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29/10/2008

Amor totó

É um amor irracional, um amor cheio de “mas” e “ses”, um amor unilateral e ascendente, é um amor de seguidor e crente religioso, um amor de fã, um amor sicofanta e incontestável, é um amor de língua de fora e rabo a abanar, é um amor de corno que aceita tudo, um amor que subsiste para além da morte cerebral, é um amor ligado às máquinas, é um amor burro, inocente e ingénuo, um amor de cantorias, assobios e piruetas, um amor chato, palerma, tonto… um amor ‘parvinho alegre’! É um amor de palmadas no rabo e orelhas e lábios trincados, um amor de sussurros, de diminutivos, de flores colhidas no campo e beijos atirados ao ar, um amor descomprometido e desinteressado que não diz muito sobre aquele que ama, mas muito mais sobre aquele que é amado. É um amor de totó.

(João Freire)

23/10/2008

Saliva no umbigo

Foi ela que telefonou. Quero que fique bem claro este ponto. Não fui eu que a convidei para jantar, nem fui eu que falei na serra da estrela, de um restaurante e uma cabana, e na costa vicentina. Confesso que pensei em ligar-lhe, dizer-lhe qualquer coisa, mas à primeira vista ela parecia inatingível. No entanto ela ligou (continuam a acontecer-me coisas inacreditáveis no que concerne ao amor. Penso que já tive esta sensação três ou quatro vezes. Não é mau!) e com um telefonema veio um jantar, ou melhor, aquilo que seria um jantar. Na realidade estivemos nas ruínas de um castelo a conhecermo-nos melhor. Ela pediu para me beijar, fizemo-lo e depois continuámos nisso até casa dela. Com o primeiro beijo as primeiras dúvidas, desde logo minhas porque é costume duvidar daquilo que não conheço, e as dela, porque sentia as minhas. Não consigo evitar apaixonar-me pelo que já conheço e não pelo que quero conhecer. Há quem pense que é bom ou mau. Para mim tanto me faz. Pouco tempo depois veio a minha viagem, uma ausência anunciada que começou connosco no carro numa dificuldade enorme para nos despedirmos e largarmos. Ela disse que ia sentir muitas saudades e não mentiu. Sentiu. Por lá recebi a notícia que ela estava com dor de dentes e maus pensamentos - concerteza relacionados - mas que sentia muito a minha falta e que estava aborrecida por eu não lhe responder com a assiduidade pretendida. Teriam passado dois dias. No regresso o fim. Do lado dela as dúvidas que se tornaram um argumento irreversível, do meu as mensagens que ela não recebeu, várias, suficientes para atenuarem a dúvida crescente, mas que nunca foram recebidas sabe-se lá pela graça de que força; as recordações da viagem em forma de um caderno de esboços, um postal e um anel que não foram entregues e as promessas de uma certeza descoberta pela ausência. Apenas ficou o afastamento simples e inócuo, como eu. Só quando perco o que tenho é que lhe sinto a falta.


(João Freire)


Air - All i need



Recordado para o tema "Paixão" num desafio da "Fábrica de Letras"

15/10/2008

Queria pedir-te para me tirares uma fotografia enquanto olho para ti, pois de certeza que conseguiria retratar o amor

Já não sei o que sinto.
O amor resvala frequentemente na direcção do ódio, aproximando-se perigosamente da indiferença. A compreensão, o compromisso e aceitação e até o afecto entre duas pessoas ficam pelo caminho e nada volta a ser como era. Fica sempre a mágoa e pior do que isso, fica sempre um sentimento latente de reconquista que nenhum quer concretizar mas para o qual ambos contribuem. Há sempre um lado que se sente bem com a imagem de si no outro e que luta por manter essa luz por perto para o animar e aquecer e depois há o outro lado que tem sempre algo a provar, que sente que falhou e que procura manter a face. Ficam as dúvidas que se instalam umas em cima das outras, duvida-se do que se sente e até daquilo que se sentiu quando se falava em amor. Como acontece esta transformação?

