18/11/2008

A vergonha de não ter vergonha na cara

Há quatro anos, o administrador do Banco de Portugal Manuel Sebastião foi procurador do administrador do Banco Espírito Santo Manuel Pinho na compra de um prédio em Lisboa. Esse prédio era propriedade do Banco Espírito Santo, tendo Manuel Sebastião servido de intermediário numa compra entre o BES e um administrador do BES. Manda a boa prática que um administrador de um banco não se envolva em negócios pessoais com o próprio banco que administra. E manda a lei que o Banco de Portugal supervisione o funcionamento do Banco Espírito Santo.
Manuel Sebastião viria mais tarde a adquirir um apartamento nesse prédio, entretanto remodelado.

Em Março deste ano, o ministro da Economia Manuel Pinho nomeou Manuel Sebastião presidente da Autoridade da Concorrência. A lei exige que a Autoridade da Concorrência seja um "regulador independente". A possibilidade de ela entrar em conflito com o Governo é elevada, sendo no mínimo discutível que um ministro nomeie um amigo pessoal - e seu inquilino - para desempenhar tal cargo. Certamente por achar que não havia nada para esclarecer neste caso, o Partido Socialista chumbou, na sexta-feira, a audição a Manuel Pinho e Manuel Sebastião no Parlamento, pedida pelo CDS-PP.
Estes são os factos. Confrontado com eles, o que é que o primeiro-ministro de Portugal decidiu comunicar ao País? Que não encontra no que foi publicado "nada que seja contra a lei". O que até é bem capaz de ser mentira, mas admitamos que possa ser verdade. Só que José Sócrates não ficou por aí. E acrescentou também não ter encontrado "nada que seja criticável do ponto de vista ético". Ora, isto são declarações absolutamente vergonhosas, e só mesmo por vivermos num país onde a mentira na política é aceite com uma espantosa tolerância é que um primeiro-ministro pode dizer uma barbaridade destas e sair de mansinho.

Se José Sócrates encontrasse um dos seus ministros a tentar arrombar um cofre com um berbequim diria aos jornais que ele estava só a apertar um parafuso. Afinal, também no caso da sua licenciatura o primeiro-ministro não viu nada de eticamente duvidoso nem de moralmente reprovável. Ora, o que me faz impressão não é que esta gente que manda em nós atraia a trafulhice como o pólen atrai as abelhas - isso faz parte da natureza humana e é potenciado por quem frequenta os corredores do poder. O que me faz impressão é o desplante com que se é apanhado com a boca na botija e se finge que se andava só à procura das hermesetas. É a escola Fátima Felgueiras, que mesmo condenada a três anos e meio de prisão dava pulinhos de alegria como se tivesse sido absolvida. Nesta triste terra, parece não haver limites para a falta de vergonha.

