidade nem familiares, conseguiram resistir à tentação da histeria, mas outros, como eu, circundavam a refinaria, procurando os chefes de turno ou alguém que lhes permitisse uma hora ou duas de folga. Consegui, mas depressa me avisaram do erro que cometia e de como era melhor ficar ali à espera não sei bem do quê. Diziam para lhes telefonar, para encaminhar os meus para o aeroporto ou para a refinaria, diziam para não sair, que era perigoso percorrer a estrada de volta à cidade e diziam-me que os pretos estavam a matar todos os brancos.
(“Todos” sempre me pareceu demasiado)
E lá fui, carregado apenas de amor pela minha família e de medo pela forma como me matariam. “Seria com uma catana”, pensava, ”Seria com um pau rombo?”
Não voltaria.
Telefonei antes, dizendo à minha mulher que pegasse nas crianças e fosse com os nossos vizinhos para o aeroporto comprar passagens para Lisboa, mas não sabia ao certo se ela obedeceria, derivado a que também ela sentia o peso de deixar a nossa casa, as nossas coisas e o nosso país.
Já no caminho, uns minutos depois de abandonar a segurança da refinaria, um homem maciço mandou-me parar e lembro-me agora de pensar se o atropelava ou não e se tentaria superar a barreira que atrapalhava a passagem ou não.
- Quem é você e o que faz aqui?
Pensei que estava morto, que não tinha sítio para fugir e que tinha sido fraco na hora da morte porque nem sequer tentava fugir ou reagir.
(Que cobarde és, Jaime. Não vais voltar a ver a tua mulher, Jaime, e os teus filhos, Jaime, não vais voltar a ver Setúbal, Jaime.)
Mas ainda não seria ali.
- Temos ordens do general Manhomanha Santos para deixar passar os senhores da Petrogal, mas há comandos espalhados por aí que não sabem disso. Está avisado. Prossiga.
E eu fiquei mais calmo. Deixaram-me e segui até à cidade.
Na cidade nada, apenas ruído de algo que não identificava ao longe.
(Como quando estava fora do Estádio do Bonfim e se ouvia aquele burburinho no interior após uma jogada mais incendiária)
Passei a avenida principal, a praça e o mesmo silêncio. Já no bairro onde morava, com vista para o porto, os portões abertos, lixo espalhado e o mesmo silêncio. Entrei na casa e nada, apenas gavetas abertas, roupa revoltada pela casa e coisas a bater. "Talvez os vizinhos", pensei. Nada.
Deduzi que já tivessem partido e fiquei mais aliviado.
Eu também iria para o aeroporto.
(A empresa lá ficou. Depois ainda tentei telefonar mas já não consegui)
Antes de chegar ao aeroporto, mesmo por estradas travessas, a imagem de Angola, a imagem da libertação de um povo há 500 anos submetido ao poder dos brancos: A terra vermelha, as caras negras, os dentes brancos, o calor, a humidade estavam lá, mas estava principalmente a imagem de uns quantos a gritar “UPA, UPA, UPA” e “Angola vai agradecer” enquanto perseguiam um senhor (talvez o senhor Roberto da mercearia, que tinha uma fazenda, e a sua família) e agitavam as catanas.
Parei o carro.
Claro que não devia ter parado, devia ter continuado mais um ou dois minutos até ao aeroporto. Se tivesse continuado nunca teria a certeza que era o senhor Roberto, que era a sua família e que eram catanas aqueles objectos que os pretos tinham na mão. Lá estava a terra vermelha, as caras negras, os dentes brancos, o calor, a humidade, mas também a raiva, os olhos amarelos, e um menino caído no chão a chorar.
Não devia ter mais de três anos aquele menino que eu já entretera muitas vezes na mercearia, e era ele
(foi ele)
que no dia 15 de Março de 1961, o dia da “Acção”, como lhe chamaram, estava a ser agarrado pelas duas pernas e sacudido com toda a força de um soldado contra o capot de um carro.
O Corpo vivo da criança bateu no carro e morreu instantaneamente, os seus berros deixaram lugar ao silêncio e já só se ouvia o “UPA! UPA” e o choro descontrolado da mãe.
Depois, com uma catana, separaram a cabeça do senhor Roberto do resto do seu corpo e por fim, perante uma mulher destruída por dentro, e ajoelhada no meio de uma rua de Angola, um dos soldados de libertação apontou uma pistola à parte de trás da sua cabeça e disparou. O seu corpo caiu de imediato, não para a frente, mas para o lado.
Guerra é guerra, não tem a ver com cor, não tem a ver com política, não tem a ver com nada.
Para mim a guerra é a memória que aquela mulher teve no último minuto da sua vida.