O amor é uma inequação, uma desigualdade que só é verdadeira com certos valores das variáveis, mas que ninguém conhece. O amor conterá paixão, amizade, individualidade, compreensão, confiança, luta, vontade, sexualidade e tudo o resto que alguém possa lembrar, mas nunca constituirá uma fórmula fixa com um desenvolvimento objectivo e linear. Eu sempre pensei que nunca me apaixonaria, que sempre iria conhecer primeiro a pessoa e depois enamorar-me por esse conhecimento, mas também já saltei de cabeça para o desconhecido e ninguém poderá dizer-me que uma forma será mais correcta do que a outra. À sua maneira, ambas tiveram sucesso e ambas fracassaram. O amor pode começar de uma forma e acabar logo de seguida ou começar da mesma forma e funcionar pela eternidade. Isto é verdade para o princípio do amor como para o fim. Importa o que fica, o que aprendemos e um recém-descoberto amor por nós próprios, mas perde-se um pouco da magia. De facto, quanto mais falo com pessoas de idade avançada, mais me convenço de que o amor enfabulado, aquele de que são feitas as histórias de princesas e príncipes, se transforma em vários amores pequeninos que se distribuem pelos filhos, pelos netos, pela vida e, claro que também, pelo conjuge, e vai desvanecendo até ficar uma memória daquilo que se fazia quando se amava e não do que se sentia. É um amor, mas um amor diferente. Ninguém duvidará que o amor na velhice não assenta na paixão e na sexualidade como acontece aos 17 anos. Claro que todos queremos a magia e o querer, essa vontade partilhada terá até muito a ver com o sucesso da manutenção de um amor pela vida, mas a desmistificação do amor também fará bem às pessoas, obrigando-as a reflectir nas suas escolhas e a tomar um papel activo na construção do amor. Numa vida de facilidades, alguma luta e trabalho fazem bem. E melhor do que acreditar na magia é tornar todos os momentos mágicos. Acreditar que as coisas podem acontecer sem fazermos por isso é simplista, denegrindo a própria ideia de amor.

O amor é um sentimento superlativo de afecto relacional. Tudo isto e só isto.


(João Freire)

Cat power - Love and communication


Recordado para o tema "Paixão" num desafio da "Fábrica de Letras"

14/08/2008

Sem conseguir respirar

Saltou.
A primeira coisa que sentiu foi uma descarga de adrenalina.
Sempre discutira se seria um acto de fraqueza ou de coragem. Podia finalmente afirmar que era um acto de coragem... pelo menos ali, no abismo que era aquela janela, naquele último impulso.
Não pensou em muita coisa naqueles segundos de viagem. Pensara em tudo o que havia para pensar antes de saltar.
Lembrou-se dos pais ou do pouco que tinha para se lembrar deles após aquela noite em que a avó o levou, a ele e aos quatro irmãos (duas raparigas e dois rapazes), para o quarto, depois de um guarda entrar na casa, já muito tarde, retirar o boné, sentar-se na cozinha e pedir para falar a sós com ela, enquanto ela começava a chorar. Lembrou-se também dos seus irmãos, não aqueles que tinha agora, de quem não sabia nada para além do nome das suas profissões, mas dos outros, com menos 25 anos, a brincar em todo o lado, a invocar o inferno pela casa da avó. Depois, por fim, tentou lembrar-se da namorada, mas não conseguiu ao certo. Pensou numa, noutra... em duas ou três caras de amores esparsos que pouco lhe diziam agora e que o resolviam com mais força. No fundo, todo o presente ou o passado mais próximo era uma mistura indistinta de caras, sítios e coisas. Nada ficava, nada valia a pena.
Antes de viver, é preciso sobreviver, mas quando a nossa vida se resume a isso, a sobreviver, deixa de ter sentido. Tudo naquele homem era uma luta constante... jurava mesmo que lhe custava mais acordar, levantar-se, vestir-se e fazer alguma coisa do que ficar na cama quatro dias seguidos sem comer, mesmo com as dores da imobilização que o atacavam na zona dos rins. Acho que foi por isso que não pensou em mais nada - ou talvez nem tenha tido tempo - do que o sol a bater na cara, das sensações que isso lhe provocava sempre, e do vento, barulhento mas ao mesmo tempo tranquilizador, que lhe empurrava a respiração para cima, atrasando qualquer movimento. Foi já perto do fim que teve algum medo.

