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21/03/2009

Happyness - by the green monster of the river

- What do you want to know - he asked her promptly.
- How to be happy - she repplied.
The green beast turned away, leaving his pointy, spiny back to her, as he gazed upon the horizon, with the river to one side of them, and the sun, grabbing the mountains with his strong fingers, in the other.
- Well, that's easy - he went on, opening his arms in a cross - keep it simple!
The girl laughed, as if she was expecting more.
- That's it - she said, in a cinic, almost obnoxious, way -, that's what you've got to say?
- Life should be sipped as a juice in a foreign and exotic country: if you like it, even if it's strange or weird or made with a sexual part of an animal, you drink the rest, if you don't, you continue and try other things, drink other juices... other sexual parts of animals mixed with fruits. You should never ask too much, go too deep, demand too much of others... and you should be kind to your knees, as the song says.
- What song?
- See - said the beast, irritaded - there you go with the questions. I´m thinking hapiness... not songs!
Surely stunned with the enfuriating tone in the monster's voice, the girl raised her eyebrows in content, as if she realized in the bluntness of his voice the truth. She was starting to see a fantastic value for the money she spent. Never before had a green monster such as that been more praised by her due to the words coming out of his mouth.
- Are you happy with the answer or do you want to know anything more?
She understood the words of the beast, everything made perfect sense, but she still had doubts about the practicability of what she heard. In her mind, she wondered on how that would reflect on love, on work... on everything.
- Well - insisted the monster, waiting for her reaction.
- But if...
The doubts in her head came out reticently in words, and she din't finished what she was saying, instead, she turned and said: "Ok. Bye!"
(The simplicity in wich she said those words, made the green monster smile)
And then she ran away.
She had learned her lesson.

In "histórias de felicidade dos monstros verdes", por João Freire

19/02/2009

Um olhar

Ando há tempos para falar de um olhar, um olhar com o qual convivo e que vejo muitas vezes pela rua, tantas que é como se fosse praticamente meu amigo, daqueles amigos que têm a liberdade para nos palmar as costas quando nos vêem numa festa.
Normalmente é assim:
Ele ao lado dela, os dois no lado de uma mesa de café, acompanhados de amigos e ele a sorrir, infantilmente, olhando de seguida para ela à procura da partilha alegre de um momento. Depois nada. O olhar dele esbarra abruptamente num sólido muro que um novo olhar erigiu rapidamente. O tal olhar. O dela.
(Normalmente é assim)
Um olhar suspirado, de impaciência e enjoo, que suspende momentaneamente todo o amor que pode unir dois seres. É um olhar perverso que contém tudo o que de tóxico há numa pessoa.

(João Freire)

23/01/2009

Uma forma de auto-elogio enviesada

O meu doce lado amargo
Os homens, ao tornarem-se no que as mulheres sempre quiseram - e todos fomos atropelados pelo que elas queriam - acabaram por sabotar-se a eles mesmos. As mulheres querem o prazer de manufacturar os seus homens, construí-los à sua medida, corrigi-los e melhorá-los e não uma obra acabada que apenas lhes mostra os seus próprios defeitos; ou, então, que eles sejam tudo o que elas querem quando elas querem. Ou a auto-destruição ou a perfeição. A coerência é aborrecida.

(João Freire, 2006)

