D. Misérias
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Um dia bate-nos à porta tudo o que fizemos. Acredito que a D. Misérias
pensasse que não e por isso dedicou-se há quase 30 anos a desviar o que
pertencia à ...
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07/04/2010
22/03/2010
Mulheres de alta-manutenção
Aproveitando para responder a algumas comentadoras deste post, assim como a todas as outras (centenas, milhares, quem sabe) que possam ter dúvidas sobre a minha intenção, passo a esclarecer.
Sempre conheci mulheres de alta-manutenção. A verdade é essa. Não vejo que isso possa ser interpretado negativamente, pois não era esse - de todo - o objectivo. A única coisa que tal nomenclatura quererá significar será que as mulheres actuais não se conformam com a sorte que lhes calha, seja no que diz respeito a elas próprias ou com aquilo que as rodeia e isso é tão verdade para as coisas superficiais, como para as coisas mais profundas da existência humana… mas será sem dúvida verdade para os homens que essas mulheres escolhem para ter à sua volta. A assumpção de uma mulher de alta-manutenção pretende ser uma manifestação de liberdade da mulher e não - como entenderam quase todas as comentadoras do tal texto - da sua opressão.
Mulheres de alta-manutenção deveriam ser todas as mulheres, não porque precisassem de ser apaparicadas superficialmente (ou não apenas, porque não me parece que haja mal nenhum nisso), mas porque exigem mais a todos os níveis e porque não aceitam nada que as diminua enquanto seres humanos e enquanto mulheres. Quero, por exemplo, que a minha sobrinha, que é o ser feminino mais próximo de mim enquanto criatura em desenvolvimento, seja uma mulher de alta-manutenção. Quero que ela não aceite que os homens a conquistem com duas palavras, que não seja fácil perante o charme superficial dos homens que a quererão levar – infelizmente – para a cama e, quando aceitar alguém, quero que aceite alguém que faça tudo para ver um sorriso na cara dela, alguém que esteja disposto a anular-se para que ela seja feliz, alguém de quem ela possa gostar e não alguém que lhe bata ou que a trate como algo menos do que aquilo que ela é: uma mulher. No fundo, quero para ela alguém que tenha de lhe dar - e esteja disposto a dar-lhe - muita manutenção.
Quando eu disse que todas as mulheres que conheci são mulheres de alta manutenção, quis apenas dizer que todas elas exigiram sempre muito de mim - o que ajudou a tornar-me num homem melhor -, não porque fossem superficiais ou ocas, mas porque queriam o melhor para elas e eu sempre as admirei por isso, ainda que em alguns casos isso me tenha feito sofrer.
Admito que nestas coisas da blogosfera não dê para entender muito bem algumas coisas que se dizem (escrevem), muitas vezes porque faltam sons e imagens para ilustrar essas palavras e neste caso terá sido minha a culpa, porque parti do pressuposto que o que disse seria facilmente entendível, mas acredito também que às vezes deixamos que as nossas experiências pessoais influenciem a forma como vemos e lemos estas coisas e aí a culpa já não é minha. Irrita-me, ainda que não muito, porque não sou muito dessas coisas e tento perceber de onde vem essa energia que me irrita, que pensem erradamente sobre mim e sobre o que digo e irrita-me porque tenho a perfeita consciência de que sou melhor do que a maior parte das pessoas. Sim, sou arrogante. Eu tenho defeitos. Sou melhor do que a maior parte das pessoas mas não sou perfeito.
(João Freire)
Sempre conheci mulheres de alta-manutenção. A verdade é essa. Não vejo que isso possa ser interpretado negativamente, pois não era esse - de todo - o objectivo. A única coisa que tal nomenclatura quererá significar será que as mulheres actuais não se conformam com a sorte que lhes calha, seja no que diz respeito a elas próprias ou com aquilo que as rodeia e isso é tão verdade para as coisas superficiais, como para as coisas mais profundas da existência humana… mas será sem dúvida verdade para os homens que essas mulheres escolhem para ter à sua volta. A assumpção de uma mulher de alta-manutenção pretende ser uma manifestação de liberdade da mulher e não - como entenderam quase todas as comentadoras do tal texto - da sua opressão.
Mulheres de alta-manutenção deveriam ser todas as mulheres, não porque precisassem de ser apaparicadas superficialmente (ou não apenas, porque não me parece que haja mal nenhum nisso), mas porque exigem mais a todos os níveis e porque não aceitam nada que as diminua enquanto seres humanos e enquanto mulheres. Quero, por exemplo, que a minha sobrinha, que é o ser feminino mais próximo de mim enquanto criatura em desenvolvimento, seja uma mulher de alta-manutenção. Quero que ela não aceite que os homens a conquistem com duas palavras, que não seja fácil perante o charme superficial dos homens que a quererão levar – infelizmente – para a cama e, quando aceitar alguém, quero que aceite alguém que faça tudo para ver um sorriso na cara dela, alguém que esteja disposto a anular-se para que ela seja feliz, alguém de quem ela possa gostar e não alguém que lhe bata ou que a trate como algo menos do que aquilo que ela é: uma mulher. No fundo, quero para ela alguém que tenha de lhe dar - e esteja disposto a dar-lhe - muita manutenção.
Quando eu disse que todas as mulheres que conheci são mulheres de alta manutenção, quis apenas dizer que todas elas exigiram sempre muito de mim - o que ajudou a tornar-me num homem melhor -, não porque fossem superficiais ou ocas, mas porque queriam o melhor para elas e eu sempre as admirei por isso, ainda que em alguns casos isso me tenha feito sofrer.
Admito que nestas coisas da blogosfera não dê para entender muito bem algumas coisas que se dizem (escrevem), muitas vezes porque faltam sons e imagens para ilustrar essas palavras e neste caso terá sido minha a culpa, porque parti do pressuposto que o que disse seria facilmente entendível, mas acredito também que às vezes deixamos que as nossas experiências pessoais influenciem a forma como vemos e lemos estas coisas e aí a culpa já não é minha. Irrita-me, ainda que não muito, porque não sou muito dessas coisas e tento perceber de onde vem essa energia que me irrita, que pensem erradamente sobre mim e sobre o que digo e irrita-me porque tenho a perfeita consciência de que sou melhor do que a maior parte das pessoas. Sim, sou arrogante. Eu tenho defeitos. Sou melhor do que a maior parte das pessoas mas não sou perfeito.
(João Freire)
Zero 7 - The Pageant Of The Bizarre
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08/03/2010
A difícil missão de manter as mulheres interessadas
Sempre conheci mulheres de alta manutenção. Pensava eu que era sorte minha... ou azar. A verdade é que todas as mulheres se aborrecem facilmente, como este anúncio do desodorizante Axe (em inglês Linx) Twist tão bem ilustra, e se é difícil mantê-las interessadas, a verdade é só uma: só nos interessa manter interessadas aquelas de que gostamos e se gostamos delas é porque merecem todo o nosso esforço.
A canção, que também faz parte da banda sonora de Juno, é esta.
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05/03/2010
Amuo
Pensar demasiado impele as pessoas sensíveis à rejeição, a sabotarem-se a si próprias.
As tempestades emocionais tendem a afastar as pessoas que queremos conquistar. Um colega de trabalho pode responder exageradamente a um deslize mínimo. Essa resposta exagerada, (rudeza, silêncio, sarcasmo) leva depois os colegas de escritório a evitá-lo, o que provoca uma reacção ainda mais defensiva.
O género influencia. Os homens são mais ciumentos, as mulheres tornam-se mais hostis e menos solidárias.