(João Freire)


Archive - Again


Para o tema "Abismo" da "Fábrica de Letras"

26/03/2008

Mudança de paradigma - A evolução do beijo

Ao longo dos tempos o homem foi evoluindo num sentido absolutamente superior à mulher. As actividades a que se dedicavam, as suas diferenças sexuais congénitas acentuaram uma situação que terá atingido o seu limite no século XIX. O homem caçador-recolector, a mulher mãe e dona-de-casa, foram ao longo dos séculos os mastros da maior parte das sociedades. A própria forma de agir e pensar estava compartimentada há muito e definiu biologicamente diferenças que se cristalizaram ao longo de todo esse tempo. Isto são factos. Mas a partir daí, desse século XIX, algumas mudanças começaram a inverter o sentido dessa caminhada e hoje, apenas um século e uns pozinhos depois (por oposição a uma situação que demorara dezenas de séculos a atingir-se), começou a desenvolver-se um novo paradigma, um que ameaça agora as sociedades dominadas pelos homens, mais propriamente os homens que nelas se inserem.
O grito do Ipiranga dado pelas feministas nos fins do século XIX, e que perdura ainda, pode ter começado com a defesa de uma igualdade entre géneros, mas basta olhar para o que se passa no mundo actual para ver que o que está a acontecer, mesmo que ninguém o pretenda de forma consciente, é a substituição de domínio! Ou seja, é clara a minha convicção de que as sociedades dominadas pelo homem não estão a caminhar para uma igualdade entre os géneros, mas sim para a substituição do domínio dos homens pelo domínio das mulheres.
As mulheres são de forma generalizada melhores do que os homens na maioria das actividades humanas e se houve algum domínio masculino isso deve-se ao papel que o homem desempenhou como garante da subsistência da família, mas esse papel, num nível cosmológico, durará pouquíssimo mais, chegando a um ponto em que tal garante não dependerá da força física, o que leva o homem a tornar-se cada vez mais obsoleto. Basta olharmos para a fisiologia das mulheres para vermos que o cérebro delas está melhor preparado do que o nosso para pensar. Sim, o cérebro da mulher é mais eficaz para raciocinar, porque, simplesmente, as ligações entre os dois hemisférios são mais eficazes na mulher do que no homem. São diferenças que foram desenvolvidas ao longo da evolução, mas que, em última análise, melhoraram muito mais as mulheres do que os homens. Isto também é um facto. Os resultados estão aí: mais de 60% dos universitários de todo o Mundo são do sexo feminino.
As mulheres, à custa de muito trabalho da parte delas, conseguiram colocar-se à beira do pódio do mundo, prestes a dominar todas as áreas da vida em sociedade e o que é certo é que não visam apenas a igualdade, e mesmo a brincar vão dizendo que tudo seria melhor se as mulheres mandassem, e esse  domínio aproxima-se inexoravelmente. Se será melhor ou não é impossível dizer, mas que vai acontecer vai. E é fácil constatarmos esta inversão dos papéis, bastando para isso olhar a arte, a montra do sentir da humanidade.  
De facto, a representação das mulheres na arte, seja na música, no cinema, na pintura ou em qualquer outra forma cultural, já não é - nem devia ser - a epítome de uma mulher submissa, mulher sentimento e emoção, a mulher conquistada, arrebatada, enfim, fraca, mas também não é o da mulher como igual, antes tudo o inverso, cabendo agora ao homem o papel deixado vago pela mulher, pois ele já não conquista mas é conquistado, pelo menos mais activamente, na medida em que elas começam a ter um papel preponderante na aproximação.
Um exercício fácil de fazer é traçar uma linha entre o olhar do homem e o da mulher nas cenas de beijos retratadas nas mais variadas formas de arte, como as que ilustram este texto. Fazendo esse exercício vemos que a linha vai passando de um sentido descendente (o homem olha a mulher de cima para baixo) para um certo nivelamento e até uma inversão dessa mesma linha. Isto denotará uma mudança  na imagem social do amor.