20/01/2009

Uma história de amor incrível

Ela, Linda Riss, era bonita e inteligente, ele, Burton Pugash, era advogado, conhecia muita gente famosa e até tinha um avião. Apaixonaram-se e viveram momentos fantásticos. Depois Linda descobriu que Burt – era assim que ela o tratava –, para além de tudo o resto, era também casado com Francine Rifkin. Ele pediu-lhe desculpa, disse até que ia divorciar-se e tempos depois mostrou-lhe o papel que comprovava o fim do casamento. Ela aceitou-o de volta, não deixando no entanto de desconfiar, o que a fez retirar o número do documento a fim de confirmar o tal desfecho matrimonial. Em boa hora tomou essa decisão, descobrindo que o documento havia sido falsificado. As mentiras acumulavam-se. Mais ou menos por essa altura, Linda recebe um telefonema de Francine que lhe diz que sabe de tudo o que o marido faz mas que não se importa e que nunca lhe há-de dar o divórcio. Linda não aguenta mais e afasta-se para a Florida, onde começa uma relação com um elegante jovem, Larry Schwartz, que a faz esquecer do seu passado turbulento. Mas Burt não descansa, continuando a mandar mensagens para Linda de teor diverso, ora narrando o seu amor incondicional ou ameaçando-a de morte. Burt era assim, diriam alguns, afinal, tinha sido ele a levar Lisa a um médico para comprovar se ela ainda seria, como lhe afirmava, virgem. Era. E foi este homem insano que Lisa e Larry encontraram à sua espera no alpendre de casa dos pais de Lisa. Diz o próprio Burt que nesse dia tinha uma pistola no bolso e que tinha ido ter com eles para os matar. Valeu-lhes, nesse caso, a sua fraqueza. No entanto, algum tempo depois, uma semana antes, mais ou menos, antes do casamento de Linda e Larry, batem à porta anunciando uma encomenda para a Lisa. Ela atende, sob o olhar de sua mãe que está atrás dela, abrindo a porta antes de esticar o cabelo num nó francês.
“If I can't have you, no one else will have you, and when I get through with you, no one else will want you."
Foram estas as palavras, não do tal homem fraco, mas de alguém que ele contratou para fazer o serviço: atirar soda cáustica na cara de Lisa.
A vista de Lisa ficou danificada irremediavelmente, a sua cara desfigurada e Burt acabou por ser preso.
Lisa afirmou que ele devia morrer pelo que fez.
O casamento ainda se manteve, mas Larry, sem capacidade para lidar financeira, emocional e fisicamente com o sucedido, desistiu, deixando-a.
Lisa tentou lidar com a dor, forçando-se a viver, continuando a trabalhar e a recuperar milagrosamente. A sua figura manteve-se impecável, não obstante os olhos deformados e erradamente coloridos, daí os óculos escuros que ainda usa ininterruptamente. Viajou pela Europa, conheceu pessoas, tudo o que uma pessoa pode desejar. Eram, apesar de tudo, tempos bons. Houve até uma vez que se aproximou de alguém, mas esse alguém não resistiu a vê-la com os óculos claros, que mostravam os seus olhos (dizia uma amiga que era o teste que ela tinha de fazer). Começou aí o declínio emocional de Lisa.
Sem conseguir encontrar o amor, vê-se de seguida sem emprego e uma mulher que suportara tanto na sua vida parecia agora começar a afundar-se nela.
Burt, por seu lado, na prisão, continuava a mandar cartas para Lisa, chegando ao ponto de cortar os pulsos, afirmando em voz alta, como um louco que a amava, no intuito que essa notícia chegasse até ela. Um dia até teve uma resposta de Lisa, que em jeito de provocação lhe respondeu que se gostava tanto dela que lhe mandasse dinheiro. Ele mandou, aliás, mais do que uma vez, e esse gesto garantiu-lhe, após 14 anos de cárcere, um parecer favorável de liberdade condicional. Saído da prisão, tornou-se uma vedeta, cedendo entrevista após entrevista, na televisão ou na rádio, aproveitando sempre que pode para pedir Lisa em casamento, ao mesmo tempo que os seus amigos falam com Lisa, convencendo-a a encontrar-se com Burt. Eventualmente, ela cede.
Lisa ainda era virgem. Pouco tempo depois estavam casados.
Podia ser aqui o fim, mas a história não acaba assim. Pouco tempo após o casamento com Burt, Lisa perdeu totalmente a visão numa operação ao coração e Burt, o eterno mulherengo, voltou a enganar a sua mulher (desta vez, a própria Lisa), com Evangeline, era esse o seu nome, que mais tarde acusaria Burt de a ameaçar e de ter contratado alguém para a matar! Lisa, no entanto, e contra todas as probabilidades, manteve-se ao lado do seu marido, surgindo em tribunal com uma mala que continha cinquenta mil dólares para o pagamento da fiança. E viveram felizes… e viveram!
Diz ela que o maior castigo que ele pode receber é ser obrigado a viver com ela. Ele diz que há mais ou menos dez anos que não faz nada de mal. Ele tem 82 anos e parece um avô simpático. Ela tem 72 anos e parece uma professora dos tempos antigos, com uns óculos pitorescos e um cigarro longo e fino.
De que falamos quando falamos de amor?

(João Freire)

Beth Orton - I Wiah I Never Saw The Sunshine


P.S. - Post baseado no documentário Crazy Love, cuja banda sonora contém o tema em cima reproduzido.


Para o tema de Março de 2011, subordinado ao tema da Violência, num desafio da "Fábrica de Letras".

