13/11/2009

dEUS - Little Arithmetics

10/11/2009

A teoria dos dois atiradores (parte 2)

Continuação do texto A teoria dos dois atiradores (parte 1)

Não morreu. Diria ela que não teve essa sorte. Salva pelo rapaz que a amava, pagou-lhe com o seu corpo, entregando-se a ele sem esperança nenhuma de felicidade. Culpá-lo-ia por isso mais tarde, ainda que soubesse que só o culpava porque ele a amava incondicionalmente e que nunca a iria deixar só. Na realidade só podia culpar-se a ela própria. Ninguém pode fingir uma sede que não sente, dizem os poetas, ninguém pode fingir o amor.
E quanto mais ela tentava apaixonar-se por ele, afirmando a si mesma que a beleza se esvaía, que ele era bom moço, honesto, trabalhador e inteligente, que até tinha algumas posses e uma família de bem… racionalizando até que ele a amava pelos dois e que mais à frente “quem sabe?”, mais sentia que nunca iria ser feliz, que nunca iria ter a vida que a pequena aldeia imaginava – com muita inveja – para si, a vida que também ela queria e achava que merecia, uma vida feliz (o que quer que isso seja), a vida que não tinha.
Passava então os dias enlameada na culpa, na sua própria e na dos outros, na do seu marido e na da “outra”, a “outra” que passava sempre à sua frente tão bela e, sobretudo, tão jovem, quando ia à mercearia, à missa... por toda a aldeia, a rapariga que regressara à aldeia para tratar do pai moribundo, a rapariga de quem todos falavam bem, principalmente dos seus dotes físicos, que utilizaria sem dúvida – assim diziam as velhas – para retirar benefícios próprios. E depois riam-se.
Foi quando deu por si a rir-se no meio de duas outras senhoras que decidiu.
Não podia ser uma das velhas. Como é que chegou a isto, pensou. Ela tinha de ser a rapariga de quem todos falavam.
- Como é que cheguei a isto?
Foi por isso que num dia de Novembro, quando os primeiros nevões começaram a chegar à aldeia, que ela decidiu visitar a rapariga. No caminho, devido aos efeitos que o gás provocara naquele dia que toda a gente ainda recordava como o dia da sua morte, parou para vomitar junto ao muro que ladeava o caminho desde o centro da aldeia até ao conjunto de casas que se distanciava da aldeia uns quinhentos passos e onde se encontrava a casa do pai da rapariga, depois abriu o pequeno portão da pequena propriedade e bateu à porta. Respondeu-lhe a rapariga com um sorriso encantador e resplandecente que a deixou cheia de raiva, provocando-lhe alguma atrapalhação. Que bonita é, pensou de imediato, estranhando também a sua altura. Parecia-lhe mais alta do que se lembrava.
- Podemos conversar – perguntou – queria pedir-lhe um favor.
- Claro – respondeu simpaticamente a rapariga.
- Mas aqui não.
A rapariga vestiu um xaile que tinha sobre uma cadeira que se encontrava perto da porta, fechou a mesma e encaminhou a senhora – que achava belíssima – para uma pequena casa ao lado do pequeno portão de entrada onde servia o forno e a arrecadação das mais variadas alfaias.
O segredo residiria numa conversa de mulheres sobre homens e suas crónicas insuficiências. Entre sorrisos conspirativos nada mais foi preciso dizer. A rapariga assentiu e lá foram entrando, a rapariga à frente.
- Esteja à vontade – disse a rapariga, ao virar-se, quando viu a faca encaminhar-se na sua direcção.
Uma vez na barriga, outra nas costas quando o seu corpo tombou no chão e vários cortes na cara que deixaram a rapariga desfigurada para além do reconhecimento.
Tudo o resto foi silêncio.
A mulher saiu pelo pequeno portão, voltou-se para o fechar, olhou a casa e partiu, tentando pisar – sem nenhuma razão – os mesmos passos na neve que desenhara ao chegar até ali. Continuou junto ao muro e parou no mesmo sítio onde vomitara antes. Desta vez, para além de um esgar de dor e má disposição, conseguiu evitar o vómito. Continuou para casa.
Já em casa, onde entrara a correr em direcção ao quarto, pegou numa pequena mala de viagem e numa outra de ombro e desceu.
O seu marido esperava-a no fundo das escadas.
Despediu-se dele rapidamente com um beijo, um pedido de desculpas e uma lágrima. Rafael ainda tentou agarrá-la, perguntando-lhe o que se passava, dizendo-lhe que a amava, mas todas aquelas palavras foram proferidas em vão. Tudo já estava decidido há muito tempo na mente daquela mulher. Já na rua, olhando para trás enquanto caminhava pesadamente pela neve, respondeu apenas ao seu marido que ia viajar, que já tinha comprado os bilhetes e que não adiantava segui-la.
- Desculpa Rafael – repetiu ela docemente.
Nessa tarde, perto da paragem dos autocarros, observando-a a entrar com duas malas no autocarro com destino à cidade, várias pessoas juravam que aquela mulher parecia mais nova… e mais bonita.