João Miguel Tavares in Diário de Notícias Online

16/11/2008

Opções

Um dia destes, logo de manhãzinha… ou madrugadazinha, dei por mim a ser vítima de um furto. Eu estava a ser vítima de um furto! E o cenário era este: Um homem de canadianas, ao lado do meu carro a mexer num prato das jantes, aqueles discos prateados que tapam as jantes, e eu olhava para ele da janela. Ora, eu não tenho um carro por aí além - como foi visto e lido neste blogue, é um simples Renault Clio - e, como tal, os pratos das rodas também não são grande espingarda (se é para embarcarmos em expressões populares, embarquemos), até porque a própria ideia desses objectos já não é em si uma ideia luxuosa. Luxo é ter umas jantes especiais. Isso é luxo - Aliás, isso até pode nem ser luxo e ser parolo - digamos que luxo é ter um carro luxuoso. Pratos de jantes são um remedeio ou uma inevitabilidade. No entanto, furto é furto e mais que não fosse por uma questão de orgulho tinha de dizer alguma coisa. Como estava ensonado, apenas disse, da janela até ao outro lado da rua: “o que é que está a fazer?” O homem não disse nada ou murmurou qualquer coisa (estava praticamente a dormir em pé e não me recordo. Não sei se já disse que isto se passou de madrugada?), mas lembro-me que pontapeava o prato, como se estivesse a encaixá-lo de novo por ter percebido que tinha sido apanhado em flagrante. Vesti-me rapidamente e fui confrontá-lo. Ele respondeu ao confronto com cobardia, dizendo que apenas estava a ver o carro, que tinha um igual e tal e que gostava de andar por ali até para ver o pessoal que vinha da discoteca e que roubava antenas dos carros, cadeiras das esplanadas dos cafés e essas coisas. Mas ele? Roubar? Nada! Ele não roubava, até porque era doente (por ter usado esta desculpa é que foi cobarde), tinha sido operado ao coração e mal podia falar. Eu disse que sim, que o percebia e até brinquei com ele, dizendo que o meu carro era melhor e mais bonito do que o dele (são iguais aparte do dele ser a gasolina) e que não adiantava andar a roubar – se andasse a roubar – coisas do meu. Disse estas coisas para ele perceber que eu não era nenhum sonso, mas, obviamente, não sei se funcionou. Deixei-o e fui trabalhar. A meio da manhã o meu pai e chefe diz-me que a minha mãe, que se deslocara ao local do crime, lhe telefonou reportando-lhe que faltavam dois dos ditos tampões (?) ao carro. De imediato comecei a pensar no que faria quando chegasse a casa para reaver o que era meu ou no mínimo castigar o autor do furto dos pratos das jantes. Passaram pela minha cabeça as seguintes ideias:

1ª - Chegar ao pé do carro do outro senhor e simplesmente retirar os pratos do carro dele, dirigir-me ao meu e colocar os pratos no meu carro.
(Nesta primeira ideia, imaginava gente ao meu lado, até mesmo o dito senhor, berrando ou gesticulando perante a minha despreocupação)

2ª - Cagar à porta de casa dele.
(É uma ideia habitual em quesílias, no entanto é também habitualmente infrutífera, é uma ideia que apenas faz sentir bem, estimulando o ego… e o esfíncter)

3ª - Deixar passar… ou quase! E mandar cartas insultuosas durante o tempo que ele levasse a devolver os pratos ou a morrer. Esta ideia era acompanhada de telefonemas às 3 e 4 da manhã, desligando antes que alguém atendesse ou deixando apenas que se ouvisse um intenso e assustador bafo de respiração; assim como o inevitável toque da campainha de casa às mesmas horas.

4ª - Por último, pensei em ir comprar um coelho pronto a cozinhar – quanto mais ensanguentado melhor – e deixá-lo pendurado na porta do senhor com uma faca de mato e um papel no qual se poderia ler: “Isto é o que lhe pode acontecer a si, à sua mulher ou aos seus filhos se não devolver os pratos!”

Claro que quando cheguei a casa e me dirigi ao carro vi que já estava tudo no seu devido lugar. Ao que parece, entre a hora que a minha mãe viu o carro e as horas a que eu cheguei perto dele, o homem terá pensado duas vezes – até porque sabia que eu o tinha visto – e devolveu o que roubara. As ideias ficaram apenas na minha cabeça. E depois não consegui deixar de pensar qual teria adoptado?

(João Freire)

12/11/2008

Lutar ou não lutar?

"Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor."

Dizem que é do William Shakespeare

Mafalda Veiga - A Gente Vai Continuar (Versão de uma canção do Jorge Palma, com o próprio a tocar piano)



Ela no palco, ele em casa.
Gosto dela, até já a fui ver ao vivo e não fossem as más companhias dela gostaria mais. Tem aquilo a que se convencionou chamar uma cara fofinha.


P.S. - Sim, o público bate palmas (esse mau hábito dos públicos) durante uma canção que assinala o fim triste de uma relação e a tentativa de seguir em frente após esse fim. Sem dúvida que as palmas ajudarão nisso! Enfim. Acho que não se devem bater palmas (como forma de acompanhamento) a não ser que as peçam, mas, caso tenham de bater, ao menos que o façam numa canção alegre.