21/12/2008

Será por amor

Foi em Guimarães.
Estava sentado com dois amigos numa mesa de um café e apenas duas pessoas partilhavam o mesmo espaço. Uma dessas pessoas estava atrás do balcão, o que a torna dispensável para a história - habituados a tudo, não ligam a nada, espera-se até que assim seja -, a outra era uma rapariga, provavelmente da mesma idade que nós.
Uma garrafa de água das pedras, um café e um cigarro. Nada mais. Tão normal que pouca atenção lhe dispensámos. Foi apenas quando as lágrimas começaram a verter que algo em nós mudou. Aquela rapariga deixara de ser uma rapariga normal para passar a ser uma rapariga com história. Sorrateiramente, olhámos para ela com atenção, um à vez para que não se notasse muito. Nenhum de nós entendia como uma rapariga tão bonita podia estar a chorar.
É o amor!
Pensamos (penso) sempre que quando alguém chora o faz por amor.
Problemas familiares resolvem-se em casa, com o resto da família (principalmente quando alguém morre), e doenças é com os amigos, do género "tenho cancro, vamos curtir ao máximo a vida". Toda a gente sabe disto.
Apenas o amor chama a solidão e isso acontece porque ninguém consegue perceber aquilo que sentimos - é isso que também pensamos sempre.
Pensamos muito, nós.
Seria, então, amor.
E uma necessidade cresceu dentro de mim, que me fazia pedir-lhe para se juntar a nós, no mínimo perguntar-lhe se estava tudo bem ou se precisava de alguma coisa. Foi essa vontade que partilhei com os outros dois, foi isso que eles, prontamente, me aconselharam a fazer, mas não foi isso que eu fiz. Porquê?
Porque tive medo.
Do quê?
Não sei. E já na altura não sabia.
Mas é um medo que nos acompanha a todos e com o qual não conseguimos lidar, porque apesar de todos procurarmos companhia, achamos sempre que os outros não vão querer a nossa. Não há razão, já o escrevera whitman*.
Sei que eu estava feliz. Já passou um ano e sei que estava feliz. E sei-o porque ela chorava. É sempre mais fácil vivermos a nossa felicidade perante a infelicidade dos outros.

* To you, de walt Whitman, lido aqui

(João Freire)

27/11/2008

Excerto de um livro que era para ser


O meu doce lado amargo
A sua moral é, para além de conveniente, conivente. A minha, para além de tudo isso, também é inconveniente… com ela. Quem ganha? Ninguém. Quem perde? Os dois e nada do que possamos dizer consegue ultrapassar a inevitabilidade da nossa incompatibilidade. Há coisas assim. Amizade, amor, negação, raiva, indiferença, maldade, parvoíce, felicidade, tristeza… Tudo. Nunca admitiremos o mal que fizemos um ao outro. Culpo-a por não compreender que uma luta só é justa entre iguais. Culpo-me por nunca ter conseguido chegar até ela. Fica a culpa, penosamente.

(João Freire, 2007)

Reaproveitado para o desafio de Dezembro da Fábrica de Letras, subordinado ao tema "Indiferença".

12/11/2008

Lutar ou não lutar?

"Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor."

Dizem que é do William Shakespeare

29/10/2008

Amor totó

É um amor irracional, um amor cheio de “mas” e “ses”, um amor unilateral e ascendente, é um amor de seguidor e crente religioso, um amor de fã, um amor sicofanta e incontestável, é um amor de língua de fora e rabo a abanar, é um amor de corno que aceita tudo, um amor que subsiste para além da morte cerebral, é um amor ligado às máquinas, é um amor burro, inocente e ingénuo, um amor de cantorias, assobios e piruetas, um amor chato, palerma, tonto… um amor ‘parvinho alegre’! É um amor de palmadas no rabo e orelhas e lábios trincados, um amor de sussurros, de diminutivos, de flores colhidas no campo e beijos atirados ao ar, um amor descomprometido e desinteressado que não diz muito sobre aquele que ama, mas muito mais sobre aquele que é amado. É um amor de totó.