A herança familiar influencia. Rejeição parental. Com uma ansiedade latente e uma raiva adquirida à flor da pele, esperam ser rejeitados por aqueles que aprenderam a valorizar. Interpretam acções neutrais e negligentes (um atraso num telefonema, por exemplo) como desprezo intencional. São especialistas em encontrar firmes provas de quaisquer sentimentos ameaçadores para eles. Cognitivamente predispostos a interpretar as situações negativamente, estes homens e mulheres temporariamente sós ficam enleados numa teia de respostas e comportamentos esperados que não surgem e que os próprios tecem, acabando por os devorar psicologicamente, uma vez que não dão a ninguém o benefício da dúvida. O resultado é o mesmo: resposta exagerada, reacção de fuga, incapacidade comunicativa, silêncio destruidor, comportamento defensivo, isolamento, num ciclo sem fim de escalamento exponencial.
O silêncio gera silêncio.
Tinha isto no telemóvel o que quer dizer que foi retirado, ou melhor, adaptado livremente por mim, de uma daquelas revistas de Sábado ou Domingo que vêm com os jornais diários.
(João Freire)
GNR - Homens temporariamente sós
The Cure - Lullaby (acoustic)
versão original, aqui.
Para o tema "Silêncio", num desafio da "Fábrica de Letras", acompanhando esta e esta participação.
As tempestades emocionais tendem a afastar as pessoas que queremos conquistar. Um colega de trabalho pode responder exageradamente a um deslize mínimo. Essa resposta exagerada, (rudeza, silêncio, sarcasmo) leva depois os colegas de escritório a evitá-lo, o que provoca uma reacção ainda mais defensiva.
O género influencia. Os homens são mais ciumentos, as mulheres tornam-se mais hostis e menos solidárias.
A herança familiar influencia. Rejeição parental. Com uma ansiedade latente e uma raiva adquirida à flor da pele, esperam ser rejeitados por aqueles que aprenderam a valorizar. Interpretam acções neutrais e negligentes (um atraso num telefonema, por exemplo) como desprezo intencional. São especialistas em encontrar firmes provas de quaisquer sentimentos ameaçadores para eles. Cognitivamente predispostos a interpretar as situações negativamente, estes homens e mulheres temporariamente sós ficam enleados numa teia de respostas e comportamentos esperados que não surgem e que os próprios tecem, acabando por os devorar psicologicamente, uma vez que não dão a ninguém o benefício da dúvida. O resultado é o mesmo: resposta exagerada, reacção de fuga, incapacidade comunicativa, silêncio destruidor, comportamento defensivo, isolamento, num ciclo sem fim de escalamento exponencial.
O silêncio gera silêncio.
Tinha isto no telemóvel o que quer dizer que foi retirado, ou melhor, adaptado livremente por mim, de uma daquelas revistas de Sábado ou Domingo que vêm com os jornais diários.
(João Freire)
GNR - Homens temporariamente sós
The Cure - Lullaby (acoustic)
versão original, aqui.
Para o tema "Silêncio", num desafio da "Fábrica de Letras", acompanhando esta e esta participação.
17/02/2010
Fernando Nobre - Presidente da República
Depois de ter falado na questão da margem sul e dos camelos, de ter falado na política de bigode que se vai fazendo por cá, nesse mundo das ideias de Sócrates e dos outros, que é afinal um mundo de nabos no qual as pessoas procuram apoio em vão, depois de ter falado em Adam smith, de ter previsto o pior, explicado o mal maior, depois de ter falado aqui de tudo isto, fiz há pouco tempo um balanço em que não agoirava nada de bom para o futuro de Portugal. Tornara-me um pessimista democrático, um apolítico que não votava nem fazia intenções de votar no futuro.
Mas hoje recebi uma boa notícia. Não acredito em salvadores, ou melhor, gosto de acreditar em salvadores, mas isso não impede que olhe para esses pretensos salvadores de forma crítica até mostrarem serviço, e ultimamente até me tenho convencido de que, por melhores que as pessoas pareçam, se torna difícil acreditar nas suas boas intenções, pois como se sabe, são elas que pavimentam o caminho até ao inferno. Contudo, pelo que é conhecido, por exemplo aqui e aqui, de Fernando Nobre, só fica bem a qualquer pessoa que acredite numa mudança, apoiá-lo. Eu seguramente que o vou fazer.
Fernando Nobre, fotografia retirada da Internet
Mas hoje recebi uma boa notícia. Não acredito em salvadores, ou melhor, gosto de acreditar em salvadores, mas isso não impede que olhe para esses pretensos salvadores de forma crítica até mostrarem serviço, e ultimamente até me tenho convencido de que, por melhores que as pessoas pareçam, se torna difícil acreditar nas suas boas intenções, pois como se sabe, são elas que pavimentam o caminho até ao inferno. Contudo, pelo que é conhecido, por exemplo aqui e aqui, de Fernando Nobre, só fica bem a qualquer pessoa que acredite numa mudança, apoiá-lo. Eu seguramente que o vou fazer.
Fernando Nobre, fotografia retirada da Internet
12/02/2010
Uma breve história da democracia em Portugal
Mário Soares foi o primeiro. Apoiou-se na fama conquistada após a revolução de Abril, aliou-se depois ao CDS e não durou mais do que três anos, devido a desentendimentos entre os dois partidos que constituíam o governo. Ramalho Eanes nomeia então Nobre da Costa, num período conturbado de constantes Moções de Confiança rejeitadas pela Assembleia da República, que viria a vitimar ainda Mota Pinto, sucedido por Maria de Lourdes Pintasilgo, vítima da dissolução da Assembleia da República. Seguiu-se-lhe Sá-Carneiro, outro coligante, que viria a falecer no contexto que se conhece, sendo substituído interinamente por Freitas do Amaral, e depois por Pinto Balsemão, aquele que seria o primeiro a apresentar a sua demissão ao Presidente-da-República. Segue-se Mário Soares, o omnipresente, num governo a dois com o PSD, que viria a decidir o seu fim antes da chegada do grande e do único a completar, não um mas, os dois mandatos: Cavaco Silva. No entanto, também ele saiu do poder debaixo de críticas relativamente ao controlo da comunicação social, nomeadamente da televisão pública. Louvemos apenas a capacidade de acabar o segundo mandato, pois nunca, até hoje, isso foi conseguido. Guterres, afundado no pântano que ajudou a criar, demitiu-se, abandonando o país mais tarde para um alto cargo nas Nações Unidas. Durão Barroso durou dois anos no país da tanga, fugindo assim que pôde para a Presidência da Comissão Europeia. Santana Lopes nem aqueceu o lugar, apesar de ter deixado no curto espaço de tempo em que esteve à frente do Governo o mesmo rasto de dúvidas e suspeições relativamente à promiscuidade entre a política e os grandes grupos económicos que os outros governantes. Depois veio Sócrates e tudo permaneceu igual, com um primeiro mandato tranquilo, em que as suspeições e o número de casos foram escalando, até ao segundo mandato que agora agoniza e que, de certeza, não vai tardar em capitular.
A história da democracia em Portugal é curta. Seria bom que esse facto explicasse tudo o que de mal se passa no nosso país, nomeadamente na sua componente pública. A verdade é que não se vislumbram melhoras. A promiscuidade entre o poder político e o económico é tal que se alimentam um ao outro – os políticos de amanhã são os altos funcionários das grandes empresas de ontem e os altos funcionários das grandes empresas de amanhã são os políticos de ontem.
Sendo assim, uma democracia que tende a ser uma democracia para toda a gente, apenas o é na base de uma democracia ocidental baseada em demasia na assistência-social, com tudo o que de bom e mau isso acarreta, uma democracia que corre sempre o risco de fomentar a alienação e a não acção, nivelando por baixo, afundando assim um país numa espiral descendente que apenas deixa escapar os bem preparados e os "bem preparados".
