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20/04/2008

Empresas de Portugal... o aroma* da natureza

Há empresas em Portugal que abusam da sua posição dominante no mercado.
Há empresas em Portugal que usam a falta de transparência como forma de negócio.
Há empresas em Portugal que preferem chupar o cliente do que fidelizá-lo.
Há muitas empresas assim em Portugal…
Há uma, por exemplo, que exerce a sua actividade na área das comunicações e que não deixa ninguém indiferente. De facto, quem não tem queixa dessa empresa portuguesa na área das comunicações? Chamemos-lhe comunicações PT para abreviar, uma vez que é uma empresa de comunicações que é de Portugal, mas podíamos chamar-lhe outros nomes. Esta empresa tem vários serviços, entre os quais o da Internet, ao qual estão acoplados várias características e respectivos preços. Assinar é fácil, não custa nem demora mais do que um telefonema. Apenas temos de esperar uns dias e depois é sempre a assapar, como dizíamos na escola quando éramos novos. E é. Não é à velocidade que eles dizem e o tráfego que publicitam está sujeito a intervenções duvidosas (ficam a saber, em jeito de exemplo, que, apesar do serviço que dispomos ser dos mais baratos do pacote, podemos activar o tráfego internacional por apenas um acrescento de uma módica quantia à nossa factura mensal, mas depois quando queremos desactivar essa opção ela não existe. Activar? “Muito bem, clique aqui”. Desactivar? “Ah, não. Isso é preciso telefonar e não sei ao certo se não terá de mandar todos os seus dados pessoais e os do seu gato, uma vez que me disse que tinha um gato – aliás, não me disse, mas eu ouvi-o a miar num dos seus telefonemas e, como sabe, quando tem um gato, tem de enviar todos os dados para a comunicações PT”). Mas é, apesar de tudo, a assapar. O problema nestas empresas, o grande problema, digamos, e na comunicações PT em especial, é mesmo quando queremos cancelar o serviço. Obviamente, porque somos pessoas informadas, consultamos a página da Internet à procura do contracto e dos assistentes visuais que nos informem sobre o que fazer. Quando encontramos, numa sub-página de uma sub-página de um link que quase não tem a ver com a empresa, é-nos dito que um simples telefonema basta. Aqui entram os telefonemas e, pasme-se, aquilo que me parece ser a maior forma de negócio da empresa, pois a chamada é a pagar e todo o enredo do telefonema é feito para nos fazer desperdiçar a maior quantidade de tempo e, logo, pagar mais por isso. Para além disso, sabendo que é a pagar, os utentes não insistem tanto nas dúvidas que têm e as acções de formação que os operadores têm ajudam a lidar com o mais resoluto dos clientes. Fazemos esse telefonema e depois de nos passarem de operador para operador dizem que assim só não dá, que fazem o cancelamento via telefone, mas que precisam dos dados do utilizador, com Bilhete de Identidade e assinatura e só depois de receberem os dados é que podem iniciar o processo de cancelamento que demora 20 dias. Ou seja, é preciso fazer dois cancelamentos. Dirigimo-nos à loja onde pagamos as nossas contas de Internet e dizem o mesmo, que é preciso enviar! Tenho a impressão de que se fosse á sede me diziam o mesmo. Depois mandamos tudo o que pedem, e como pensamos que somos pessoas informadas, até mandamos tudo na forma de uma carta registada com aviso de recepção. Uma semana e meia depois recebemos uma carta - li num fórum da Internet que acontece sempre isto com esta empresa -, e nessa carta diz que falta um documento e que só quando mandar esse documento é que podem iniciar novamente o processo de cancelamento do serviço, ou seja, mais vinte dias. Verdade seja dita que desta vez até facilitam e o envio pode ser feito via fax. Depois, mas neste caso acho que fui só eu, ainda recebi uma mensagem a dizer que “conforme o pedido, o serviço [nome de um anfíbio verde de pequenas dimensões] ADSL iria continuar activo"!
Há empresas que preferem lidar com os clientes como se fossem chulos ou vendedores de Crack e para esses há várias soluções. Que publicidade esperam eles que eu faça do seu serviço? Não saberão eles que há outros vendedores de droga ou que até poderei deixar o vício? Não adianta por isso utilizarem nomes de animais ou de pronomes ou de outra coisa qualquer nos vossos produtos, para esconder a verdade do monstro que está por trás a mexer os cordelinhos, porque toda a gente sabe quem são e a longo prazo são vocês que perdem mais ou, numa linguagem que vocês entendem, que ganham menos.
Há empresas que nunca aprendem.