(João Freire)

23/10/2008

Saliva no umbigo

Foi ela que telefonou. Quero que fique bem claro este ponto. Não fui eu que a convidei para jantar, nem fui eu que falei na serra da estrela, de um restaurante e uma cabana, e na costa vicentina. Confesso que pensei em ligar-lhe, dizer-lhe qualquer coisa, mas à primeira vista ela parecia inatingível. No entanto ela ligou (continuam a acontecer-me coisas inacreditáveis no que concerne ao amor. Penso que já tive esta sensação três ou quatro vezes. Não é mau!) e com um telefonema veio um jantar, ou melhor, aquilo que seria um jantar. Na realidade estivemos nas ruínas de um castelo a conhecermo-nos melhor. Ela pediu para me beijar, fizemo-lo e depois continuámos nisso até casa dela. Com o primeiro beijo as primeiras dúvidas, desde logo minhas porque é costume duvidar daquilo que não conheço, e as dela, porque sentia as minhas. Não consigo evitar apaixonar-me pelo que já conheço e não pelo que quero conhecer. Há quem pense que é bom ou mau. Para mim tanto me faz. Pouco tempo depois veio a minha viagem, uma ausência anunciada que começou connosco no carro numa dificuldade enorme para nos despedirmos e largarmos. Ela disse que ia sentir muitas saudades e não mentiu. Sentiu. Por lá recebi a notícia que ela estava com dor de dentes e maus pensamentos - concerteza relacionados - mas que sentia muito a minha falta e que estava aborrecida por eu não lhe responder com a assiduidade pretendida. Teriam passado dois dias. No regresso o fim. Do lado dela as dúvidas que se tornaram um argumento irreversível, do meu as mensagens que ela não recebeu, várias, suficientes para atenuarem a dúvida crescente, mas que nunca foram recebidas sabe-se lá pela graça de que força; as recordações da viagem em forma de um caderno de esboços, um postal e um anel que não foram entregues e as promessas de uma certeza descoberta pela ausência. Apenas ficou o afastamento simples e inócuo, como eu. Só quando perco o que tenho é que lhe sinto a falta.


(João Freire)


Air - All i need



Recordado para o tema "Paixão" num desafio da "Fábrica de Letras"

15/10/2008

Queria pedir-te para me tirares uma fotografia enquanto olho para ti, pois de certeza que conseguiria retratar o amor

Já não sei o que sinto.
O amor resvala frequentemente na direcção do ódio, aproximando-se perigosamente da indiferença. A compreensão, o compromisso e aceitação e até o afecto entre duas pessoas ficam pelo caminho e nada volta a ser como era. Fica sempre a mágoa e pior do que isso, fica sempre um sentimento latente de reconquista que nenhum quer concretizar mas para o qual ambos contribuem. Há sempre um lado que se sente bem com a imagem de si no outro e que luta por manter essa luz por perto para o animar e aquecer e depois há o outro lado que tem sempre algo a provar, que sente que falhou e que procura manter a face. Ficam as dúvidas que se instalam umas em cima das outras, duvida-se do que se sente e até daquilo que se sentiu quando se falava em amor. Como acontece esta transformação?

O amor é uma inequação, uma desigualdade que só é verdadeira com certos valores das variáveis, mas que ninguém conhece. O amor conterá paixão, amizade, individualidade, compreensão, confiança, luta, vontade, sexualidade e tudo o resto que alguém possa lembrar, mas nunca constituirá uma fórmula fixa com um desenvolvimento objectivo e linear. Eu sempre pensei que nunca me apaixonaria, que sempre iria conhecer primeiro a pessoa e depois enamorar-me por esse conhecimento, mas também já saltei de cabeça para o desconhecido e ninguém poderá dizer-me que uma forma será mais correcta do que a outra. À sua maneira, ambas tiveram sucesso e ambas fracassaram. O amor pode começar de uma forma e acabar logo de seguida ou começar da mesma forma e funcionar pela eternidade. Isto é verdade para o princípio do amor como para o fim. Importa o que fica, o que aprendemos e um recém-descoberto amor por nós próprios, mas perde-se um pouco da magia. De facto, quanto mais falo com pessoas de idade avançada, mais me convenço de que o amor enfabulado, aquele de que são feitas as histórias de princesas e príncipes, se transforma em vários amores pequeninos que se distribuem pelos filhos, pelos netos, pela vida e, claro que também, pelo conjuge, e vai desvanecendo até ficar uma memória daquilo que se fazia quando se amava e não do que se sentia. É um amor, mas um amor diferente. Ninguém duvidará que o amor na velhice não assenta na paixão e na sexualidade como acontece aos 17 anos. Claro que todos queremos a magia e o querer, essa vontade partilhada terá até muito a ver com o sucesso da manutenção de um amor pela vida, mas a desmistificação do amor também fará bem às pessoas, obrigando-as a reflectir nas suas escolhas e a tomar um papel activo na construção do amor. Numa vida de facilidades, alguma luta e trabalho fazem bem. E melhor do que acreditar na magia é tornar todos os momentos mágicos. Acreditar que as coisas podem acontecer sem fazermos por isso é simplista, denegrindo a própria ideia de amor.