Vivemos num país governado pelas informalidades. É a cunha, a mão negra… navegamos na zona da incerteza, numa zona em que o interesse pessoal impera. Assim se explicam os atentados às liberdades pessoais, assim se explicam os abusos de poder e o tráfico de influências, assim se explicam - ao menos isso - todas as suspeições. Não é só quem tem olho que é rei, porque todos vemos o que acontece e todos sabemos o que acontece, mas é sim quem tem olho e poder económico para agir ou para apoiar a acção.
Virá o tempo em que o mercado, depois de regular-se em benefício próprio, devorando tudo à volta, começará a devorar-se a ele próprio, deixando o nada, porque se é verdade que existe uma mão invisível para impedir que a crueldade impere (Adam Smith), também é verdade que essa mão invisível necessita de uma ética de mercado e de um conjunto de valores na sociedade (Adam Smith) que vão escasseando.
Num mundo de globalização total, em que a vida de um país é definida por leis extrínsecas e os números imperam sobre as pessoas, é difícil haver ética, é difícil haver um conjunto de valores que identifique a base do mercado, os clientes, e os seus reguladores. Sem valores, impera a crueldade. Isto é verdade para qualquer país, mas é mais verdade num país com uma curta história democrática.
(João Freire)
Deolinda - Movimento Perpétuo Associativo
Alguns dados, nomeadamente os nomes e ordem cronológica dos Governantes, foram recolhidos da Wikipédia, na página dos Governos Constitucionais de Portugal
A história da democracia em Portugal é curta. Seria bom que esse facto explicasse tudo o que de mal se passa no nosso país, nomeadamente na sua componente pública. A verdade é que não se vislumbram melhoras. A promiscuidade entre o poder político e o económico é tal que se alimentam um ao outro – os políticos de amanhã são os altos funcionários das grandes empresas de ontem e os altos funcionários das grandes empresas de amanhã são os políticos de ontem.
Sendo assim, uma democracia que tende a ser uma democracia para toda a gente, apenas o é na base de uma democracia ocidental baseada em demasia na assistência-social, com tudo o que de bom e mau isso acarreta, uma democracia que corre sempre o risco de fomentar a alienação e a não acção, nivelando por baixo, afundando assim um país numa espiral descendente que apenas deixa escapar os bem preparados e os "bem preparados".
Vivemos num país governado pelas informalidades. É a cunha, a mão negra… navegamos na zona da incerteza, numa zona em que o interesse pessoal impera. Assim se explicam os atentados às liberdades pessoais, assim se explicam os abusos de poder e o tráfico de influências, assim se explicam - ao menos isso - todas as suspeições. Não é só quem tem olho que é rei, porque todos vemos o que acontece e todos sabemos o que acontece, mas é sim quem tem olho e poder económico para agir ou para apoiar a acção.
Virá o tempo em que o mercado, depois de regular-se em benefício próprio, devorando tudo à volta, começará a devorar-se a ele próprio, deixando o nada, porque se é verdade que existe uma mão invisível para impedir que a crueldade impere (Adam Smith), também é verdade que essa mão invisível necessita de uma ética de mercado e de um conjunto de valores na sociedade (Adam Smith) que vão escasseando.
Num mundo de globalização total, em que a vida de um país é definida por leis extrínsecas e os números imperam sobre as pessoas, é difícil haver ética, é difícil haver um conjunto de valores que identifique a base do mercado, os clientes, e os seus reguladores. Sem valores, impera a crueldade. Isto é verdade para qualquer país, mas é mais verdade num país com uma curta história democrática.
(João Freire)
Deolinda - Movimento Perpétuo Associativo
Alguns dados, nomeadamente os nomes e ordem cronológica dos Governantes, foram recolhidos da Wikipédia, na página dos Governos Constitucionais de Portugal
15/01/2010
É já na próxima segunda-feira que estas duas campanhas publicitárias, da agência omdesign, começarão.
Ambas promovem o uso do preservativo tanto em relações estáveis como ocasionais, e pela primeira vez, dá-se destaque às relações homossexuais.
em estéreo
Ambas promovem o uso do preservativo tanto em relações estáveis como ocasionais, e pela primeira vez, dá-se destaque às relações homossexuais.
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12/12/2009
Velhos
Parece que alguém decidiu levar um grupo de idosos ao teatro. Parece que a reacção destes foi inesperada. Depois alguém fez um vídeo e, vai daí, o próprio vídeo torna-se numa sensação da internet e até numa forma original de publicitar a peça.
O vídeo é este que se segue.Não gosto de muita coisa neste vídeo.
Não gosto, nem compreendo que haja alguém responsável pela decisão de levar um grupo de pessoas ao teatro e não tenha a capacidade de perceber ou de se informar com alguém do teatro se esse grupo vai gostar ou não da obra ou sequer se a vai compreender.
Depois, em segundo lugar, não gosto que alguém faça um plano de zoom aos dentes de um senhor como forma de menosprezar os argumentos desse mesmo senhor.
Por fim, não gosto que ainda se fale tanto do Salazar a propósito de tudo e não gosto que alguém justifique os caminhos da droga com uma peça de teatro.
Mas também há muita coisa que gosto.
Em primeiro lugar, gosto do vídeo em si porque me fez rir, mas também gosto do facto dos actores terem continuado a peça pelo meio dos apupos e vaias e – embora não aprecie que eles se riam depois da situação – compreendo que o façam.
Será que eles (os velhos) sabiam que podiam sair a meio da peça?
E, para finalizar, gosto da senhora que aparece no término do vídeo (fora do grupo - o que explica muito das reacções), que diz que gostou da peça, e gosto particularmente do senhor que a acompanha e que apenas diz boa-noite.
Eu quero ser aquele senhor. Eu quero chegar a velho e ter uma senhora que envelheça ao meu lado com uma dentição apresentável e que não me deixe ficar mal visto ao ser entrevistada pelos senhores da televisão.
06/12/2009
26/11/2009
Olhar de dentro, um grito silencioso no escuro
Rom Houben in Diário de Notícias
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16/11/2009
O dia da libertação
(baseado em factos verídicos)
O dia da libertação começou como tantos outros. Era Março e o calor sacudia as almas até à exaustão. O meu turno começara há duas horas e fazíamos a nossa primeira pausa do dia para uma ligeira refeição. Claro que ninguém ligava ao rádio, era apenas um ruído suportável que acompanhava o dia dos trabalhadores, e somente quando um dos sindicalistas começou a esbracejar é que percebemos que alguma coisa se passava.
- A guerra começou - exclamou, anunciando o pior em três simples palavras.
A confusão instalou-se. Alguns, aqueles que não tinham pertences na cidade nem familiares, conseguiram resistir à tentação da histeria, mas outros, como eu, circundavam a refinaria, procurando os chefes de turno ou alguém que lhes permitisse uma hora ou duas de folga. Consegui, mas depressa me avisaram do erro que cometia e de como era melhor ficar ali à espera não sei bem do quê. Diziam para lhes telefonar, para encaminhar os meus para o aeroporto ou para a refinaria, diziam para não sair, que era perigoso percorrer a estrada de volta à cidade e diziam-me que os pretos estavam a matar todos os brancos.
(“Todos” sempre me pareceu demasiado)
E lá fui, carregado apenas de amor pela minha família e de medo pela forma como me matariam. “Seria com uma catana”, pensava, ”Seria com um pau rombo?”
Não voltaria.
Telefonei antes, dizendo à minha mulher que pegasse nas crianças e fosse com os nossos vizinhos para o aeroporto comprar passagens para Lisboa, mas não sabia ao certo se ela obedeceria, derivado a que também ela sentia o peso de deixar a nossa casa, as nossas coisas e o nosso país.
Já no caminho, uns minutos depois de abandonar a segurança da refinaria, um homem maciço mandou-me parar e lembro-me agora de pensar se o atropelava ou não e se tentaria superar a barreira que atrapalhava a passagem ou não.
- Quem é você e o que faz aqui?