Para ouvir em Fundo: Beth Orton - I Wish i never saw the sunshine



(João freire)

06/11/2009

Chuva

É favor clicar na imagem... ou aqui.





P.S. - A foto foi tirada enquanto conduzia, algures no caminho entre Braga e Fundão, o vídeo foi visto pela primeira vez aqui. Mas a versão completa pode ser vista aqui. É mais um daqueles vídeos que mostra o potencial da voz humana, como aquele vídeo da publicidade a um carro.

29/10/2009

Compromissos publicitários

Kids on steps


Carousel

Visto aqui

The great pretender

25/10/2009

A teoria dos dois atiradores (parte 1)

Quem olha para ti, Rafael, enquanto olhas para ela?

Diziam sempre, ora para ela, directamente, ora para a família ou quem quer que estivesse por perto: “é mesmo bonita”. Depois, com o tempo, passaram a dizer que era "gira", "linda", "um borracho", mas elogiando-lhe sempre a cara perfeita e redonda, por onde sobressaíam uns grandes e claros olhos azuis, quase cinzentos.

Os pais e o irmão, habituados à convivência com a sua beleza, pouco lhe diziam a esse respeito, tentando ignorar os seus desfiles de cachecóis e sapatos de salto alto dez números acima do seu, enquanto a sua mãe, avisada pelos perigos da beleza, repetia: “Ninguém precisa de ser inteligente quando se é bonita.” Tivesse ela prestado atenção…

Depois foram os rapazes, depois ficou uma mulher, no intermeio pouco se passou que não seja habitual da idade.

Parecendo acessível, era inatingível. Conheciam-se algumas histórias de amor que protagonizara, todas descritas pela própria como “erros crassos”, afinal, apaixonava-se sempre pelos homens errados num lugar-comum de todo o tamanho que fazia sorrir quem a ouvia.
Procurava o interior, fugindo do exterior que a caracterizara toda a sua vida e queria que gostassem dela por essa fuga do acessório, que gostassem DELA e não da sua cara redonda, com os grandes olhos azul-acizentados.

Atravessar uma rua da aldeia, sempre de forma tão discreta quanto o seu ar permitisse era um desafio e ainda que cumprimentasse todas as pessoas que olhavam para ela com caras sérias e feias ou que aconchegasse a aba da camisa desabotoada nos dois botões do topo, tapando pudicamente o supra-plexo bronzeado e a curvatura dos seus generosos seios, perdia rapidamente a vontade de sorrir, a vontade de sorrir com que saía de casa ansiando que o dia lhe corresse bem. Nem tentando conseguia passar desapercebida às velhas que a olhavam com desdém das portadas das casas. Tudo é exagerado nas pequenas aldeias, principalmente o ódio. Aquela rapariga bonita lembrava-as de uma infância em que se pensavam bonitas, mas na qual nunca nenhum homem olhara para elas como olhavam para aquela, acompanhando as suas pernas nuas num silêncio ofegante, transbordando de desejo.
E ela, ao mesmo tempo envergonhada, enojada e triste, vivia em eterno sobressalto, angustiada entre a esperança de uma nova possibilidade que a contentava de felicidade com o confronto do seu insucesso. Um homem, um futuro cheio de alegria com todos os ingredientes possíveis… filhos, casa… Cada passo que dava terminava numa queda estrondosa. Um mundo cheio de ciclos viciosos que se repetiam para a esmagar.