Finalmente o desafio

1 - Publicar uma foto pessoal


Nota: Sou o da direita

2 - Escolher uma banda ou um cantor

Pearl Jam


3- Responder a algumas perguntas com títulos de músicas:

a) És homem ou mulher?

Just a man


b) Descreve-te.

Passenger


c) O que as pessoas acham de ti?

Dear John

Nota: no vídeo da canção, ela esquece-se e inventa algumas partes da letra. Essa parvoíce também faz parte da representação que os outros têm de mim.


d) Como descreves o teu último relacionamento.

A gente vai continuar


e) Descreve o estado actual da tua relação com o teu namorado/companheiro ou parceiro ou whatever.

Confortably numb


f) Onde querias estar agora?

Estou além


g) O que pensas a respeito do amor?

Wonderful tonight


h) O que pedirias se pudesses ter só um desejo?

What the world needs now



4- Por fim cabe-me desafiar quatro pessoas:

CCCP... agora tem de ser!

É só um? Nunca fui bom a matemática, nem gosto de a:busar das pessoas.

08/11/2008

06/11/2008

Lisboa limpa?



"Há quem diga que nasceu nas antigas urbes romanas, outros encontram no antigo Egipto a génese do graffiti. Mas desde a pré-história que os homens escrevem nas paredes. Nos anos 70 «ele» renasce nos Estados Unidos, em Nova Iorque. Renasce e evolui, criando uma cultura própria, associada a outras áreas como, por exemplo, a música.

Os primeiros desenhos, ainda na década de 60, tiveram conotações políticas e chegaram a servir para definir o território de gangs. No entanto, a evolução trouxe novos sentidos, novos desenhos, novas mensagens.

«TOPCAT 126» é considerado um dos pais do graffiti em Nova Iorque e os seus primeiros trabalhos datam de 1969. Ao lado de «Julio 204» and «TAKI 183» lançaram a tinta. Como ignorar as carruagens e metros pintados de Nova Iorque nos primórdios do graffiti? Serviam para chegar mais longe e à maior quantidade possível de pessoas.

Nascido na rua

Renascido na «cultura de rua» o graffiti era uma de muitas expressões para quem vivia e comunicava na rua. Na maioria, comunidades pobres e excluídas socialmente. Hoje em dia, o fenómeno permanece exclusivamente urbano.

Ao contrário do que muitos pensam esta comunidade tem regras, que apesar de não estarem escritas são passadas entre gerações, e definem como e onde pintar. É consensual que há locais proibidos como, por exemplo, os monumentos ou outros desenhos.

O graffiti é praticado por «writers» (escritores) e cada um tem a sua própria «tag» (assinatura), que o distingue dos outros artistas. Todavia, também se agrupam em «crews» (equipas) para pintarem. Quando nasceu, o graffiti não era garffiti, os artistas perguntavam entre eles «let`s write something tonight?» (vamos escrever alguma coisa esta noite?). Mais tarde será o jornal New York Times a «inventar» a palavra graffiti que perdura até hoje.

Em Portugal, o «boom» do graffiti deu-se na década de 90. O mural das Amoreiras é, de certa forma, o símbolo do graffiti de Lisboa. Actualmente, encontramos várias formas de expressão dentro dos graffitis: tags; throw ups; hall of fame; crews; stencil e stickers.

Sobretudo jovens

Ainda considerada uma prática ilegal, o graffiti começa finalmente a ser aceite em alguns locais pré-determinados. Mas é o lado ilegal que ainda atrai os mais jovens às paredes. Têm tempo livre, podem pintar à noite e se forem apanhados, as consequências legais não são muito complicadas para os menores de idade.