Pensei que estava morto, que não tinha sítio para fugir e que tinha sido fraco na hora da morte porque nem sequer tentava fugir ou reagir.
(Que cobarde és, Jaime. Não vais voltar a ver a tua mulher, Jaime, e os teus filhos, Jaime, não vais voltar a ver Setúbal, Jaime.)
Mas ainda não seria ali.
- Temos ordens do general Manhomanha Santos para deixar passar os senhores da Petrogal, mas há comandos espalhados por aí que não sabem disso. Está avisado. Prossiga.
E eu fiquei mais calmo. Deixaram-me e segui até à cidade.
Na cidade nada, apenas ruído de algo que não identificava ao longe.
(Como quando estava fora do Estádio do Bonfim e se ouvia aquele burburinho no interior após uma jogada mais incendiária)
Passei a avenida principal, a praça e o mesmo silêncio. Já no bairro onde morava, com vista para o porto, os portões abertos, lixo espalhado e o mesmo silêncio. Entrei na casa e nada, apenas gavetas abertas, roupa revoltada pela casa e coisas a bater. "Talvez os vizinhos", pensei. Nada.
Deduzi que já tivessem partido e fiquei mais aliviado.
Eu também iria para o aeroporto.
(A empresa lá ficou. Depois ainda tentei telefonar mas já não consegui)
Antes de chegar ao aeroporto, mesmo por estradas travessas, a imagem de Angola, a imagem da libertação de um povo há 500 anos submetido ao poder dos brancos: A terra vermelha, as caras negras, os dentes brancos, o calor, a humidade estavam lá, mas estava principalmente a imagem de uns quantos a gritar “UPA, UPA, UPA” e “Angola vai agradecer” enquanto perseguiam um senhor (talvez o senhor Roberto da mercearia, que tinha uma fazenda, e a sua família) e agitavam as catanas.
Parei o carro.
Claro que não devia ter parado, devia ter continuado mais um ou dois minutos até ao aeroporto. Se tivesse continuado nunca teria a certeza que era o senhor Roberto, que era a sua família e que eram catanas aqueles objectos que os pretos tinham na mão. Lá estava a terra vermelha, as caras negras, os dentes brancos, o calor, a humidade, mas também a raiva, os olhos amarelos, e um menino caído no chão a chorar.
Não devia ter mais de três anos aquele menino que eu já entretera muitas vezes na mercearia, e era ele
(foi ele)
que no dia 15 de Março de 1961, o dia da “Acção”, como lhe chamaram, estava a ser agarrado pelas duas pernas e sacudido com toda a força de um soldado contra o capot de um carro.
O Corpo vivo da criança bateu no carro e morreu instantaneamente, os seus berros deixaram lugar ao silêncio e já só se ouvia o “UPA! UPA” e o choro descontrolado da mãe.
Depois, com uma catana, separaram a cabeça do senhor Roberto do resto do seu corpo e por fim, perante uma mulher destruída por dentro, e ajoelhada no meio de uma rua de Angola, um dos soldados de libertação apontou uma pistola à parte de trás da sua cabeça e disparou. O seu corpo caiu de imediato, não para a frente, mas para o lado.
Guerra é guerra, não tem a ver com cor, não tem a ver com política, não tem a ver com nada.
Para mim a guerra é a memória que aquela mulher teve no último minuto da sua vida.
(João Freire)
Texto subordinado ao tema "Preto & Branco" num desafio da "Fábrica de Letras" .
Publicado anteriormente aqui
O dia da libertação começou como tantos outros. Era Março e o calor sacudia as almas até à exaustão. O meu turno começara há duas horas e fazíamos a nossa primeira pausa do dia para uma ligeira refeição. Claro que ninguém ligava ao rádio, era apenas um ruído suportável que acompanhava o dia dos trabalhadores, e somente quando um dos sindicalistas começou a esbracejar é que percebemos que alguma coisa se passava.
- A guerra começou - exclamou, anunciando o pior em três simples palavras.
A confusão instalou-se. Alguns, aqueles que não tinham pertences na cidade nem familiares, conseguiram resistir à tentação da histeria, mas outros, como eu, circundavam a refinaria, procurando os chefes de turno ou alguém que lhes permitisse uma hora ou duas de folga. Consegui, mas depressa me avisaram do erro que cometia e de como era melhor ficar ali à espera não sei bem do quê. Diziam para lhes telefonar, para encaminhar os meus para o aeroporto ou para a refinaria, diziam para não sair, que era perigoso percorrer a estrada de volta à cidade e diziam-me que os pretos estavam a matar todos os brancos.
(“Todos” sempre me pareceu demasiado)
E lá fui, carregado apenas de amor pela minha família e de medo pela forma como me matariam. “Seria com uma catana”, pensava, ”Seria com um pau rombo?”
Não voltaria.
Telefonei antes, dizendo à minha mulher que pegasse nas crianças e fosse com os nossos vizinhos para o aeroporto comprar passagens para Lisboa, mas não sabia ao certo se ela obedeceria, derivado a que também ela sentia o peso de deixar a nossa casa, as nossas coisas e o nosso país.
Já no caminho, uns minutos depois de abandonar a segurança da refinaria, um homem maciço mandou-me parar e lembro-me agora de pensar se o atropelava ou não e se tentaria superar a barreira que atrapalhava a passagem ou não.
- Quem é você e o que faz aqui?
Pensei que estava morto, que não tinha sítio para fugir e que tinha sido fraco na hora da morte porque nem sequer tentava fugir ou reagir.
(Que cobarde és, Jaime. Não vais voltar a ver a tua mulher, Jaime, e os teus filhos, Jaime, não vais voltar a ver Setúbal, Jaime.)
Mas ainda não seria ali.
- Temos ordens do general Manhomanha Santos para deixar passar os senhores da Petrogal, mas há comandos espalhados por aí que não sabem disso. Está avisado. Prossiga.
E eu fiquei mais calmo. Deixaram-me e segui até à cidade.
Na cidade nada, apenas ruído de algo que não identificava ao longe.
(Como quando estava fora do Estádio do Bonfim e se ouvia aquele burburinho no interior após uma jogada mais incendiária)
Passei a avenida principal, a praça e o mesmo silêncio. Já no bairro onde morava, com vista para o porto, os portões abertos, lixo espalhado e o mesmo silêncio. Entrei na casa e nada, apenas gavetas abertas, roupa revoltada pela casa e coisas a bater. "Talvez os vizinhos", pensei. Nada.
Deduzi que já tivessem partido e fiquei mais aliviado.
Eu também iria para o aeroporto.
(A empresa lá ficou. Depois ainda tentei telefonar mas já não consegui)
Antes de chegar ao aeroporto, mesmo por estradas travessas, a imagem de Angola, a imagem da libertação de um povo há 500 anos submetido ao poder dos brancos: A terra vermelha, as caras negras, os dentes brancos, o calor, a humidade estavam lá, mas estava principalmente a imagem de uns quantos a gritar “UPA, UPA, UPA” e “Angola vai agradecer” enquanto perseguiam um senhor (talvez o senhor Roberto da mercearia, que tinha uma fazenda, e a sua família) e agitavam as catanas.
Parei o carro.
Claro que não devia ter parado, devia ter continuado mais um ou dois minutos até ao aeroporto. Se tivesse continuado nunca teria a certeza que era o senhor Roberto, que era a sua família e que eram catanas aqueles objectos que os pretos tinham na mão. Lá estava a terra vermelha, as caras negras, os dentes brancos, o calor, a humidade, mas também a raiva, os olhos amarelos, e um menino caído no chão a chorar.
Não devia ter mais de três anos aquele menino que eu já entretera muitas vezes na mercearia, e era ele
(foi ele)
que no dia 15 de Março de 1961, o dia da “Acção”, como lhe chamaram, estava a ser agarrado pelas duas pernas e sacudido com toda a força de um soldado contra o capot de um carro.