Sendo assim, uma vez que já não é o garante da subsistência, o homem aproxima-se inexoravelmente da não existência, do homem que é apenas aceite, o homem objectificado, e que ao contrário da mulher não detém, no seu posto mais fraco, nenhum poder, pois a mulher, mesmo quando se encontrava numa posição inferior no ranking dos géneros, sempre se soube valer de “pérfidos” sistemas para ir aqui e ali dominando algumas áreas da existência humana, estratégia que os homens, por limitações várias e também por estarem ainda numa fase de habituação a esse papel secundário, não conseguem imitar, mostrando-se nitidamente afectados pela sua desvalorização ao mesmo tempo que denotam estranheza na sua situação.
Urge perguntar sobre qual o papel que é esperado dos homens nas sociedades actuais? Que sejam providenciadores, que sejam independentes? Eu acho que ninguém sabe, acho mesmo que as mulheres não conseguirão dizer com certeza absoluta aquilo que querem e esperam de um homem. Ao homem actual restará apenas a solução de ser quase perfeito, de ser cavalheiro, mas respeitar a independência das mulheres, de ser sensível para entender as fraquezas humanas, mas forte para arrebatar paixões, de ser, enfim, aquilo que as mulheres querem que eles sejam a determinada hora, consoante o seu estado de alma, porque de outra forma não conseguem espalhar a sua semente, razão básica pela qual eles se encontram aqui. Vendo bem, essa razão será a única, porque em tudo o resto elas já substituem os homens, perfilhando até algumas das características que mais repudiavam, emulando os seus hábitos e, é claro, as suas consequências.
Recapitulando, se o homem morria mais cedo porque era ele que se expunha aos riscos da caça, da luta, da alimentação desregrada e dos hábitos de vida mais prejudiciais e a mulher subsistia durante mais tempo devido ao seu papel educador das gerações mais novas e à sua poupança nos malefícios da vida, agora já não é assim, havendo uma mitigação nas esperanças médias de vida, as quais, por sua vez, também se inverterão totalmente. Mas é claro que isto demora tempo. Ambos os sexos estão a aprender a lidar com esta nova situação e não é algo que mude de um dia para o outro, mas apenas e só uma tendência que se nota. Provavelmente, será de todo impossível almejar a uma sociedade igualitária, não ao nível dos direitos, mas dos poderes de interacção entre os sexos; a um paradigma de domínio do homem seguir-se-á um paradigma de domínio da mulher, depois do homem, da mulher e assim sucessivamente.
Claro que esta avaliação generalista, que vê os sexos como corporação, carece de absolutismos, até porque qualquer lei social tem de ter em conta as especificidades dos indivíduos, mas há comportamentos sociais universais que facilmente se podem identificar.  Haverá sempre lugar para as excepções nos homens, como também as houve e ainda há para as mulheres. Da mesma forma que ainda existem homens à antiga, também existem mulheres à antiga e para esses a convivência até é facilitada devido à definição pré-estabelecida do papel de cada um, pois como algumas correntes da Sociologia nos dizem (nomeadamente as que decorreram da Escola de Chicago) todas as relações são relações de poder e as relações nas quais a hierarquia de poder está mais bem definida são as que menos conflitos geram. Se isso é bom ou mau é que ninguém sabe.
Convém também salientar que nada do que é dito aqui visa branquear as desigualdades baseadas no género que ainda subsistem, constituindo-se apenas como um exercício pessoal de análise subjectiva de um fenómeno que, verificável ou não, está latente numa sociedade indiscutivelmente mais femininista e por isso também mais feminina. 
Por isso, nós, enquanto homens, não temos de nos preocupar, apenas temos de nos conformar em que nos escolham, em sermos o melhor possível para o papel que nos reserva e se aceitarmos esse papel até seremos bem sucedidos nas relações, com a noção de que caminhamos para uma sociedade pior (no sentido da perda do domínio), mas que ainda tardará. Não é, mais uma vez, uma mudança revolucionária e apenas uns indícios se assumem. Contudo, olhando à volta e também para dentro, já vejo aí muitos homens e mulheres a agirem de acordo com o que aqui está escrito.