(João Freire)

*o aroma é cheiro a merd@

16/04/2008

Equilibro

"Há dias em que tudo corre bem. Tenho medo desses dias, pois a última vez que pensei que era feliz foi quando uma parte do meu mundo se desmoronou. Sim, comecei a morrer no dia em que afirmei em voz alta que era feliz. Às vezes tudo parece descarrilar, passando de um sabor muito doce que nos aquece por dentro e nos faz sentir bem a outra coisa qualquer… desconfortável e fria, como uma constipação inconveniente. Convém manter um certo nível de insatisfação na nossa vida, contrariar a inveja. Afinal, não se pode desafiar o destino. Ouço-me a dizer frequentemente estas palavras: “Hoje não foi um dia bom” e tenho interiorizado em mim este pessimismo que me conforta. "

in excertos no telemóvel


Há qualquer coisa de maquiavélico na organização deste mundo. Falo deste porque é este que conheço, mas presumo que todos os outros se encontrarão face ao mesmo problema. Há quem diga que tudo no cosmos tende para o equilíbrio (a própria palavra cosmos deriva do gregos Kosmos que significará harmonia), que há sempre uma força oposta a toda a força que existe e que é da tensão entre essas forças contrárias que emerge o equilíbrio. É, aliás, fácil ver exemplos concretos dessa realidade bipartida e não interessará dissecar esses exemplos na medida em que todos os temos presentes. O que interessa sim, pelo menos para mim, neste momento, é a forma como esse equilíbrio se processa. Existem várias, chamemos-lhes, formas de encarar esta síntese hegeliana da vida, formas essas nas quais as nossas acções e talvez pensamentos passados fazem parte de uma parcela numa conta de somar com o resultado de zero. A religião, desde logo, apresenta-se como uma das responsáveis máximas na contribuição teórica para o equilíbrio na natureza, apontando o céu e o inferno, nas suas mais variadas formas, como metas na morte para o nosso comportamento, mas enrodilhando a vida com castigos e recompensas para os pecados ou virtudes terrenos. É entre estes máximos contrários que vivemos. Mas claro que também podemos falar da política. Tudo na política é aos pares. De facto, desde a luta de classes à direita e esquerda do espectro, tudo na política visa o confronto de contrários como forma de encontrar o socialismo, a igualdade, ou, mais correctamente, a utopia. Mas é nas coisas mundanas, na rotina individual e social que nós encontramos exemplos mais evidentes dessa luta tétrica de contrários. Falo por mim quando digo que a cada episódio positivo da minha vida se segues inevitavelmente um episódio negativo ou, no mínimo, a lembrança de que tal facto não é tão positivo quanto pensava – o que é deprimente – e logo anti-positivista e, logo, negativo. Identifiquei este fenómeno como o efeito “Titanic”, esse mesmo, o barco, pois foi no dia em que foi considerado inafundável que se afundou no meio do atlântico. Mas sendo assim, se a cada acção ou consequência positiva se segue uma negativa, porque é que não acontece ao contrário. E é precisamente aqui que eu quero chegar, ou seja, ao ponto por onde comecei, que é o do carácter maquiavélico desse equilíbrio. Como eu referi, costuma suceder um episódio negativo a um positivo muito mais do que um positivo a um negativo. Talvez seja da perspectiva, admito fortemente que assim seja, mas um dia destes comecei a deitar contas de cabeça e cheguei facilmente à conclusão de que em todo o nosso mundo (mais uma vez, falo só do mundo que conheço) há um défice enorme na tal conta de somar do universo que eu referi, um crédito que assenta na parte negativa da natureza, na infelicidade humana. È certo que as contas que fiz podem estar erradas, é certo também que as correntes de pensamento de que falei e outras que omiti fazem a apologia daquilo que se pode referir em sentido mais abrangente de Karma, como uma recompensa por serviços prestados. E eu admito que poderá haver uma recompensa numa vida seguinte, que poderá haver uma recompensa numa vida na morte e poderá inclusivamente haver uma recompensa nesta mesma vida, mas, para mim, aquilo a que chamam equilíbrio não será mais do que a natureza a medir forças connosco, a provar que é mais forte do que nós e não me parece que esteja enganada. Esse é o fim que ela pretende. Mas e daí, como não sou muito de branco ou preto, aposto num conceito que fica entre o pessimismo e o optimismo, refastelando-me no cinismo do meu cepticismo enquanto espero, como já espero há anos, que aprenda mais, que conheça mais e que finalmente se faça luz sobre o que é afinal esse equilíbrio para mim.