O Corpo vivo da criança bateu no carro e morreu instantaneamente, os seus berros deixaram lugar ao silêncio e já só se ouvia o “UPA! UPA” e o choro descontrolado da mãe.
Depois, com uma catana, separaram a cabeça do senhor Roberto do resto do seu corpo e por fim, perante uma mulher destruída por dentro, e ajoelhada no meio de uma rua de Angola, um dos soldados de libertação apontou uma pistola à parte de trás da sua cabeça e disparou. O seu corpo caiu de imediato, não para a frente, mas para o lado.
Guerra é guerra, não tem a ver com cor, não tem a ver com política, não tem a ver com nada.
Para mim a guerra é a memória que aquela mulher teve no último minuto da sua vida.
(João Freire)
Texto subordinado ao tema "Preto & Branco" num desafio da "Fábrica de Letras" .
Publicado anteriormente aqui
11/10/2009
Encher chouriços com um ensaio sobre a felicidade feito há algum tempo a propósito de algo
Admiro imenso quem procura a felicidade, quem arrisca tudo na incerteza de um futuro melhor. Não sabem o que querem, mas sabem precisamente o que não querem. São os sonhadores, os eternos sonhadores.
Falar de felicidade em termos absolutos é algo difícil que deixa muito lugar àquilo que cada um entende como tal. A felicidade de um será necessariamente diferente da felicidade de outro e essa é só aquela que eles percebem como tal e nunca a real, a absoluta, que será obviamente mais difícil de definir.
Podemos concentrar a definição de felicidade em determinadas coisas que queremos obter ao longo da nossa vida, mas nenhuma delas, per si ou em conjunto, conseguirá garantir um sentimento de felicidade se não houver uma conjuntura de estados de espírito, de formas de pensar e agir que vão de encontro àquilo que nos faz felizes. Se conseguirmos hoje tudo aquilo que pensamos que nos fará felizes, arranjaremos logo a seguir algo novo a desejar. Tendemos para o negativismo, porque tudo na vida segue esse postulado negativista, com o epítome da deterioração e da morte e não precisamos de somar a esse negativismo o fracasso na obtenção de algo que não conhecemos muito bem. Procuramos a felicidade lá à frente, sabendo que o tempo, que a beleza e tudo o resto se esvai e, pensando em tudo isto, é fácil deprimirmo-nos.
Mas é por pensarmos e por sabermos que isso adianta pouco, que nos apercebemos – ou deveríamos aperceber – que a visão teleológica da felicidade pouco acrescenta. Ao contrário, prejudica. A felicidade, tal como o bem, a justiça, o amor ou qualquer outro axioma psicológico, social ou filosófico, visto como uma meta, torna-se irrelevante porque o olhar se perde ao longe em vez de reparar no que é imediato, daí que devamos afastar-nos da sua ‘grailização’. A felicidade não se aspira, vive-se e constrói-se. É um lugar-comum dizer isto, mas é verdade.
A felicidade é apenas um balanço em retrospectiva do que fomos, obtivemos e fizemos e não uma lista de compras à qual vamos juntando vistos.
Seguramente que há requisitos. Penso sinceramente que ninguém conseguirá ser feliz sem um sentido de compreensão, assente especialmente no auto-conhecimento e no entendimento dos outros e do mundo, que permitirá reconhecer os defeitos e as virtudes de tudo o que nos rodeia corrigindo o que se pode mudar, aceitando o que não se pode, valorizando tudo o que de bom existe – especialmente nos outros (que é onde é mais difícil ver), porque esses outros também são indispensáveis à nossa felicidade, e no mundo –, desvalorizando o mau e o negativo, afastando-nos dele, garantindo assim a humildade necessária para navegar pela vida sem ressentimentos, numa aprendizagem constante com a qual crescemos.
É certo que as dúvidas nos poderão esmagar e, muitas vezes, acabaremos por nos enganar uma e outra vez, mas se não fossem os enganos do passado nunca teríamos as vitórias do presente e nenhuma derrota deve ser suficiente para desarmar a força de uma consciência tranquila. Por isso, não faz sentido, podendo até cair no ridículo quem o faz, afirmar que não existem arrependimentos no passado.
Sem dúvida que há arrependimentos (tem de haver), porque não haver é presumir uma impossibilidade. Mais do que defender que não nos arrependemos de nada, devemos reconhecer tudo o que de mal vamos fazendo ao longo da vida, admitindo as nossas acções e as suas consequências, assim como o seu impacto nos outros, a fim de tentar emendar esses erros e de evitar que esses erros e outros se reproduzam no futuro, para que possamos sentir que fizemos o que tínhamos a fazer. Tudo o resto está fora do nosso controlo.
A infelicidade também é a memória do que fizemos mal, batalhas perdidas e quase esquecidas, histórias do passado que não soubemos resolver e que afinal estão bem presentes em nós. Isso evita-se com sinceridade.
Não devemos pensar que queremos ser felizes, mas sim no que fazer para tornar melhor o momento que estamos a viver. E isto é tão verdade num encontro a dois, como num jantar de amigos ou durante um dia de trabalho no escritório. Fazer alguém rir, aprender algo novo, ver algo que nunca vimos, partilhar, sentir! Tudo isto pode ser feito em qualquer altura, mas sem forçar. Só temos de estar atentos e dispostos a fazer de um momento qualquer das nossas vidas um momento de felicidade.
O somatório desses momentos traduzir-se-á na felicidade que procuramos, a absoluta, uma felicidade verdadeira que permanecerá na nossa consciência e na dos outros, sobre o que somos e sentimos e, claro, no que fazemos. Se vivermos a vida, aproveitando tudo o que de bom existe nela, de acordo com aquilo que acreditamos ser o melhor, viveremos de forma mais feliz.
Exigirá esforço; não é fácil viver, mas o que mais custa é começar.
(João Freire)
«Não sei para onde vou. Sei que não vou por aí!»
Curiosamente, são estes sonhadores os que sofrem mais com a utopia da felicidade que procuram. Permanentemente insatisfeitos com a falta de algo que não sabem bem ao certo o que será, vivem na agonia constante da insuficiência. Há sempre algo que falta… e o que falta? Falta a felicidade. E o que será a felicidade?José Régio, poeta, em Cântico negro
Falar de felicidade em termos absolutos é algo difícil que deixa muito lugar àquilo que cada um entende como tal. A felicidade de um será necessariamente diferente da felicidade de outro e essa é só aquela que eles percebem como tal e nunca a real, a absoluta, que será obviamente mais difícil de definir.
Podemos concentrar a definição de felicidade em determinadas coisas que queremos obter ao longo da nossa vida, mas nenhuma delas, per si ou em conjunto, conseguirá garantir um sentimento de felicidade se não houver uma conjuntura de estados de espírito, de formas de pensar e agir que vão de encontro àquilo que nos faz felizes. Se conseguirmos hoje tudo aquilo que pensamos que nos fará felizes, arranjaremos logo a seguir algo novo a desejar. Tendemos para o negativismo, porque tudo na vida segue esse postulado negativista, com o epítome da deterioração e da morte e não precisamos de somar a esse negativismo o fracasso na obtenção de algo que não conhecemos muito bem. Procuramos a felicidade lá à frente, sabendo que o tempo, que a beleza e tudo o resto se esvai e, pensando em tudo isto, é fácil deprimirmo-nos.
«This is your life, and it's ending one minute at a time (esta é a tua vida e está a acabar minuto a minuto)»
Chuck palahniuk, escritor, em Fight Club
Mas é por pensarmos e por sabermos que isso adianta pouco, que nos apercebemos – ou deveríamos aperceber – que a visão teleológica da felicidade pouco acrescenta. Ao contrário, prejudica. A felicidade, tal como o bem, a justiça, o amor ou qualquer outro axioma psicológico, social ou filosófico, visto como uma meta, torna-se irrelevante porque o olhar se perde ao longe em vez de reparar no que é imediato, daí que devamos afastar-nos da sua ‘grailização’. A felicidade não se aspira, vive-se e constrói-se. É um lugar-comum dizer isto, mas é verdade.