(João Freire)

Texto subordinado ao tema "Preto & Branco" num desafio da "Fábrica de Letras" .



Publicado anteriormente aqui

13/11/2009

dEUS - Little Arithmetics

10/11/2009

A teoria dos dois atiradores (parte 2)

Continuação do texto A teoria dos dois atiradores (parte 1)

Não morreu. Diria ela que não teve essa sorte. Salva pelo rapaz que a amava, pagou-lhe com o seu corpo, entregando-se a ele sem esperança nenhuma de felicidade. Culpá-lo-ia por isso mais tarde, ainda que soubesse que só o culpava porque ele a amava incondicionalmente e que nunca a iria deixar só. Na realidade só podia culpar-se a ela própria. Ninguém pode fingir uma sede que não sente, dizem os poetas, ninguém pode fingir o amor.
E quanto mais ela tentava apaixonar-se por ele, afirmando a si mesma que a beleza se esvaía, que ele era bom moço, honesto, trabalhador e inteligente, que até tinha algumas posses e uma família de bem… racionalizando até que ele a amava pelos dois e que mais à frente “quem sabe?”, mais sentia que nunca iria ser feliz, que nunca iria ter a vida que a pequena aldeia imaginava – com muita inveja – para si, a vida que também ela queria e achava que merecia, uma vida feliz (o que quer que isso seja), a vida que não tinha.
Passava então os dias enlameada na culpa, na sua própria e na dos outros, na do seu marido e na da “outra”, a “outra” que passava sempre à sua frente tão bela e, sobretudo, tão jovem, quando ia à mercearia, à missa... por toda a aldeia, a rapariga que regressara à aldeia para tratar do pai moribundo, a rapariga de quem todos falavam bem, principalmente dos seus dotes físicos, que utilizaria sem dúvida – assim diziam as velhas – para retirar benefícios próprios. E depois riam-se.
Foi quando deu por si a rir-se no meio de duas outras senhoras que decidiu.
Não podia ser uma das velhas. Como é que chegou a isto, pensou. Ela tinha de ser a rapariga de quem todos falavam.
- Como é que cheguei a isto?
Foi por isso que num dia de Novembro, quando os primeiros nevões começaram a chegar à aldeia, que ela decidiu visitar a rapariga. No caminho, devido aos efeitos que o gás provocara naquele dia que toda a gente ainda recordava como o dia da sua morte, parou para vomitar junto ao muro que ladeava o caminho desde o centro da aldeia até ao conjunto de casas que se distanciava da aldeia uns quinhentos passos e onde se encontrava a casa do pai da rapariga, depois abriu o pequeno portão da pequena propriedade e bateu à porta. Respondeu-lhe a rapariga com um sorriso encantador e resplandecente que a deixou cheia de raiva, provocando-lhe alguma atrapalhação. Que bonita é, pensou de imediato, estranhando também a sua altura. Parecia-lhe mais alta do que se lembrava.
- Podemos conversar – perguntou – queria pedir-lhe um favor.
- Claro – respondeu simpaticamente a rapariga.
- Mas aqui não.
A rapariga vestiu um xaile que tinha sobre uma cadeira que se encontrava perto da porta, fechou a mesma e encaminhou a senhora – que achava belíssima – para uma pequena casa ao lado do pequeno portão de entrada onde servia o forno e a arrecadação das mais variadas alfaias.
O segredo residiria numa conversa de mulheres sobre homens e suas crónicas insuficiências. Entre sorrisos conspirativos nada mais foi preciso dizer. A rapariga assentiu e lá foram entrando, a rapariga à frente.
- Esteja à vontade – disse a rapariga, ao virar-se, quando viu a faca encaminhar-se na sua direcção.
Uma vez na barriga, outra nas costas quando o seu corpo tombou no chão e vários cortes na cara que deixaram a rapariga desfigurada para além do reconhecimento.
Tudo o resto foi silêncio.
A mulher saiu pelo pequeno portão, voltou-se para o fechar, olhou a casa e partiu, tentando pisar – sem nenhuma razão – os mesmos passos na neve que desenhara ao chegar até ali. Continuou junto ao muro e parou no mesmo sítio onde vomitara antes. Desta vez, para além de um esgar de dor e má disposição, conseguiu evitar o vómito. Continuou para casa.
Já em casa, onde entrara a correr em direcção ao quarto, pegou numa pequena mala de viagem e numa outra de ombro e desceu.
O seu marido esperava-a no fundo das escadas.
Despediu-se dele rapidamente com um beijo, um pedido de desculpas e uma lágrima. Rafael ainda tentou agarrá-la, perguntando-lhe o que se passava, dizendo-lhe que a amava, mas todas aquelas palavras foram proferidas em vão. Tudo já estava decidido há muito tempo na mente daquela mulher. Já na rua, olhando para trás enquanto caminhava pesadamente pela neve, respondeu apenas ao seu marido que ia viajar, que já tinha comprado os bilhetes e que não adiantava segui-la.
- Desculpa Rafael – repetiu ela docemente.
Nessa tarde, perto da paragem dos autocarros, observando-a a entrar com duas malas no autocarro com destino à cidade, várias pessoas juravam que aquela mulher parecia mais nova… e mais bonita.


