Mostrar mensagens com a etiqueta amizade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta amizade. Mostrar todas as mensagens

08/11/2007

Os Hoyts - Um silêncio transformado em grito

Jornalista: "Você fez um tempo óptimo, poderia até ter ficado em primeiro lugar se não tivesse de carregar esse 'peso extra'".


Mr. Hoyt: "Se não fosse pelo "peso extra", eu não teria participado"




Durante o parto, Rick sofreu danos físicos sérios resultantes do estrangulamento com o cordão umbilical. Como consequência dessas complicações, Rick perdeu a capacidade física de controlar o seu corpo e ficou confinado a uma cadeira de rodas impossibilitado de mover-se e de falar. Os médicos informaram Dick que não havia muita esperança para o seu filho. afortunadamente, as capacidades mentais de Rick não foram afectadas com os problemas do parto.


Enquanto crescia, Rick desenvolveu uma forma de comunicar com o mundo, batendo a cabeça contra um sensor de forma a identificar palavras, num processo árduo e moroso, que teve a ajuda de uma universidade local. a primeira coisa que escrevu: "go Bruins", nome da equipa local. Depois, enquanto progredia na juventude, entrando na idade adulta, as coisas começaram a mudar. O seu pai, Dick, reparou que Rick começou a exprimir um elevado grau de emoção quando o envolvia nalguma actividade física. Fosse quando batia um taco de óquei na sua cadeira de rodas, quando percorria o bairro empurrando a sua cadeira numa tentativa de imitar os seus ídolos desportivos ou quando o carregava em braços por caminhadas na natureza, as emoções de Rick mudavam visivelmente.


Foi então que um dia um amigo de família, que por acaso era corredor da maratona, convenceu Dick Hoyt a empurrar o seu filho numa cadeira de rodas na distância de uma maratona local. No intervalo de cinco curtos anos, Dick e Rick Hoyt passaram de correr em maratonas locais a competir nas mais difícil provas de triatlo do mundo. Dick e Rick completaram cada etapa do triatlo (natação, bicicleta, corrida) graças a invenções de Dick que lhes permitiam competir juntos. Dick Hoyt tinha cinquentas e muitos nesta altura. Correndo com o pai a puxar pelo filho, conseguiram acabar apenas trinta minutos atrás do vencedor!


Aproveitado para o tema "Silêncio" da "Fábrica de Letras"

10/10/2007

Tanto amor desperdiçado

O Rei de Navarra acompanhado por três jovens príncipes faz o juramento de se dedicar exclusivamente ao estudo durante três anos: pouco sono, pouca comida e nenhum contacto com o sexo feminino é o contrato que os une. A Princesa de França, acompanhada por jovens damas da sua Corte, vem negociar em nome do seu pai, Rei de França, o domínio da Aquitânia, perturbando para sempre este cenário. Os quatro homens apaixonam-se secretamente pelas quatro mulheres mas são obrigados a esconder os seus sentimentos uns dos outros – para não falhar ao juramento combinado. Depois de um encontro onde homens e mulheres se disfarçam, desenham-se os vários pares amorosos mas, no meio da festa, anuncia-se a morte do Rei de França. A Princesa terá de regressar ao seu país e as damas impõem aos seus apaixonados um ano de afastamento, como nova prova de amor. Terá sido desperdiçado todo aquele amor?


Uma das menos conhecidas peças de Shakespeare, na abertura da temporada do Teatro Nacional D. Maria II e até 28 de Outubro. Com encenação de Emmanuel Demarcy-Mota (Prémio Revelação Teatral da crítica francesa), com Aurélie Meriel, Dalila Carmo, Elmano Sancho, Heitor Lourenço, Nuno Gil, Sarah Karbasnikoff, entre outros.Em Novembro, esta co-produção Luso-Francesa (Dona Maria II com La Comédie de Reims), subirá aos palcos de Reims. Um espectáculo falado em duas línguas (Português e Francês), imperdível pelo virtuosismo dos jogos de linguagem, pelo uso não convencional do espaço.

Para quem quiser ler a peça, se bem que em inglês, fica aqui o link:

06/05/2007

A árvore azul dos relógios.