«Ficar a olhar com uma esperança ociosa equivale a deixar passar a vida em devaneios.»
Yann Martel, escritor, em A vida de PI
A felicidade é apenas um balanço em retrospectiva do que fomos, obtivemos e fizemos e não uma lista de compras à qual vamos juntando vistos.
Seguramente que há requisitos. Penso sinceramente que ninguém conseguirá ser feliz sem um sentido de compreensão, assente especialmente no auto-conhecimento e no entendimento dos outros e do mundo, que permitirá reconhecer os defeitos e as virtudes de tudo o que nos rodeia corrigindo o que se pode mudar, aceitando o que não se pode, valorizando tudo o que de bom existe – especialmente nos outros (que é onde é mais difícil ver), porque esses outros também são indispensáveis à nossa felicidade, e no mundo –, desvalorizando o mau e o negativo, afastando-nos dele, garantindo assim a humildade necessária para navegar pela vida sem ressentimentos, numa aprendizagem constante com a qual crescemos.
«nosce te ipsum (conhece-te a ti mesmo)»
Inscrição mítica no Templo de Apolo, em Delfos
É certo que as dúvidas nos poderão esmagar e, muitas vezes, acabaremos por nos enganar uma e outra vez, mas se não fossem os enganos do passado nunca teríamos as vitórias do presente e nenhuma derrota deve ser suficiente para desarmar a força de uma consciência tranquila. Por isso, não faz sentido, podendo até cair no ridículo quem o faz, afirmar que não existem arrependimentos no passado.
«Um homem que nunca faz erros é um erro da natureza.»
Leonid S. Sukhorukov, autor de aforismos
Sem dúvida que há arrependimentos (tem de haver), porque não haver é presumir uma impossibilidade. Mais do que defender que não nos arrependemos de nada, devemos reconhecer tudo o que de mal vamos fazendo ao longo da vida, admitindo as nossas acções e as suas consequências, assim como o seu impacto nos outros, a fim de tentar emendar esses erros e de evitar que esses erros e outros se reproduzam no futuro, para que possamos sentir que fizemos o que tínhamos a fazer. Tudo o resto está fora do nosso controlo.
«Arrependo-me muitas vezes de ter falado, nunca de me ter calado»
Públio Siro, escritor latino da Roma Antiga
A infelicidade também é a memória do que fizemos mal, batalhas perdidas e quase esquecidas, histórias do passado que não soubemos resolver e que afinal estão bem presentes em nós. Isso evita-se com sinceridade.
«Ama a verdade, mas perdoa o erro»
Voltaire, iluminista
Não devemos pensar que queremos ser felizes, mas sim no que fazer para tornar melhor o momento que estamos a viver. E isto é tão verdade num encontro a dois, como num jantar de amigos ou durante um dia de trabalho no escritório. Fazer alguém rir, aprender algo novo, ver algo que nunca vimos, partilhar, sentir! Tudo isto pode ser feito em qualquer altura, mas sem forçar. Só temos de estar atentos e dispostos a fazer de um momento qualquer das nossas vidas um momento de felicidade.
«Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.»
José Saramago, escritor, em Ensaio sobre a cegueira
O somatório desses momentos traduzir-se-á na felicidade que procuramos, a absoluta, uma felicidade verdadeira que permanecerá na nossa consciência e na dos outros, sobre o que somos e sentimos e, claro, no que fazemos. Se vivermos a vida, aproveitando tudo o que de bom existe nela, de acordo com aquilo que acreditamos ser o melhor, viveremos de forma mais feliz.
«Só existem dois dias no ano em que nada pode ser feito: um chama-se ontem e o outro amanhã. Portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver.»
Tenzyn Giatso, Dalai Lama
Exigirá esforço; não é fácil viver, mas o que mais custa é começar.
(João Freire)
06/10/2009
Amália - Mariquinhas (vou dar de beber à dor)
Vista e ouvida também neste blogue por aqui e aqui
P.S. - A hiperligação remete para a página da Wikipédia da Amália em 日本語. Toda a gente sabia da capacidade que a Senhora Dona Amália tinha para pôr asiáticos a cantar em português!
01/10/2009
Cada vez mais novo
Cada vez parece mais novo – dizia, quando o descobria na rua, entre conversas e sorrisos que se ouviam ao longe.
Nunca parecendo mais novo, devido à impossibilidade de tal facto ao nível celular, com as suas complicações mitocondriais e citoplásmicas, a verdade é que, apesar do inclemente correr do tempo, aquele velho costumava assemelhar-se àquele mesmo velho dias, meses e anos antes dos seus encontros habituais. E o velhote gostava de ouvir aquilo, ainda que mantivesse, por humildade, alguma reserva sobre a sinceridade do miúdo.
Mas o rapaz não disse nada naquele dia - talvez por isso tudo e todos estivessem algo estranhos.
E tudo se resumia a um simples facto: aquele homem estava velhíssimo e se antes parecia fácil dizer algo inócuo, que parecia mais novo, que estava impecável, coiso e tal, parecer-lhe-ia agora um atentado à honestidade e à inteligência do homem que pretendia elogiar com tais comentários.
Numa luta titânica pela conservação, mantivera-se longe de rugas e pés de galinha para além do que seria de esperar, mas pelo que agora se via, aos 90 anos, a velhice tinha acabado por alcançá-lo, atingindo-o bem e com força.
A cara de choque do rapaz denunciava-o e o velho, como se de uma tartaruga se tratasse, de boca aberta e gestos lentos, pouco podia fazer senão resignar-se à imagem mefítica de si mesmo que via nos olhos do rapaz.
O jovem, por seu lado, indagando-se sobre "aquele homem com um punho de ferro, que nem dois homens conseguiam abrir na sua juventude, aquele homem alto e elegante… sempre de fato de três peças", procurava nele, ao menos, a sabedoria, a experiência e a perseverança.
Nada. Entretanto, o homem confuso, perdido... velho!
E tudo nele era silêncio, quase que um vazio, como se ninguém estivesse atrás daqueles olhos baços de uma cor verde de garrafa.
Que rugas tão profundas são essas que me impedem de ver-te, ó velho?
Tinha seguramente menos vinte centímetros, estava curvado (ou torto), amarelo, com pele de papel e andava como se fosse um pinguim, com passos muito rápidos, mas curtos de tão ineficazes e custosos. Morreu no dia seguinte sem ninguém saber que um jovem, como ele era, que há-de ficar velho, como ele ficou, e morrer, como ele morreu, o havia comparado a dois animais: uma tartaruga e um pinguim.
(João Freire)
Participação no tema "Velhice" num desafio da "Fábrica de Letras".
Nunca parecendo mais novo, devido à impossibilidade de tal facto ao nível celular, com as suas complicações mitocondriais e citoplásmicas, a verdade é que, apesar do inclemente correr do tempo, aquele velho costumava assemelhar-se àquele mesmo velho dias, meses e anos antes dos seus encontros habituais. E o velhote gostava de ouvir aquilo, ainda que mantivesse, por humildade, alguma reserva sobre a sinceridade do miúdo.
Mas o rapaz não disse nada naquele dia - talvez por isso tudo e todos estivessem algo estranhos.
E tudo se resumia a um simples facto: aquele homem estava velhíssimo e se antes parecia fácil dizer algo inócuo, que parecia mais novo, que estava impecável, coiso e tal, parecer-lhe-ia agora um atentado à honestidade e à inteligência do homem que pretendia elogiar com tais comentários.