(João Freire)

Reaproveitado para o tema de Janeiro de 2011, Preconceito, num desafio da "Fábrica de Letras"

03/02/2008

Um segredo

É difícil ser sincero. Penso até que será impossível. Mesmo a pessoa com as melhores intenções não negará a utilidade de uma mentira inocente, de uma verdade que se esconde para não magoar, de um segredo que se mantém apesar da pertinente pergunta o querer revelar. Quantas vezes te escondi o que queria dizer com medo que não respondesses da mesma forma? Quantas vezes não te falei à espera que dissesses tu a primeira palavra? Queria saber o que nunca soube, chegar a uma conclusão sobre o que sentias e elaborei jogos na minha cabeça para descobrir tudo. Menti, escondi, fugi, fiz tudo aquilo que não devia em busca daquilo que achava ser certo. Tentei descobrir-me e descobrir o mundo, mas nada vi para além da desconfiança. O que alcancei? Claro que ainda não sei nada ou sei pouco. Sei que é difícil mostrar o que vai dentro de nós. Não queremos parecer frágeis, não queremos magoar os outros. E aquilo que vai cá dentro muda tanto. Como é que podemos ser sinceros com os outros se às vezes não conseguimos ser sinceros connosco? Aquilo que eu sinto hoje não é o que eu senti ontem e não é certamente o que eu sentirei amanhã. A verdade é que por muito que queiramos ser sinceros nunca o conseguimos ser na totalidade porque nestas coisas não há verdades absolutas. Os sentimentos mudam, a nossa maneira de ver o mundo também muda e temos demasiadas dúvidas sobre tudo. Não sabemos sequer quem somos, apenas o que fomos. Mas claro que também há um lado útil nisto tudo. A incapacidade de sermos sinceros mantém tudo em aberto. As portas nunca estão verdadeiramente fechadas se não temos chaves para as encerrar, mesmo que às vezes seja o melhor a fazer. Talvez um dia consiga ser sincero, sentir por dentro o que passo para fora. Talvez seja essa a finalidade do Homem, aquilo que dizem de se encontrar, sem jogos, sem máscaras, sem mentiras. Por agora, só sei que é complicado. Não sei porque é assim e nem gosto que seja assim, mas é e, por isso, quem sabe?

(João Freire)

14/09/2007

Regina

Queria dizer
Regina
Queria ouvir
Regina
A casa está vazia
Nenhum homem devia sair da cama sem beijar a testa da mulher que nela repousa
Deixaste-me só e eu fiquei amargo
Sou um homem velho e amargo
Choro por já não me lembrar de ti
És a imagem distante e desfocada de um tempo melhor
Um tempo em que a raiva não procurava um escape
Também sou rancoroso
Culpo tudo e todos por não já não te ter
E restam-me as pequenas coisas:
O jeito como compunhas a gola do meu casaco antes de eu sair
A sopa de legumes que só eu comia
E o teu nome, Regina
Vejo-o em todo o lado
Vejo-o quando acordo e vejo-o quando durmo
Vejo-o no rosto da nossa filha
E sonho com ele, dizendo:
Regina
Temos uma dança marcada no céu
Regina

(João Freire)

Para o tema "Velhice" num desafio da "Fábrica de Letras".

30/08/2007

Não vou para a rua andar

Não vou para a rua andar. Não gosto de andar se não tenho um destino ou se o destino é o próprio passeio. Assim fico e, por aqui, vou passando por ti e por outros que recordo desde há muito tempo. Passo também por pessoas que nem conheço, ilusões de perfeição, pessoas tão fantásticas que nem me vêem. Quanto custaria uma operação plástica à humanidade? Perco-me em contas e adormeço ao pontapé. Durmo e choro, acordo e perdoo, lembro-me que não chorei sem ser no sonho e que gostava de o fazer. Sinto que a impressão que tenho na barriga desapareceria se chorasse mais. É claro que já chorei, isso não é difícil, mas sozinho não. Há qualquer coisa de dramático no choro e que só funciona quando estou acompanhado… com público. Lavo-me dessa chuva e penso no que virá: Eu a dizer: “Lembro-me daquele dia no metropolitano em que nos despedimos com um olhar prolongado. Tu a leres e a levantares o olhar por um instante e eu cá fora (portas a fechar) a seguir o comboio com os olhos. Pensei que não te tornaria a ver, mas as rotinas de uma grande cidade ajudaram o nosso destino.” Tu, mais calada, simplesmente sussurrando um sorriso, apertas-te mais no meu peito e adormeces. Fica o silêncio. Por agora sonho. Sei que não o devo fazer, até porque consigo ver aquele olhar em ti que não percebo. Passaram apenas poucos dias e é difícil para mim saber o que pensar. Acho que é por isso que eu quero chorar.

(João Freire)

Texto Reeditado para o tema "Silêncio" num desafio da "Fábrica de Letras"

06/05/2007

A árvore azul dos relógios.