Para ouvir em Fundo: Beth Orton - I Wish i never saw the sunshine



(João freire)

06/11/2009

Chuva

É favor clicar na imagem... ou aqui.





P.S. - A foto foi tirada enquanto conduzia, algures no caminho entre Braga e Fundão, o vídeo foi visto pela primeira vez aqui. Mas a versão completa pode ser vista aqui. É mais um daqueles vídeos que mostra o potencial da voz humana, como aquele vídeo da publicidade a um carro.

29/10/2009

Compromissos publicitários

Kids on steps


Carousel

Visto aqui

The great pretender

25/10/2009

A teoria dos dois atiradores (parte 1)

Quem olha para ti, Rafael, enquanto olhas para ela?

Diziam sempre, ora para ela, directamente, ora para a família ou quem quer que estivesse por perto: “é mesmo bonita”. Depois, com o tempo, passaram a dizer que era "gira", "linda", "um borracho", mas elogiando-lhe sempre a cara perfeita e redonda, por onde sobressaíam uns grandes e claros olhos azuis, quase cinzentos.

Os pais e o irmão, habituados à convivência com a sua beleza, pouco lhe diziam a esse respeito, tentando ignorar os seus desfiles de cachecóis e sapatos de salto alto dez números acima do seu, enquanto a sua mãe, avisada pelos perigos da beleza, repetia: “Ninguém precisa de ser inteligente quando se é bonita.” Tivesse ela prestado atenção…

Depois foram os rapazes, depois ficou uma mulher, no intermeio pouco se passou que não seja habitual da idade.

Parecendo acessível, era inatingível. Conheciam-se algumas histórias de amor que protagonizara, todas descritas pela própria como “erros crassos”, afinal, apaixonava-se sempre pelos homens errados num lugar-comum de todo o tamanho que fazia sorrir quem a ouvia.
Procurava o interior, fugindo do exterior que a caracterizara toda a sua vida e queria que gostassem dela por essa fuga do acessório, que gostassem DELA e não da sua cara redonda, com os grandes olhos azul-acizentados.