Um dia, o dia que viria a escolher como o dia da sua morte, depois de sair da mercearia aonde tinha ido comprar uns collants negros para um encontro com um bancário, com quem iria terminar mais uma relação infrutífera, ao conversar com uma senhora que lhe falava do tempo, viu uma rapariga nova, a filha de alguém que tinha estado num sítio durante alguns meses e que agora regressava à aldeia para fazer algo na cidade ali perto, porque o pai sofria de alguma coisa grave e deu por si a lembrar-se de quando tinha a idade da rapariga, de como os homens olhavam para ela, ainda que talvez não daquela forma que olhavam agora a rapariga e nesse instante transformou-se numa velha. Ninguém reparou, aliás, nenhuma transformação visível podia ser observada no seu ainda magnífico corpo de estrela de cinema, mas num instante passou a ser um das velhas que a fulminavam sempre que passava. Começou a chorar descontroladamente. À volta, várias pessoas viram, mas poucas perceberam ou se importaram e apenas um rapaz, um rapaz honrado, honesto e de boas famílias, de quem sempre se dissera que viva apaixonado pela mulher que corria pela calçada, esboçou um gesto de preocupação, levantando-se dos degraus do pelourinho num salto em direcção à mulher, perguntando, sem resposta, se estava tudo bem. Respondeu-lhe um vulto silencioso embrulhado no aroma de um perfume fresco e doce que cheirava a avelãs.

Foi para casa, sem sequer pensar naquele acto de bondade do rapaz, juntou todos os seus pertences e dividiu-os em caixotes que fechou no quarto-de-banho, dentro da banheira. Os discos e os livros para o sobrinho, as roupas para a melhor amiga e o dinheiro numa carta remetida aos pais e irmão. De seguida ligou as bocas do fogão na sua potência máxima, libertando assim o gás venenoso que se ouvia calma mas assustadoramente a espalhar pela casa e esperou deitada. O último pensamento que lhe ocorreu foi o do sorriso daquele rapaz que há pouco lhe perguntara se estava tudo bem, pensando ela que afinal aquele rapaz, Rafael de seu nome, até tinha um sorriso bonito.

Lá fora, sentada num muro, uma rapariga desconhecida olhava com desejo o rapaz que estava nas escadas do pelourinho a olhar a casa da mulher.

Outro rapaz, alguém de quem nunca falam nas histórias de amor, ainda que não estivesse presente naquela altura exacta, imaginava com o mesmo desejo aquela rapariga sentada no muro.


Continua, aqui.

(João Freire)

22/10/2009

Alicia Keys - Fallin' e Rock Wit U

Quando ela se preocupava mais com a música e não tanto com a imagem...






- esta última faz lembrar a Soul do Marvin Gaye misturada com o Funk do Barry White e uns pózinhos de R&B da Adina Howard.

(do seu primeiro álbum Songs in A minor de 2001)

20/10/2009



Um grupo de bloggers junta-se e escreve sobre um tema. Parece interessante.

17/10/2009

U2 - Wake up dead man




(Para o senhor Gabriel)

11/10/2009

Encher chouriços com um ensaio sobre a felicidade feito há algum tempo a propósito de algo

Admiro imenso quem procura a felicidade, quem arrisca tudo na incerteza de um futuro melhor. Não sabem o que querem, mas sabem precisamente o que não querem. São os sonhadores, os eternos sonhadores.

«Não sei para onde vou. Sei que não vou por aí!»
José Régio, poeta, em Cântico negro

Curiosamente, são estes sonhadores os que sofrem mais com a utopia da felicidade que procuram. Permanentemente insatisfeitos com a falta de algo que não sabem bem ao certo o que será, vivem na agonia constante da insuficiência. Há sempre algo que falta… e o que falta? Falta a felicidade. E o que será a felicidade?
Falar de felicidade em termos absolutos é algo difícil que deixa muito lugar àquilo que cada um entende como tal. A felicidade de um será necessariamente diferente da felicidade de outro e essa é só aquela que eles percebem como tal e nunca a real, a absoluta, que será obviamente mais difícil de definir.
Podemos concentrar a definição de felicidade em determinadas coisas que queremos obter ao longo da nossa vida, mas nenhuma delas, per si ou em conjunto, conseguirá garantir um sentimento de felicidade se não houver uma conjuntura de estados de espírito, de formas de pensar e agir que vão de encontro àquilo que nos faz felizes. Se conseguirmos hoje tudo aquilo que pensamos que nos fará felizes, arranjaremos logo a seguir algo novo a desejar. Tendemos para o negativismo, porque tudo na vida segue esse postulado negativista, com o epítome da deterioração e da morte e não precisamos de somar a esse negativismo o fracasso na obtenção de algo que não conhecemos muito bem. Procuramos a felicidade lá à frente, sabendo que o tempo, que a beleza e tudo o resto se esvai e, pensando em tudo isto, é fácil deprimirmo-nos.

