(E logo ele que sempre se afligira a pensar nessas coisas enfermiças)
Não tinha sido um acontecimento isolado a provocar aquela transformação, nada de um momento para o outro, aliás, pudesse ele recordar-se - no meio de todas as memórias avulsas, imagens e sons que deambulavam erraticamente pela sua mente - e identificaria perfeitamente vários momentos decisivos na evolução da doença. Um dia em que se esqueceu das chaves de casa, outro dia em que reparou, já no elevador do seu prédio, que se esquecera de vestir uma camisa, até àquele dia em que deu por si num escuro beco da cidade com o lábio a sangrar. Pudesse ele lembrar-se de todos esses dias estranhos, nos quais havia uma réstia de coerência temporal e não sobreviria o medo e a confusão. Pior, só quando a sua imaginação gozava com ele, quando lhe assomavam imagens à cabeça de acontecimentos que lhe pareciam tão reais, mas que nunca lhe permitiam saber se o seriam de facto, se tais imagens se referiam a alguma experiência vivida ou, por outro lado, imaginada ou vista, ouvida ou lida, o que fosse, como quando afirmou que queria voltar para a sua mulher, apesar de nunca ter sido casado, ou quando jurou que tinha estado em Woodstock, apesar de ter apenas 39 anos. Nada era mais triste do que a cara dele ao dizer essas coisas, sabendo quem o ouvia que tudo era imaginado e sabendo ele que todos o olhavam como se ele fosse louco.
Tudo perdera o sentido e a ausência desse sentido era a única coisa que o seu cérebro, limitado pela doença, conseguia sentir de forma inteligente.
(João Freire)