Lembro-me da conversa que tivemos naquele dia. Os dois sentados no galho mais fino do ramo mais alto de uma árvore azul. Ao fundo, deitado sobre a relva cor-de-rosa, um cavalo alado lambia uma das patas. O céu estava verde claro, pois era final de tarde e o sol vermelho com as riscas brancas já mal se via. Como era suposto, num dos meses do meio do ano, estava frio.
- Eu quero a paixão. Sentir as pernas tremer quando vejo quem eu amo.
(- A mim basta-me o conforto, sentado a ver televisão na tua companhia… de vez em quando um beijo ou um passeio e essa tremedeira não existe para sempre)
- Não penses que não gosto…. Gosto muito, mas isto que sinto…
(-Neste caso o que não sentes)
- Foge à explicação.
- Eu compreendo.
(Sempre compreendi, excepto quando não compreendia.)
- Posso estar enganada… Espero! Espero estar enganada, mas nesta fase apenas quero o que quero.
- Eu compreendo.
- Ó meu Deus como eu quero estar enganada.
- Estarás, certamente. Não te preocupes, não chores.
- É uma questão de olhar, percebes? É aquele olhar… Olha! Esse mesmo que tu tens. É preciso esse olhar para as coisas funcionarem e eu não o vejo em nós.
- Bem, jeitosa, (agarrei o seu queixo e sorri) tu sabes o que eu sinto…
- Preciso sentir a tua ausência para descobrir a saudade. Conhecer outras pessoas para me descobrir, ver do que é feito o mundo e o amor. Quero aprender. Não quero que esperes, mas espera, não quero que me ames, mas ama. É bom sentir-te em mim, saber que não te perdeste por outros caminhos, por outro amor.
- Vou tentar não ser egoísta e esperar por ti sem me apaixonar por mais ninguém enquanto tu procuras. Procura a tua felicidade no mar, que eu espero por ti aqui nesta barcaça, para te salvar… para, por fim te amar. Eu espero.
(Não é brincadeira. As coisas são mesmo assim neste mundo de estradas feitas de chocolate.)
- É só isso que eu peço, querida ‘amiga’, desmasculiniza-te por mim. Sofre enquanto eu sofro e não te descubro. O dia há-de chegar e aí nós partiremos nessa barcaça de que tu falas. Talvez eu olhe para trás, talvez não. Talvez tu percebas nesse momento que não me amas. Talvez. Nesse dia eu morro.
O sol de tiras vermelhas e brancas já não se via e o amarelo da noite prevalecia sobre o vale. Tu desceste, gentilmente, da árvore azul dos relógios, sobre o olhar atento do cavalo alado. Pé ante pé, galho ante galho até ao chão. Eu fiquei mais um tempo, vendo-te partir. Sempre gostei de te ver partir.

João Freire

29/04/2007

O negro

Em tudo o que faço, há um pouco de raiva... um pouco de revolta quando ouço ou falo com alguém, mas há, sobretudo, muita incompreensão e isso é o que custa mais, porque sem razões ou meras desculpas tudo é mais difícil de suportar... cá dentro, bem no fundo, onde tudo se acumula camada sobre camada até à exaustão e enjoo... até ao sabor a podre, até ao travo amargo do fel, travo que é o sofrimento – umas vezes ocasional outras mais relutante e permanente consoante o dia... consoante a disposição. Má disposição! Arroto com sabor a vómito! Pessimismo desmedido que repousa no negro de uma alma que repousa no negro de um caixão que repousa no negro de um buraco escuro, muito escuro e negro.
Lá fora há sol, sol quente de primavera, que relembra às pessoas o verão, as mesmas pessoas que, por isso, se sentam nos degraus sobranceiros de qualquer local suficientemente bom para se estar... só estar. Mas cá dentro, dentro deste quarto que sou eu, as luzes estão apagadas, as cortinas cerradas, as persianas descidas, a janela e a porta estão fechadas e trancadas. Sentado, recostado, quase deitado, no sofá seco e poeirento, rodeado do calor bafio e húmido da minha própria presença, sem nenhuma aragem de qualquer fresta que compartilhe ar, olho para nada. Na parede reflecte-se um bocado do sol, só sol, sem ar, que trespassa o vidro através dos quatro, ás vezes cinco, buracos da persiana e eu semicerro os olhos até à visão nublada, até à alienação do espaço e do tempo e penso em ti, ninguém em especial, ninguém em concreto, apenas alguém que me pergunta hoje como estou e a quem eu respondo mostrando isto, o negro.

João Freire