«This is your life, and it's ending one minute at a time (esta é a tua vida e está a acabar minuto a minuto)»
Chuck palahniuk, escritor, em Fight Club

Mas é por pensarmos e por sabermos que isso adianta pouco, que nos apercebemos – ou deveríamos aperceber – que a visão teleológica da felicidade pouco acrescenta. Ao contrário, prejudica. A felicidade, tal como o bem, a justiça, o amor ou qualquer outro axioma psicológico, social ou filosófico, visto como uma meta, torna-se irrelevante porque o olhar se perde ao longe em vez de reparar no que é imediato, daí que devamos afastar-nos da sua ‘grailização’. A felicidade não se aspira, vive-se e constrói-se. É um lugar-comum dizer isto, mas é verdade.

«Ficar a olhar com uma esperança ociosa equivale a deixar passar a vida em devaneios.»
Yann Martel, escritor, em A vida de PI

A felicidade é apenas um balanço em retrospectiva do que fomos, obtivemos e fizemos e não uma lista de compras à qual vamos juntando vistos.
Seguramente que há requisitos. Penso sinceramente que ninguém conseguirá ser feliz sem um sentido de compreensão, assente especialmente no auto-conhecimento e no entendimento dos outros e do mundo, que permitirá reconhecer os defeitos e as virtudes de tudo o que nos rodeia corrigindo o que se pode mudar, aceitando o que não se pode, valorizando tudo o que de bom existe – especialmente nos outros (que é onde é mais difícil ver), porque esses outros também são indispensáveis à nossa felicidade, e no mundo –, desvalorizando o mau e o negativo, afastando-nos dele, garantindo assim a humildade necessária para navegar pela vida sem ressentimentos, numa aprendizagem constante com a qual crescemos.

«nosce te ipsum (conhece-te a ti mesmo)»
Inscrição mítica no Templo de Apolo, em Delfos

É certo que as dúvidas nos poderão esmagar e, muitas vezes, acabaremos por nos enganar uma e outra vez, mas se não fossem os enganos do passado nunca teríamos as vitórias do presente e nenhuma derrota deve ser suficiente para desarmar a força de uma consciência tranquila. Por isso, não faz sentido, podendo até cair no ridículo quem o faz, afirmar que não existem arrependimentos no passado.

«Um homem que nunca faz erros é um erro da natureza.»
Leonid S. Sukhorukov, autor de aforismos

Sem dúvida que há arrependimentos (tem de haver), porque não haver é presumir uma impossibilidade. Mais do que defender que não nos arrependemos de nada, devemos reconhecer tudo o que de mal vamos fazendo ao longo da vida, admitindo as nossas acções e as suas consequências, assim como o seu impacto nos outros, a fim de tentar emendar esses erros e de evitar que esses erros e outros se reproduzam no futuro, para que possamos sentir que fizemos o que tínhamos a fazer. Tudo o resto está fora do nosso controlo.

«Arrependo-me muitas vezes de ter falado, nunca de me ter calado»
Públio Siro, escritor latino da Roma Antiga

A infelicidade também é a memória do que fizemos mal, batalhas perdidas e quase esquecidas, histórias do passado que não soubemos resolver e que afinal estão bem presentes em nós. Isso evita-se com sinceridade.
«Ama a verdade, mas perdoa o erro»
Voltaire, iluminista

Não devemos pensar que queremos ser felizes, mas sim no que fazer para tornar melhor o momento que estamos a viver. E isto é tão verdade num encontro a dois, como num jantar de amigos ou durante um dia de trabalho no escritório. Fazer alguém rir, aprender algo novo, ver algo que nunca vimos, partilhar, sentir! Tudo isto pode ser feito em qualquer altura, mas sem forçar. Só temos de estar atentos e dispostos a fazer de um momento qualquer das nossas vidas um momento de felicidade.

«Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.»
José Saramago, escritor, em Ensaio sobre a cegueira

O somatório desses momentos traduzir-se-á na felicidade que procuramos, a absoluta, uma felicidade verdadeira que permanecerá na nossa consciência e na dos outros, sobre o que somos e sentimos e, claro, no que fazemos. Se vivermos a vida, aproveitando tudo o que de bom existe nela, de acordo com aquilo que acreditamos ser o melhor, viveremos de forma mais feliz.

«Só existem dois dias no ano em que nada pode ser feito: um chama-se ontem e o outro amanhã. Portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver.»
Tenzyn Giatso, Dalai Lama

Exigirá esforço; não é fácil viver, mas o que mais custa é começar.


(João Freire)

06/10/2009

Amália - Mariquinhas (vou dar de beber à dor)

"Quem conseguir esquecer
que veio cá para morrer
É mais feliz do que eu"



Vista e ouvida também neste blogue por aqui e aqui


P.S. - A hiperligação remete para a página da Wikipédia da Amália em 日本語. Toda a gente sabia da capacidade que a Senhora Dona Amália tinha para pôr asiáticos a cantar em português!