Numa luta titânica pela conservação, mantivera-se longe de rugas e pés de galinha para além do que seria de esperar, mas pelo que agora se via, aos 90 anos, a velhice tinha acabado por alcançá-lo, atingindo-o bem e com força.
A cara de choque do rapaz denunciava-o e o velho, como se de uma tartaruga se tratasse, de boca aberta e gestos lentos, pouco podia fazer senão resignar-se à imagem mefítica de si mesmo que via nos olhos do rapaz.
O jovem, por seu lado, indagando-se sobre "aquele homem com um punho de ferro, que nem dois homens conseguiam abrir na sua juventude, aquele homem alto e elegante… sempre de fato de três peças", procurava nele, ao menos, a sabedoria, a experiência e a perseverança.
Nada. Entretanto, o homem confuso, perdido... velho!
E tudo nele era silêncio, quase que um vazio, como se ninguém estivesse atrás daqueles olhos baços de uma cor verde de garrafa.
Que rugas tão profundas são essas que me impedem de ver-te, ó velho?
Tinha seguramente menos vinte centímetros, estava curvado (ou torto), amarelo, com pele de papel e andava como se fosse um pinguim, com passos muito rápidos, mas curtos de tão ineficazes e custosos. Morreu no dia seguinte sem ninguém saber que um jovem, como ele era, que há-de ficar velho, como ele ficou, e morrer, como ele morreu, o havia comparado a dois animais: uma tartaruga e um pinguim.
(João Freire)
Participação no tema "Velhice" num desafio da "Fábrica de Letras".
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26/09/2009
Truísmos de um dia de reflexão
Não gosto de políticos.
Não será só culpa dos ditos. Não gosto de muita gente e por isso os políticos não são excepção.
Sei que é feio generalizar, pelo que assumo a minha fatia de culpa. Mas o desdém com que eu encaro o ofício e as pessoas que o materializam é, se não o maior, um dos maiores ódios que posso nutrir por algo ou alguém e eles não contribuem muito para inverter esta minha opinião.
Por exemplo...
Não gosto de José Sócrates. Essa é fácil. Como diria a canção: “Não sou o único”.
Tudo em Sócrates parece artificial, desde o ar de galã à forma como fala, ou seja, a forma como trata o eleitorado como uma mulher que pretende conquistar: percebendo que as mulheres na faixa etária dos 18 aos 50 gostam de homens responsáveis (com filhos ou animais de estimação) disponíveis… e que têm muita lábia.
Não gosto de Manuela Ferreira Leite porque para além do ar de professora de colégio interno (com paternalismo incluído e tudo), pertence àquele grande núcleo de políticos que nunca sai completamente do espectro partidário, aliás, permanecem mesmo como espectros, aliás, parece mesmo um espectro (se bem que a aparência não possa servir de justificação para não se votar em alguém).
Não gosto de Paulo Portas porque é populista, demagógico, nacionalista e betinho. Tem tudo pensado para dizer o que as pessoas – algumas pessoas! – querem ouvir. Daí o seu sucesso em feiras.
Não gosto de Francisco Louçã porque é parecido ao Paulo Portas, mas com uma agenda diametralmente oposta. Francisco Louçã tem sempre razão – é daquele tipo de pessoas que nunca perde uma discussão, independentemente de ter ou não ter razão. Só difere do Paulo Portas nas feiras que frequenta.
Finalmente: eu até gosto de Jerónimo Sousa, acho que será até um sentimento comum a muita gente, mas ouvi-lo dizer, naquelas entrevistas à moda de teste americano que foram para o ar na SIC há umas semanas, que chora "com alguma facilidade perante situações de violência com os mais fracos" e que, quando a jornalista (Raquel Alexandra) lhe pergunta se já chorou a ver algum filme, responde rapidamente "Chove sobre santiago", dá-me arrepios de tanto panfletarismo comunista, impossibilitando-me assim de o levar a sério e de o tomar como hipótese de voto.
Ser político é assumir todas as falhas de carácter como virtudes:
- Só os políticos negam a humildade para se diferenciarem dos outros sem serem acusados de gabarolice;
- Só os políticos fazem do apontar o dedo um acto comum sem serem chamados queixinhas;
- Só os políticos evocam o passado em favor de um argumento sem se sentirem rancorosos;
- Só os políticos troçam dos outros políticos sem que ninguém lhes diga que isso é má-educação;
- Só os políticos generalizam qualquer facto como argumento para explicar uma parte sem ninguém lhes lembrar que isso pode ser discriminação;
Mas esta gente nunca ouviu os conselhos das suas avós?
A política, em Portugal, continua a ser a mesma politiquice do início da Democracia.
Sendo assim, enquanto atravessa a fase parva da puberdade, eu abstenho-me de a tentar compreender, recusando-me a participar nas suas aventuras de juventude.
Por estas e por outras, simplesmente não voto.
(João freire)
P.S. - Se ainda votasse na freguesia de onde sou natural, até seria capaz de votar nas eleições autárquicas que se avizinham, porque uma das listas contém gente que eu conheço e sei que vale mesmo pelo que diz.
Não será só culpa dos ditos. Não gosto de muita gente e por isso os políticos não são excepção.
Sei que é feio generalizar, pelo que assumo a minha fatia de culpa. Mas o desdém com que eu encaro o ofício e as pessoas que o materializam é, se não o maior, um dos maiores ódios que posso nutrir por algo ou alguém e eles não contribuem muito para inverter esta minha opinião.
Por exemplo...
Não gosto de José Sócrates. Essa é fácil. Como diria a canção: “Não sou o único”.
Tudo em Sócrates parece artificial, desde o ar de galã à forma como fala, ou seja, a forma como trata o eleitorado como uma mulher que pretende conquistar: percebendo que as mulheres na faixa etária dos 18 aos 50 gostam de homens responsáveis (com filhos ou animais de estimação) disponíveis… e que têm muita lábia.
Não gosto de Manuela Ferreira Leite porque para além do ar de professora de colégio interno (com paternalismo incluído e tudo), pertence àquele grande núcleo de políticos que nunca sai completamente do espectro partidário, aliás, permanecem mesmo como espectros, aliás, parece mesmo um espectro (se bem que a aparência não possa servir de justificação para não se votar em alguém).
Não gosto de Paulo Portas porque é populista, demagógico, nacionalista e betinho. Tem tudo pensado para dizer o que as pessoas – algumas pessoas! – querem ouvir. Daí o seu sucesso em feiras.
Não gosto de Francisco Louçã porque é parecido ao Paulo Portas, mas com uma agenda diametralmente oposta. Francisco Louçã tem sempre razão – é daquele tipo de pessoas que nunca perde uma discussão, independentemente de ter ou não ter razão. Só difere do Paulo Portas nas feiras que frequenta.
Finalmente: eu até gosto de Jerónimo Sousa, acho que será até um sentimento comum a muita gente, mas ouvi-lo dizer, naquelas entrevistas à moda de teste americano que foram para o ar na SIC há umas semanas, que chora "com alguma facilidade perante situações de violência com os mais fracos" e que, quando a jornalista (Raquel Alexandra) lhe pergunta se já chorou a ver algum filme, responde rapidamente "Chove sobre santiago", dá-me arrepios de tanto panfletarismo comunista, impossibilitando-me assim de o levar a sério e de o tomar como hipótese de voto.
Ser político é assumir todas as falhas de carácter como virtudes:
- Só os políticos negam a humildade para se diferenciarem dos outros sem serem acusados de gabarolice;
- Só os políticos fazem do apontar o dedo um acto comum sem serem chamados queixinhas;
- Só os políticos evocam o passado em favor de um argumento sem se sentirem rancorosos;
- Só os políticos troçam dos outros políticos sem que ninguém lhes diga que isso é má-educação;
- Só os políticos generalizam qualquer facto como argumento para explicar uma parte sem ninguém lhes lembrar que isso pode ser discriminação;
Mas esta gente nunca ouviu os conselhos das suas avós?