Atravessar uma rua da aldeia, sempre de forma tão discreta quanto o seu ar permitisse era um desafio e ainda que cumprimentasse todas as pessoas que olhavam para ela com caras sérias e feias ou que aconchegasse a aba da camisa desabotoada nos dois botões do topo, tapando pudicamente o supra-plexo bronzeado e a curvatura dos seus generosos seios, perdia rapidamente a vontade de sorrir, a vontade de sorrir com que saía de casa ansiando que o dia lhe corresse bem. Nem tentando conseguia passar desapercebida às velhas que a olhavam com desdém das portadas das casas. Tudo é exagerado nas pequenas aldeias, principalmente o ódio. Aquela rapariga bonita lembrava-as de uma infância em que se pensavam bonitas, mas na qual nunca nenhum homem olhara para elas como olhavam para aquela, acompanhando as suas pernas nuas num silêncio ofegante, transbordando de desejo.
E ela, ao mesmo tempo envergonhada, enojada e triste, vivia em eterno sobressalto, angustiada entre a esperança de uma nova possibilidade que a contentava de felicidade com o confronto do seu insucesso. Um homem, um futuro cheio de alegria com todos os ingredientes possíveis… filhos, casa… Cada passo que dava terminava numa queda estrondosa. Um mundo cheio de ciclos viciosos que se repetiam para a esmagar.

Um dia, o dia que viria a escolher como o dia da sua morte, depois de sair da mercearia aonde tinha ido comprar uns collants negros para um encontro com um bancário, com quem iria terminar mais uma relação infrutífera, ao conversar com uma senhora que lhe falava do tempo, viu uma rapariga nova, a filha de alguém que tinha estado num sítio durante alguns meses e que agora regressava à aldeia para fazer algo na cidade ali perto, porque o pai sofria de alguma coisa grave e deu por si a lembrar-se de quando tinha a idade da rapariga, de como os homens olhavam para ela, ainda que talvez não daquela forma que olhavam agora a rapariga e nesse instante transformou-se numa velha. Ninguém reparou, aliás, nenhuma transformação visível podia ser observada no seu ainda magnífico corpo de estrela de cinema, mas num instante passou a ser um das velhas que a fulminavam sempre que passava. Começou a chorar descontroladamente. À volta, várias pessoas viram, mas poucas perceberam ou se importaram e apenas um rapaz, um rapaz honrado, honesto e de boas famílias, de quem sempre se dissera que viva apaixonado pela mulher que corria pela calçada, esboçou um gesto de preocupação, levantando-se dos degraus do pelourinho num salto em direcção à mulher, perguntando, sem resposta, se estava tudo bem. Respondeu-lhe um vulto silencioso embrulhado no aroma de um perfume fresco e doce que cheirava a avelãs.

Foi para casa, sem sequer pensar naquele acto de bondade do rapaz, juntou todos os seus pertences e dividiu-os em caixotes que fechou no quarto-de-banho, dentro da banheira. Os discos e os livros para o sobrinho, as roupas para a melhor amiga e o dinheiro numa carta remetida aos pais e irmão. De seguida ligou as bocas do fogão na sua potência máxima, libertando assim o gás venenoso que se ouvia calma mas assustadoramente a espalhar pela casa e esperou deitada. O último pensamento que lhe ocorreu foi o do sorriso daquele rapaz que há pouco lhe perguntara se estava tudo bem, pensando ela que afinal aquele rapaz, Rafael de seu nome, até tinha um sorriso bonito.

Lá fora, sentada num muro, uma rapariga desconhecida olhava com desejo o rapaz que estava nas escadas do pelourinho a olhar a casa da mulher.

Outro rapaz, alguém de quem nunca falam nas histórias de amor, ainda que não estivesse presente naquela altura exacta, imaginava com o mesmo desejo aquela rapariga sentada no muro.


Continua, aqui.

(João Freire)

22/10/2009

Alicia Keys - Fallin' e Rock Wit U

Quando ela se preocupava mais com a música e não tanto com a imagem...






- esta última faz lembrar a Soul do Marvin Gaye misturada com o Funk do Barry White e uns pózinhos de R&B da Adina Howard.

(do seu primeiro álbum Songs in A minor de 2001)

20/10/2009



Um grupo de bloggers junta-se e escreve sobre um tema. Parece interessante.

17/10/2009

U2 - Wake up dead man




(Para o senhor Gabriel)