(João Freire)

27/01/2008

Sábado, em Guimarães, numa noite de futebol

Os grupos de adeptos caminham pelas ruas separados, preparando-se. Está frio e há um burburinho adivinhador que cresce em cada esquina e rua da cidade. Mais à frente, mais próximos, há mais gente e menos espaço. As pessoas juntam-se, empurram... preparam-se. O medo da multidão dá lugar à sua força, à união. Já não há indíviduos nem pessoas, apenas uma massa indistinta de gente que se movimenta como uma onda.
Os de trás apertam os da frente, alguns gritam, outros devolvem o empurrão e a ânsia cresce. Na cabeça de todos um destino, o campo dos sonhos onde tudo se passa.
Da confusão nasce a ordem. Filas e mais filas ordenadas perfeitamente, de novo com indivíduos à espera da sua vez. E é lá dentro, quando caminhamos finalmente pelas entranhas do monstro, que o barulho, um trovejar dos céus que ecoa pelos corredores e escadas, se torna insuportável, provocando o fluxo de adrenalina. Tudo é antecipação e preparação.
Lá dentro, finalmente, o espaço amplo, o barulho, o verde, as bancadas inclinadas a afastarem-se, a esconderem o que ali se passa do exterior, e uma sensação de liberdade.
Ao sentarmo-nos na bancada tornamo-nos outra vez num corpo único.
Amor, ódio, identidade, partilha, egoísmo, guerra, todos os sentimentos se juntam em cada um dos que estão no estádio.
Começam as rezas, os cânticos, o prelúdio da batalha. Nós contra eles.
Tudo é antecipação, preparação, tudo é amor, ódio... a vida num momento. Mas nada disto é bonito.
O que se passa no campo é sagrado. Lá, tudo é permitido e é lá que tudo rebenta. É futebol.

(João Freire)

Uma reportagem "cómica" sobre uma chamada para o INEM ou quando a Democracia não funciona



A inexistência de meios e a falta de preparação dos bombeiros voluntários de Favaios e de Alijó provocaram um atraso no salvamento de António Moreira, falecido na madrugada dos acontecimentos, na sequência de uma queda nas escadas de sua casa, em Castedo, Alijó.


No momento dos telefonemas do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) para as duas corporações, de forma a encaminhá-las para o local do acidente, só se encontrava disponível um operacional em cada quartel de bombeiros. Através da conversa mantida entre o CODU e as duas corporações, é possível constatar-se a falta de preparação dos dois bombeiros contactados.

Na primeira tentativa de obter salvamento para António Moreira, a operadora do CODU chega a afirmar, incrédula "Valha-me Deus, estou lixada", referindo-se ao bombeiro que a atendeu em Favaios. Questionado sobre o episódio, o segundo comandante Luís Narciso considera ter existido "um mal-entendido", explicando que se ausentou temporariamente do quartel: "Fui a casa, que fica perto, ver o meu filho, que estava doente, e disse ao colega para me ligar se houvesse alguma comunicação. Ele recebeu a chamada, ficou muito atrapalhado e não me ligou." Ainda assim, alega que "não houve negação, nem falta de meios ou pessoal para socorrer."

Ao perceber que seria mais fácil recorrer aos Bombeiros de Alijó, a operadora fez a ligação, mas apercebeu-se de que também nesta corporação se encontrava uma só pessoa. "Tem de tocar a sirene?! Ó valha-me Deus", comenta, após perguntar ao bombeiro o que faria se deflagrasse um incêndio a meio da noite.

Segundo relatos de vizinhos e familiares da vítima, os bombeiros de Alijó terão chegado 30 minutos após o acidente. No entanto, por falta de conhecimento e de meios não puderam socorrer António Moreira. "Quando recebemos a chamada, pensávamos que era para ajudar Favaios com homens. Na altura não tínhamos. Além disso, a zona é deles", disse o comandante António Fontinha. "Depois do INEM nos explicar, fomos socorrer a vítima. Não podia ser o telefonista a fazê-lo. Não compreendo também porque o CODU esteve oito minutos em conversa com os Bombeiros de Favaios", acrescentou.