A política, em Portugal, continua a ser a mesma politiquice do início da Democracia.
Sendo assim, enquanto atravessa a fase parva da puberdade, eu abstenho-me de a tentar compreender, recusando-me a participar nas suas aventuras de juventude.
Por estas e por outras, simplesmente não voto.
(João freire)
P.S. - Se ainda votasse na freguesia de onde sou natural, até seria capaz de votar nas eleições autárquicas que se avizinham, porque uma das listas contém gente que eu conheço e sei que vale mesmo pelo que diz.
04/09/2009
Ninguém responde não quando se pergunta se está tudo bem
Quando alguém nos diz que está triste ou, sem o dizer, nos manifesta isso mesmo de qualquer forma, não cria em nós nenhum sentimento positivo em relação a essa pessoa!
(A pena será o sentimento mais distante do amor e do respeito)
Cria, sim, um sentimento positivo em nós, que estamos melhor, que não estamos tristes, que não estamos dispostos a dizer tanto de nós para nada, que não caímos, enfim, na vergonha de nos despirmos em público.

E depois há pessoas para as quais nenhuma resposta é a correcta, pessoas para quem nada parece certo e quanto mais dizemos, mais fazemos ou escrevemos... pior é.
Quem conseguir dizer o que está certo, à pessoa certa, no momento certo, sem falar de mais ou de menos (o que seria a quantidade certa), atingirá a felicidade, ajudando a espalhá-la.
(João Freire)
(A pena será o sentimento mais distante do amor e do respeito)
Cria, sim, um sentimento positivo em nós, que estamos melhor, que não estamos tristes, que não estamos dispostos a dizer tanto de nós para nada, que não caímos, enfim, na vergonha de nos despirmos em público.

E depois há pessoas para as quais nenhuma resposta é a correcta, pessoas para quem nada parece certo e quanto mais dizemos, mais fazemos ou escrevemos... pior é.
Quem conseguir dizer o que está certo, à pessoa certa, no momento certo, sem falar de mais ou de menos (o que seria a quantidade certa), atingirá a felicidade, ajudando a espalhá-la.
(João Freire)
01/09/2009
13/07/2009
Chris Cornell e o concerto de Dave Matthews
O amor e a adoração contagiam facilmente. Alguém que teve sucesso (em qualquer área, desde a pessoal à profissional) dificilmente convive sem ele. Ninguém lida bem com a rejeição depois da aceitação generalizada. Alguns adaptam-se, conformando-se com a nova situação, racionalizando as suas virtudes, outros simplesmente matam-se na ânsia de que apenas fique a memória de um período áureo e outros tentam mudar, adaptar-se ao mundo que os rodeia, mantendo a todo o custo essa adoração, renunciando em última análise ao que são. A necessidade de nos sentirmos amados faz com que tentemos agradar ao maior número de pessoas, muitas vezes sem prestarmos atenção àquilo que nos agrada a nós.

Olhar para Chris Cornell e, sobretudo, ouvir a música que ele tem feito nos últimos tempos, é constatar a decadência de um homem que muitos consideravam um ídolo. Não será pelo aspecto de arrumador de carros que ele demonstra quando chega ao palco, não será certamente pela voz (em melhor estado do que quando veio com os Audioslave ao semi-demolido Alvalade), nem será muito pela banda assexuada de estilo emo que o acompanha, mas será muito pela música, encomendada ao mercenário dos easymade hits Timbaland, e pelas letras que a todo o custo tentam encaixar-se nelas em refrões orelhudos e simplistas que não lembrariam a bandas de garagem portuguesas - em caso de diferença, talvez o inglês destas pudesse ser mais cuidado. O produto talvez seja aliciante para muita gente, ao meu lado muita gente repetia ad nauseum "That bitch ain´t a part of me. I Said no, that bitch ain´t a part of me", mas a que custo? Conheço homens de 30 anos que se tivessem ouvido o que eu ouvi naquele concerto teriam vertido algumas das primeiras lágrimas da sua vida, homens (e mulheres) que aprenderam a conhecer a música, a língua inglesa e a literatura, o cinema, etc., moldando a sua identidade à volta de alguns valores supremos que, por exemplo, a banda de Chris Cornell, Soundgarden, divulgou amplamente.
O concerto não foi tão mau como seria de esperar, muito por culpa de incursões na música de Soundgarden (em vão esperei por Blow up the outside world), dos Temple of the Dog e até de Audioslave (que parece brilhante quando comparado com o último álbum de Chris, Scream), mas ainda assim, foi um sinal óbvio de um homem, que, só espero, esteja em luta com ele próprio, porque enquanto há luta há esperança.
Sobre Dave Matthews Band, com menção especial para Carter Beauford: Faltou Some Devil, Gravedigger, Angel e Save me* para ser genial! Assim, foi só brilhante.
... E a versão de All along the watchtower, com a inclusão da parte final de Stairway to Heaven? Perfeita!
*Gravedigger, Save me e Some devil são canções do álbum a solo de Dave Matthews, intitulado Some Devil, facto que tornava quase impossível a sua reprodução no concerto, mas, ainda assim, a esperança manteve-se.
Fotografias retiradas do Blitz
(João Freire)

Olhar para Chris Cornell e, sobretudo, ouvir a música que ele tem feito nos últimos tempos, é constatar a decadência de um homem que muitos consideravam um ídolo. Não será pelo aspecto de arrumador de carros que ele demonstra quando chega ao palco, não será certamente pela voz (em melhor estado do que quando veio com os Audioslave ao semi-demolido Alvalade), nem será muito pela banda assexuada de estilo emo que o acompanha, mas será muito pela música, encomendada ao mercenário dos easymade hits Timbaland, e pelas letras que a todo o custo tentam encaixar-se nelas em refrões orelhudos e simplistas que não lembrariam a bandas de garagem portuguesas - em caso de diferença, talvez o inglês destas pudesse ser mais cuidado. O produto talvez seja aliciante para muita gente, ao meu lado muita gente repetia ad nauseum "That bitch ain´t a part of me. I Said no, that bitch ain´t a part of me", mas a que custo? Conheço homens de 30 anos que se tivessem ouvido o que eu ouvi naquele concerto teriam vertido algumas das primeiras lágrimas da sua vida, homens (e mulheres) que aprenderam a conhecer a música, a língua inglesa e a literatura, o cinema, etc., moldando a sua identidade à volta de alguns valores supremos que, por exemplo, a banda de Chris Cornell, Soundgarden, divulgou amplamente.
O concerto não foi tão mau como seria de esperar, muito por culpa de incursões na música de Soundgarden (em vão esperei por Blow up the outside world), dos Temple of the Dog e até de Audioslave (que parece brilhante quando comparado com o último álbum de Chris, Scream), mas ainda assim, foi um sinal óbvio de um homem, que, só espero, esteja em luta com ele próprio, porque enquanto há luta há esperança.
Sobre Dave Matthews Band, com menção especial para Carter Beauford: Faltou Some Devil, Gravedigger, Angel e Save me* para ser genial! Assim, foi só brilhante.
... E a versão de All along the watchtower, com a inclusão da parte final de Stairway to Heaven? Perfeita!*Gravedigger, Save me e Some devil são canções do álbum a solo de Dave Matthews, intitulado Some Devil, facto que tornava quase impossível a sua reprodução no concerto, mas, ainda assim, a esperança manteve-se.
Fotografias retiradas do Blitz
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(João Freire)
26/06/2009
13/04/2009
A Páscoa
O objectivo da sociedade de consumo é transformar todos os dias, desde aqueles em que há alguma celebração, como a Páscoa, o Carnaval... ou mesmo o dia de finados, até aos outros dias do ano em que não se celebra nada, num sucedâneo mercantilista do Natal. E está a consegui-lo.
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