Há cada vez mais zonas na capital salpicadas de cor. Mas outras cidades nacionais juntam-se a Lisboa como, por exemplo, Caldas da Rainha, Porto ou Almada.

O fenómeno vivido à escala mundial já teve direito a vários livros dedicados exclusivamente ao graffiti. Os melhores desenhos de Nova Iorque, Londres, Barcelona ou Berlim estão espalhados nas melhores livrarias, o que de alguma forma lhes concede um estatuto de arte.

Mas a opinião não é unânime. E, até entre os apaixonados pelo graffiti, há quem reconheça que alguns só «sujam» paredes. Falta «arte» em muitos rabiscos, riscos e nomes."


No que diz respeito à limpeza do Bairro Alto, que já começou, (e isto é a minha opinião pessoal) não haverá coisas, sei lá, mais importantes a fazer por Lisboa? Limpem e reconstruam os prédios decadentes que há por aí aos molhos, alguns até, embelezados por graffitis. Façam deles casas habitáveis. Falem com os proprietários e cheguem a um consenso... bem sei que dá mais trabalho que limpar uns quantos bonecos das paredes, mas para quem vem a Lisboa, (quem cá mora já está mais que habituado) acho que seria uma mensagem de boas vindas bem mais bonita. Lisboa é feia e velha e a culpa não é certamente dos graffitis! Limpem as ruas, parques e jardins, cobertos de merda que tanto gostamos de atirar para o chão. Somos dos países mais porcos do mundo e isso vê-se por toda a parte neste rectângulo que está a ficar sem cantos livres para tanto entulho! E não é com a limpeza das paredes do Bairro que se muda isso. Se passassem pelo Martim Moniz, (dou só este exemplo, porque aquilo parece uma auntêntica lixeira, e para quem passa a pé, arrisca-se a pisar de tudo um pouco) decerto pensariam de outra forma... ou talvez não.
(se na altura tivesse o meu tlm teria tirado uma foto para a enviar ao maluco que decidiu limpar o que não está sujo)

ps: é claro que há graffitis e graffitis. Tags e tags. E como em tudo, há que separar o trigo do joio.


05/11/2008

Postal - o filme (Uwe Boll)

Forty Acres



Out of the turmoil emerges one emblem, an engraving
a young Negro at dawn in straw hat and overalls,
an emblem of impossible prophecy, a crowd
dividing like the furrow which a mule has ploughed,
parting for their president: a field of snow-fleckedcotton
forty acres wide, of crows with predictable omens
that the young ploughman ignores for his unforgotten
cotton-haired ancestors, while lined on one branch,
is
a tense court of bespectacled owls and, on the field's
receding rim a gesticulating scarecrow stamping with rage at him.

The small plough continues on this lined page
beyond the moaning ground, the lynching tree, the tornado's
black vengeance, and the young ploughman feels the change in his veins,
heart, muscles, tendons, till the land lies open like a flag as dawn's sure
light streaks the field and furrows wait for the sower.



(poema para Barack Obama pelo Nobel da Literatura
Derek Walcott no Times online)

Para fora do tumulto emerge um emblema, uma gravura
um jovem Negro ao amanhecer de chapéu de palha e jardineiras,
um emblema profético impossível, uma multidão dividida
como o sulco que uma mula lavrou,
fazendo nascer o seu presidente: um campo de neve-pontilhado de algodão
numa extensão de quarenta hectares, de corvos com presságios previsíveis
que o lavrador jovem ignora para os seus inesquecíveis
antepassados de cabelo de algodão, enquanto que alinhada num ramo,
está uma tensa corte de corujas de óculos e,
na borda do campo um espantalho gesticula revelando-lhe a sua raiva.

O arado pequeno continua nesta página pautada
para lá da terra que geme, a árvore cortada, vingança negra
do tornado, e o jovem lavrador sente a mudança nas suas veias,
coração, músculos, tendões, até que a terra se abre como uma bandeira
como a luz do amanhecer que toca no campo e os sulcos esperam pelo semeador.