Lembro-me da conversa que tivemos naquele dia. Os dois sentados no galho mais fino do ramo mais alto de uma árvore azul. Ao fundo, deitado sobre a relva cor-de-rosa, um cavalo alado lambia uma das patas. O céu estava verde claro, pois era final de tarde e o sol vermelho com as riscas brancas já mal se via. Como era suposto, num dos meses do meio do ano, estava frio.
- Eu quero a paixão. Sentir as pernas tremer quando vejo quem eu amo.
(- A mim basta-me o conforto, sentado a ver televisão na tua companhia… de vez em quando um beijo ou um passeio e essa tremedeira não existe para sempre)
- Não penses que não gosto…. Gosto muito, mas isto que sinto…
(-Neste caso o que não sentes)
- Foge à explicação.
- Eu compreendo.
(Sempre compreendi, excepto quando não compreendia.)
- Posso estar enganada… Espero! Espero estar enganada, mas nesta fase apenas quero o que quero.
- Eu compreendo.
- Ó meu Deus como eu quero estar enganada.
- Estarás, certamente. Não te preocupes, não chores.
- É uma questão de olhar, percebes? É aquele olhar… Olha! Esse mesmo que tu tens. É preciso esse olhar para as coisas funcionarem e eu não o vejo em nós.
- Bem, jeitosa, (agarrei o seu queixo e sorri) tu sabes o que eu sinto…
- Preciso sentir a tua ausência para descobrir a saudade. Conhecer outras pessoas para me descobrir, ver do que é feito o mundo e o amor. Quero aprender. Não quero que esperes, mas espera, não quero que me ames, mas ama. É bom sentir-te em mim, saber que não te perdeste por outros caminhos, por outro amor.
- Vou tentar não ser egoísta e esperar por ti sem me apaixonar por mais ninguém enquanto tu procuras. Procura a tua felicidade no mar, que eu espero por ti aqui nesta barcaça, para te salvar… para, por fim te amar. Eu espero.
(Não é brincadeira. As coisas são mesmo assim neste mundo de estradas feitas de chocolate.)
- É só isso que eu peço, querida ‘amiga’, desmasculiniza-te por mim. Sofre enquanto eu sofro e não te descubro. O dia há-de chegar e aí nós partiremos nessa barcaça de que tu falas. Talvez eu olhe para trás, talvez não. Talvez tu percebas nesse momento que não me amas. Talvez. Nesse dia eu morro.
O sol de tiras vermelhas e brancas já não se via e o amarelo da noite prevalecia sobre o vale. Tu desceste, gentilmente, da árvore azul dos relógios, sobre o olhar atento do cavalo alado. Pé ante pé, galho ante galho até ao chão. Eu fiquei mais um tempo, vendo-te partir. Sempre gostei de te ver partir.

João Freire

Amizade

"Amigos são aquelas pessoas raras que nos perguntam como estamos e depois ficam à espera da resposta."

(E. Cunningham)

30/04/2007

Ensaio sobre um lugar-comum: “Nenhum homem é uma ilha isolada”

Olhamos à distância e a nitidez perde-se. Somos o vigia que, com um binóculo, perscruta o infinito. Esforçamos a vista, preocupados com o que vem e esquecemos onde estamos, o chão que pisamos e aqueles que nos acompanham na nossa viagem. Um irmão com quem brincávamos ao fim da tarde e que se perdeu na memória que resta da distância de meio país. Um amigo que se rendeu a uma vida de cinismo por aspirar à grandeza sufocado na mesquinhez de uma aldeia. Uma mulher que não se tem em mais nada do que na estúpida incerteza de um sentimento. No fim somos só nós, sozinhos numa corrida que chegou ao fim, mas que não queremos vencer, no momento em que compreendemos que não há mais nada, que tudo se resume à eventualidade de uma coincidência e que a morte é o vazio, mas até lá ainda há uma grande caminhada, muita terra e lama para pisar, vinho para beber e corpos para amar. No fim somos só nós, mas até lá ainda há uma caminhada.

(João Freire)