O amor é um sentimento superlativo de afecto relacional. Tudo isto e só isto.


(João Freire)

Cat power - Love and communication


Recordado para o tema "Paixão" num desafio da "Fábrica de Letras"

12/10/2008

Finalmente descobri a definição de amor

"O amor é um sentimento superlativo de afecto relacional"

(João Freire)

Caminhos a percorrer

O amor que ele lhe tinha ficou para trás em troca da esperança de se encontrar, pois sabia que as dúvidas que lhe impunha a ele nunca deixaram de ser as suas. No entanto, quase sem querer, sentia-lhe a falta de manhã, da respiração quente antes de acordar, e de noite, antes de adormecer, dos beijos no ombro que agora não a tocavam e das palavras, palavras que só ele lhe dizia depois de a chamar por aquele nome que só ele conhecia, que ela não ouvira mais. O silêncio instalara-se naquela casa que lhe era estranha e com ele o vazio e um desinteresse generalizado. Olhava frequentemente para a porta, procurando a emoção de algo novo ou imaginando que ele entrava com o seu sorriso inocente de quem ama sem pedir nada em troca. Mas nada de novo aparecia para lhe dar um pouco de emoção e ele também não entrava, de facto, até se afastava mais, afastava-se a milhares de quilómetros e ela apenas podia suspirar, tentando não perguntar em voz alta o que é que estava a fazer ali. Tinha saudades de tudo e era frequente encontrar-se a um canto a chorar pela família e pelos amigos, aquelas entidades estranhas que nos lembram do melhor que há em nós. Tantos nomes para tantas pessoas e a recordação de alguém em todos os momentos, desde um objecto que servira de prenda de anos a uma qualquer situação que vivia, e uma tristeza avassaladora. Mas há coisas a fazer - é isso que ela pensa -, tortuosos caminhos a percorrer na busca de um sentido e a resolução de um espírito aventureiro, um espírito maior sem medo de ser feliz, que transforma as lágrimas que escorrem pelo rosto num alimento saboroso à sua vontade de continuar.

(João Freire)

The Sundays - Wild Horses (cover)



Recordado para o tema "Estava vazio.." num desafio da "Fábrica de Letras"

07/10/2008

Se é para fazer, é hoje!

"Só existem dois dias no ano em que nada pode ser feito: um chama-se ontem e o outro amanhã.
Portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver."

(Dalai Lama)


03/10/2008

Azul & Rosa

.

.

Gostava de ser mais forte. E conseguir dizer-lhe “gosto de ti”.
Gostava de ter mais tempo. E espaço no meu mundo, para o dela.
Gostava de poder abraçá-la hoje. E amanhã também.
Gostava que gostasse mais de mim. E que viesse ter comigo, agora.




Gostava de ser mais forte. E conseguir dizer-lhe tudo o que sinto.
Gostava que ele tivesse mais tempo. E espaço no seu mundo, para o meu.
Gostava que soubesse que o quero abraçar agora. E sempre.
Gostava de gostar menos dele. E esquecê-lo de vez.


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19/09/2008

De ligações



Sinto-me um enorme magnete.
Atraio toda a gente.
Bons e maus.
Todos.
(Apaixono-me com essa mesma facilidade)
No final do dia, sento-me a escolher quem interessa.
Às vezes, cansada de tanta atracção, deixo que cada um caia por si com o passar do tempo.
Na verdade é mais fácil assim. Mas eu sempre detestei o incontrolável.

14/09/2008

Parabéns (14 de Setembro de 2008)

Há um brilho que falta no quadro que fizeram de ti. Ninguém sabe que brilho é, mas toda a gente nota a sua falta. Todos aqueles que te conhecem sabem de que brilho falo. Às vezes esse brilho passa despercebido, escondendo-se ou revelando-se a medo, como um gatinho que apenas mostra a cauda, mas basta esperar um pouco e ultrapassar a concha dura, que a sensibilidade e a ausência construíram, para descobrirem esse mesmo brilho no teu olhar e sorriso. Todos os que te conhecem bem gostam de ti. E muito! Sou testemunha disso. Todos reconhecem em ti as virtudes de uma alma generosa. És um anjo e uma rosa para muita gente. Mas cuidado! Estás ainda a crescer, faltam-te percorrer muitos caminhos e, mais do que nunca, tens de estar atenta a tudo. O mundo é um sítio complicado para quem brilha assim e até o sol se deixa tapar pelas nuvens de vez em quando. O Caminho faz-se andando… com o apoio de uns, contra as invejas de outros. O segredo? Nunca deixes de brilhar.

(João Freire)

19/08/2008

Desabafo

"Já ninguém ama."

(L.F.)

10/08/2008

O homem que chorava ao barbear-se

Barbeava-se todos os dias. Era um ritual que decidira manter. Sabia que não precisava de o fazer, que nada era mais improvável do que aquilo que esperava, mas fazia-o na esperança de que o seu amor fosse suficiente para os dois e que esse mesmo amor fosse capaz de a trazer de volta. E assim esperava, ansiando pelo dia em que acordaria e ela estaria de novo ao seu lado na cama ou no quarto de banho a preparar-se ou ainda ao abrir a porta de entrada e ela ali, com um sorriso, pronta a beijá-lo… talvez no supermercado, perto dos produtos de mercearia, onde se encontravam sempre. Não era no corredor dos produtos de beleza, não era perto das revistas, nem tão pouco a encontrava junto dos doces, mas sim com as frutas e os vegetais.
- Talvez ali ao pé das mangas.
E nada.
Procurava então o seu pequeno carro sempre que atravessava a estrada, esperando que ela, por trás dos óculos escuros, lhe sorrisse e o convidasse a entrar mais uma vez.
E nada.
Procurava por ela em todo o lado, mas em nenhum lado a via. Seria impossível vê-la, mas não seria uma inevitabilidade como essa a diminuir-lhe o ânimo.
O dia em que tudo acabara, envolto num espesso nevoeiro de mágoa, imprimira-lhe no corpo marcas de uma dureza férrea. "Aquele homem não tem futuro", diziam os vizinhos ao vê-lo agir como se nada fosse (porque não há nada mais estranho do que a normalidade inesperada). Seguramente alguém previra que ele se mataria, afinal, “ele amava-a tanto”.
Dela desconfiavam, isso sempre acontecera, mesmo quando ela estava a falar com eles da forma mais simpática e franca possível. Desconfiavam da sua beleza e não havia ninguém mais belo do que ela.
As mulheres invejavam-na, os homens cobiçavam-na e ele não conseguia abster-se de se chatear com todos, como se quisesse tê-la só para si. Fora assim naquela manhã em que ela saiu. Discutira com ela por dar conversa a um estranho, como se o facto de ela responder a alguém significasse a maior das traições. Voltaram a casa em silêncio e ela, ente lágrimas, apenas conseguiu dizer que precisava de algum espaço.
- Vais ter com ele - gritou ele amargamente antes que ela fechasse a porta.
Nunca mais voltaria.
Disseram-lhe que o carro que a matou ia tão rápido quando lhe bateu que teve morta imediata. Disseram-no como se fosse uma coisa boa.
Agora, passados três anos, admitindo a sua obsessividade, sorrindo e brincando com ela como se de um cubo de Rubic se tratasse, arrependia-se de ter feito e dito algumas daquelas coisas, mas o arrependimento é uma palavra que vale pouco no amor e na morte.

(João Freire)

Texto Reeditado para o tema "Beleza" num desafio da "Fábrica de Letras".

21/07/2008

Negação

The infrastructure will collapse
Voltage spikes
Throw your keys in the bowl
Kiss your husband goodnight

Radiohead, "House of cards"

28/05/2008

Plangente ma non troppo


Hoje apetecia-me estar contigo. E digo contigo porque és apenas recorrente.
Por isso pensei em enviar-te uma mensagem.
Uma daquelas que de quase urgente, merece uma parte cómica, para não parecer tão inevitável.
Uma do género de "tira-me deste vício inócuo e vem aqui fazer-me cócegas", mas não tive coragem...
E amanhã serias-me desnecessário outra vez e eu sei que ambos sabemos que isso não é o melhor para nós. Enfim... apeteciam-me morangos com chantily quando ainda tenho cerejas no frigorífico.